quarta-feira, 25 de setembro de 2013

mord - mg - parte 3 - 37-38-39-40

37
Meena subiu correndo os degraus e abriu as portas do que havia sido
a Escola Católica de Ensino Fundamental St. Bernadette.
Uma  densa  nuvem  de  fumaça  atingiu-lhe  o  rosto.  Ela  cambaleou  para
trás, tossindo.
—  Meena.   —  Lucien  estava  atrás  dela  e  a  segurou  pelos  ombros,  a
puxando para os degraus abaixo. —Pare.
— Não — disse ela, lutando contra as mãos dele. — Está tudo bem.
—  Não está. —  Ele a guiou de volta para o pátio, em direção ao chafariz
quebrado,  onde  a  fumaça  não  estava  tão  densa.  —  Não  adianta.  Você  não
pode entrar. Não vai conseguir respirar.
— Mas... — disse ela. As lágrimas provocadas pela fumaça já desciam por
seu rosto. Ela as limpou com o pulso. — Alaric...
O  rosto  de  Lucien  se  contraiu.  Meena  percebeu  que  ele  estava  tão
preocupado quanto ela.
Mas ela sabia que a preocupação dele era apenas com o destino do livro.
—  Nós  iremos  —  disse  Mary  Lou,  esticando  os  braços  para  dar  um
abraço  tranquilizador  em  Meena.  —  Vamos  encontrá-lo,  querida,  não  se
preocupe. A fumaça não nos afeta.
—  Mas  o  fogo  sim  —  lembrou-lhe  o  marido,  apontando  para  algumas
janelas do porão do prédio. A fumaça que começara a sair delas era ma is preta
do  que  em  qualquer  outro  ponto,  o  que  era  um  sinal  garantido  de  haver
chamas.
— Ah — exclamou Mary Lou. — Isso não parece bom.
—  O  que  poderia  haver  lá  embaixo  para  provocar  uma  explosão  tão
grande? — perguntou Meena. 
— Não sei — disse Mary Lou.. — O boiler, talvez?
Ah, Deus.
—  O boiler —  repetiu Meena fracamente. —  Era muito antigo. O prédio
todo é antigo. Ele foi fechado por não ser seguro para crianças. Abraham disse
que não havia dinheiro no orçamento para consertá-lo, mas...
Ela estava começando a tagarelar. Lucien passou o braço ao redor dela e a
guiou até estarem debaixo de uma das passagens em forma de arco, protegidos
da chuva fina que havia recomeçado.
— Meena. — Lucien voltou a segurá-la pelos ombros. — Olhe para mim.
Tenho  Certeza  de  que  aquele  boiler  não  explodiu  por  acidente.  Está
entendendo? Aquela explosão não foi acidental.
Demorou  uns  dez  segundos  para  que  ela  entendesse  direito  o  que  ele
estava dizendo. Quando entendeu, ela se virou e correu de novo em direção às
portas.
Desta vez, Lucien não precisou impedi-la de entrar no prédio. As próprias
portas  fizeram  isso  ao  se  abrirem  de  repente.  Por  elas,  começou  a  sair  uma
multidão de pessoas, nenhuma delas parecendo perceber os três vampiros e a
garota  chorando  e  assustada  no  pátio.  Estavam  concentrados  demais  em
escapar do prédio em chamas...
Meena ficou no pé da escada, esperançosa e ansiosa. A chuva começou a
fazer  seu  cabelo  ficar  grudado  na  cabeça  e  a  escurecer  a  bolsa  marrom  de
couro falso enquanto ela esperava. As pessoas passavam e ela examinava cada
uma, procurando um rosto familiar para quem perguntar sobre Alaric.
Mas não reconheceu uma única pessoa.
— Quem são essas pessoas? —-perguntou ela por fim.
Lucien  tinha  se  aproximado  e  colocado  o  casaco  ao  redor  dos  ombros
dela para protegê-la da chuva.
— De que você está falando? — perguntou ele.
— Eu... — Meena olhou ao redor.
Seu  olhar  voltou  para  as  portas  da  frente  do  prédio,  que  alguém  tinha
escancarado para deixar que a fumaça e o resto das pessoas saíssem, O nó que
ela vinha sentindo nos ombros parecia mais apertado do que nunca.
—  Eu...  não  sei  quem  são  essas  pessoas  —  disse  ela  para  Lucien.  —
Nunca as vi na vida.
—  Meu senhor.  —  Emil foi para o lado deles.  —  Se me permite... este
provavelmente  não  é  o  melhor  lugar  para  ficar,  considerando  que  você  é  o
homem  mais  procurado  da  história  da  Palatina  e  aqui  fica  o  quartel-general
deles em Manhattan...
—  Não  acho  que  isso  será  problema  —  disse  Mary  Lou.  —  Olhem.
Outras pessoas tinham corrido para  o pátio: donos de lojas das redondezas,
com garrafas de água e guarda-chuvas, e os poucos pedestres que estavam na
rua,  apesar  do  tempo,  ansiosos  para  ajudar  como  pudessem.  Meena  podia
ouvir o som de sirenes ao longe.
Elas não pareciam estar se aproximando.
—  As ruas estão inundadas.  —  Meena ouviu a garçonete do café gritar
para todo mundo. Ela  estava com o celular grudado ao ouvido. Falava com
um  atendente  da  central  de  emergência.  —  Os  veículos  de  emergência  não
conseguem passar. Falaram alguma coisa sobre  chuva demais para um período
muito  curto  de  tempo...  e  sobre  um  riacho  subterrâneo.  Não  sei  do  que  ela
está falando. Nunca ouvi falar de riacho subterrâneo nenhum.
Meena olhou para Lucien, consternada.
— O Minetta — disse ela.
Ele apenas olhou para o outro lado.
Mas as vítimas da explosão de St. Bernadette não pareciam se preocupar.
Elas  se  reuniram  no  pátio  sob  a  chuva,  sem  pegar  os  guarda-chuvas  que  as
pessoas  estavam  oferecendo,  sem  nem  pegar  os  celulares  para  ligar  para  os
familiares.
Apenas ficaram ali de pé... esperando.
—  Nenhum deles está tossindo —  disse Mary Lou com firmeza.  —  Não
tem ninguém lacrimejando no meio da multidão.
O coração de Meena deu um salto. Mary Loa estava certa.
— Pensei que essa escola tivesse sido fechada. — Meena ouviu o dono da
loja  de  conveniência  falando  com  o  filho,  que  o  tinha  ajudado  a  levar  uma
caixa cheia com guarda-chuvas e garrafas de água.
—  Ouvi  que  uma  nova  empresa  de  internet  comprou  o  prédi  disse  o
filho. — É óbvio. Olhe só para eles. 
Era verdade, pensou Meena. Todo mundo que tinha saído do prédio era
magro, usava preto e tinha uma aparência excepcionalmente pálida...
Ah, Deus, pensou ela. O que tinha acontecido? O que tinha acontecido
com a Palatina? Quem havia feito isso? Onde estava Alaric?
E  então  Meena  ouviu  alguém  tossir.  Nunca  na  vida  ficou  tão  feliz  em
ouvir esse som. Ela se virou..,.e deu um gritinho de alegria.
— Carolina!
