Capítulo 21
Querido Vasile,
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Que confusão por aqui. Que confusão. Isto seria muito mais fácil de
expressar se você simplesmente tentasse usar e-mail. Está disponível
em todos os lugares nestes dias. Considere isso, por favor, para a
duração.
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Até então, tenho a difícil tarefa de informar-te via correio de que todo
pacto parece desvanecer-se, interminavelmente e irrevogavelmente,
para o esquecimento.
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Esta noite... Por onde começar? O que dizer?
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Se esse não foi o momento, então não sei o que mais posso fazer. Se
Antanasia não se sentiu como eu me senti naquele estante, se ela teve
a presença mental para me afastar, realmente gritar alto “Não!” pra
mim quando eu admitiria que estava bastante perdido por ela... Eu
sinceramente não sei mais o que fazer.
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Tenho certeza que você poderia deduzir, das linhas acima, o que passou
entre nós, no sentido geral. Eu não irei me desgraçar – ou desonrar
Antanasia – pela elaboração de detalhes. Fazer assim não seria apenas
humilhante, mas descortês. E certamente você entende.
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Eu realmente fui derrotado por um camponês? Um atarracado,
obtuso, parasítico camponês?.
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Talvez pela manhã, a situação pareça menos desagradável. Só se pode
esperar.
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Enquanto isso, eu suponho que você não poderia me dá algumas idéias
sobre o castigo que eu enfrentarei no caso de falha de minha parte? Eu
gostaria de começar me preparando mentalmente. Especialmente se o
castigo for o pior. Eu sempre preferi enfrentar o destino com os ombros
pra trás e a cabeça erguida, como você me ensinou. E pode-se fazer
melhor que isso se tiver a oportunidade para acerar a si mesmo.
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Seu, em dúvida e sem pequena medida de confusão e ansiedade.
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Lucius.
Capítulo 22
"Você vai se sair bem, querida", mamãe prometeu, prendendo meu número com
um alfinete nas costas do meu traje de montaria.
"E vou vomitar", eu disse. "Por que eu me inscrevi pra isso?"
"Porque nós crescemos quando nos desafiamos", minha mãe replicou.
"Se você está dizendo." Em alguns minutos, chegaria minha vez. Eu montaria
Belle na arena da 4-H, e nós pularíamos uma série de obstáculos.
A coisa inteira duraria uns três minutos, no máximo.
Então porque eu estava morrendo de medo?
Porque você pode cair. Belle pode recuar. Você não é atleta; você é matleta...
"Eu só devia ter aumentado um obstáculo, no verão passado", eu disse, gemendo,
me fazendo girar pelos ombros para me olhar nos olhos. "E não é como se você
não tivesse competido na frente das pessoas antes..."
"Mas aquilo foi matemática", eu protestei. "Eu sou boa em matemática."
"Você também é uma boa amazona."
Eu pensei em Faith e Lucius. "Mas não a melhor."
"Então hoje é um momento excelente de testar seus limites. Arrisque um segundo
ou um terceiro lugar."
Eu olhei para o outro lado do campo, onde Lucius estava passeando em seu
cavalo, que ele batizou de 'Hell's Belle'. Belle do inferno Ha-ha.
"Riscos não são sempre tão bons", eu disse, observando Lucius trabalhar para
controlar o animal ainda meio selvagem. Lucius era o único que podia tocá-la.
Ele insistia que ela era mal compreendida, mas eu achava que ela era
simplesmente malvada.
"Isso é um pouco arriscado demais", minha mãe concordou, seguindo meu olhar.
Ela suspirou. "Eu espero que ele fique bem."
Do jeito que ela disse, eu fiquei com a estranha sensação de que ela não estava
falando apenas da competição de saltos.
"Ele também precisa do número", mamãe completou. Ela protegeu os olhos,
acenando para Lucius.
Ele ergueu a mão, percebendo, e trotou até nós, descendo de sua montaria e
amarrando os cabrestos num poste. Hell's Belle jamais seria o cavalo que
esperaria sem amarras.
Lucius fez uma pequena mesura. "Dra. Packwood. Jessica."
Eu dei um pequeno aceno desconfortável. "Hey, Lucius."
Ele se virou e mamãe prendeu o número dele. Para minha surpresa, depois disso
mamãe fez Lucius se virar, exatamente como havia feito comigo - e o abraçou. A
minha surpresa se transformou em choque quando Lucius, de fato, a abraçou de
volta. Quando esses dois viraram amigos? Em algum momento desde o
Halloween, eu imaginei. Lucius e eu nos demos uma grande folga desde aquele
momento estranho naquela noite.
"Boa sorte", minha mãe disse, tirando uma sujeirinha imaginária da jaqueta de
apresentação de Lucius, que era impecável e lhe caia perfeitamente. "E use seu
capacete", ela completou. "Ele é obrigatório."
"Sim, sim, segurança em primeiro lugar", Lucius disse, com a voz cheia de
sarcasmo. "Eu vou encontrá-lo." Ele olhou para mim, com os olhos neutros. "Boa
sorte."
"Você também."
Lucius desamarrou seu cavalo e a guiou para longe. Mamãe o observou, com o
rosto tenso.
"Ele vai ficar bem", eu prometi a ela.
"Eu espero que sim."
"Eu sou a segunda, correto?" Eu perguntei.
"Sim. Depois de Faith."
Ótimo. A coisa mais difícil que podia acontecer. Faith não apenas competia no
show anual da 4-H. Ela fazia shows maiores com sua montaria cara. Meu
estômago se apertou novamente.
"Você vai se dar muito bem", minha mãe prometeu. Ela me abraçou também.
O comunicador soou, e estava na hora.
"Vamos lá."
É claro, Faith completou uma volta impecável com seu raça pura, Moon Dance.
Ela dominou o curso, as pernas esguias e bem formadas do seu cavalo fazendo
com que os dois voassem sobre o obstáculo, mesmo o quinto, que parecia uma
torre, parecendo impossivelmente alto de onde eu estava esperando nas coxias.
Eu precisava muito fazer xixi, xixi de nervosismo, mas não havia tempo. Eu
montei enquanto os cascos de Moon Dance tocavam o chão, com a volta
completa.
