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- Freewell foi um desastre - explicou Holtzman. — A esposa de
David Delmonico estava na casa. Nunca vi nada parecido. E você sabe que eu
pensava ter visto quase todas as formas do mal na face da Terra. Mas quando
ela saiu de dentro da lavanderia pulando em cima de nós... — Ele tremeu. —
Foi terrível.
— Abraham. — Embora Alaric estivesse feliz em ver que o chefe e
amigo estava vivo e bem, começava a se arrepender de tê-lo encontrado. Sua
cabeça ainda latejava e Holtzman parecia ter uma necessidade de contar o que
havia vivenciado.
Mas Alaric não. Ele só precisava se concentrar em como ia tirar a si e
Abraham do prédio.
— Brianna Delmonico foi para cima do pescoço de Carolina. E teria sido
bem-sucedida se Patrick não estivesse no caminho. Patrick Chen, o téc nico,
você o conheceu? — perguntou Holtzman. — Muito confiável. Faz um
excelente trabalho de análise.., ou melhor, fazia.
— O que você quer dizer com fazia? — indagou Alaric.
— Aquela mulher simplesmente o atacou. — Holtzman balançou a
cabeça com a expressão assombrada pela lembrança. — Havia sangue e
miolos por toda parte. E então... Alaric, eu juro que é verdade. Ela o comeu.
Não só o sangue. Tudo.
Alaric olhou fixamente para o chefe, enojado. Não conhecia Patrick
Chen.
Mas sentia como se nada mais pudesse surpreendê-lo.
— Onde está Carolina agora? — perguntou Alaric. — E os outros?
—Ah — disse Holtzman, inclinando a cabeça. — Ela está aqui ao lado.
Santiago e Morioka estão no final do corredor. Fomos suspensos, colocados
para fazer serviço administrativo por analisar dados críticos com ineficiência.
Dá para acreditar? Podemos nos comunicar via e-mail... — Ele assentiu em
direção ao computador sobre a escrivaninha. — Mas não nos permitem ter
acesso à comunicação externa enquanto não investigarem o que deu errado
em Freewell. Morioka acha que consegue romper o firewall, mas tenho
dúvidas.
— Quem são eles? — perguntou Alaric, encostando o rosto à porta.
— Se está ouvindo para ver se há guardas, não precisa perder seu tempo
— garantiu Holtzman. — Confie em mim, nem se deram ao trabalho de fazer
isso. Dizem que não somos prisioneiros. Mas as portas estão trancadas. Com
trincos. Senha para entrar. Impossíveis de burlar. — Ele balançou a cabeça. —
Acredite, eu tentei. Mudaram todos os códigos...
— Analisamos dados com ineficiência, sei — disse Alaric, e apontou para
o computador sobre a escrivaninha de Holtzman. — Essa coisa acessa a
internet?
Holtzman olhou para o computador.
— Não. Eu já falei. É só para comunicação entre setores...
— E quanto a Meena Harper? Consegue fazer contato com ela?
— Alaric — disse Holtzman —, acabei de explicar que o programaram
apenas para que possamos contatar uns aos outros, para que possamos
trabalhar juntos em nossa defesa. É um dos nossos... O que está fazendo?
Alaric tinha começado a abrir as gavetas da escrivaninha, puxando e
virando o conteúdo de cada uma no chão.
— Ah, Alaric — disse Holtzman com um suspiro. — Você está fazendo
uma bagunça. Não há nada aí que possa usar para abrir a porta.
Até as dobradiças ficam do outro lado.
— Posso reparar em alguma coisa que você deixou passar. Mas continue.
Alguém fez alguma coisa enquanto Chen estava sendo comido?
— É claro — disse Holtzman, horrorizado pela sugestão de que havia
ficado parado enquanto um colega estava sendo ingerido. — Carolina pegou
aquela espada, a de 30 centímetros. Mas antes que conseguisse dar um golpe, a
vampira fugiu. Pulou por uma janela de vidro. É claro que pegou uma manta
de cima do sofá antes de fugir, para ter alguma proteção contra a luz do sol. E
não precisou ir longe para conseguir chegar à sombra. Os fundos da casa são
perto da borda oeste de Pine Barrens.
Alaric ergueu as sobrancelhas.
