37
Meena subiu correndo os degraus e abriu as portas do que havia sido
a Escola Católica de Ensino Fundamental St. Bernadette.
Uma densa nuvem de fumaça atingiu-lhe o rosto. Ela cambaleou para
trás, tossindo.
— Meena. — Lucien estava atrás dela e a segurou pelos ombros, a
puxando para os degraus abaixo. —Pare.
— Não — disse ela, lutando contra as mãos dele. — Está tudo bem.
— Não está. — Ele a guiou de volta para o pátio, em direção ao chafariz
quebrado, onde a fumaça não estava tão densa. — Não adianta. Você não
pode entrar. Não vai conseguir respirar.
— Mas... — disse ela. As lágrimas provocadas pela fumaça já desciam por
seu rosto. Ela as limpou com o pulso. — Alaric...
O rosto de Lucien se contraiu. Meena percebeu que ele estava tão
preocupado quanto ela.
Mas ela sabia que a preocupação dele era apenas com o destino do livro.
— Nós iremos — disse Mary Lou, esticando os braços para dar um
abraço tranquilizador em Meena. — Vamos encontrá-lo, querida, não se
preocupe. A fumaça não nos afeta.
— Mas o fogo sim — lembrou-lhe o marido, apontando para algumas
janelas do porão do prédio. A fumaça que começara a sair delas era ma is preta
do que em qualquer outro ponto, o que era um sinal garantido de haver
chamas.
— Ah — exclamou Mary Lou. — Isso não parece bom.
— O que poderia haver lá embaixo para provocar uma explosão tão
grande? — perguntou Meena.
— Não sei — disse Mary Lou.. — O boiler, talvez?
Ah, Deus.
— O boiler — repetiu Meena fracamente. — Era muito antigo. O prédio
todo é antigo. Ele foi fechado por não ser seguro para crianças. Abraham disse
que não havia dinheiro no orçamento para consertá-lo, mas...
Ela estava começando a tagarelar. Lucien passou o braço ao redor dela e a
guiou até estarem debaixo de uma das passagens em forma de arco, protegidos
da chuva fina que havia recomeçado.
— Meena. — Lucien voltou a segurá-la pelos ombros. — Olhe para mim.
Tenho Certeza de que aquele boiler não explodiu por acidente. Está
entendendo? Aquela explosão não foi acidental.
Demorou uns dez segundos para que ela entendesse direito o que ele
estava dizendo. Quando entendeu, ela se virou e correu de novo em direção às
portas.
Desta vez, Lucien não precisou impedi-la de entrar no prédio. As próprias
portas fizeram isso ao se abrirem de repente. Por elas, começou a sair uma
multidão de pessoas, nenhuma delas parecendo perceber os três vampiros e a
garota chorando e assustada no pátio. Estavam concentrados demais em
escapar do prédio em chamas...
Meena ficou no pé da escada, esperançosa e ansiosa. A chuva começou a
fazer seu cabelo ficar grudado na cabeça e a escurecer a bolsa marrom de
couro falso enquanto ela esperava. As pessoas passavam e ela examinava cada
uma, procurando um rosto familiar para quem perguntar sobre Alaric.
Mas não reconheceu uma única pessoa.
— Quem são essas pessoas? —-perguntou ela por fim.
Lucien tinha se aproximado e colocado o casaco ao redor dos ombros
dela para protegê-la da chuva.
— De que você está falando? — perguntou ele.
— Eu... — Meena olhou ao redor.
Seu olhar voltou para as portas da frente do prédio, que alguém tinha
escancarado para deixar que a fumaça e o resto das pessoas saíssem, O nó que
ela vinha sentindo nos ombros parecia mais apertado do que nunca.
— Eu... não sei quem são essas pessoas — disse ela para Lucien. —
Nunca as vi na vida.
— Meu senhor. — Emil foi para o lado deles. — Se me permite... este
provavelmente não é o melhor lugar para ficar, considerando que você é o
homem mais procurado da história da Palatina e aqui fica o quartel-general
deles em Manhattan...
— Não acho que isso será problema — disse Mary Lou. — Olhem.
Outras pessoas tinham corrido para o pátio: donos de lojas das redondezas,
com garrafas de água e guarda-chuvas, e os poucos pedestres que estavam na
rua, apesar do tempo, ansiosos para ajudar como pudessem. Meena podia
ouvir o som de sirenes ao longe.
Elas não pareciam estar se aproximando.
— As ruas estão inundadas. — Meena ouviu a garçonete do café gritar
para todo mundo. Ela estava com o celular grudado ao ouvido. Falava com
um atendente da central de emergência. — Os veículos de emergência não
conseguem passar. Falaram alguma coisa sobre chuva demais para um período
muito curto de tempo... e sobre um riacho subterrâneo. Não sei do que ela
está falando. Nunca ouvi falar de riacho subterrâneo nenhum.
Meena olhou para Lucien, consternada.
— O Minetta — disse ela.
Ele apenas olhou para o outro lado.
Mas as vítimas da explosão de St. Bernadette não pareciam se preocupar.
Elas se reuniram no pátio sob a chuva, sem pegar os guarda-chuvas que as
pessoas estavam oferecendo, sem nem pegar os celulares para ligar para os
familiares.
Apenas ficaram ali de pé... esperando.
— Nenhum deles está tossindo — disse Mary Lou com firmeza. — Não
tem ninguém lacrimejando no meio da multidão.
O coração de Meena deu um salto. Mary Loa estava certa.
— Pensei que essa escola tivesse sido fechada. — Meena ouviu o dono da
loja de conveniência falando com o filho, que o tinha ajudado a levar uma
caixa cheia com guarda-chuvas e garrafas de água.
— Ouvi que uma nova empresa de internet comprou o prédi disse o
filho. — É óbvio. Olhe só para eles.
Era verdade, pensou Meena. Todo mundo que tinha saído do prédio era
magro, usava preto e tinha uma aparência excepcionalmente pálida...
Ah, Deus, pensou ela. O que tinha acontecido? O que tinha acontecido
com a Palatina? Quem havia feito isso? Onde estava Alaric?
E então Meena ouviu alguém tossir. Nunca na vida ficou tão feliz em
ouvir esse som. Ela se virou..,.e deu um gritinho de alegria.
— Carolina!
Uma mulher alta de cabelo escuro que tinha acabado de sair pelas portas
abertas se virou ao ouvir seu nome... e então, ao ver Meena, correu em direção
a ela de braços estendidos. As duas se abraçaram.
— Pensei que você estivesse morta — exclamou Meena.