"Próxima, Jessica Packwood, da escola Woodrow Wilson High, montando Belle,
um Appaloosa de cinco anos."
Eles tinham dito meu nome.
Eu respirei profundamente, tendo uma visão de Jake, que observava da platéia.
Ele sorriu, me dando um sinal de okay. Eu me forcei a sorrir de volta.
Lucius também estava na arena, observando, se inclinando sobre uma cerca.
Droga. Como se eu precisasse do olhar super crítico dele sobre mim, me
julgando.
Eu olhei por cima do meu ombro, me perguntando o que ia acontecer se meu
cavalo e eu simplesmente déssemos para trás... Mas era tarde demais. Não tinha
como voltar atrás.
Respirando fundo, eu contraí os calcanhares. Os cascos de Belle ecoaram
silenciosamente na poeira grossa da arena praticamente silenciosa. Sentindo o
poder do meu cavalo, seus passos familiares sob mim, eu comecei a me focar. O
primeiro obstáculo se aproximou. Uma cerca. Nós nos preparamos, saltamos, e
passamos direto. Você está apenas saltando com Belle. Exatamente como em
casa. À seguir, passamos pelas grades baixas, e os nervos desapareceram, sendo
substituídos pela exultação. Todas aquelas pessoas nos assistindo, e nós
estávamos conseguindo.
Belle passou pelas duas cercas seguintes, e os obstáculos nem tocaram seus
cascos.
A quinta cerca, a mais alta apareceu, e meu coração bateu forte. Mas Belle se
ergueu, planeou, e nós passamos.
Um circuito perfeito. Sem faltas. No final, completamos uma volta perfeita. Um
sorriso enorme e vitorioso tomou conta do meu rosto. Tome isso, estrela Romena.
Enquanto trotava para a saída, eu acenei para os meus pais, que estavam
torcendo, e para Jake, que estava com os dois dedos enfiados na boca,
assobiando. Procurando Lucius, eu vi que ele estava batendo palmas
freneticamente, com as mãos erguidas, e ele disse "Bom show" com a boca. O
que quer que tenha se quebrado entre nós, se consertou só um pouquinho.
Depois de prender Belle, eu voltei bem à tempo de ver a volta de Lucius.
Ele montava com facilidade, regiamente, em Hell's Belle, como se tivesse
nascido lá. O cavalo preto como a meia noite parecia estranhamente calmo
também.
Apertando os flancos dela, Lucius a fez trotar, chegando perto de um galope.
Aquele ritmo era insano para um circuito tão pequeno, mas Lucius não pareceu
reparar. Havia um pequeno sorriso em seu rosto enquanto ele se aproximava da
primeira cerca. Hell's Belle voou, aterrissando suavemente, e eu me dei conta de
que o cavalo nasceu para saltar. Eles pareciam estar fundidos, cavalo e cavaleiro,
correndo pelo circuito, Hell' Belle dando saltos duas vezes maiores do que era
necessário para passar pelos obstáculos, e os espectadores estavam torcendo
todos ao mesmo tempo. Ficando sem fôlego e torcendo.
Aquilo era irresponsável. Irresponsável demais. Eu olhei para os meus pais nas
arquibancadas. Eles parecia aterrorizados, e de repente, eu estava também.
Enquanto Lucius passava pelo quinto obstáculo, uma mão agarrou meu pulso, me
fazendo dar um pulo.
"Olhe ele indo", Faith Crosse sussurrou para ninguém em particular. Eu tinha
quase certeza que ela não sabia quem estava tocando, de tão atentamente que
estava observando Lucius. Faith bateu com o chicote ausentemente em sua bota
de montaria, no ritmo do galope. Eu puxei meu braço.
"Desculpe", Faith murmurou, sem tirar os olhos de Lucius.
Hell's Belle passou pela última cerca, e o comentarista anunciou um recorde de
tempo do 4-H.
Lucius e o cavalo pararam na frente do portão, e Lucius desceu, friamente
retirando suas luvas de montaria, como se tivesse acabado de dar uma volta no
parque, parecendo nem perceber os aplausos.
Sempre exibido.
"Eu vou dar os parabéns para ele", Faith disse.
Eu vi um olhar peculiar nos olhos da futura rainha do baile.
Faith desapareceu na multidão, indo para a saída, seguindo Lucius para a parte de
trás do circuito. Foi aí que eu pensei no chicote. Hell's Belle não gostaria do
chicote. Lucius até colocou um cartaz de aviso na porta do celeiro - um aviso que
eu via quase todos os dias. "Faith, espere", eu chamei, seguindo ela.
Mas eu fui lenta demais.
Quando eu a alcancei na traseira do celeiro, Faith já havia alcançado Lucius e
Hell's Belle, e estava balançando o chicote, chamando a atenção de Lucius. O
chicote tocou o flanco do cavalo, e Hell's Belle se virou, furiosa, se afastando,
quase arrancando as rédeas da mão de Lucius antes que ele se desse conta do que
estava acontecendo.
Eu ouvi ele mandando que Faith largasse o chicote, mas era tarde demais.
A água foi para trás, chutando o ar, perto demais de Faith. Eu gritei, vendo o que
estava prestes a acontecer, enquanto Lucius empurrava Faith para fora do
caminho, se colocando no caminho dos cascos, caindo embaixo deles.
Houve um barulho doentio e audível de alguma coisa de partindo enquanto a
força de Hell's Belle, acrescentada por uma boa tonelada de tendões e músculos,
colidiu em cima das pernas e costelas de Lucius. Em alguns segundos tudo estava
acabado, antes mesmo que eu pudesse gritar de novo, e Lucius estava caído, seu
corpo alto se contorcendo, quebrado, na grama. Havia sangue em sua camisa
branca, sangue escapando da sua bota de couro de cano alto e manchando sua
calça de montaria cor de palha.
"Lucius!" Eu finalmente encontrei minha voz, chorando, correndo, me jogando
ao lado dele. Eu estava tão assustada por ele que esqueci completamente da besta
perigosa que estava sobre meu ombro, ainda solta.