— Barrens? Era lá que você estava quando me ligou?
Holtzman assentiu.
— Era. Nós a seguimos, embora não estivéssemos exatamente equipados
para andar no meio de uma planície costeira coberta por uma floresta densa.
Como você sabe, há mais de 40 mil hectares de pinheiros lá e os aglomerados
de árvores às vezes ficam muito densos... e a recepção dos celulares é terrível.
Quase não tem antenas, Tentamos pedir reforço várias vezes e não
conseguíamos completar a ligação e nem obter respostas até eu conseguir falar
com você. Isso foi depois... — O rosto de Holtzman ficou um tom mais
pálido sob a luz fluorescente. — Depois que encontramos, é claro.
Alaric parou de olhar para a pilha de clipes de papel e blocos de Post-it no
chão.
— Encontraram o quê?
Embora, a julgar pela expressão de Holtzman, não tivesse certeza se
queria saber.
— O ninho — disse Abraham. — Estava na parte mais escura que já vi
da floresta. Uma espécie de área de pântano. Não sei se alguém, alguém
humano, já esteve lá. Não ultimamente, não ainda vivo. Brianna Delmonico
nos levou diretamente até lá, como se tivesse sido guiada por uma espécie de
farol. Você sabe que eu sempre acreditei que há lugares de enorme mal, assim
como há lugares onde o bem domina. Bem, esse lugar era um deles, Alaric.
Era ao lado da água. Dava para sentir o fedor de morte e decomposição. E lá
estava ele, de pé ao lado do ninho, com as asas encolhidas, mastigando alguma
coisa.
— Lá estava o quê? — perguntou Alaric, sentindo um arrepio. Mas já
sabia.
— O demônio — disse Holtzman simplesmente. — Era exatamente
como todas as pessoas que moram nos arredores de Barrens disseram que
era... bípede, com asas, cabeça de cavalo. Pareceu bastante surpreso de nos
ver. E desapontado por não estarmos levando presentes.
— Presentes?
— disse Holtzman. — Pareceu que, quando era visitado, por alguém
levando comida. O ninho estava cercado de ossos. Estavam empilhados ao
redor dele.
— Ossos? — repetiu Alaric. Já tinha ouvido algumas coisas estranhas
durante seus anos na profissão. Mas nunca algo assim.
— Sim. Ossos humanos. Acho que encontramos nossos turistas
desaparecidos.
Alaric olhou para ele, chocado.
— É assim que os restos estão sendo descartados? Sendo entregues ao
Demônio de Nova Jersey?
— É o que parece — respondeu Holtzman. — É inteligente, se você
pensar bem. Um demônio usando outro para encobrir seus crimes.
Diabólico era a palavra que Alaric teria escolhido, não inteligente.
— O que vocês fizeram? — perguntou ele.
Holtzman piscou, surpreso com a pergunta.
— Bem, nós o atacamos com tudo que tínhamos, é claro — disse ele. —
Água benta, estacas, espadas. Carolina deu alguns chutes na cabeça dele.
Morioka tinha uma Glock carregada com balas de prata. Ele atirou no coração
do demônio. Pareceu funcionar. Ele gemeu um pouco, mas isso foi tudo. Em
seguida, virou cinza. Foi bastante satisfatório para uma morte.
— Legal — exclamou Alaric, admirado.
— Também achei — disse Holtzman. —Mas o surpreendente foi que o
padre Henrique não pareceu nada satisfeito quando chegou...
Alaric pensou que devia ter passado tanto tempo pendurado pelos braços
que um coágulo havia se formado neles, se deslocado até o cérebro e
estourado.
Ao menos, foi assim que pareceu quando Holtzman disse as palavras
padre Henrique.
— O quê? — perguntou ele, quase gritando.
— Sim — disse Holtzman. — Também achei curioso, a princípio. E eu
sabia que você reagiria dessa forma quando eu contasse, porque, é claro, eu
garanti que ele tinha sido chamado para cá apenas como padre, não como
parte da unidade. Mas, ao que parece, não é ocaso. Pelo que pude perceber, ele
recebeu uma posição de autoridade sem precedentes...
Alaric engoliu uma série de palavrões para que Holtzman pudesse
terminar.