— Não — disse Carolina. — Só estava em Nova Jersey. E Abraham? —
perguntou Meena. — Onde está Alaric? Alaric está bem?
— Abraham está ótimo. Estava logo atrás de mim. Alaric também.
Um peso que Meena nunca soube estar carregando pareceu ser tirado de
seu coração. A dor nos ombros também sumiu.
— Ele está bem? -— Ela se sentiu quase tonta. — Alaric está bem? Onde
ele está?
Carolina olhou por cima do ombro.
— Não sei. Eles estavam... Ah, ali está Abraham.
Abraham, parecendo bem mais velho do que sua idade real, apareceu na
porta, coberto de fuligem e tossindo com bastante intensidade. Meena correu
para ele. Carolina também. O dono da loja de conveniência e o filho correram
para oferecer a ele água e um guarda-chuva.
—O quê? — Abraham pareceu perplexo. — Ah, sim, está chovendo.
Obrigado. Ah, Meena, oi. Água? Não, não. Não preciso de água. Estou bem.
O acesso de tosse que se seguiu contradisse a afirmação dele e, apesar dos
protestos, foi forçado a tomar água. Eles o ajudaram a ir até um banco
próximo, onde estava descansando e tentando recuperar o fôlego quando seus
olhos se arregalaram ao ver alguma coisa atrás do ombro esquerdo de Meena.
Ele ergueu um dedo trêmulo, com a boca aberta.
— Mas que diabos? — disse Carolina depois de se virar e ver o que o
tinha assustado. O rosto dela ficou paralisado em uma expressão similar de
medo. — Jesus Cristo!
— Exatamente o oposto — falou Lucien secamente.
Carolina apalpou automaticamente o cinto... até se lembrar que sua arma
havia sido apreendida. Ela gemeu.
—Me perdoe, senhor — disse o dono da loja de conveniência para
Lucien. — Mas você precisa de um guarda-chuva?
— Não, obrigado — respondeu Lucien.
—Esse homem é o demônio na face da terra! — Abraham conseguiu
balbuciar. — É o mensageiro de Satanás.
— Se Lucien estivesse aqui para matar vocês, não acha que já teria feito
isso? — sussurrou Meena para Holtzman, inclinada na direção dele.
—Temos problemas bem maiores do que ele agora. Todas essas pessoas
são vampiros. — Ela apontou para os homens e mulheres de preto que
estavam de pé no pátio, parecendo esperar uma ordem. — A Palatina foi
completamente infiltrada. Talvez mais do que apenas a Palatina. Talvez até a
Igreja inteira.
— Isso... Isso é impossível — exclamou Abraham.
Carolina apertou os lábios.
— Não é não — disse ela. — É o que venho tentando contar a você faz
tempo, Abraham. Mauricio. Foi ele! — Ela lançou um olhar assustado para
Meena. — Alaric! Ele ainda está lá dentro. Com Mauricio!
Meena se virou. As portas do prédio estavam vazias. A única coisa que
estava saindo agora era fumaça.
Meena ergueu o olhar ansioso em direção a Lucien.
— Temos que entrar lá — disse ela. — Precisamos ajudá-lo. Ele não
consegue enxergar. Não consegue respirar...
— Eu vou — disse Lucien, e deu um beijo na testa de Meena. — cuidarei
de tudo. — Ele começou a andar a passos largos em direção à escada.
— Não tenho certeza de ser a melhor ideia —— falou Abraham.
—Ah, meus queridos... — A irmã Gertrude apareceu, com uma das mãos
apertada contra o peito e tentando recuperar o fôlego enquanto procurava
passar pelas pessoas encharcadas que estavam de pé no pátio.
O padre Bernard vinha logo atrás.
— Viemos o mais rápido que pudemos. As ruas parecem rios, então
tivemos que passar pela água para chegar aqui. Mas seu irmão disse que talvez
houvesse problema. E parece que ele estava certo. Chegamos tarde demais?
Meena olhou para eles e para Lucien, que subia a escada que levava ao
prédio, com uma expressão de terrível determinação no rosto.
— Depois eu respondo — disse ela, e saiu correndo atrás dele.
38
Alaric sabia que a explosão ia deixá-los na escuridão. Seria impossível
ver alguma coisa em meio a tanta fumaça... pelo menos, para um ser humano.
Assim, tinha memorizado onde cada guarda estava.
Quando a explosão aconteceu e tudo ficou escuro, ele conseguiu agir
rapidamente e desarmá-los. Afinal, estava esperando que aquilo acontecesse.
Os guardas, não.
De repente, tinha duas bestas de alumínio e eles, nenhuma. Era uma
grande melhoria na situação em que estava apenas segundos antes.
É claro que também tinha os ouvidos doendo devido à explosão, pulmões
rapidamente se enchendo de fumaça ácida e não conseguia ver nada. Os
vampiros com quem ele estava preso no corredor não tinham nenhum desses
problemas.
Isso definitivamente era uma desvantagem.
A vantagem era que ele tinha um conhecimento preciso e extenso da
arquitetura do prédio, mesmo no escuro, porque havia passado bastante
tempo ali dentro.
Portanto, assim que tomou posse das bestas, executou uma rápida
rolagem sobre o ombro para a frente (que poupou a perna ferida), pela porta
que dava na escadaria principal, onde esperava que o ar estivesse um pouco
mais limpo.
E estava.
Infelizmente, os guardas não aceitaram graciosamente o fato de suas
bestas terem sido confiscadas e foram atrás dele.
Alaric não levou muito tempo para se livrar deles, embora tenha sido
mordido várias vezes. Isso foi uma infelicidade, mas difícil de evitar
considerando as condições de baixa visibilidade. Também desperdiçou várias
flechas. Mas conseguiu pegar o coldre de um dos guardas, apalpando-o no
escuro. Foi uma experiência desagradável para os dois, mas inevitável.
Mais desagradável foi ouvir a porta da escadaria sendo aberta e Henrique
Mauricio gritando “Wulf!” com uma voz que não era muito diferente da que
tinha saído da garotinha cujo corpo fora possuído por um espírito demoníaco
na noite em que os dois se conheceram.
Alaric rapidamente carregou a besta, o que não foi fácil de fazer com uma
arma desconhecida, agachado em uma área da escada no escuro, em meio à
fumaça e com a perna ferida. Ainda mais com a distração de sirenes e passos
de pessoas descendo as escadas no andar de cima. As portas da rua haviam
sido abertas. A fumaça, agora que tinha para onde ir, estava sendo sugada para
além dele com mais força ainda.