"Pegue ela", Lucius insistiu com os dentes cerrados, tentando rolar, fazendo um
gesto em direção ao cavalo, que estava agitando os cascos, assustada, mas ainda
cautelosa. "Você consegue. Antes que ela -"
Faith começou a chorar, repentinamente e muito alto, enquanto a ficha caía, mas
ninguém conseguia nos ouvir na traseira do celeiro. Agora todo mundo estava do
lado de dentro, assistindo a competição. Hell's Belle ficou ali, com a cabeça
abaixada, bufando como um sentinela furioso acima de Lucius. Eu podia sentir
seu hálito quente sobre meu próprio pescoço, então eu também me assustei por
mim mesma. Sem movimentos abruptos...
"Ela precisa ser amarrada, Jess", Lucius implorou, gemendo com o esforço pelas
palavras.
Eu concordei com a cabeça, em silêncio, sabendo que ele estava certo. Ficando
de pé muito lentamente, tão lentamente quanto foi possível, eu me virei.
"Calma, garota", eu sussurrei, estendendo as mãos, com as palmas para cima.
O cavalo vacilou, e eu também. Só fique calma, Jess...
Eu cheguei mais perto. Os olhos de Hell's Belle reviraram mais selvagemente,
mas ela não fugiu. Não atacou.
Ela parecia entender que alguma coisa havia dado terrivelmente errado. Com as
mãos trêmulas, eu me inclinei para suas rédeas soltas, pendurados nos cabrestos.
"Calma, garota." Mantendo meus olhos nos do cavalo, eu localizei os arreios com
meus dedos. A respiração dela continuava saindo pesada e rápida, mas ela ainda
não se mexeu. Lucius gemeu. Eu tinha que trabalhar mais rápido. Me movendo
com mais segurança, mas com os dedos trêmulos, eu dei um jeito de prender as
rédeas num poste.
Graças a Deus, ela estava em segurança.
Eu corri de volta para Lucius, que estava apertando as costelas através da camisa
ensangüentada. Ficando de joelhos, eu agarrei sua mão livre. "Está tudo bem", eu
prometi. Mas eu não consegui deixar de olhar para a perna dele. A fratura
aconteceu no meio do calcanhar, e a bota de couro chegou a entortar. "Vá buscar
ajuda", eu disse para Faith, que parecia paralisada, se lamentando sem parar, "Foi
um acidente."
"Vá buscar alguém!" Eu gritei para ela de novo. "Agora!"
Isso a acordou, e Faith se virou para correr.
"Não", Lucius rosnou, mais alto do que eu pensaria ser possível, dado o estado
do seu corpo. Mas alguma coisa no tom dele fez Faith congelar, e ela se virou.
"Chame os pais de Jessica. Mais ninguém."
Faith hesitou, em pânico, confusa, incerta. Ela olhou para mim.
"Chame os paramédicos", eu implorei para Faith. O que Lucius estava fazendo?
Ele precisava de uma ambulância.
"Apenas os pais de Jessica", Lucius disse, começando a falar comigo, no seu
melhor tom de comando. Ele agarrou minha mão, para que eu não pudesse ir.
"Eu... Eu..." Faith começou a dizer alguma coisa.
"Vá", Lucius ordenou.
Faith correu. Eu rezei para que ela fosse atrás dos paramédicos.
"Droga, isso dói." Lucius gemeu, com o rosto se contorcendo enquanto uma onda
de dor passava por ele. Ele apertou minha mão. "Fique aqui, por favor."
"Eu não vou a lugar nenhum", eu disse, desejando que minha voz não tremesse.
Eu estava morrendo de medo, e lutando para não deixar Lucius ver isso. Um
filete de sangue escapou pelos lábios dele, e eu segurei a vontade de
choramingar. Isso não podia ser bom. Isso podia significar hemorragia interna.
Eu limpei o líquido rubro com dedos trêmulos, e uma lágrima caiu na bochecha
dele. Eu não tinha me dado conta que estava chorando.
"Por favor, não faça isso." Lucius resfolegou, encontrando meu olhar. "Não perca
o controle agora. Lembre-se: você é da realeza."
Eu apertei a mão dele. "Não estou chorando. Agüente firme."
Ele se moveu um pouco, gemeu. "Você sabe... isso não pode matar um..."
Deus, ele ia continuar com esse besteirol sobre vampiro agora? Eu não acreditei
nem por um segundo que ele não pudesse morrer. "Fique quieto." E reze pra
Faith ignorar sua ordem.
"Essa parte... Maldição." O peito dele se inflou, e ele tossiu. Mais sangue. Muito
sangue. Sangue demais. Estava vindo dos seus pulmões. Provavelmente uma
perfuração. Eu recebi treinamento de primeiros socorros suficientes na escola
para saber um pouco sobre acidentes. Eu limpei os lábios dele com a minha
manga, mas isso só espalhou mais sangue entre nós dois. "A ajuda está vindo", eu
prometi. Mas será que vai vir um pouco tarde demais?
Num instinto, eu alisei os cabelos escuros de Lucius com minha mão livre. O
rosto dele relaxou só um pouco; a respiração dele ficou mais calma. Então eu
mantive minha mão lá, descansando na testa dele.
"Jess?" Ele procurou meu rosto com os olhos.
"Não fale."
"Eu... eu acho que você merece... a faixa."
A despeito de mim mesma, eu ri, uma risada partida, forçada, e me abaixei para
beijar a testa dele. Simplesmente aconteceu. Parecia a coisa certa a fazer. "Você
também."
Ele fechou os olhos. Eu senti que a consciência dele estava indo embora. "E
Jess?"
"Fique quieto."
"Não deixe que eles façam nada... com o meu cavalo", ele conseguiu dizer,
respirando com dificuldade. "Ela não quis... fazer mal. Foi só o chicote... você
sabe..."
"Eu vou tentar, Lucius", eu prometi. Mas eu sabia que não conseguiria. A vida de
Hell's Belle estava acabada.
"Obrigado, Antanasia..." A voz dele era quase inaudível.
Na lateral do celeiro, eu pude ouvir o som de rodas na grama. Eu soltei o ar com
um pouco de alívio. Faith foi chamar uma ambulância.
Mas não. Quando o veículo fez a volta na esquina, era uma van velha da
Volkwagen com Ned Packwood atrás do volante. Meus pais saltaram, com medo
em seus rostos, e me tiraram do caminho. "Me levem para sua casa", Lucius
implorou, acordando um pouco. "Vocês entendem..."