Uma mulher alta de cabelo escuro que tinha acabado de sair pelas portas
abertas se virou ao ouvir seu nome... e então, ao ver Meena, correu em direção
a ela de braços estendidos. As duas se abraçaram.
— Pensei que você estivesse morta — exclamou Meena.
—  Não —  disse Carolina.  —  Só estava em Nova Jersey. E Abraham?  —
perguntou Meena. — Onde está Alaric? Alaric está bem?
— Abraham está ótimo. Estava logo atrás de mim. Alaric também.
Um peso que Meena nunca soube estar carregando pareceu ser tirado de
seu coração. A dor nos ombros também sumiu.
— Ele está bem? -— Ela se sentiu quase tonta. — Alaric está bem? Onde
ele está?
Carolina olhou por cima do ombro.
— Não sei. Eles estavam... Ah, ali está Abraham.
Abraham, parecendo bem mais velho do que sua idade real, apareceu na
porta, coberto de fuligem e tossindo com bastante intensidade. Meena correu
para ele. Carolina também. O dono da loja de conveniência e o filho correram
para oferecer a ele água e um guarda-chuva.
—O  quê?  —  Abraham  pareceu  perplexo.  —  Ah,  sim,  está  chovendo.
Obrigado. Ah, Meena, oi. Água? Não, não. Não preciso de água. Estou bem.
O acesso de tosse que se seguiu contradisse a afirmação dele e, apesar dos
protestos,  foi  forçado  a  tomar  água.  Eles  o  ajudaram  a  ir  até  um  banco
próximo, onde estava descansando e tentando recuperar o fôlego quando seus
olhos se arregalaram ao ver alguma coisa atrás do ombro esquerdo de Meena.
Ele ergueu um dedo trêmulo, com a boca aberta.
—  Mas  que  diabos?  —  disse  Carolina  depois  de  se  virar  e  ver o  que  o
tinha  assustado.  O  rosto  dela  ficou  paralisado  em  uma  expressão  similar  de
medo. — Jesus Cristo!
— Exatamente o oposto — falou Lucien secamente.
Carolina apalpou automaticamente o cinto... até se lembrar que sua arma
havia sido apreendida. Ela gemeu.
—Me  perdoe,  senhor  —  disse  o  dono  da  loja  de  conveniência  para
Lucien. — Mas você precisa de um guarda-chuva?
— Não, obrigado — respondeu Lucien.
—Esse  homem  é  o  demônio  na  face  da  terra!  —  Abraham  conseguiu
balbuciar. — É o mensageiro de Satanás.
—  Se Lucien estivesse aqui para matar vocês, não acha que já teria feito
isso? — sussurrou Meena para Holtzman, inclinada na direção dele.
—Temos problemas bem maiores do que ele agora. Todas essas pessoas
são  vampiros.  —  Ela  apontou  para  os  homens  e  mulheres  de  preto  que
estavam  de  pé  no  pátio,  parecendo  esperar  uma  ordem.  —  A  Palatina  foi
completamente infiltrada. Talvez mais do que apenas a Palatina. Talvez até a
Igreja inteira.
— Isso... Isso é impossível — exclamou Abraham.
Carolina apertou os lábios.
—  Não é não —  disse ela.  —  É o que venho tentando contar a você faz
tempo,  Abraham.  Mauricio.  Foi  ele!  —  Ela  lançou  um  olhar  assustado  para
Meena. — Alaric! Ele ainda está lá dentro. Com Mauricio!
Meena se virou. As portas do prédio estavam vazias. A única coisa que
estava saindo agora era fumaça.
Meena ergueu o olhar ansioso em direção a Lucien.
—  Temos  que  entrar  lá  —  disse  ela.  —  Precisamos  ajudá-lo.  Ele  não
consegue enxergar. Não consegue respirar...
— Eu vou — disse Lucien, e deu um beijo na testa de Meena. — cuidarei
de tudo. — Ele começou a andar a passos largos em direção à escada.
— Não tenho certeza de ser a melhor ideia —— falou Abraham.
—Ah, meus queridos... —  A irmã Gertrude apareceu, com uma das mãos
apertada  contra  o  peito  e  tentando  recuperar  o  fôlego  enquanto  procurava
passar pelas pessoas encharcadas que estavam de pé no pátio.
O padre Bernard vinha logo atrás. 
—  Viemos  o  mais  rápido  que  pudemos.  As  ruas  parecem  rios,  então
tivemos que passar pela água para chegar aqui. Mas seu irmão disse que talvez
houvesse problema. E parece que ele estava certo. Chegamos tarde demais?
Meena olhou para  eles e para Lucien, que subia a escada que  levava ao
prédio, com uma expressão de terrível determinação no rosto.
— Depois eu respondo — disse ela, e saiu correndo atrás dele.
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Alaric sabia que a explosão ia deixá-los na escuridão. Seria impossível
ver alguma coisa em meio a tanta fumaça... pelo menos, para um ser humano.
Assim, tinha memorizado onde cada guarda estava.
Quando  a  explosão  aconteceu  e  tudo  ficou  escuro,  ele  conseguiu  agir
rapidamente  e  desarmá-los. Afinal,  estava esperando  que  aquilo acontecesse.
Os guardas, não.
De  repente,  tinha  duas  bestas  de  alumínio  e  eles,  nenhuma.  Era  uma
grande melhoria na situação em que estava apenas segundos antes.
É claro que também tinha os ouvidos doendo devido à explosão, pulmões
rapidamente  se  enchendo  de  fumaça  ácida  e  não  conseguia  ver  nada.  Os
vampiros com quem ele estava preso no corredor não tinham nenhum desses
problemas.
Isso definitivamente era uma desvantagem.
A  vantagem  era  que  ele  tinha  um  conhecimento  preciso  e  extenso  da
arquitetura  do  prédio,  mesmo  no  escuro,  porque  havia  passado  bastante
tempo ali dentro.
Portanto,  assim  que  tomou  posse  das  bestas,  executou  uma  rápida
rolagem sobre o ombro para a frente (que poupou a perna ferida), pela porta
que dava na escadaria principal, onde esperava que o ar estivesse um pouco
mais limpo.
E estava.
Infelizmente,  os  guardas  não  aceitaram  graciosamente  o  fato  de  suas
bestas terem sido confiscadas e foram atrás dele.
Alaric  não  levou  muito  tempo  para  se  livrar  deles,  embora  tenha  sido
mordido  várias  vezes.  Isso  foi  uma  infelicidade,  mas  difícil  de  evitar
considerando as condições de baixa visibilidade. Também desperdiçou várias
flechas.  Mas  conseguiu  pegar  o  coldre  de  um  dos  guardas,  apalpando-o  no
escuro. Foi uma experiência desagradável para os dois, mas inevitável.
Mais desagradável foi ouvir a porta da escadaria sendo aberta e Henrique
Mauricio gritando “Wulf!” com uma voz que não era muito diferente da que
tinha  saído da garotinha cujo corpo fora possuído por um espírito demoníaco
na noite em que os dois se conheceram.
Alaric rapidamente carregou a besta, o que não foi fácil de fazer com uma
arma desconhecida, agachado em uma área da escada no escuro, em meio à
fumaça e com a perna ferida. Ainda mais com a distração de sirenes e passos
de pessoas descendo as escadas no andar de  cima. As  portas da rua haviam
sido abertas. A fumaça, agora que tinha para onde ir, estava sendo sugada para
além dele com mais força ainda.