— Sei que você está aí, Wulf — gritou Mauricio pela escada. — É melhor
se render.
— Ou talvez eu devesse sair correndo — disse Alaric. — Como você na
noite do exorcismo no Vidigal.
Mauricio riu.
— Não foi um dos meus melhores momentos, eu admito. Batizados,
comunhões, missas... esses são fáceis de fingir. Mas arrancar a besta negra da
alma de uma criança? Como eu poderia fazer isso.., principalmente a besta
negra sendo meu mestre? Você perceberia que eu estava fingindo em um
segundo. Não tive escolha a não ser fugir.
— Escolha errada — disse Alaric. — Eu vi que você era uma farsa
mesmo assim.
— Eu sei. Eu devia ter matado você naquela noite.
— Eu devia ter matado você naquela noite.
— É óbvio. Mas em vez disso, aqui estamos. Sabe, não precisa ser assim.
Há vantagens em estar no meu time. Você podia ter uma vida muito agradável
se quisesse...
— Por favor, não tente me falar sobre todo o ouro do Vaticano que
pretende me oferecer— interrompeu Alaric, cansado. — Já estou muito bem
financeiramente e você está desatualizado. O Vaticano vem operando em
déficit há anos.
— Não era isso que eu ia dizer — falou Mauricio. — Eu quis dizer que
está evidente que você está com dor agora. Consigo ouvir na sua voz. Está
cansado e tenho certeza de que está se sentindo fraco por causa da fumaça que
tem nos pulmões. Imagine uma vida em que jamais teria que sentir fraqueza
ou dor. Imagine uma vida na qual jamais sentiria necessidade de dormir, jamais
ficaria um dia sequer mais velho e teria força sobre-humana. Pense no quanto
essas habilidades seriam úteis para derrotar seus inimigos.
— Você é meu inimigo — observou Alaric.
— Sou? — perguntou Mauricio. — Tomei a liberdade de dar uma olhada
em seu arquivo pessoal, Alaric, e acho que sei quem é seu verdadeiro inimigo.
E não sou eu e nem nenhum outro vampiro. É seu pai, não é, Alaric? O
homem que o abandonou quando você era bebê? Você se tornar vampiro não
tornaria a vingança que tenho certeza que deve estar planejando contra ele
bem mais gloriosa?
— Por que ninguém entende? — perguntou Alaric, frustrado de verdade.
— Eu não gosto de vampiros.
Ele ficou de pé e disparou. Nem conseguia ver para onde estava mirando
por causa da fumaça.
Mas tinha ouvido com atenção a voz de Mauricio e tinha visto o brilho
vermelho dos olhos do vampiro. A besta era do tipo que disparava
repetidamente e lançava flechas múltiplas, uma atrás da outra. Uma delas, ao
menos, devia ter acertado o alvo.
Ele viu um pé emergir da fumaça e pousar no degrau mais próximo dele.
Instintivamente, recuou.
Principalmente porque a figura escura que surgiu tinha sido atingida por
todas as flechas que ele havia disparado... cada uma delas estava pregada no
centro de onde o coração dele deveria estar.
Mas ele não estava morto. Ainda caminhava em direção a Alaric, com um
pequeno sorriso dançando nos lábios.
— Vou dizer uma coisa em seu favor, Wulf. Você não desiste facilmente.
Gosto disso. É o que o tornaria um elemento tão valioso em minha equipe.
— Como...? — Alaric estava perplexo. — Como isso é possível? Você
deveria estar morto. Todas essas flechas foram direto no seu coração.
— Eu sei — disse o padre Henrique, dando de ombros. — Mas só há
uma coisa que pode me matar. E você não a encontrou. Agora, vamos
conversar sobre onde você colocou aquele livro.
39
Não sei se é a melhor ideia.
As palavras de Abraham ecoaram na cabeça de Meena. Até mesmo antes
de ouvi-las, ela sabia.
Não podia confiar em Lucien. Uma parte dela sempre o amaria, mas sabia
que jamais poderia confiar nele... não com algo tão importante como a vida de
Alaric. Principalmente não agora, com Lucien só falando sobre o Mannette.
Havia alguma coisa naquele lugar que a tinha feito sentir do jeito contrário ao
sonho com Lucien e a mãe.
Assim, subiu correndo os degraus atrás dele, apesar dos gritos todos para
que parasse.
Mas não importava. Primeiro porque, na pressa, tinha esquecido a bolsa,
que estava com as estacas, a água benta e a SuperEstaca. Ficara no banco onde
Abraham estava sentado.
E segundo porque, antes de Lucien ter a chance de botar o pé no prédio,
Alaric e o padre Henrique apareceram na porta, da maneira mais bizarra que
Meena já tinha visto.
Alaric estava sem camisa e descalço, com uma besta presa às costas.
Segurava outra besta. O padre Henrique, usando um hábito esvoaçante que
em algum momento já havia sido branco, lutava com ele, tentando tirar sua
arma. Como Abraham, eles estavam cobertos de fuligem e sujeira. Nenhum
dos dois pareceu perceber que estavam de pé na passagem e sendo
observados.
Meena ficou paralisada, ofegando. Não só por haver quatro flechas
espetadas no peito do padre Henrique, mas porque o padre estava trincando
os dentes, o que deixava as presas claramente visíveis, mesmo de longe.
Meena não era a única completamente chocada em ver que o padre
Henrique era um vampiro que nem estacas de madeira no peito podiam matar.
Tinha ouvido o filho do dono da loja de conveniência largar a caixa de
garrafas de água e guarda-chuvas... e ele nem conhecia o padre.
O som da caixa caindo no chão assustou Alaric, que parecia ter chegado
ao seu limite de resistência. Ele virou a cabeça e pareceu chocado de ver todos
eles ali de pé... principalmente Meena. Por um segundo agonizante, seus
olhares se uniram.
E ela leu toda a dor, sofrimento e solidão que ele viveu nas últimas 24
horas naqueles olhos azuis... mas também viu a esperança e a alegria que
sentiu por vê-la naquele momento.
Aquele foi o erro dela.
Porque Alaric, exausto, se permitiu distrair pelo olhar dela e afrouxou as
mãos que seguravam a besta por uma fração de segundo.
E o padre Henrique tirou a arma das mãos dele, se virou, pegou Meena
pelo braço e apontou a besta...
Para a cabeça de Meena.