Minha mãe virou para me encarar. "Abra a traseira da van", ela ordenou.
"Mãe - ele precisa de uma ambulância!"
"Faça isso, Jessica."
Eu comecei a chorar de novo, porque eu não entendia o que estava acontecendo,
e eu não queria ser cúmplice da morte de Lucius. Mas eu fiz o que me mandaram.
Meus pais levantaram Lucius para colocá-lo na van tão gentilmente quanto
puderam, mas ele ainda gemeu, mesmo apesar de agora estar completamente
inconsciente, a dor era tão forte que ultrapassou seu cérebro inconsciente. Eu
comecei a entrar atrás dele, mas meu pai me impediu com uma mão firme em
meu ombro. Ao invés disso, minha mãe entrou em meu lugar, se abaixando ao
lado de Lucius.
"Você fica aqui e explica o que aconteceu", papai disse. "Diga a eles... Diga que
levamos Lucius a um hospital."
Eu vi a mentira nos olhos de meu pai, e os meus ficaram esbugalhados.
"Vocês vão levá-lo, não vão?"
"Só diga a todo mundo que ele está bem", papai disse, sem responder minha
pergunta. "Depois cuide do cavalo."
O que eles estavam pedindo era demais. E se eles não o levassem ao hospital e
Lucius morresse? Eles seriam responsáveis. Talvez acusados de negligência, ou
algum tipo de assassinato. Faith tinha visto que Lucius não estava bem. Ela sabia
que ele precisava de um médico. E a organização da competição ia checar para
saber se ele foi hospitalizado. Problemas de responsabilidade e todas essas
coisas. O que diabos meus pais estavam fazendo? Eles podiam ir para a cadeia. E
por quê? Não fazia sentido manter Lucius fora do hospital.
Mas não havia tempo para protestar, nenhum tempo para pedir ajuda. Lucius
precisava, pelo menos, ir para algum lugar quente. Esperançosamente para um
lugar onde soubessem tratar ossos quebrados e pulmões ensangüentados.
Contanto que esse lugar não fosse nossa cozinha, onde papai podia tentar fazer
alguma cura herbal...
Meu peito se fechou novamente com o medo. Se meus pais iam fazer algum tipo
de "cura natural" em Lucius - isso era completamente fora da capacidade deles.
Todas essas coisas passaram pela minha mente enquanto eu seguia a van a um pé
de distância, encarando impotente enquanto ela saia pulando da área gramada e
balançava em direção ao estacionamento da arena, com o máximo de velocidade
que meu pai podia usar sem, presumidamente, levantar suspeitas ou incomodar
Lucius demais.
Eu ainda estava lá, observando a nuvem de poeira diminuir e sumir, quando Faith
reapareceu ao meu lado, mais composta. Os olhos dela estavam avermelhados,
mas seus ombros estavam eretos e atentos novamente. Sua voz ainda travou, um
pouquinho, quando ela perguntou, "Você acha que ele vai... ficar..."
"Ele vai ficar bem", eu prometi, mentindo com mais facilidade do que eu pensei
ser possível. Mas eu tinha que parecer convincente. A sobrevivência da minha
família inteira, não apenas de Lucius, estava por um fio.
"Eu acho que os ferimentos dele não foram tão ruins quanto nós acreditamos no
começo", eu completei.
"Não?" Faith me lançou um olhar cético, Mas também era esperançoso. Eu me
dei conta de que ela queria acreditar na mentira. Afinal, ela não queria ser
responsável pelos ferimentos de Lucius - ou pela sua morte.
"Ele sentou um pouco", eu disse a ela, me forçando a encontrar os olhos azuis de
Faith. "E fez uma piada."
A tensão no rosto de Faith diminuiu, e eu sabia que ela havia se forçado a
acreditar em mim. Ela estava desesperada para ser perdoada. "Deve ter parecido
tão ruim no começo porque aconteceu tão rápido..."
"É, provavelmente", eu concordei. "Definitivamente foi assustador, no começo."
O olhar de Faith foi para o estacionamento, como se ela ainda esperasse ver a van
se afastando. Eu percebi que ela continuava segurando o chicote, e o batia à toa
contra sua bota. Eu teria jogado aquela coisa no lixo, e enterrado. Como era
possível que ela não tivesse visto o aviso no celeiro?
A resposta era tão fácil que quase era risível. Porque Faith não via nada além de
sua pequena esfera de preocupações. Era por isso.
"E se ele estivesse tão mal quanto nós pensamos, por que ele não quis os
paramédicos?" Ela se perguntou em voz alta.
Eu mesma não tinha muita certeza, mas eu tinha a sensação que isso tinha a ver
com as ilusões de Lucius sobre ser vampiro. Mas essa certamente não era uma
boa resposta para Faith, então eu me aventurei, "Eu acho que ele é orgulhoso
demais. Corajoso demais para ser carregado daqui com um monte de sirenes e
gente olhando." Na verdade, conhecendo Lucius, isso também podia ser verdade.
Com isso, Faith sorriu um pouco, ainda olhando para a distância. O chicote batia
com um ritmo uniforme em sua bota. Ela estava completamente calma agora,
quase tranqüila. "Sim", ela disse mais para si mesma do que para mim. "Lucius
Vladescu não parece ter medo de nada. E ele sabe o que quer, não é mesmo?"
Você não faz idéia, eu queria dizer a ela. Mas então, uma equipe inteira de
oficiais da competição 4-H veio marchando em nossa direção, e eu me virei para
encará-los, pronta para contar mais mentiras.
Capítulo 23
Estava escuro quando eu cheguei em casa, guiando Belle por todo o caminho,
cortando caminho pelas plantações vazias de milho e evitando as estradas o
máximo possível, quase como se eu estivesse com medo de ser seguida. Eu
certamente não quis pegar carona para casa com as pessoas que me ofereceram:
Faith ou os líderes da 4-H. Especialmente os líderes da 4-H, cujas perguntas eu já
havia respondido pelo menos umas cinqüenta vezes. Eles simplesmente
continuariam perguntando porque nenhum dos hospitais locais pareciam saber
nada sobre um garoto que foi ferido por um cavalo. Depois eles iam querer falar
com os meus pais, e nesse ponto eles podia entrar na nossa casa para encontrar
Lucius Vladescu quase morto - ou já morto - no nosso sofá, com meu pai
tentando ressuscitá-lo com ervas e infusões.