— Sei que você está aí, Wulf — gritou Mauricio pela escada. — É melhor
se render.
—  Ou talvez eu devesse sair correndo  —  disse Alaric.  —  Como você na
noite do exorcismo no Vidigal.
Mauricio riu.
—  Não  foi  um  dos  meus  melhores  momentos,  eu  admito.  Batizados,
comunhões, missas... esses são fáceis de fingir. Mas arrancar a besta negra da
alma  de  uma  criança?  Como  eu  poderia  fazer  isso..,  principalmente  a  besta
negra  sendo  meu  mestre?  Você  perceberia  que  eu  estava  fingindo  em  um
segundo. Não tive escolha a não ser fugir.
—  Escolha  errada  —  disse  Alaric.  —  Eu  vi  que  você  era  uma  farsa
mesmo assim.
— Eu sei. Eu devia ter matado você naquela noite.
— Eu devia ter matado você naquela noite.
—  É óbvio. Mas em vez disso, aqui estamos. Sabe, não precisa ser  assim.
Há vantagens em estar no meu time. Você podia ter uma vida muito agradável
se quisesse...
—  Por  favor,  não  tente  me  falar  sobre  todo  o  ouro  do  Vaticano  que
pretende me oferecer—  interrompeu Alaric, cansado.  —  Já estou muito bem
financeiramente  e  você  está  desatualizado.  O  Vaticano  vem  operando  em
déficit há anos.
—  Não era isso que eu ia dizer  —  falou Mauricio.  —  Eu quis dizer que
está  evidente  que  você  está  com  dor  agora.  Consigo  ouvir na  sua  voz.  Está
cansado e tenho certeza de que está se sentindo fraco por causa da fumaça que
tem nos pulmões. Imagine uma vida em que jamais teria que sentir fraqueza
ou dor. Imagine uma vida na qual jamais sentiria necessidade de dormir, jamais
ficaria um dia sequer mais velho e teria força sobre-humana. Pense no  quanto
essas habilidades seriam úteis para derrotar seus inimigos.
— Você é meu inimigo — observou Alaric.
—  Sou? —  perguntou Mauricio. —  Tomei a liberdade de dar uma olhada
em seu arquivo pessoal, Alaric, e acho que sei quem é seu verdadeiro inimigo.
E  não  sou  eu  e  nem  nenhum  outro  vampiro.  É  seu  pai,  não  é,  Alaric?  O
homem que o abandonou quando você era bebê? Você se tornar vampiro não
tornaria  a  vingança  que  tenho  certeza  que  deve  estar  planejando  contra  ele
bem mais gloriosa?
—  Por que ninguém entende? —  perguntou Alaric, frustrado de verdade.
— Eu não gosto de vampiros.
Ele ficou de pé e disparou. Nem conseguia ver para onde estava mirando
por causa da fumaça.
Mas tinha ouvido com atenção a voz de Mauricio e tinha visto o brilho
vermelho  dos  olhos  do  vampiro.  A  besta  era  do  tipo  que  disparava
repetidamente e lançava flechas múltiplas, uma atrás da outra. Uma delas, ao
menos, devia ter acertado o alvo.
Ele viu um pé emergir da fumaça e pousar no degrau mais próximo dele.
Instintivamente, recuou.
Principalmente porque a figura escura que surgiu tinha sido atingida por
todas as flechas que ele havia disparado... cada uma delas estava pregada no
centro de onde o coração dele deveria estar.
Mas ele não estava morto. Ainda caminhava em direção a Alaric, com um
pequeno sorriso dançando nos lábios.
—  Vou dizer uma coisa em seu favor, Wulf. Você não desiste facilmente.
Gosto disso. É o que o tornaria um elemento tão valioso em minha equipe.
—  Como...?  —  Alaric  estava  perplexo.  —  Como  isso  é  possível?  Você
deveria estar morto. Todas essas flechas foram direto no seu coração.
—  Eu sei  —  disse o padre  Henrique, dando de ombros.  —  Mas só há
uma  coisa  que  pode  me  matar.  E  você  não  a  encontrou.  Agora,  vamos
conversar sobre onde você colocou aquele livro.
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Não sei se é a melhor ideia.
As palavras de Abraham ecoaram na cabeça de Meena. Até mesmo antes
de ouvi-las, ela sabia.
Não podia confiar em Lucien. Uma parte dela sempre o amaria, mas sabia
que jamais poderia confiar nele... não com algo tão importante como a vida de
Alaric. Principalmente não  agora, com  Lucien  só  falando  sobre  o  Mannette.
Havia alguma coisa naquele lugar que a tinha feito sentir do jeito contrário ao
sonho com Lucien e a mãe.
Assim, subiu correndo os degraus atrás dele,  apesar dos gritos todos para
que parasse.
Mas não importava. Primeiro porque, na pressa, tinha esquecido a bolsa,
que estava com as estacas, a água benta e a SuperEstaca. Ficara no banco onde
Abraham estava sentado.
E segundo porque, antes de Lucien ter  a chance de botar o pé no prédio,
Alaric e o padre Henrique apareceram na porta, da maneira mais bizarra que
Meena já tinha visto.
Alaric  estava  sem  camisa  e  descalço,  com  uma  besta  presa  às  costas.
Segurava  outra  besta.  O  padre  Henrique,  usando  um  hábito  esvoaçante  que
em algum momento já havia sido branco, lutava com  ele, tentando tirar sua
arma.  Como  Abraham, eles  estavam  cobertos  de  fuligem  e  sujeira.  Nenhum
dos  dois  pareceu  perceber  que  estavam  de  pé  na  passagem  e  sendo
observados.
Meena  ficou  paralisada,  ofegando.  Não  só  por  haver  quatro  flechas
espetadas no peito do padre Henrique, mas porque o padre estava trincando
os dentes, o que deixava as presas claramente visíveis, mesmo de longe. 
Meena  não  era  a  única  completamente  chocada  em  ver  que  o  padre
Henrique era um vampiro que nem estacas de madeira no peito podiam matar.
Tinha  ouvido  o  filho  do  dono  da  loja  de  conveniência  largar  a  caixa  de
garrafas de água e guarda-chuvas... e ele nem conhecia o padre.
O som da caixa caindo no chão assustou Alaric, que parecia ter chegado
ao seu limite de resistência. Ele virou a cabeça e pareceu chocado de ver todos
eles  ali  de  pé...  principalmente  Meena.  Por  um  segundo  agonizante,  seus
olhares se uniram.
E ela  leu toda  a  dor, sofrimento  e  solidão  que  ele  viveu  nas  últimas  24
horas  naqueles  olhos  azuis...  mas  também  viu  a  esperança  e  a  alegria  que
sentiu por vê-la naquele momento.
Aquele foi o erro dela.
Porque Alaric, exausto, se permitiu distrair pelo olhar dela e afrouxou as
mãos que seguravam a besta por uma fração de segundo.
E o padre Henrique tirou a arma das mãos dele, se virou, pegou Meena
pelo braço e apontou a besta...
Para a cabeça de Meena.
Um  silêncio  aturdido  tomou  conta  do  pátio.  Exceto  pelo  barulho  da
chuva, nenhum outro som podia ser ouvido. Até as sirenes ao longe haviam
parado. Todo o tráfego nas ruas ao redor estava bloqueado e, assim, a cidade
se encontrava, pela primeira vez, completamente sem ruídos.