Um silêncio aturdido tomou conta do pátio. Exceto pelo barulho da
chuva, nenhum outro som podia ser ouvido. Até as sirenes ao longe haviam
parado. Todo o tráfego nas ruas ao redor estava bloqueado e, assim, a cidade
se encontrava, pela primeira vez, completamente sem ruídos.
E deve ter sido por isso que a voz de Lucien, quando ele falou, soou tão
alta quanto um trovão.
— Solte-a agora — disse ele para o padre Henrique—, ou morra.
Alaric, que tinha se encostado à moldura da porta e não parecia mais
capaz de suportar o próprio peso, sacudiu a cabeça. Parecia derrotado, exausto
e mais amargo do que Meena jamais o tinha visto. O coração dela se apertou
por ele.
— Ele não pode ser morto — disse Alaric para Lucien. — Acredite. Já
tentei.
— Bem — disse a irmã Gertrude, sacando as Berettas gêmeas que
estavam sob o hábito —,não conheci nenhum sugador de sangue que não
tenha virado pó depois de conhecer minhas balinhas de prata.
Os vampiros que estavam de pé ao redor dela começaram a recuar,
rosnando.
— Não — Alaric se dirigiu à irmã Gertrude. — Você pode acertar
Meena.
A freira pareceu ofendida.
— Eu me qualifiquei como a especialista com melhor desempenho entre
todos os oficiais seniores nas finais do ano passado.
— Balas não podem me matar — declarou o padre Henrique para todos
eles, em voz bem alta. — Nem estacas, imersão em água benta, luz do sol,
crucifixos e nem fogo. Meu senhor — isso foi voltado a Lucien —, sei o que
isso pode parecer, mas juro que não tenho intenção alguma de ferir esta
moça... desde que você me escute. Tudo que fiz foi em seu serviço.
— Acho um pouco difícil de acreditar — afirmou Lucien, trocando
olhares com Emil. — Mas solte-a e podemos discutir isso.
— Com prazer, senhor — disse o padre Henrique. Mas não fez nada para
soltar Meena. — Estou completamente ciente do que isso pode aparentar, mas
se você está pensando naquela rede e na água benta, posso garantir que não fui
eu, meu senhor. Foram os arcebispos. Eles acharam que a Palatina não estava
fazendo o bastante para que você se revelasse e decidiram que era hora de
cuidar do assunto com as próprias mãos...
Mesmo de onde estava, Meena podia ouvir Abraham, magoado pela
desconsideração contra sua divisão, inspirar profundamente.
— Quando soube do plano deles — prosseguiu o padre Henrique—, é
claro que discuti exaustivamente contra. Os velhos não queriam ouvir. Então
me ofereci para assumir e supervisionar, sabendo que podia ajudar Vossa
Majestade ao me certificar de que os métodos deles eram ineficientes...
— Então você infectou meu ex-namorado e o mandou atrás de mim para
me matar? — perguntou Meena, incrédula. — Esse foi um dos métodos que
você se certificou ser ineficiente?
— Essa foi outra sugestão dos arcebispos — disse o padre Henrique, na
defensiva. — E embora eu não tenha tido outra escolha além de obedecer, eu
me certifiquei de que Vossa Majestade não seria capturado. Lamento que
tenha se ferido, Srta. Harper. E que a esposa do cavalheiro em questão tenha
sido transformada e escapado de nós. Foi um engano infeliz...
— Engano? — Abraham parecia incapaz de permanecer em silêncio por
mais um segundo. — Espera que acreditemos que os arcebispos permitiram
que um vampiro tenha sido mandado atrás de Meena por engano? Os corpos
encontrados em Barrens foram colocados lá por engano também?
O padre Henrique apenas sorriu.
— Esse é um assunto que você terá que levar a seus supervisores —
respondeu ele. — A única coisa que fiz foi me certificar de que as ordens
fossem seguidas, ao mesmo tempo não fazendo nada que pudesse colocar em
perigo meu próprio superior... — Ele fez uma leve reverência para Lucien.
— Que corpos? — murmurou Meena.
Alaric respondeu com cansaço.
— De todos os turistas mortos. Ele os levou para Pine Barrens. Há uma
porta do inferno lá. Era onde Abraham e os outros estavam... e foi por isso
que você não conseguiu senti-los. Portas do inferno são zonas mortas. Nada
pode existir lá além do mal.
Meena se lembrou de Abraham descrevendo as portas do inferno para ela
no carro no dia anterior — que parecia ter acontecido mil anos antes.
— Não peço nenhum tipo de recompensa, meu senhor — disse o padre
Henrique para Lucien. — Não fiz nada fora do normal... apenas tirei
vantagem da oportunidade quando surgiu. Se me saí bem, foi só por tê-lo
como inspiração. A melhor maneira de evitar a derrota pelo inimigo é infiltrarse nele e ir subindo hierarquicamente, lentamente, substituindo sua tropa.
Tremendo, Meena olhou pelo pátio para todos os guardas palatinos que
não reconheceu. Estavam olhando para o padre Henrique com devoção
completa.
Lucien estava certo o tempo todo: o próprio empregador dela estava por
trás do ataque que ela sofreu.
Os demônios ela podia perdoar... em parte. Eles não podiam fazer
diferente. Mas os humanos que permitiram que isso acontecesse, cegamente
promovendo o padre Henrique, de sendo vampiro o tempo todo? Como
podia ter acontecido? Como era possível que ninguém tivesse percebido,
exceto Alaric, que sempre o havia odiado?
Por fim, Lucien falou. A voz dele não soava mais como trovão.
— Você fez bem—disse ele para o padre Henrique. — Me entregue a
garota e vou deixá-lo executar suas... atividades.
— O quê? — Meena não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
E ela não era a única. A onda de indignação que percorreu o pátio, ao
menos dentre os humanos, foi inconfundível.
— Obrigado, meu senhor — disse o padre Henrique, fazendo outra
reverência. Ele sorria com satisfação. — Eu sabia que você aprovaria quando
soubesse a verdade.
— Isso é papo-furado! — gritou Carolina, de pé ao lado de Abraham.
Alguns dos vampiros perto dela deram um passo mais para perto, mas
Carolina tinha encontrado os frascos de água benta na bolsa de Meena e os
estava segurando de forma ameaçadora acima da cabeça. A irmã Gertrude
exibia as Berettas e Abraham encontrou a SuperEstaca e logo descobriu o q ue
acontecia quando era disparada. Eles estavam conseguindo manter o círculo
ao redor deles bem aberto... mas quanto tempo isso ia durar depois que
ficassem sem munição, não dava para saber.