Com esse pensamento, eu fiz Belle andar mais rápido.
Será que Lucius realmente podia estar morto? Como eu me sentiria se ele
estivesse? Eu sofreria por ele? Sentir pesar?A culpa me atingiu. Será que eu
ficaria aliviada de alguma forma? E eu estava mais preocupada com Lucius ou
com o papel dos meus pais nesse desastre?
Todas essas perguntas colaram pela minha cabeça como um guisado grudento
feito com ingredientes estragados enquanto Belle e eu nos apressávamos a
caminho de casa, eu estava presa na velocidade de um cavalo quando precisava
de um avião. Nosso progresso parecia ridiculamente lento. Einstein explicou esse
sentimento, não explicou? Relatividade. A percepção que uma pessoa tinha do
tempo era relativa ao desejo que ele tinha de vê-lo passar. Correto?
Tempo. Relatividade. Ciência.
Eu tentei focalizar nesses conceitos ao invés de me preocupar
desnecessariamente, mas minha mente continuava voltando ao sangue na camisa
de Lucius. O sangue escapando de sua boca. O sangue muito, muito vermelho.
Quando eu cheguei no final da rua, eu já estava fazendo Belle correr de forma
irresponsável, e eu derrubei as rédeas dela, deslizando de suas costas, enquanto
via a van dos meus pais estacionada parada na frente da nossa casa. Havia outro
carro também. Um sedã desconhecido, mas igualmente velho. A casa estava
inteiramente escura, mas algumas luzes fracas brilhavam lá dentro.
Abandonando a pobre Belle, sabendo que eu devia acalmá-la e colocá-la nos
estábulos, eu subi correndo os degraus e entrei.
"Mamãe!" Eu gritei a plenos pulmões, batendo a porta atrás de mim.
Minha mãe apareceu na sala de jantar, me calando com um dedo nos lábios.
"Jessica, por favor. Mantenha a voz baixa."
"O que aconteceu? Como ele está?" Eu a empurrei na direção da sala de jantar,
mas mamãe segurou meu braço.
"Não, Jessica... agora não."
Eu procurei o rosto da minha mãe. "Mãe?"
"Foi sério, mas temos motivos para acreditar que ele vai sair dessa. Ele está
sendo bem tratado. Foi o melhor tratamento que conseguimos dar para ele, com
segurança", ela disse, misteriosamente.
"O que você quer dizer com 'com segurança'?" Tratamentos seguros vinham de
hospitais. "E de quem é o carro lá fora?"
"Nós chamamos o Dr. Zsoldos—"
"Não, mamãe!" Não o Dr. Zsoldos. O Húngaro maluco que perdeu a licença
médica por usar "remédios" caseiros controversos de países antigos, bem aqui
nos Estados Unidos, onde as pessoas tinham o bom senso de acreditar em
medicina de verdade. Eu devia ter reconhecido o carro. Muito tempo depois que
o resto da país o exilou, o velho Zsoldos e meus pais continuaram amigos,
andando pela cozinha e reclamando a noite inteira das pessoas que não
acreditavam em "terapias alternativas." "Ele vai matar o Lucius!"
"O Dr. Zsoldos compreende Lucius e sua gente", mamãe disse, me agarrando
pelos ombros. "Podemos confiar nele."
Quando minha mãe disse 'confiar', eu fiquei com a sensação que ela não estava
falando apenas que o curandeiro devia ter uma licença. "Confiar para quê?"
"Discrição."
"Por que? Por que devíamos ser discretos? Você viu o sangue saindo da boca
dele? A perna quebrada?"
"Lucius é especial", minha mãe disse, sacudindo meus ombros um pouco, como
se eu devesse ter percebido isso há um milhão de anos atrás. "Aceite isso, Jessica.
Ele não estaria a salvo num hospital."
"E ele está a salvo aqui? Na nossa sala de jantar?"
Minha mãe largou meus ombros e esfregou os olhos. Eu me dei conta do quanto
ela devia estar cansada. "Sim, Jessica. Mais seguro."
"Mas ele está sangrando por dentro. Até eu sei isso. Ele provavelmente precisa de
sangue."
Minha mãe me deu uma olhada estranha, como se talvez eu finalmente
compreendesse uma verdade muito importante. "Sim, Jess. Ele precisa de
sangue."
"Então o leve a um hospital, por favor!"
Minha mãe me encarou por um longo momento. "Jessica, existem coisas sobre
Lucius que a maioria dos médicos não poderia entender. Nós podemos falar sobre
isso mais tarde, mas agora, eu preciso voltar para ele. Por favor, vá lá pra cima e
tente ser paciente. Eu vou te dizer assim que tiver notícias sobre o progresso
dele."
Dando as costas para mim, mamãe abriu a porta da sala de jantar, e eu ouvi vozes
baixas vindo de dentro do cômodo escuro. A voz do meu pai. A do Dr. Zsoldos.
Minha mãe entrou para se juntar à conspiração deles, e a porta se fechou.
Furiosa, assustada e frustrada, eu corri para cima, esquecendo completamente da
pobre Belle. Eu tenho vergonha de admitir que ela passou toda a noite no frio de
Novembro, andando em volta do celeiro e da baia, com a sela ainda nas costas.
Eu estava descontrolada demais para pensar no cavalo que me carregou à
caminho de uma pequena glória pessoal, apenas algumas horas antes. Ao invés
disso, eu subi na cama e olhei pela janela, tentando descobrir o que fazer.
Enquanto eu debatia se devia ligar para um médico de verdade, eu tive uma visão
do meu pai saindo pela porta e correndo pelo quintal indo em direção a garagem.
A luz se acendeu no apartamento de Lucius, mas apenas por uns momentos.
Ela se apagou de novo, e segundos depois papai estava de volta, correndo pela
grama. Eu pude ver, à luz da lua, que ele carregava alguma coisa nas mãos.
Alguma coisa do tamanho de uma caixa de sapatos, mas com os cantos
arredondados. Como um pacote embrulhado com papel.