E deve ter sido por isso que a voz de Lucien, quando ele falou, soou tão
alta quanto um trovão.
— Solte-a agora — disse ele para o padre Henrique—, ou morra.
Alaric,  que  tinha  se  encostado  à  moldura  da  porta  e  não  parecia  mais
capaz de suportar o próprio peso, sacudiu a cabeça. Parecia derrotado, exausto
e mais amargo do que Meena jamais  o tinha visto. O coração dela se apertou
por ele.
—  Ele não pode ser morto  —  disse Alaric para Lucien.  —  Acredite. Já
tentei.
—  Bem  —  disse  a  irmã  Gertrude,  sacando  as  Berettas  gêmeas  que
estavam  sob  o  hábito  —,não  conheci  nenhum  sugador  de  sangue  que  não
tenha virado pó depois de conhecer minhas balinhas de prata. 
Os  vampiros  que  estavam  de  pé  ao  redor  dela  começaram  a  recuar,
rosnando.
—  Não  —  Alaric  se  dirigiu  à  irmã  Gertrude.  —  Você  pode  acertar
Meena.
A freira pareceu ofendida.
—  Eu me qualifiquei como a especialista com melhor desempenho entre
todos os oficiais seniores nas finais do ano passado.
—  Balas não podem me matar  —  declarou o padre Henrique para todos
eles,  em  voz  bem  alta.  —  Nem  estacas,  imersão  em  água  benta,  luz  do  sol,
crucifixos e nem fogo. Meu senhor  —  isso foi voltado a Lucien  —, sei o que
isso  pode  parecer,  mas  juro  que  não  tenho  intenção  alguma  de  ferir  esta
moça... desde que você me escute. Tudo que fiz foi em seu serviço.
—  Acho  um  pouco  difícil  de  acreditar  —  afirmou  Lucien,  trocando
olhares com Emil. — Mas solte-a e podemos discutir isso.
— Com prazer, senhor — disse o padre Henrique. Mas não fez nada para
soltar Meena. — Estou completamente ciente do que isso pode aparentar, mas
se você está pensando naquela rede e na água benta, posso garantir que não fui
eu, meu senhor. Foram os arcebispos. Eles acharam que a Palatina não estava
fazendo  o  bastante  para  que  você  se  revelasse  e  decidiram  que  era  hora  de
cuidar do assunto com as próprias mãos...
Mesmo  de  onde  estava,  Meena  podia  ouvir  Abraham,  magoado  pela
desconsideração contra sua divisão, inspirar profundamente.
—  Quando soube do plano deles  —  prosseguiu o padre Henrique—, é
claro que discuti exaustivamente contra. Os velhos não queriam ouvir. Então
me  ofereci  para  assumir  e  supervisionar,  sabendo  que  podia  ajudar  Vossa
Majestade ao me certificar de que os métodos deles eram ineficientes...
— Então você infectou meu ex-namorado e o mandou atrás de mim para
me matar?  —  perguntou  Meena, incrédula.  —  Esse foi um dos métodos que
você se certificou ser ineficiente?
—  Essa foi outra sugestão dos arcebispos  —  disse o padre Henrique, na
defensiva. —  E embora eu não tenha tido outra escolha além de obedecer, eu
me  certifiquei  de  que  Vossa  Majestade  não  seria  capturado.  Lamento  que
tenha se ferido, Srta. Harper. E que a esposa do cavalheiro em questão tenha
sido transformada e escapado de nós. Foi um engano infeliz...
—  Engano?  —  Abraham parecia incapaz de permanecer em silêncio por
mais  um segundo.  —  Espera que acreditemos que os arcebispos permitiram
que um vampiro tenha sido mandado atrás de Meena por engano? Os corpos
encontrados em Barrens foram colocados lá por engano também?
O padre Henrique apenas sorriu.
—  Esse  é  um  assunto  que  você  terá  que  levar  a  seus  supervisores  —
respondeu  ele.  —  A  única  coisa  que  fiz  foi  me  certificar  de  que  as  ordens
fossem seguidas, ao mesmo tempo não fazendo nada que pudesse colocar em
perigo meu próprio superior... — Ele fez uma leve reverência para Lucien.
— Que corpos? — murmurou Meena.
Alaric respondeu com cansaço.
—  De todos os turistas mortos. Ele os levou para Pine Barrens. Há uma
porta do inferno lá. Era onde Abraham e os outros estavam... e foi por isso
que você não conseguiu senti-los. Portas do inferno são zonas mortas. Nada
pode existir lá além do mal.
Meena se lembrou de Abraham descrevendo as portas do inferno para ela
no carro no dia anterior — que parecia ter acontecido mil anos antes.
—  Não peço nenhum tipo de recompensa, meu senhor  —  disse o padre
Henrique  para  Lucien.  —  Não  fiz  nada  fora  do  normal...  apenas  tirei
vantagem  da  oportunidade  quando  surgiu.  Se  me  saí  bem,  foi  só  por  tê-lo
como inspiração. A melhor maneira de evitar a derrota pelo inimigo é infiltrarse nele e ir subindo hierarquicamente, lentamente, substituindo sua tropa.
Tremendo, Meena olhou pelo pátio para todos os guardas palatinos que
não  reconheceu.  Estavam  olhando  para  o  padre  Henrique  com  devoção
completa.
Lucien estava certo o tempo todo: o próprio empregador  dela estava por
trás do ataque que ela sofreu.
Os  demônios  ela  podia  perdoar...  em  parte.  Eles  não  podiam  fazer
diferente. Mas  os  humanos  que  permitiram  que  isso  acontecesse, cegamente
promovendo  o  padre  Henrique,  de  sendo  vampiro  o  tempo  todo?  Como
podia  ter  acontecido?  Como  era  possível  que  ninguém  tivesse  percebido,
exceto Alaric, que sempre o havia odiado? 
Por fim, Lucien falou. A voz dele não soava mais como trovão.
—  Você  fez  bem—disse  ele  para  o  padre  Henrique.  —  Me  entregue  a
garota e vou deixá-lo executar suas... atividades.
— O quê? — Meena não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
E ela  não  era  a  única.  A  onda  de  indignação  que  percorreu  o  pátio,  ao
menos dentre os humanos, foi inconfundível.
—  Obrigado,  meu  senhor  —  disse  o  padre  Henrique,  fazendo  outra
reverência. Ele sorria com satisfação.  —  Eu sabia que você aprovaria quando
soubesse a verdade.
— Isso é papo-furado! — gritou Carolina, de pé ao lado de Abraham.
Alguns  dos  vampiros  perto  dela  deram  um  passo  mais  para  perto,  mas
Carolina tinha encontrado os frascos de água benta na bolsa de Meena e os
estava  segurando  de  forma  ameaçadora  acima  da  cabeça.  A  irmã  Gertrude
exibia as Berettas e Abraham encontrou a SuperEstaca e logo descobriu o q ue
acontecia  quando  era disparada.  Eles  estavam  conseguindo  manter  o  círculo
ao  redor  deles  bem  aberto...  mas  quanto  tempo  isso  ia  durar  depois  que
ficassem sem munição, não dava para saber.