— Lucien — disse Meena, avaliando ansiosamente o rosto dele na chuva
em busca de algum sinal de que estivesse blefando. Lucien não podia
realmente ter a intenção de deixar essa... coisa ficar impune depois do que fez.
Mas quando ele se reclinou na escada, esticando a mão na direção dela,
Meena não viu a menor indicação no rosto dele de que Lucien não estivesse
falando sério.
— Venha, Meena — chamou ele, sacudindo a mão com impaciência.
— Mas ele vai matá-los — disse ela enquanto a chuva caía entre os dois.
— Vai matar todos eles.
A voz de Lucien estava dura.
— Meena, eles estavam dispostos a deixar você morrer. Vai dar sua vida
tentando salvar pessoas assim? Acho que não. Vamos.
Meena olhou para Alaric. Ele tinha escorregado, ainda encostado na
porta, até o chão, incapaz de permanecer de pé. Estava sentado com as costas
contra a moldura da porta, fazendo tudo que podia para permanecer
consciente. Ainda assim, conseguiu reunir forças para erguer a cabeça e dizer:
— Meena. Vá.
— Você ouviu o homem — disse o padre Henrique para ela. Seus olhos
castanhos escuros se prenderam aos dela com uma expressão que ela não
conseguiu identificar e que a fez lembrar da expressão dele durante a
entrevista com Genevieve Fox.
Levou um momento para se dar conta do que a expressão significava.
Era triunfo. Ele havia vencido.
— Ele quer que você vá — disse o padre Henrique, sorrindo.
— Não — disse Meena, balançando a cabeça. — Não.
— Meena. — A voz de Lucien estalou como um chicote.— Venha para
mim. Agora.
Ela se sentiu paralisada. O que o padre Henrique pensou ter vencido? E o
que tinha acontecido a Lucien que o transformou no oposto do homem por
quem tinha se apaixonado? Um homem atraído para as trevas em vez da luz,
um homem que vivia debaixo das ruas, e escavados pelas águas de um riacho
esquecido?
E, de repente, ela se lembrou do que a estava incomodando sobre o
Mannette... uma pequena informação que lera durante a pesquisa feita
havia muito tempo.
Quando os colonizadores holandeses chegaram a Manhattan nos anos
1620, os nativos contaram para eles sobre um riacho que os Lenape
chamavam de Mannette. Traduzido, significava “Água do Demônio”.
Abraham contara a ela que havia lugares para os quais as criaturas de
natureza malevolente eram atraídas, porque desconfiava-se que tinham ligação
direta com o diabo.
Meena se virou para Lucien, com lágrimas descendo pelo rosto junto com
a chuva.
— Era isso que você estava fazendo perto do riacho Minetta esse tempo
todo, Lucien? — perguntou ela, com a voz falhando. — Tirando a energia que
precisava do seu mestre para fazer isso comigo... e meus amigos?
Assim que viu a expressão furiosa no rosto dele, soube que estava certa.
Sua esperança desesperada de que houvesse alguma outra explicação para o
comportamento dele, qualquer coisa diferente do que suspeitara, não passava
mesmo de desespero.
Em um piscar de olhos, ele subiu os degraus e agarrou o braço dela com
dedos que afundaram na pele. Não ligava mais de uma besta estar apontada
para a sua cabeça. Por que deveria se importar de estar causando dor nela?
— Meena — disse ele, com uma voz que era tão brutal quanto o modo
como ele a segurou—, nós vamos embora. Acabou.
Ela sabia precisamente o que ele queria dizer com essas palavras. Não só
a conversa havia terminado, mas também as lutas dela para trazê-lo de volta
para o lado dela... o lado da humanidade. O demônio dentro dele havia
vencido e finalmente tomado as rédeas. Lucien permitira que tomasse as
rédeas, tinha alimentado e cuidado dele ao lado das águas do Mannette. Não
havia nada que ela pudesse fazer agora para chegar a ele, porque conceitos
como bem e mal — e vida e morte — não significavam mais nada para ele.
Não fazia diferença, desde que tivesse o que queria.
Com mais medo do que jamais sentira na vida, ela olhou para Alaric, tão
esgotado e exausto que parecia ter desistido... só que, naquele momento,
quando Lucien a afastou do padre Henrique, Alaric ergueu a cabeça. Quando
seus olhares se encontraram, uma imagem surgiu em sua mente com tamanha
clareza que foi como se Alaric a tivesse colocado no cérebro dela.
— E o livro? — Meena se ouviu dizer.
As mãos do padre Henrique, que tinham abaixado a besta, de repente
tornaram a subir. Os dedos de Lucien apertaram ainda mais o braço de
Meena.
— Que livro? — perguntou o padre, inconfundivelmente nervoso.
— O livro — disse Meena. — O livro de Lucien, o que a mãe dele deixou
para ele. — Ela olhou para Lucien. — Você não o queria de volta?
A expressão de Lucien mudou. Antes, ele parecia furioso e concentrado
em um único propósito: recuperar Meena.
Agora, seu foco mudou ligeiramente.
Acima das cabeças deles, um trovão soou. Alguns dos humanos que não
eram da Palatina e que estavam de pé no pátio se viraram e tentaram ir
embora, mas os Lamir bloquearam a passagem.
— É claro. — O padre Henrique sorriu fracamente para Lucien. —
Lamento muito quanto a isso, meu senhor. Esse foi outro dos planos que
bolaram para capturar o senhor. Mas eu...
— Você não me contou que precisamos impedir que esse livro caia nas
mãos de Lucien a todo custo? — perguntou Meena inocentemente. — Porque
o tornaria todo-poderoso?
Os olhos do padre Henrique se arregalaram.
— Eu disse isso — admitiu ele. — Mas só falei essas coisas para ser
convincente no papel que eu estava executando de um dos...
— Onde está o livro? — inquiriu Lucien. A tensão na voz dele não era o
único sinal de que ele estava ficando impaciente. Os trovões e a repentina
intensidade do vento também indicavam isso.
— Só Alaric Wulf sabe — respondeu o padre Henrique rapidamente.
— E ele não quer dizer. Acredito que deva tê-lo destruído.
Meena sentiu o chão tremer e olhou ao redor, confusa, porque não ouvira
explosão alguma. Ela levou um momento para se dar conta de que não fora o
boiler de novo. Era o Mannette. Lucien estava cada vez mais furioso, e a ira
dele podia ser sentida debaixo dos pés de todos. Provavelmente havia sido
detectada a quilômetros de distância e avaliada erroneamente por geólogos
como um pequeno terremoto em vez do que realmente era... o tremor de uma
porta do inferno.