Eu esperei até que os passos de papai passassem pela casa e a porta da sala de
jantar se fechasse, antes de descer as escadas, evitando qualquer ruído que
pudesse delatar minha presença. Eu praticamente me arrastei até a porta sala de
jantar girei a maçaneta, abrindo a porta só um pouquinho. Só o suficiente para
ver o interior.
O fogo na lareira estava quase apagado, e a luz no candelabro de aço estava com
a luminosidade baixa, mas eu era capaz de ver a cena.
Lucius estava deitado na longa mesa de jantar, aquela que só usávamos em
grandes ocasiões. Ele estava com o peito nu, suas roupas manchadas de sangue
haviam desaparecido - foram cortadas, eu supus - e a metade de baixo do seu
corpo estava coberta com um lençol branco. Seu rosto estava completamente
plácido. Olhos fechados, boca composta.
Ele parecia estar morto. Como um cadáver. Eu nunca estive num funeral antes,
mas se alguém podia parecer mais morto que Lucius naquele momento... Bem, eu
simplesmente não sabia como isso era possível.
Ele está morto?
Eu olhei para o peito dele, desejando que ele levantasse, mas se os pulmões dele
se mexeram, foi levemente demais para que eu visse na sala escura. Por favor,
Lucius. Respire.
Quando o peito de Lucius ainda não se moveu, alguma coisa se partiu dentro de
mim, e meu corpo inteiro parecia uma vasta caverna com um vento gélido
surgindo em todos os espaços vazios. Não... ele não pode estar morto. Eu não
posso deixá-lo ir. Eu lutei para ficar mais calma. Se Lucius estivesse morto, eles
não estariam o cercando, cuidando dele. Eles teriam parado de tratá-lo. Teriam
coberto seu rosto.
Minha mãe vagava perto da lareira, com uma mão na boca, observando enquanto
meu pai e o Dr. Zsoldos conversavam em voz baixa por cima do pacote que papai
havia trazido da garagem.
Eles devem ter tomado alguma decisão, porque Dr. Zsoldos pegou uma faca - um
bisturi? - dentro de uma bolsa preta. Ele vai operar Lucius? Na nossa mesa?
Eu quase dei as costas, enojada demais para assistir, mas não, o curandeiro
Húngaro não cortou Lucius. Ele simplesmente cortou os barbantes que
amarravam o pacote e abriu o papel. Ele ergueu o que havia lá, segurando aquilo
quase como se fosse um bebê recém nascido - um bebê molengo e escorregadio
que quase escapou das suas mãos. Mas o que é isso?
Eu me inclinei mais para perto, pressionando o rosto na abertura da porta e
lutando para controlar a respiração para não ser descoberta. Ninguém estava
prestando atenção na porta, apesar de mamãe, papai e o Dr. Zsoldos estarem
olhando para aquela... coisa que o Dr. Zsoldos tinha nas mãos. Parecia com... o
quê? Uma espécie de trouxa? Feita de um material que eu não conseguia
identificar. Mas era alguma coisa flexível, porque o pacote se mexia nas mãos do
Dr. Zsoldos, como gelatina num saco de plástico.
"Devíamos ter nos dado conta que ele tinha isso, escondido", Dr. Zsoldos
sussurrou, mexendo a cabeça até que sua barba branca balançou. "É claro que ele
teria."
"Sim", mamãe concordou, indo para a frente agora, em direção a Lucius. "É
claro. Nós devíamos saber." Com um gesto de papai, os dois escorregaram os
antebraços embaixo dos ombros de Lucius e o ergueram gentilmente, até que ele
estava quase sentado. Então Lucius fez um som, meio gemido de dor, meio
rosnado de leão raivoso e machucado. Meus dedos suados escorregaram da
maçaneta com esse som. Não era exatamente humano, e não necessariamente
animal. Mas era algo assustador, que reverberava nas paredes.
Eu limpei as mãos nas calças de montaria, me concentrando mais na cena à
minha frente.
Dr. Zsoldos chegou perto do paciente, segurando a trouxinha como uma oferenda
na frente do rosto de Lucius. A luz do fogo refletiu nas lentes em formato de meia
lua do doutor, e ele sorriu um pouco enquanto pressionava, suavemente. "Beba,
Lucius. Beba."
O paciente não respondeu. A cabeça de Lucius caiu para um lado, e papai mudou
de posição para segurá-lo, mantendo-o imóvel.
Dr. Zsoldos hesitou, depois pegou o bisturi de novo, usando-o para espetar a
trouxa, bem embaixo do nariz de Lucius. Os olhos que eu temia estarem extintos
se abriram, e nesse momento eu dei um gritinho.
Os olhos de Lucius, sempre escuros, agora estava completamente pretos. Um
preto muito, muito profundo, como se as pupilas tivessem engolido as íris e as
partes brancas também. Eu nunca tinha visto olhos assim antes. Você não podia
deixar de olhar para eles.
Ele abriu a boca, e os dentes dele... haviam mudado também.
Meus pais deviam ter ouvido meu som, mas era tarde demais. O que estava
acontecendo estava acontecendo, e eles também ficaram transfixados enquanto
Lucius abaixava a cabeça, mergulhando as presas naquela trouxa, bebendo
cuidadosamente mas com uma fome óbvia. Um pouco do líquido derramou pelo
queixo dele e correu pelo seu peito. Um líquido escuro. Um líquido grosso. Eu já
tinha visto um líquido como aquele antes, não muitas horas atrás, manchando
aquele mesmo peito.
NÃO.
Eu fechei os olhos, sem acreditar. Balançando a cabeça, eu tentei pensar com
clareza. Banir a imagem do que eu achava que tinha visto. O que eu tinha quase
certeza que tinha visto.
E havia um cheiro também. Um odor pungente que eu nunca havia sentido antes.
Bem, antes tinha um cheiro fraco, mas agora... agora era tão forte. E estava
ficando mais forte. Eu abri os olhos e me forcei a observar de novo. Aquele
aroma - não era como se eu estivesse sentindo com o meu nariz. Eu o sentia de
alguma forma, no fundo do meu estômago, ou nos cantos mais profundos
daquela parte primitiva do cérebro sobre a qual falamos na aula de biologia.
Aquela parte que controlava sexo e agressão e... prazer?