— ... em uma nova divisão interna da qual nunca ouvi falar — disse
Holtzman. — Ele e sua equipe pareceram bastante perturbados por causa do
criptídeo. Até nos acusou de uso excessivo de força. Preferiam tê-lo capturado
vivo. E o helicóptero assustou a vampira, que obviamente ainda estava...
— Eles foram de helicóptero? — Alaric mal podia acreditar no que estava
ouvindo.
— Ah, foram. Também fiquei surpreso. Uma despesa desnecessária. Não
estávamos em perigo mortal. Eu entenderia se estivéssemos sob ataque, mas
não era o caso. O padre Henrique começou a dar ordens à equipe para
iniciarem o descarte dos restos, como fizeram na casa de Freewell, para
encobrir o que acontecera a Patrick, o pobre homem. Não havia maneira
possível de explicar tamanha carnificina para as autoridades locais. E há
incêndios florestais frequentes em Barrens. Considerando a secura do último
verão, não seria tão surpreendente que um começasse agora, de acordo com o
padre Henrique.
Alaric tinha ouvido o bastante.
— Ele não levou em consideração que, se aqueles corpos são dos turistas
que sumiram nas últimas semanas — perguntou ele —, é preciso fazer análise
do DNA para que possam ser identificados e as famílias notificadas das
mortes? Entendo que precisamos manter o público sem saber a verdade sobre
a existência de seres sobrenaturais, para evitar o pânico mundial. Mas essas
pessoas tinham família, Abraham.
Holtzman parecia cansado. Ele afundou no colchão. Estava bem
arrumado, com o lençol esticado. Abraham Holtzman nunca havia se casado.
Não achava justo deixar uma companheira preocupada em casa enquanto saía
para lutar com demônios. Tinha dedicado a vida toda ao trabalho.
E agora, isso. Ele parecia abatido e pálido sob as luzes fluorescentes.
—Você acha que não falamos isso, Alaric? Foi quando as coisas
começaram a ficar um pouco... um pouco alteradas. Estávamos todos tensos.
Tínhamos passado quase 12 horas em Barrens e perdido um membro da
equipe, de uma forma grotesca. Claro, matamos o Demônio de Nova Jersey.
Mas aí Henrique aparece de helicóptero, o vampiro foge e ele anuncia que vai
botar fogo no local todo. Foi quando Carolina... bem, você sabe como ela é.
Ela foi conversar com o padre Henrique, na língua deles, então não tenho
certeza do que foi dito. Carolina acredita que o padre Henrique pode estar
tentando esconder alguma coisa de nós. Acho que as palavras trocadas entre
eles não foram muito gentis.
— Tenho certeza de que não foram — murmurou Alaric. Ele conhecia
Carolina da Silva. Ela era dedicada ao emprego na Palatina e era uma
profissional de alto nível. Certamente viu em um piscar de olhos a farsa que é
o Padre Caliente. -—O que aconteceu?
Holtzman pareceu pouco à vontade.
O padre Henrique disse que podíamos resolver a situação aqui, durante a
reunião. Mas não houve reunião. Fomos trazidos do heliporto para estas salas,
onde recebi uma reprimenda oficial por não supervisionar minha equipe
adequadamente e fomos suspensos e realocados para o serviço administrativo
pelo Dr. Fiske. Preciso dizer para você, Alaric, que estou ficando preocupado
de Carolina talvez estar certa.
Alaric contraiu o maxilar, olhando para a bagunça que fizera no chão sem
realmente vê-la. Estava aliviado por ter encontrado Holtzman e os outros,
pois parte do motivo de ter fugido era para encontrá-los.
Mas o fato de estarem trancados, assim como ele, no quartel-general de
seu ex-empregador complicava as coisas. Alaric agora tinha que pensar em um
jeito de tirar todos de lá. Senão, assim como as evidências deixadas em
Freewell e Pine Barrens, eles seriam eliminados, de maneira limpa e eficiente.
Sabiam demais para serem deixados vivos. Só conseguia pensar em uma razão
para não terem sido eliminados ainda... e era a outra pessoa que &e precisava
salvar, Meena Harper.
Se algo ruim acontecesse a qualquer um deles, Meena saberia.