—  Lucien —  disse Meena, avaliando ansiosamente o rosto dele na chuva
em  busca  de  algum  sinal  de  que  estivesse  blefando.  Lucien  não  podia
realmente ter a intenção de deixar essa... coisa ficar impune depois do que fez.
Mas quando ele se reclinou na escada, esticando a mão na direção dela,
Meena não viu a menor indicação no rosto dele de que Lucien não estivesse
falando sério.
— Venha, Meena — chamou ele, sacudindo a mão com impaciência.
—  Mas ele vai matá-los  —  disse ela enquanto a chuva caía entre os dois.
— Vai matar todos eles.
A voz de Lucien estava dura.
—  Meena, eles estavam dispostos a deixar você morrer. Vai dar sua vida
tentando salvar pessoas assim? Acho que não. Vamos.
Meena  olhou  para  Alaric.  Ele  tinha  escorregado,  ainda  encostado  na
porta, até o chão, incapaz de permanecer de pé. Estava sentado com as costas
contra  a  moldura  da  porta,  fazendo  tudo  que  podia  para  permanecer
consciente. Ainda assim, conseguiu reunir forças para erguer a cabeça e dizer:  
— Meena. Vá.
—  Você ouviu o homem  —  disse o padre Henrique para ela. Seus olhos
castanhos  escuros  se  prenderam  aos  dela  com  uma  expressão  que  ela  não
conseguiu  identificar  e  que  a  fez  lembrar  da  expressão  dele  durante  a
entrevista com Genevieve Fox.
Levou um momento para se dar conta do que a expressão significava.
Era triunfo. Ele havia vencido.
— Ele quer que você vá — disse o padre Henrique, sorrindo.
— Não — disse Meena, balançando a cabeça. — Não.
—  Meena.  —  A voz de Lucien estalou como um chicote.—  Venha para
mim. Agora.
Ela se sentiu paralisada. O que o padre Henrique pensou ter vencido? E o
que  tinha acontecido a Lucien que o transformou no oposto do homem por
quem tinha se apaixonado? Um homem atraído para as trevas em vez da luz,
um homem que vivia debaixo das ruas, e escavados pelas águas de um riacho
esquecido?
E, de repente, ela se lembrou do que a estava incomodando sobre o
Mannette...  uma  pequena  informação  que  lera  durante  a  pesquisa  feita
havia muito tempo.
Quando  os  colonizadores  holandeses  chegaram  a  Manhattan  nos  anos
1620,  os  nativos  contaram  para  eles  sobre  um  riacho  que  os  Lenape
chamavam de Mannette. Traduzido, significava “Água do Demônio”.
Abraham  contara  a  ela  que  havia  lugares  para  os  quais  as  criaturas  de
natureza malevolente eram atraídas, porque desconfiava-se que tinham ligação
direta com o diabo.
Meena se virou para Lucien, com lágrimas descendo pelo rosto junto com
a chuva.
—  Era isso que você estava fazendo perto do riacho Minetta esse tempo
todo, Lucien? — perguntou ela, com a voz falhando. — Tirando a energia que
precisava do seu mestre para fazer isso comigo... e meus amigos?
Assim que viu a expressão furiosa no rosto dele, soube que estava certa.
Sua  esperança  desesperada  de  que  houvesse  alguma  outra  explicação  para  o
comportamento dele, qualquer coisa diferente do que suspeitara, não passava
mesmo de desespero.
Em um piscar de olhos, ele subiu os degraus e agarrou o braço dela com
dedos que afundaram na pele. Não ligava mais de uma besta estar apontada
para a sua cabeça. Por que deveria se importar de estar causando dor nela?
—  Meena  —  disse ele, com uma voz que era tão brutal quanto o modo
como ele a segurou—, nós vamos embora. Acabou.
Ela sabia precisamente o que ele queria dizer com essas palavras. Não só
a conversa havia terminado, mas também as lutas dela para trazê-lo de  volta
para  o  lado  dela...  o  lado  da  humanidade.  O  demônio  dentro  dele  havia
vencido  e  finalmente  tomado  as  rédeas.  Lucien  permitira  que  tomasse  as
rédeas, tinha alimentado e cuidado dele ao lado das águas do Mannette. Não
havia  nada  que  ela  pudesse  fazer  agora  para  chegar  a  ele,  porque  conceitos
como bem e mal  —  e vida e morte  —  não significavam mais nada para ele.
Não fazia diferença, desde que tivesse o que queria.
Com mais medo do que jamais sentira na vida, ela olhou para Alaric, tão
esgotado  e  exausto  que  parecia  ter  desistido...  só  que,  naquele  momento,
quando Lucien a afastou do padre Henrique, Alaric ergueu a cabeça. Quando
seus olhares se encontraram, uma imagem surgiu em sua mente com tamanha
clareza que foi como se Alaric a tivesse colocado no cérebro dela.
— E o livro? — Meena se ouviu dizer.
As  mãos  do  padre  Henrique,  que  tinham  abaixado  a  besta,  de  repente
tornaram  a  subir.  Os  dedos  de  Lucien  apertaram  ainda  mais  o  braço  de
Meena.
— Que livro? — perguntou o padre, inconfundivelmente nervoso.
— O livro — disse Meena. — O livro de Lucien, o que a mãe dele deixou
para ele. — Ela olhou para Lucien. — Você não o queria de volta?
A expressão de Lucien mudou. Antes, ele parecia furioso e concentrado
em um único propósito: recuperar Meena.
Agora, seu foco mudou ligeiramente.
Acima das cabeças deles, um trovão soou. Alguns dos humanos que não
eram  da  Palatina  e  que  estavam  de  pé  no  pátio  se  viraram  e  tentaram  ir
embora, mas os Lamir bloquearam a passagem.
—  É  claro.  —  O  padre  Henrique  sorriu  fracamente  para  Lucien.  —
Lamento  muito  quanto  a  isso,  meu  senhor.  Esse  foi  outro  dos  planos  que
bolaram para capturar o senhor. Mas eu...
—  Você não me contou que precisamos impedir que esse livro caia nas
mãos de Lucien a todo custo? — perguntou Meena inocentemente. — Porque
o tornaria todo-poderoso?
Os olhos do padre Henrique se arregalaram.
—  Eu  disse  isso  —  admitiu  ele.  —  Mas  só  falei  essas  coisas  para  ser
convincente no papel que eu estava executando de um dos...
—  Onde está o livro? —  inquiriu Lucien. A tensão na voz dele não era o
único  sinal  de  que  ele  estava  ficando  impaciente.  Os  trovões  e  a  repentina
intensidade do vento também indicavam isso.
— Só Alaric Wulf sabe — respondeu o padre Henrique rapidamente.
— E ele não quer dizer. Acredito que deva tê-lo destruído.
Meena sentiu o chão tremer e olhou ao redor, confusa, porque não ouvira
explosão alguma. Ela levou um momento para se dar conta de que não fora o
boiler de novo. Era o Mannette. Lucien estava cada vez mais furioso, e a ira
dele  podia  ser  sentida  debaixo  dos  pés  de  todos.  Provavelmente  havia  sido
detectada  a  quilômetros  de  distância  e  avaliada  erroneamente  por  geólogos
como um pequeno terremoto em vez do que realmente era... o tremor de uma
porta do inferno.