Lucius fez o corpo se erguer mais, se segurando com um cotovelo, ainda bebendo
com vontade, como se não pudesse beber o suficiente. Mas, finalmente, não
sobrou mais nada. O pacote estava vazio. Lucius caiu pra trás com um gemido
que conseguiu, de alguma forma, misturar agonia crua e pura satisfação, e papai
segurou seus ombros nus no momento certo, fazendo ele deitar de costas de
novo.
"Descanse, Lucius", papai pediu. Minha mãe se aproximou com um pano para
limpar o peito dele, onde o sangue o sujou...
Sangue. Ele estava bebendo sangue.
Eu fechei os olhos de novo, com mais força dessa vez. Nesse momento, alguma
coisa estranha aconteceu, porque eu obviamente estava abaixada no chão sólido,
de madeira, e ele não podia se mexer, mas mesmo assim ele começou a se mexer
e rodar sob meus pés. A casa inteira estava revirando ao meu redor, e mesmo
quando eu abri os olhos, tentando me concentrar, foi só para sentir meus olhos se
movendo sozinhos em direção ao teto, que se apagou como a tela de um filme
depois que ele acaba.
Eu acordei mais tarde, naquela mesma noite, vestida com meus pijamas de
flanela, mas confusa e desorientada, como se de repente eu me encontrasse num
país estrangeiro, e não na minha própria cama. Ainda estava escuro. Eu fiquei o
mais imóvel possível, com os olhos abertos, só no caso do quarto começar a se
mexer e o teto começasse a apagar de novo.
Mas a casa não se moveu, mesmo quando eu dei replay, com detalhes vívidos,
em tudo que eu havia visto. Tudo que eu senti.
E tinha visto Lucius beber sangue. Ou não? Eu fiquei tonta. Confusa. E aquele
cheiro... Talvez Dr. Zsoldos tivesse dado a Lucius algum tipo de licor ou porção
Romena, ou algo assim. Talvez, com o medo e o pânico, eu tivesse entendido
errado.
Mas a única coisa que eu não podia explicar era a forma como eu me senti
quando realmente pensei que Lucius estivesse morto.
Pesar. O pesar mais profundo que eu podia imaginar. Como um buraco aberto na
minha alma.
Essa... essa era a parte que realmente me deixava louca. Tão louca, de fato, que
eu desci as escadas de novo, no meio da noite, me enfiando na sala de jantar. O
fogo foi acendido novamente, e Lucius ainda estava de costas na mesa, mas
agora havia um travesseiro embaixo da cabeça dele. E também, um cobertor mais
quente foi colocado por cima do lençol, cobrindo ele dos ombros até os pés. Meu
pai ainda estava na sala, cochilando na cadeira de balanço, roncando um pouco,
mas minha mãe não estava lá, e Dr. Zsoldos tinha ido embora, e a bolsa dele, e a
trouxa com a qual eu provavelmente havia sonhado...
Eu me aproximei do rosto de Lucius. Não havia traços de vermelhidão nos lábios
dele, não havia manchas no queixo dele, e não havia sinais de mudança na boca
dele. Só um rosto pálido, machucado, e agora familiar. Enquanto eu o observava,
ele deve ter sentido uma presença, ou talvez ele tenha sonhado, porque ele se
moveu um pouco, e a mão dele escapuliu da mesa. A posição parecia
desconfortável, então depois de esperar um momento para ver se ele se mexia de
novo, eu gentilmente segurei o pulso dele e o coloquei de volta na mesa. Apesar
do cobertor e da lareira que queimava a pouca distância dali, a pele dele era tão
fria ao toque... gelada, na verdade. Ele era sempre tão gelado. Meus dedos
deslizaram para baixo, se entrelaçando com a de Lucius só por um momento,
para lhe oferecer um pouco de conforto ou calor.
Ele estava vivo.
Nesse momento eu comecei a chorar, tão silenciosamente quanto era possível,
desesperada para não acordar meu pai. Eu só deixei as lágrimas escorrerem pelo
meu rosto, caindo nas nossas mãos unidas. Lucius me deixava louca. Ele era
louco. Mas isso não importava. Eu não queria sentir aquela sensação profunda de
perda de novo. Nunca mais.
Eu solucei, incapaz de segurar. Com o som, meu pai gemeu, o bufo enorme de
alguém que estava tentando dormir numa cadeira dura, e eu fiquei com medo que
ele pudesse acordar, então eu larguei a mão de Lucius, enxuguei meu rosto com a
manga, e voltei para o quarto de novo. De qualquer forma, agora o dia já estava
quase amanhecendo.
Capítulo 24
CARO TIO Vasile,
É com profundo pesar e grande medida de apreensão em relação a sua
reação ao que eu escrevo para informá-lo que eu tive um pequeno
acidente com um cavalo que eu comprei "online".
Oh, como você teria apreciado Belle. Tal como uma terrível ,linda e
feroz criatura. Preto de seu topete até seus cascos e, desnecessário pra
dizer, a essência do seu ser. ´Poderia eu desejar menos?
Voltando à narrativa, no entanto. Minha égua deliciosamente má me
deu uma surra admirável para eu absolvê-la completamente. O
resultado foi uma perna e algumas costelas quebradas,e pouco mais de
um buraco em um pulmão. Nada que eu não teria sobrevivido antes
nas mãos da família. Mas, claro, eu estou receoso pelas minhas costas,
pelo menos, por volta de uma semana ou acerca disso.
Eu escrevo ao menos na esperança de ganhar a sua simpatia. . . (Ah,
esse é um pensamento rico, não é? Você, Vasile, ficando emocional
sobre o bem-estar de alguém. Eu realmente iria rir em voz alta, se isso
não me fizesse tossir mais sangue.) Não, Eu coloquei a caneta no papel
mais no interesse de dar aos Packwoods apenas o que eles esperavam,
como eu certamente nunca fui de sobressair com eles em termos de
crítica. (Lembre-se da minha missiva seguinte do primeiro ensopado
de lentilha ? Eu tremo um pouco, para recordar. Nunca há realmente
uma necessidade de recorrer aos palavrões.)
Nesta situação, porém,os créditos de Ned e Dara subiram naquela
ocasião, compreender o fato de que, levar um indivíduo não vivo para
o hospital teria sido um ato decididamente infeliz. (Como muitos de
nossos irmãos modernos eram alojados inconvenientemente em
necrotérios por dia e em mausoléus de pedra para o mesmo ano, por
causa de uma falta do que os humanos chamam de "sinais vitais"?