Alaric tinha visto a expressão no rosto de Mauricio quando a rede não
conseguiu segurar Antonesco. Fora uma expressão de puro terror. Henrique
Mauricio precisava de Lucien Antonesco morto — ou bem preso.
Mas a chave para encontrar Lucien era Meena Harper. Mauricio poderia
tentar intimidar Meena, mas não ousaria fazer nada que trouxesse o risco de
aborrecê-la... ainda. Ela era a abelha rainha e Antonesco era o mel. Mauricio
poderia cutucar a colmeia, mas não estava pronto para destruí-la.
Alaric, por sua vez, não tinha esse tipo de reserva.
— Consegue se comunicar com Carolina e com os outros? — perguntou
ele ao chefe. Ou ex-chefe, supunha ele.
— Sim, é claro. Já falei isso.
Alaric sorriu.
— Então quero que mande uma mensagem para eles.
Holtzman pareceu surpreso. Mas levantou e andou até o teclado.
— Tudo bem — concordou ele, começando a digitar. — Qual é a
mensagem?
— Diga para eles — disse Alaric — ficarem em alerta.
35
Emil se juntou a Lucien à mesa onde ele estava sentado, no janelão
pretensioso café decadente estilo europeu.
—Tudo parece seguro -— notificou-o Emil.
— Excelente — disse Lucien.
— Que diazinho horrível esse — comentou Emil.
— Não é? —concordou Lucien. Ele não parecia nada infeliz com isso.
O mesmo não podia ser dito sobre todos os pedestres que saíam da agora
quase vazia festa de San Gennaro. Abrigados debaixo de guarda-chuvas
comprados às pressas de vendedores de rua ou em lojas de conveniência,
estavam indo para casa, molhados e completamente desanimados. A previsão
fora de tempo ensolarado, com apenas dez por cento de chance de
precipitação.
No céu, os trovões ribombavam ameaçadoramente!
A previsão do tempo claramente havia errado.
— Isso é desafiar um pouco o destino, é, meu senhor? — Emil assentiu
em direção ao prédio do outro lado da rua. — Tudo o que qualquer um deles
precisa fazer é sair de lá, e poderia facilmente ver você sentado aqui. Eles
sabem como você é.
Lucien mexeu o açúcar que colocara no café. O estabelecimento usava
torrões de verdade, o que ele achava encantador, mas sabia que os outros
achavam nada higiênico, pois os torrões de açúcar não vinham em embalagens
individuais.
— Eles sabem que estou chegando —— disse ele. — A surpresa não é o
fator que estou buscando usar nessa batalha.
Emil ergueu as sobrancelhas.
— Como foi com seu pai em Targoviste?
— Exatamente como foi com meu pai em Targoviste — respondeu
Lucien. — Só que não vou empatar ninguém. Pelo menos não os membros da
minha corte real, e não só para chamar a atenção dos meus inimigos. — Ele
fez uma pausa com a xícara de café a caminho dos lábios para pedir com
gestos à garçonete muito tatuada que trouxesse uma xícara para o primo. —
Ficar em um café do outro lado da rua é o bastante. Ao menos, por enquanto.
Emil pareceu aliviado.
— É bom saber, senhor.
A garçonete chegou e colocou uma xícara na frente de Emil. Ele
agradeceu educadamente — depois de admirar as tatuagens de rosas, inclusive
com espinhos, que cobriam os dois braços da moça — e acrescentou creme e
dois torrões de açúcar enquanto ela corria para recolher a conta paga pelo
freguês da mesa ao lado, que estava indo embora. Do lado de fora, o céu só
parecia escurecer cada vez mais, e todo mundo estava ansioso para chegar em
casa antes que a tempestade piorasse...
... e pelos olhares lançados na direção de Lucien, a tempestade com a qual
estavam preocupados não era apenas a que se armava acima de suas cabeças.
— Se eu puder perguntar, meu senhor — disse Emil depois de tomar
— Ah. Você vai saber quando a hora chegar. Você sempre teve cabeça
boa para esse tipo de coisa.
— Bem... — disse Emil, mas parou,
Pois naquele momento, sua esposa apareceu saindo dos fundos do café,
com o batom vermelho intenso recém-aplicado e uma boina preta por cima do
cabelo elegante, na altura dos ombros. Ela estava no banheiro feminino, onde
havia trocado de roupa e colocado o que considerava ser um uniforme de
batalha: um sobretudo com estampa de oncinha, botas de couro preto, de
cano alto e salto fino.