—  Oh,  céus  —  exclamou  a  irmã  Gertrude  depois  de  se  recuperar  do
choque do tremor. — Alaric não o destruiu. Ele o entregou para mim ontem à
noite, no museu, quando estava procurando Meena. Pediu que  eu guardasse
comigo o tempo todo e não o entregasse a ninguém.
Os vampiros que tinham  se reunido ao redor dela deram um passo para
trás  quando  ela  tirou  do  hábito  o  pequeno  manuscrito  com  sua  capa  dura
cheia de pedras preciosas.
Sem  a  luz  da  exposição  e  na  escuridão  da  tempestade,  ele  parecia  bem
menos um objeto religioso mítico e mais um livro muito velho e frágil.
Ainda assim, quando o olhar de Lucien caiu sobre ele, seu rosto mudou.
A tensão pareceu sumir e o brilho vermelho que Meena tinha se acostumado a
ver nos olhos dele diminuiu.
—  Entregue para mim  —  disse ele com uma voz que não se parecia em
nada com um trovão.
A irmã Gertrude andou nervosamente pela multidão de vampiros e subiu
os  degraus,  onde  lançou  um  olhar  demorado  para  Alaric,  que  parecia  ter
gastado  suas  últimas  reservas  de  energia  enviando  para  Meena  a  imagem
mental  do  livro,  pois  sua  cabeça  pendia  sobre  o  peito.  Ele  parecia  estar
inconsciente.
—  Quero que saiba que eu o li  —  disse a irmã Gertrude ao entregar o
livro para Lucien. Ela não parecia conseguir evitar o ar de extrema reprovação
que irradiava... reprovação não por causa do livro, Meena sabia, mas por causa
de Lucien e do padre Henric. — Eu me formei em Latim.
Depois  de  hesitar  por  uma  fração  de  segundo,  Lucien  esticou  a  mão  e
pegou o livro da mão dela.
Assim que seus dedos encostaram na capa com pedras preciosas, a chuva
parou.
— É um livro lindo — declarou a irmã Gertrude.
Lucien já o tinha aberto e começado a virar as páginas, observando com
fascinação.
Meena olhou para cima. As nuvens no céu estavam indo embora.
—  Ah  —  disse  a  irmã  Gertrude,  se  virando  ao  descer  os  degraus—,  e
você talvez queira prestar atenção especial à página 47...
Foi  nesse  momento  que  o  padre  Henrique  puxou  Meena  para  o  lado,
apontou a besta diretamente para a irmã Gertrude e disparou.
 40
O disparo seria fatal se não fosse por duascoisas.
Primeiro, Carolina viu o que o padre Henric estava prestes a fazer e pulou
em  cima  da  irmã  Gertrude,  tirando-a  do  caminho  das  quatro  flechas
disparadas,  uma  depois  da  outra,  pelo  mecanismo  automático.  Em  vez  de
afundarem no coração grande e generoso da irmã Gertrude, elas a atingiram
no ombro enquanto Carolina a empurrava.
E  segundo,  Meena  bateu  no  padre  Henric  com  toda  a  força  que
conseguiu, com o cotovelo no plexo solar. O padre perdeu o  equilíbrio, mas
não soltou Meena. Os dois cambalearam escada abaixo  e o disparo saiu um
pouco para o lado.
—Irmã!  —  O padre Bernard se inclinou ao lado da irmã ferida.  —  Você
está bem?
—Não toque nelas — avisou Abraham quando o filho do dono da loja de
conveniências estava prestes a fazer o que qualquer um faria instintivamente.
— Ela vai sangrar muito. Precisamos de uma ambulância.
— Nenhum veículo de emergência consegue passar — lembrou Morioka.
— Está vendo? — Meena se virou para falar com Lucien, agitada.
—  Tem  alguma  coisa  nesse  livro  que  ele  não  quer  que  você  veja.  Ela
estava  tentando  ajudar  você  e  ele  disparou  contra  ela.  É  por  isso  que  não
podemos simplesmente ir embora.
Emil, que havia corrido para pegar a besta que o padre Henrique deixara
cair quando Meena o atingiu, parecia concordar.
—  Meu senhor —  disse ele enquanto olhava para o padre, que era quase
uma  cabeça  mais  alto  que  ele.  —  Me  perdoe,  mas  sinto  como  se  houvesse
alguma coisa de familiar nessa... criatura.
—  Não,  não,  você  está  enganado  —  retrucou  o  padre  Henrique
rapidamente.  —  Achei  que  a  freira  ia  pegar  a  arma.  Eu  só  estava  tentando
defender Sua Majestade.
—  Não  —  disse  Lucien.  Ainda  estava  folheando  lentamente,  de  forma
quase  reverencial,  as  páginas  do  manuscrito.  —  Emil  está  certo.  De  perto,
você  parece  ligeiramente  familiar.  De  onde  conheço  você?  Sem  contar  de
ontem à noite no Met.
—  O  senhor  não  me  conhece  —  respondeu  o  padre  Henrique
rapidamente. —  Sou da América do Sul. Nunca estive nesta parte do mundo
—  Sei  que  parece  improvável  —  disse  Emil  —,  mas  alguma  coisa  nele
lembra seu pai, meu senhor.
—  Nunca  —  negou o padre Henrique com uma risada nervosa.  —  Mas
agradeço o elogio...
Lucien  tinha  parado  de  virar  as  páginas.  Olhava  fixamente  para  alguma
coisa.  De  onde  Meena  estava,  ela  podia  ver  uma  ilustração  brilhantemente
iluminada de um homem com aparência familiar segurando o que parecia ser a
Terra nos braços. Acima dela estava uma imagem do céu, completa, com um
anjo. Abaixo dela, o inferno e Lúcifer.
Havia alguma coisa escrita ao longo da imagem. O texto estava em uma
caligrafia  forçada  e  em  uma  língua  que  Meena  não  conseguia  decifrar,
principalmente de cabeça para baixo.
Mas já sabia o que dizia, porque ouvira o texto lido em voz alta muitas
vezes.  Era  a  ilustração  do  sonho...  a  que  Lucien  e  a  mãe  estavam  olhando
sentados ao lado da janela.
Lucien  a  reconheceu  também...  só  que  a  associação  que  ele  fez  com  a
figura  foi  bem  diferente  da  de  Meena.  Ele  ergueu  a  cabeça  de  repente  para
olhar para o padre Henrique.
—  Foi  você  —  declarou  Lucien.  Seu  olhar  voltou  a  ficar  vermelho
intenso.
—  O quê?  —  Os olhos do padre Henrique se arregalaram pela negação.
... e pelo medo. — Não, não, meu senhor. Não sei de que o senhor...
—  Este  é  você.  —  Lucien  ergueu  o  livro.  Com  uma  visão  clara  da
ilustração  pela  primeira  vez  —  no  sonho,  ela  só  tinha  conseguido  dar  uma
rápida olhada —, Meena podia ver que ele estava certo. A pessoa na ilustração
era  o  padre  Henrique.  A  semelhança  era  inconfundível:  o  cabelo  escuro
encaracolado,  os  olhos  escuros  e  o  queixo  forte  e  bonito.  Até  o  hábito
esvoaçante de padre parecia igual.
A única diferença  era que, naquela  época, o padre  Henrique usava uma
tonsura, um círculo de cabelo raspado no meio da cabeça.