Mas como de costume, minha contemplação se desvaneou. Voltando ao
assunto, talvez tenho sido injustamente severo em relação aos
Packwoods. Eles mostraram grande discernimento, e,o mais
importante, arriscaram-se por mim. Eu quase desejei poder substituir
seus bonecos hediondos, como um gesto de minha gratidão. Você
poderia, talvez,ter alguns utensílios de uma das mulheres da moda
local , digamos, um carretel de madeira, e alguns pedaços de lã? Nada
extravagante. Padrões estéticos para esta coleção especial, não foram
elevados, acreditem. "Feio" e "mal-criado" parecem ter sido os
critérios-chave.
Quanto à Antanasia. . . Vasile, o que posso dizer? Ela respondeu ao
meu acidente com o valor, a vontade e a coragem de uma verdadeira
princesa vampira. E, no entanto, uma princesa possuidora de um
coração bondoso. O que devemos perguntar a nós mesmos, que isso
significa para ela em nosso mundo?
Vasile, são poucos os momentos em que eu queria reivindicar ter maior
experiência do que você, sobre qualquer assunto. Você sabe que eu sou
humilhado diante de sua autoridade. Mas eu correria o risco de
dirigir-me com alguma autoridade aqui, eu, como alguém que agora
passou muito tempo em contato íntimo com os humanos.
Viver como você tem feito no nosso castelo, isolado dos Cárpatos, você
tem pouco contato com pessoas de fora ,com a nossa raça. Você sabe
que é apenas o jeito vampiro, o jeito de Vladescu. A maneira do sangue
,da violência e das duras lutas para a sobrevivência. O fim da luta por
uma posição dominante.
Você nunca viu Ned Packwood agachado acima de uma caixa cheia de
gatos se contorcendo, alimentando-os com um conta-gotas, pelo amor
de Deus, quando o nosso povo teria os jogado na rua,os animais
tremendo lá fora no frio, assisti-los serem levados pelas aves de rapina
como presas, sem arrependimento. Não, com uma sensação de
satisfação para o gavião, que não passaria fome naquela noite.
Você nunca sentiu a mão trêmula de Dara Packwood procurando seu
pulso com você vulnerável! Meio nu, ferido, em uma mesa de prancha.
O que nossa espécie têm feito, Vasile? Dara Se tivesse sido um
Dragomir, não um Packwood, ela não ficaria tentada, pelo menos, para
derrubar o príncipe rival nesse momento oportuno? No entanto, ela
temia pela minha vida.
-Foi assim que Antanasia se elevou. Ela não é apenas uma americana,
mas um Packwood. Não é um Dragomir. Ela foi mimada com gatinhos
e toques suaves de bondade. Alimentada com espólio pálido, "tofu' em
lugar do sangue-ensopado de uma matança.
E você não a ouviu chorar, Vasile. Você não sentiu a sua dor, como eu
senti, quando ela pensou que eu estava destruído. . . . Era palpável
para mim, Vasile. Isso rasgou através dela.
Antanasia-não, Jessica, é suave, Vasile. Macia . O coração dela é tão
meigo que ela não conseguiria ajudar mas lamentar até mesmo eu um
homem que ela mal consegue suportar.
Seus inimigos, e nós sabemos, como uma princesa, ela teria, mesmo
em tempo de paz, seria o cheiro de fraqueza, tal como eu senti sua
tristeza. Em algum momento, uma outra fêmea que se levanta,
sedenta de poder, fome a ter lugar de Jessica. Isso não é o caminho do
nosso mundo? E quando confrontado, no momento da verdade, Jessica
faltar, apenas por uma fração de segundo, não tenho certeza se poderia
suportar a desperdiçar uma vida e ela estaria perdida. Mesmo que eu
não pudesse protegê-la em todos os momentos.
No passado, eu temo que eu considerava Jessica superficial. Eu (nós?)
Temos sido declarados culpados de acreditar que uma mudança da
roupa, aulas de etiqueta, um impulso profundo e satisfação de presas
pela a garganta é o que faz a sua realeza vampiro.
Mas você não ouviu o seu grito, Vasile. Você não sentiu as lágrimas
caírem sobre seu rosto, sua mão.
Talvez vampiredom poderia sobreviver a Antanasia, mas poderia
Antanasia sobreviver vampiredom? Ela mostra promessa, Vasile, mas
a promessa está há anos de maturação. Nesse meio tempo, ela seria
condenada.
Talvez seja os medicamentos falando. Honestamente, Vasile, os
Packwoods teêm o mais maravilhoso curador Húngaro, muito folgado
com a dispensa, se você entende o que eu digo. Sim, talvez seja a
grande quantidade de poções correndo pelas minhas veias e saturando
meu cérebro, mas refletir sobre essas coisas como eu ficar aqui-ausente,
devo acrescentar, primeira "briga" da temporada no basquetebol,
contra o rival "Palmyra Cougars ". ( se eu não tivesse massacrado eles
antes, eu teria feito mais uma vez na quadra).
Voltando ao pensamento de Jessica. Nós vampiros somos sem alma,
sim. Mas nós não traímos a nossa, não é? Nós não destruímos
desenfreadamente, certo? E eu temo que vampiredom iria, na verdade,
destruir Jessica.
Não deveríamos considerar em deixá-la livre para ser uma adolescente
normal, humana? E deixar os problemas do nosso mundo onde
pertencem: no nosso mundo, ao contrário sobre os ombros de uma
garota inocente americana que almeja apenas montar seu cavalo, rir
com sua melhor amiga (eu desenvolvi um certo gosto delirantemente
pela maluca-sexy Melinda), e compartilhar beijos "agradáveis" com
um simples camponês ?
Estou ansioso pelo seus pensamentos, assim como eu já antecipei sua
fenomenal resposta negativa . Mas você sempre me disse para não ser
apenas cruel, mas honroso, Vasile, e eu me senti honrado e obrigado á
levar essas questões à luz.
Seu, se recuperando,
Lucius
P.S. Em relação à boneca: olhos de botão. Solicitar se possível. Que
parecia ser um "motivo."
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