— Olá, querido disse ela, dando um beijo na bochecha de Emil enquanto
se sentava na cadeira. — Ai, eca, você está todo molhado. Lucien, essa chuva
já é demais. Não pode desligar?
— É compatível com meu humor — disse Lucien para Mary Lou. Para
Emil, ele falou: — Você estava dizendo?
— M-mas... — Emil pareceu atônito.—O que ela está fazendo aqui?
—Ah, não seja burro, querido—-disse Mary Lou. — Passei o dia aqui,
avaliando o território. Você sabe disso. Só mudei a roupa para uma mais
marcante, para que se lembrem de mim.
— Mas ela não pode estar aqui agora — argumentou Emil para Lucien.
— Vamos entrar. É perigoso demais.
— Para eles, você quer dizer. — Mary Lou apoiou o queixo nas mãos e
olhou pela janela para a escola do outro lado da rua. — Eu sei. Também sinto
pena deles. Pobres carneirinhos.
— Não quero falar como alguém do século XV — reclamou Emil — mas
uma batalha entre o príncipe das trevas e a Palatina, no território da Palatina, é
lugar para uma mulher?
— Bem, o príncipe parece achar que sim, considerando que ele a trouxe
— disse Mary Lou, apontando para Meena, que estava de pé perto do bar,
falando com urgência ao telefone público do café.
Os olhos de Emil se arregalaram.
— O que ela está fazendo aqui? — explodiu ele, e se virou na direção do
príncipe com uma expressão atônita. -—Me perdoe, meu senhor, mas ela é
uma deles. E é mortal.
— Não por muito tempo — disse Lucien, e tomou calmamente um café.
— Ah — Emil fechou a boca e trocou um olhar nervoso com a esposa.
Mary Lou estava taticamente olhando para baixo e em outra direção.
Lucien olhou pela janela, fingindo não ter notado o desconforto do casal.
Sabia que eles se ajustariam à nova situação... assim como Meena. Era verdade
que ela podia se chatear no começo, mas logo veria que o modo dele era o
melhor. Principalmente quando a única opção era a morte.
Estava certa quando falou que só mordendo-a uma forçando-a a beber
seu sangue poderia transformá-la em um membro da espécie dele.
Mas havia uma outra forma. Se ela morresse, ele tinha o poder de trazê-la
de volta à vida como uma deles. Era o que seu pai fizera com ele, e o que ele,
como príncipe das trevas, tinha o poder de fazer com os outros
Ela ficaria infeliz por um tempo, é claro, como ele havia ficado. Mas ela
só reclamava quanto a ser um deles porque não sabia como era. Os humanos
eram famosos por terem medo do desconhecido.
Também eram frágeis e facilmente enganados. Por esse motivo, eram
alvos tão fáceis para charlatães que prometiam meios de redenção, geralmente
em troca de dinheiro.
Por isso tinha que salvar Meena... dela mesma. Porque ela estava
comprometida com uma tarefa tola que só geraria sofrimento e infelicidade,
como havia acontecido antes com tantos da espécie dela. Ele tinha tentado
avisá-la — ela mesma havia falado da futilidade de sua busca ao mencionar
tantas vezes o que acontecera a Joana D’Arc mas ela não quis ouvir
Então ele se sentia inocente quanto ao que estava prestes a fazer.
A única possível falha que Lucien previa em seu plano era que Meena
tinha insistido em embarcar nessa missão para “salvar” Alaric.
Mas ele não tinha intenção alguma de “salvar” Alaric.
A dificuldade seria, depois de ter recuperado o livro que estava Wulf,
matá-lo sem que Meena visse.
Meena ia ter coisas bem mais importantes do que Alaric com que
preocupar no futuro próximo, é claro. Mas Lucien tinha fé que o
temperamento doce dela faria com que o perdoasse pelo assassinato dela
mesma bem rapidamente.
Uma chuvarada repentina começou a atingir o grande vidro da janela,
obscurecendo momentaneamente a visão do pátio do outro lado da rua.
Emil inclinou a cabeça em direção a Meena.