— Oh, céus — exclamou a irmã Gertrude depois de se recuperar do
choque do tremor. — Alaric não o destruiu. Ele o entregou para mim ontem à
noite, no museu, quando estava procurando Meena. Pediu que eu guardasse
comigo o tempo todo e não o entregasse a ninguém.
Os vampiros que tinham se reunido ao redor dela deram um passo para
trás quando ela tirou do hábito o pequeno manuscrito com sua capa dura
cheia de pedras preciosas.
Sem a luz da exposição e na escuridão da tempestade, ele parecia bem
menos um objeto religioso mítico e mais um livro muito velho e frágil.
Ainda assim, quando o olhar de Lucien caiu sobre ele, seu rosto mudou.
A tensão pareceu sumir e o brilho vermelho que Meena tinha se acostumado a
ver nos olhos dele diminuiu.
— Entregue para mim — disse ele com uma voz que não se parecia em
nada com um trovão.
A irmã Gertrude andou nervosamente pela multidão de vampiros e subiu
os degraus, onde lançou um olhar demorado para Alaric, que parecia ter
gastado suas últimas reservas de energia enviando para Meena a imagem
mental do livro, pois sua cabeça pendia sobre o peito. Ele parecia estar
inconsciente.
— Quero que saiba que eu o li — disse a irmã Gertrude ao entregar o
livro para Lucien. Ela não parecia conseguir evitar o ar de extrema reprovação
que irradiava... reprovação não por causa do livro, Meena sabia, mas por causa
de Lucien e do padre Henric. — Eu me formei em Latim.
Depois de hesitar por uma fração de segundo, Lucien esticou a mão e
pegou o livro da mão dela.
Assim que seus dedos encostaram na capa com pedras preciosas, a chuva
parou.
— É um livro lindo — declarou a irmã Gertrude.
Lucien já o tinha aberto e começado a virar as páginas, observando com
fascinação.
Meena olhou para cima. As nuvens no céu estavam indo embora.
— Ah — disse a irmã Gertrude, se virando ao descer os degraus—, e
você talvez queira prestar atenção especial à página 47...
Foi nesse momento que o padre Henrique puxou Meena para o lado,
apontou a besta diretamente para a irmã Gertrude e disparou.
40
O disparo seria fatal se não fosse por duascoisas.
Primeiro, Carolina viu o que o padre Henric estava prestes a fazer e pulou
em cima da irmã Gertrude, tirando-a do caminho das quatro flechas
disparadas, uma depois da outra, pelo mecanismo automático. Em vez de
afundarem no coração grande e generoso da irmã Gertrude, elas a atingiram
no ombro enquanto Carolina a empurrava.
E segundo, Meena bateu no padre Henric com toda a força que
conseguiu, com o cotovelo no plexo solar. O padre perdeu o equilíbrio, mas
não soltou Meena. Os dois cambalearam escada abaixo e o disparo saiu um
pouco para o lado.
—Irmã! — O padre Bernard se inclinou ao lado da irmã ferida. — Você
está bem?
—Não toque nelas — avisou Abraham quando o filho do dono da loja de
conveniências estava prestes a fazer o que qualquer um faria instintivamente.
— Ela vai sangrar muito. Precisamos de uma ambulância.
— Nenhum veículo de emergência consegue passar — lembrou Morioka.
— Está vendo? — Meena se virou para falar com Lucien, agitada.
— Tem alguma coisa nesse livro que ele não quer que você veja. Ela
estava tentando ajudar você e ele disparou contra ela. É por isso que não
podemos simplesmente ir embora.
Emil, que havia corrido para pegar a besta que o padre Henrique deixara
cair quando Meena o atingiu, parecia concordar.
— Meu senhor — disse ele enquanto olhava para o padre, que era quase
uma cabeça mais alto que ele. — Me perdoe, mas sinto como se houvesse
alguma coisa de familiar nessa... criatura.
— Não, não, você está enganado — retrucou o padre Henrique
rapidamente. — Achei que a freira ia pegar a arma. Eu só estava tentando
defender Sua Majestade.
— Não — disse Lucien. Ainda estava folheando lentamente, de forma
quase reverencial, as páginas do manuscrito. — Emil está certo. De perto,
você parece ligeiramente familiar. De onde conheço você? Sem contar de
ontem à noite no Met.
— O senhor não me conhece — respondeu o padre Henrique
rapidamente. — Sou da América do Sul. Nunca estive nesta parte do mundo
— Sei que parece improvável — disse Emil —, mas alguma coisa nele
lembra seu pai, meu senhor.
— Nunca — negou o padre Henrique com uma risada nervosa. — Mas
agradeço o elogio...
Lucien tinha parado de virar as páginas. Olhava fixamente para alguma
coisa. De onde Meena estava, ela podia ver uma ilustração brilhantemente
iluminada de um homem com aparência familiar segurando o que parecia ser a
Terra nos braços. Acima dela estava uma imagem do céu, completa, com um
anjo. Abaixo dela, o inferno e Lúcifer.
Havia alguma coisa escrita ao longo da imagem. O texto estava em uma
caligrafia forçada e em uma língua que Meena não conseguia decifrar,
principalmente de cabeça para baixo.
Mas já sabia o que dizia, porque ouvira o texto lido em voz alta muitas
vezes. Era a ilustração do sonho... a que Lucien e a mãe estavam olhando
sentados ao lado da janela.
Lucien a reconheceu também... só que a associação que ele fez com a
figura foi bem diferente da de Meena. Ele ergueu a cabeça de repente para
olhar para o padre Henrique.
— Foi você — declarou Lucien. Seu olhar voltou a ficar vermelho
intenso.
— O quê? — Os olhos do padre Henrique se arregalaram pela negação.
... e pelo medo. — Não, não, meu senhor. Não sei de que o senhor...
— Este é você. — Lucien ergueu o livro. Com uma visão clara da
ilustração pela primeira vez — no sonho, ela só tinha conseguido dar uma
rápida olhada —, Meena podia ver que ele estava certo. A pessoa na ilustração
era o padre Henrique. A semelhança era inconfundível: o cabelo escuro
encaracolado, os olhos escuros e o queixo forte e bonito. Até o hábito
esvoaçante de padre parecia igual.
A única diferença era que, naquela época, o padre Henrique usava uma
tonsura, um círculo de cabelo raspado no meio da cabeça.