—  Eu me lembro  —  disse Lucien, parecendo bem mais o homem pelo
qual ela havia se apaixonado do que nos dias recentes.  —  Eu me lembro de
você agora. Você era o padre do castelo Poenari. Padre Henric. Você rezava as
missas. Você me deu minha primeira comunhão. Você me batizou. Você me
deu aulas de catecismo com este livro.
O padre Henrique pareceu se dar conta deque havia sido identificado... e
de que era mais inteligente usar uma abordagem diferente.
—  Mas  sim  —  disse  ele  com  submissão.  —  Sim,  meu  senhor,  fui  eu.
Estou  tão  honrado  de  ter  sido  lembrado.  Não  achei  que  valesse  a  pena
mencionar  porque  foi  há  tanto  tempo  e  o  senhor  se  elevou  ainda  mais  no
mundo desde então, enquanto eu...
—  América  do  Sul?  —  Lucien  olhou  de  volta  para  o  livro.  —  O  que
andou fazendo esse tempo todo na América do Sul?
—  Ah  —  disse  o  padre  Henric  —,  o  mesmo  de  sempre.  Rezei  missas.
Primeira comunhão. Ensinei catecismo. Batismos...
—  Como  você  consegue?  —  perguntou  Emil,  perplexo.  —  Só  a  água
benta...
O padre Henric sorriu.
—  Quando  um  padre  invoca  o  lado  das  trevas  a  pedido  de  um
paroquiano  —  disse ele  —, como fiz para seu pai, meu senhor, quando sua
mãe  morreu, ele  assume um  enorme  risco.  E as  coisas  eram  bem  diferentes
naquela época. Eu podia ter sido excomungado, ou pior. Não havia nada mais
justo  que  eu  ter  uma  recompensa.  A  imortalidade  era  o  mínimo  que  eu
merecia, mas o próprio príncipe das trevas escolheu me recompensar com um
bem maior do que isso. Depois de me morder e me tornar um da espécie dele,
descobri  que,  além  de  ter  o  dom  da  vida  eterna,  eu  também  parecia  ter
imunidade a todas as coisas que matam a maior parte dos demônios: a luz do
sol, estacas, crucifixos...
Para ilustrar, o padre esticou a mão e a pousou sobre o colar de Meena.
Alguns segundos depois, ergueu a mão e a mostrou.
A palma não tinha marca alguma.
—  Está vendo? —  Ele deu de ombros. —  Esse foi o presente do seu pai
para mim, senhor, pelo favor que fiz a ele. E eu não teria corrido esse risco
por nenhum outro paroquiano. Seu pai era um homem muito impressionante.
Ele amava muito sua mãe. Ela era uma mulher bem especial. E depois que ela
se foi, bem, você sabe que ele mudou. Ele se tornou um tanto...
— Louco — disse Lucien.
—  Preocupado  —  corrigiu  Henric.  —  Com  você  e  seu  irmão,  que  ele
descanse  em paz. Seu pai desejava que houvesse uma forma de garantir que
todos  vocês  pudessem  viver  para  sempre.  A  morte  da  sua  mãe  foi  muito
dolorosa e ele achava que não conseguiria suportar a ideia de perder qualquer
um de vocês. Assim, me pediu para ver se eu  conseguia descobrir um jeito de
tornar todos vocês imortais. E então...  —  O padre deu de ombros.  —  Foi o
que fiz. E você nem precisa agradecer por isso.
Desta  vez,  não  houve  tremor  algum  do  Mannette.  Nenhum  trovão.
Nenhum  relâmpago.  Lucien  não  respondeu à  declaração  do  padre  Henrique
de forma alguma.
Ele apenas abriu as mãos, permitindo que o livro de sua mãe, que estava
segurando com muita força, caísse no chão do pátio.
Ele  caiu  em  uma  poça.  Meena  viu  a  água  cheia  de  fuligem  cobrir  as
páginas douradas.
E com o pequeno gesto, ela soube. A revelação caiu sobre ela com tanta
clareza quanto se a própria mãe de Lucien tivesse voltado à vida e sussurrado
em  seu  ouvido.  Ela  não  apenas  soube,  mas  compreendeu,  não  só  por  que
Lucien tinha procurado o Mannette, mas todo o horror e dor que Lucien deve
ter  passado  durante  os  cinco  séculos  no  qual  viu  seu  pai  torturar  e  matar
centenas de milhares de pessoas, incapaz de fazer qualquer coisa para impedi lo...
... porque o próprio Lucien havia sofrido da mesma sede int erminável por
sangue e tinha matado (ou sido responsável pela morte) da mesma quantidade
de pessoas.
Só que, ao contrário do pai e do meio-irmão, ele jamais tinha aberto mão
da alma. Não completamente. Não podia.
Porque era fisicamente impossível.
—  Seu  pai ficou muito satisfeito com meu presente, meu senhor  —  disse
o padre Henric, se gabando. — E quero que saiba que fiquei ao lado dele até o
final.  Quando  fugi  dos  amigos  palatinos  em  Londres,  logo  depois  que  o
assassinaram, jamais parei de pensar em você, meu senhor. Viajei para o mais
longe  que  pude  para  fugir  deles,  para  as  florestas  da  América  do  Sul,  onde
descobri os Lamir. Naquele momento, começou a construir um exército para
trazer  comigo quando voltasse para você, para ajudar a vingar a morte dele .
Eu não podia ficar parado sabendo que você havia perdido sua amada mãe,
depois seu pai e por fim seu meio-irmão. Você não devia ser caçado como um
animal. Alguma coisa tem que ser feita. É por isso que estou aqui.
— Ele está mentindo.
Uma nova voz surgiu no pátio. Meena virou a cabeça e ficou atônita ao
ver Alaric não só de pé, mas segurando a besta que estava presa às suas costas.
Ele a  tinha  carregado  e  a  mantinha  apontada  para Henric,  embora  soubesse
perfeitamente que o padre não era vulnerável a flechas. Devia ser a força do
hábito.
—  Ele não é indestrutível —  disse Alaric para Lucien.  —  Ele me contou
lá dentro que só há uma maneira de matá-lo.
—  Ele  está  mentindo  para  você,  meu  senhor  —  falou  Henric
rapidamente.  —  Você não vê? Todos mentem porque não entendem a beleza
do que somos.
—  Não há nada de bonito no que você é  —  disse Meena zangada.  —  O
que  há  de  bonito  nisso?  —  Ela  apontou  para  a  irmã  Gertrude,  que  estava
deitada no chão cercada de um círculo de Lamir farejando o cheiro do sangue
dela  no  ar.  Só  Abraham,  segurando  a  SuperEstaca,  e  Carolina,  Morioka,
Santiago e o padre Bernard conseguiam mantê-los longe, usando as estacas e a
água benta que tinham encontrado na bolsa de Meena.
— Essa situação se tornou insuportável, meu senhor — disse Emil
— Vou ter que concordar — murmurou Mary Lou.
Lucien  olhou  para  eles  e  depois  para  Henric.  Mas  não  pareceu  ver
nenhum deles.
— Fiquem fora disso — disse ele. — Não tem nada a ver com vocês.
—  Tem sim  —  declarou Meena.  —  Tem a ver com todos nós.  —  parou
de falar para pegar o livro das horas do meio da poça.