— Eu me lembro — disse Lucien, parecendo bem mais o homem pelo
qual ela havia se apaixonado do que nos dias recentes. — Eu me lembro de
você agora. Você era o padre do castelo Poenari. Padre Henric. Você rezava as
missas. Você me deu minha primeira comunhão. Você me batizou. Você me
deu aulas de catecismo com este livro.
O padre Henrique pareceu se dar conta deque havia sido identificado... e
de que era mais inteligente usar uma abordagem diferente.
— Mas sim — disse ele com submissão. — Sim, meu senhor, fui eu.
Estou tão honrado de ter sido lembrado. Não achei que valesse a pena
mencionar porque foi há tanto tempo e o senhor se elevou ainda mais no
mundo desde então, enquanto eu...
— América do Sul? — Lucien olhou de volta para o livro. — O que
andou fazendo esse tempo todo na América do Sul?
— Ah — disse o padre Henric —, o mesmo de sempre. Rezei missas.
Primeira comunhão. Ensinei catecismo. Batismos...
— Como você consegue? — perguntou Emil, perplexo. — Só a água
benta...
O padre Henric sorriu.
— Quando um padre invoca o lado das trevas a pedido de um
paroquiano — disse ele —, como fiz para seu pai, meu senhor, quando sua
mãe morreu, ele assume um enorme risco. E as coisas eram bem diferentes
naquela época. Eu podia ter sido excomungado, ou pior. Não havia nada mais
justo que eu ter uma recompensa. A imortalidade era o mínimo que eu
merecia, mas o próprio príncipe das trevas escolheu me recompensar com um
bem maior do que isso. Depois de me morder e me tornar um da espécie dele,
descobri que, além de ter o dom da vida eterna, eu também parecia ter
imunidade a todas as coisas que matam a maior parte dos demônios: a luz do
sol, estacas, crucifixos...
Para ilustrar, o padre esticou a mão e a pousou sobre o colar de Meena.
Alguns segundos depois, ergueu a mão e a mostrou.
A palma não tinha marca alguma.
— Está vendo? — Ele deu de ombros. — Esse foi o presente do seu pai
para mim, senhor, pelo favor que fiz a ele. E eu não teria corrido esse risco
por nenhum outro paroquiano. Seu pai era um homem muito impressionante.
Ele amava muito sua mãe. Ela era uma mulher bem especial. E depois que ela
se foi, bem, você sabe que ele mudou. Ele se tornou um tanto...
— Louco — disse Lucien.
— Preocupado — corrigiu Henric. — Com você e seu irmão, que ele
descanse em paz. Seu pai desejava que houvesse uma forma de garantir que
todos vocês pudessem viver para sempre. A morte da sua mãe foi muito
dolorosa e ele achava que não conseguiria suportar a ideia de perder qualquer
um de vocês. Assim, me pediu para ver se eu conseguia descobrir um jeito de
tornar todos vocês imortais. E então... — O padre deu de ombros. — Foi o
que fiz. E você nem precisa agradecer por isso.
Desta vez, não houve tremor algum do Mannette. Nenhum trovão.
Nenhum relâmpago. Lucien não respondeu à declaração do padre Henrique
de forma alguma.
Ele apenas abriu as mãos, permitindo que o livro de sua mãe, que estava
segurando com muita força, caísse no chão do pátio.
Ele caiu em uma poça. Meena viu a água cheia de fuligem cobrir as
páginas douradas.
E com o pequeno gesto, ela soube. A revelação caiu sobre ela com tanta
clareza quanto se a própria mãe de Lucien tivesse voltado à vida e sussurrado
em seu ouvido. Ela não apenas soube, mas compreendeu, não só por que
Lucien tinha procurado o Mannette, mas todo o horror e dor que Lucien deve
ter passado durante os cinco séculos no qual viu seu pai torturar e matar
centenas de milhares de pessoas, incapaz de fazer qualquer coisa para impedi lo...
... porque o próprio Lucien havia sofrido da mesma sede int erminável por
sangue e tinha matado (ou sido responsável pela morte) da mesma quantidade
de pessoas.
Só que, ao contrário do pai e do meio-irmão, ele jamais tinha aberto mão
da alma. Não completamente. Não podia.
Porque era fisicamente impossível.
— Seu pai ficou muito satisfeito com meu presente, meu senhor — disse
o padre Henric, se gabando. — E quero que saiba que fiquei ao lado dele até o
final. Quando fugi dos amigos palatinos em Londres, logo depois que o
assassinaram, jamais parei de pensar em você, meu senhor. Viajei para o mais
longe que pude para fugir deles, para as florestas da América do Sul, onde
descobri os Lamir. Naquele momento, começou a construir um exército para
trazer comigo quando voltasse para você, para ajudar a vingar a morte dele .
Eu não podia ficar parado sabendo que você havia perdido sua amada mãe,
depois seu pai e por fim seu meio-irmão. Você não devia ser caçado como um
animal. Alguma coisa tem que ser feita. É por isso que estou aqui.
— Ele está mentindo.
Uma nova voz surgiu no pátio. Meena virou a cabeça e ficou atônita ao
ver Alaric não só de pé, mas segurando a besta que estava presa às suas costas.
Ele a tinha carregado e a mantinha apontada para Henric, embora soubesse
perfeitamente que o padre não era vulnerável a flechas. Devia ser a força do
hábito.
— Ele não é indestrutível — disse Alaric para Lucien. — Ele me contou
lá dentro que só há uma maneira de matá-lo.
— Ele está mentindo para você, meu senhor — falou Henric
rapidamente. — Você não vê? Todos mentem porque não entendem a beleza
do que somos.
— Não há nada de bonito no que você é — disse Meena zangada. — O
que há de bonito nisso? — Ela apontou para a irmã Gertrude, que estava
deitada no chão cercada de um círculo de Lamir farejando o cheiro do sangue
dela no ar. Só Abraham, segurando a SuperEstaca, e Carolina, Morioka,
Santiago e o padre Bernard conseguiam mantê-los longe, usando as estacas e a
água benta que tinham encontrado na bolsa de Meena.
— Essa situação se tornou insuportável, meu senhor — disse Emil
— Vou ter que concordar — murmurou Mary Lou.
Lucien olhou para eles e depois para Henric. Mas não pareceu ver
nenhum deles.
— Fiquem fora disso — disse ele. — Não tem nada a ver com vocês.
— Tem sim — declarou Meena. — Tem a ver com todos nós. — parou
de falar para pegar o livro das horas do meio da poça.
Ele não parecia ter sido muito danificado. Ela havia esquecido que as
páginas eram feitas de velino, que era um couro quimicamente tratado e
essencialmente à prova de água. Era possível que, depois que secasse, o livro
ficasse bem. Como todos eles...
... se sobrevivessem.
— Só há uma coisa boa que o padre Henric já fez — continuou
Meena.— E, na ocasião, ele não tinha ideia do que podia gerar. Assim que
percebeu, ele tentou tudo que podia para manter escondido de você, Lucien,
porque é a única coisa que pode destruí-lo. É por isso que ele está aqui. Não é,
padre Henric?
— Por favor, me diga que não vai ouvi-la, meu senhor — protestou o
padre Henric. — Uma humana? São eles que vêm tentando nos destruir, e por
quê? Não podemos evitar o que somos. Por que devemos ser perseguidos e
caçados e até passar fome quando só estamos fazendo o que a natureza pede?
— Natureza? — perguntou Meena com uma risada seca. — O que havia
de natural no que você fez a Lucien, nos espíritos que invocou naquela noite
em que transformou o pai dele no que ele era? Aquilo não ia contra as regras
da natureza?
— O pai dele era meu príncipe — retorquiu o padre Henric. — Fiz o que
ele pediu.
— Você não serve também a um príncipe maior? — falou Meena. —
Não devia ter consultado a ele primeiro?
— Eu consultei — disse Henric, com um olhar triunfante.
— exclamou Meena, abrindo o livro na página 74, a página do sonho. —
Está falando deste príncipe? — Ela apontou para a ilustração de Lúcifer.
O sorriso de Henric tremeu.
— Precisamente.
— Ele não é príncipe — disse Meena. — Como você sabe perfeitamente
bem, ele é um anjo caído. E o que a mãe de Lucien era?
— Uma p-princesa — gaguejou Henric. Mas havia terror em seus olhos.
— Não — disse Lucien, balançando a cabeça. — Ela era um anjo.
Meena se virou para olhar para ele. Lágrimas brilhavam nos olhos dela
quando olhou nos dele, que tinham voltado ao tom castanho normal.
— Sim, Lucien — concordou ela, segurando o livro aberto na frente dele.
— É por esse motivo que Henric estava tentando esconder isso de você.
Porque se deu conta de que era a única coisa que podia ajudar você a se
lembrar do que sua mãe sempre ensinou. Você, dentre todas as pessoas,
realmente tem escolha. Pode escolher ser bom... porque tem uma parte boa.
Independentemente do quanto tente ser o filho do diabo, você ainda tem um
anjo como mãe.
Ela podia ver que ele entendia agora. Que não só entendia, mas que a
consciência disso sempre estivera lá, mas por baixo da superfície, como o
riacho Minetta.
Só precisava ser libertada.
Lucien ergueu o olhar das páginas douradas do livro que ela estava
segurando para olhar nos olhos dela.
— Meena — disse ele espantado.
Ela sorriu para ele.
— De nada — respondeu ela.
E foi por isso que ela mal ouviu alguém dizer atrás dela:
— Me dê isso.
O grito de alerta de Emil soou distante.
E então ela foi puxada para longe de Lucien, e a besta que Emil estava
segurando foi pressionada contra o peito dela pelo padre Henric.
Ela largou o livro de Lucien na lama.
— Você achou que um livro podia me destruir? — rosnou o padre
Henric. — Não. É ele. Só ele pode me destruir.
O olhar de Meena se encontrou com o de Lucien. Ele pareceu tão
confuso quanto ela. Só que o lado pontudo de uma besta não estava ferindo a
pele acima da caixa torácica dele como estava fazendo com a dela, então ela
desconfiou que ele não estivesse com medo.
Ou talvez estivesse. Seus olhos não tinham nem um ponto vermelho.
Estavam escuros como a noite.
— Agora você sabe — disse o padre Henric quando começou a arrastar
Meena em direção aos arcos que levavam para longe do pátio.
— Então sugiro que fique longe, meu senhor, ou vou disparar contra o
coração desta moça. Entendeu?
— Acho que sim — disse Lucien. — Acho que entendi tudo agora. — O
olhar dele nunca se afastou de Meena.
— Que bom — falou Henric. — Você não vai tornar a me ver.
— Disso eu não tenho tanta certeza — disse Lucien. — Wulf?
Alaric estava de pé no meio do pátio, com a besta apontada para a cabeça
do padre Henric, embora já soubesse que a arma não teria efeito.
—O quê?
— Sei que você nunca gostou muito de mim — afirmou Lucien com a
voz calma.
Alaric nem olhou na direção de Lucien.
— Isso mesmo — respondeu ele.
— E não tem razão alguma para confiar em mim.
— Correto — concordou Alaric.
— Mas sei que se importa com Meena Harper — prosseguiu Lucien.
— E que faria qualquer coisa por ela.
— Também correto — disse Alaric, ainda não tirando os olhos do padre
Henric, cujo olhar ia de um homem para outro, com nervosismo.
— Nesse caso — afirmou Lucien —,acho que você sabe o que preciso
que faça.
— Por mais que eu adorasse — disse Alaric, ainda sem tirar os olhos do
padre —, não vai dar certo. Ele está com ela em uma posição de disparo
direto. Não consigo atirar rápido o bastante. Ele vai terminar matando-a de
qualquer jeito. E, francamente, nenhum de vocês dois vale isso.
— Parem — gritou o padre Henric, empurrando a besta com mais força
contra o peito de Meena. — Seja lá o que estiverem falando, parem agora!
Mas falar não era mais necessário. Meena sabia o que Lucien queria que
Alaric fizesse... e o que Alaric, milagre dos milagres, estava se recusando a
fazer.
Também percebeu o que o padre Henric quis dizer quando falou sobre
Lucien ser o único que podia destruí-lo. Sabia o que teria que fazer.
Ela não queria que terminasse assim. Não deveria ter que terminar assim.
Mas também sabia que era o único jeito no qual podia terminar, graças às
escolhas feitas por muitas outras pessoas... algumas delas mortas muito antes
de ela nascer.
Meena se perguntou se Joana D’Arc havia se sentido assim quando
acenderam o tronco no qual, depois de servir fielmente ao rei e ao país, tinha
sido amarrada em punição pela sua heresia. Joana não fizera nada além de se
recusar a mentir e, no final, fora queimada.
Literalmente.
Meena achava que Joana devia ter se sentido como ela se sentiu no
momento em que ergueu o pé e enfiou o calcanhar com toda a força que pôde
na canela do padre Henric, e sentiu-o puxar o gatilho da besta, devido à
surpresa.
A sensação de que não era justo.
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