Ele  não  parecia  ter  sido  muito  danificado.  Ela  havia  esquecido  que  as
páginas  eram  feitas  de  velino,  que  era  um  couro  quimicamente  tratado  e
essencialmente à prova de água. Era possível que, depois que secasse, o livro
ficasse bem. Como todos eles...
... se sobrevivessem.
—  Só  há  uma  coisa  boa  que  o  padre  Henric  já  fez  —  continuou
Meena.—  E,  na  ocasião,  ele  não  tinha  ideia  do  que  podia  gerar.  Assim  que
percebeu, ele tentou tudo que podia para manter escondido de você, Lucien,
porque é a única coisa que pode destruí-lo. É por isso que ele está aqui. Não é,
padre Henric?
—  Por  favor,  me  diga  que  não  vai  ouvi-la, meu senhor  —  protestou  o
padre Henric. —  Uma humana? São eles que vêm tentando nos destruir, e por
quê? Não podemos evitar o que somos. Por que devemos ser perseguidos e
caçados e até passar fome quando só estamos fazendo o que a natureza pede?
—  Natureza? —  perguntou Meena com uma risada seca.  —  O que havia
de natural no que você fez a Lucien, nos espíritos que invocou naquela noite
em que transformou o pai dele no que ele era? Aquilo não ia contra as regras
da natureza?
— O pai dele era meu príncipe — retorquiu o padre Henric. — Fiz o que
ele pediu.
—  Você  não  serve  também  a  um  príncipe  maior?  —  falou  Meena.  —
Não devia ter consultado a ele primeiro?
— Eu consultei — disse Henric, com um olhar triunfante.
—  exclamou Meena, abrindo o livro na página 74, a página do sonho.  —
Está falando deste príncipe? — Ela apontou para a ilustração de Lúcifer.
O sorriso de Henric tremeu.
— Precisamente.
—  Ele não é príncipe —  disse Meena. —  Como você sabe perfeitamente
bem, ele é um anjo caído. E o que a mãe de Lucien era?
— Uma p-princesa — gaguejou Henric. Mas havia terror em seus olhos.
— Não — disse Lucien, balançando a cabeça. — Ela era um anjo.
Meena  se  virou  para  olhar  para  ele.  Lágrimas  brilhavam  nos  olhos  dela
quando olhou nos dele, que tinham voltado ao tom castanho normal.
— Sim, Lucien —  concordou ela, segurando o livro aberto na frente dele.
—  É  por  esse  motivo  que  Henric  estava  tentando  esconder  isso  de  você.
Porque  se  deu  conta  de  que  era  a  única  coisa  que  podia  ajudar  você  a  se
lembrar  do  que  sua  mãe  sempre  ensinou.  Você,  dentre  todas  as  pessoas,
realmente tem escolha. Pode escolher ser bom... porque tem uma parte boa.
Independentemente do quanto tente ser o filho do diabo, você ainda tem um
anjo como mãe.
Ela  podia  ver  que  ele  entendia  agora.  Que  não  só  entendia,  mas  que  a
consciência  disso  sempre  estivera  lá,  mas  por  baixo  da  superfície,  como  o
riacho Minetta.
Só precisava ser libertada.
Lucien  ergueu  o  olhar  das  páginas  douradas  do  livro  que  ela  estava
segurando para olhar nos olhos dela.
— Meena — disse ele espantado.
Ela sorriu para ele.
— De nada — respondeu ela.
E foi por isso que ela mal ouviu alguém dizer atrás dela:
— Me dê isso.
O grito de alerta de Emil soou distante.
E então ela foi puxada para longe de Lucien, e a besta que Emil estava
segurando foi pressionada contra o peito dela pelo padre Henric.
Ela largou o livro de Lucien na lama.
—  Você  achou  que  um  livro  podia  me  destruir?  —  rosnou  o  padre
Henric. — Não. É ele. Só ele pode me destruir.
O  olhar  de  Meena  se  encontrou  com  o  de  Lucien.  Ele  pareceu  tão
confuso quanto ela. Só que o lado pontudo de uma besta não estava ferindo a
pele acima da caixa torácica dele como estava fazendo com a dela, então ela
desconfiou que ele não estivesse com medo.
Ou talvez estivesse. Seus olhos não tinham nem um ponto vermelho.
Estavam escuros como a noite.
—  Agora você sabe  —  disse o padre Henric quando começou a arrastar
Meena em direção aos arcos que levavam para longe do pátio.
—  Então sugiro que fique longe, meu senhor, ou vou disparar contra o
coração desta moça. Entendeu?
—  Acho que sim —  disse Lucien. —  Acho que entendi tudo agora. —  O
olhar dele nunca se afastou de Meena.
— Que bom — falou Henric. — Você não vai tornar a me ver.
— Disso eu não tenho tanta certeza — disse Lucien. — Wulf?
Alaric estava de pé no meio do pátio, com a besta apontada para a cabeça
do padre Henric, embora já soubesse que a arma não teria efeito.
—O quê?
—  Sei que você nunca gostou muito de  mim  —  afirmou Lucien com a
voz calma.
Alaric nem olhou na direção de Lucien.
— Isso mesmo — respondeu ele.
— E não tem razão alguma para confiar em mim.
— Correto — concordou Alaric.
— Mas sei que se importa com Meena Harper — prosseguiu Lucien.
— E que faria qualquer coisa por ela.
—  Também correto  —  disse Alaric, ainda não tirando os olhos do padre
Henric, cujo olhar ia de um homem para outro, com nervosismo.
—  Nesse caso  —  afirmou Lucien  —,acho que você sabe o que preciso
que faça.
—  Por mais que eu adorasse  —  disse Alaric, ainda sem tirar os olhos do
padre  —,  não  vai  dar  certo.  Ele  está  com  ela  em  uma  posição  de  disparo
direto.  Não  consigo  atirar rápido  o  bastante. Ele  vai  terminar matando-a  de
qualquer jeito. E, francamente, nenhum de vocês dois vale isso.
—  Parem  —  gritou o padre Henric, empurrando a besta com mais força
contra o peito de Meena. — Seja lá o que estiverem falando, parem agora!
Mas falar não era mais necessário. Meena sabia o que Lucien queria que
Alaric  fizesse...  e  o  que  Alaric,  milagre  dos  milagres,  estava  se  recusando  a
fazer.
Também percebeu o que o padre Henric quis dizer quando falou sobre
Lucien ser o único que podia destruí-lo. Sabia o que teria que fazer.
Ela não queria que terminasse assim. Não deveria ter que terminar assim.
Mas também sabia que era o único jeito no qual podia terminar, graças às
escolhas feitas por muitas outras pessoas... algumas delas mortas muito antes
de ela nascer.
Meena  se  perguntou  se  Joana  D’Arc  havia  se  sentido  assim  quando
acenderam o tronco no qual, depois de servir fielmente ao rei e ao país, tinha
sido amarrada em punição pela sua heresia. Joana não fizera nada além de se
recusar a mentir e, no final, fora queimada.
Literalmente.
Meena  achava  que  Joana  devia  ter  se  sentido  como  ela  se  sentiu  no
momento em que ergueu o pé e enfiou o calcanhar com toda a força que pôde
na  canela  do  padre  Henric,  e  sentiu-o  puxar  o  gatilho  da  besta,  devido  à
surpresa.
A sensação de que não era justo.

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