— Com quem ela está falando? Com eles?
— E claro que não — respondeu Lucien. — Com o irmão.
— Se despedindo —-observou Mary Lou. — Que gracinha.
Emil pareceu pouco à vontade.
—Mary Lou -—disse ele. —Por favor. Use a cabeça. Como pode estar se
despedindo? Ela não sabe que vai a lugar algum.
Mary Lou franziu a testa.
— Ah, certo. Bem, ainda acho uma gracinha. E acho romântico —
acrescentou ela, com um sorriso na direção de Lucien.
— Eu não — disse Emil com firmeza. — Como seu mais íntimo e, acho
que devo acrescentar, único conselheiro, meu senhor, afirmo agora que não
gosto das chances dessa luta. Alaric Wulf joga duro.
— Do jeito que eu gosto — ronronou Mary Lou.
Tanto Lucien quanto o marido dela lhe lançaram olhares atônitos.
— O que você sabe — perguntou Emil — sobre o modo como Alaric
Wulf joga?
— Nada — disse Mary Lou rapidamente.— Onde está a garçonete? Pedi
um café latte séculos atrás. — Ela chamou a atenção da garçonete.
A garçonete, que parecia com pressa de vê-los irem embora, colocou um
café latte grande na frente de Mary Lou, que lhe deu um sorriso radiante.
— Ah, obrigada, você não é um amor?
— Trarei a conta assim que quiserem — disse a garçonete, lançando um
olhar nervoso para Lucien. Em seguida, saiu andando rápido.
Do lado de fora, o céu havia ficado ainda mais escuro, embora a chuva
tivesse parado. As luzes começaram a se acender em alguns prédios das
redondezas. A multidão diminuíra. Quase não tinha ninguém nas ruas. Até os
táxis pareciam ter sumido misteriosamente, como sempre acontecia quando
chovia.
Foi naquele exato momento que Meena, que tinha terminado a ligação, se
juntou a eles, com olhos brilhantes. Havia ponto s rosados nas maçãs do rosto
dela.
— Me desculpem pela demora— disse ela. — Jon está tomando muita
medicação para dor, então foi meio difícil manter uma conversa. Ele vai ter
que passar a noite lá. Mas está indo muito bem, considerando tudo. — Ela
olhou para Emil e disse: —Ah, oi. Não o vejo desde... Bem, tem muito tempo.
— Ela o beijou na bochecha antes de se sentar na cadeira vazia entre ele e
Lucien.
Emil pareceu aturdido.
Lucien reparou que Meena parecia nervosa. Mas ela acreditava que iam
invadir seu ex-local de trabalho para resgatar o homem que ele estava
começando a suspeitar que ela amava.
Então era natural que ficasse nervosa. Ela não podia suspeitar de mais
nada. Tinha afirmado inúmeras vezes que só podia prever a morte dos outros,
não a de si própria.
— Me desculpe, querida, mas o que exatamente aconteceu com seu —
perguntou Mary Lou. — Acidente de cozinha?
— Meena acredita que ele foi atacado por um Lamir — disse Lucien,
maneira direta.
— Ah, não — comentou Mary Lou. —Eles não. Conhecemos alguns
Lamir na última vez em que fomos ao Rio. Lembra, Emil? Seres terríveis. E os
brasileiros são tão gentis e adoráveis. Os humanos, eu quis dizer. Como
puderam ser amaldiçoados com vampiros tão terríveis, eu jamais entenderei.
Eu não sabia que já tinham chegado aqui. Que pena. Nova York está
condenada.
— Por quê? — perguntou Meena, parecendo alarmada.
— Bem — disse Mary Lou — , havia um número enorme deles naquela
época e ninguém os estava impedindo. — Ela pareceu perceber o olhar
nervoso do marido para Lucien e acrescentou: — Você nunca permitiu os
Dracul de matar, senhor, e teve cuidado com o crescimento da nos população.
Mas os Lamir não eram seus sádicos. Ninguém parecia ir regras a eles e a
Palatina praticamente não tinha presença...
— O padre Henrique é de lá e alega ter enfiado estacas em mais cem
deles — declarou Meena.
Mary Lou ergueu as sobrancelhas.
— Bem, não foi o bastante. Eu não conseguia imaginar, nem naquela
época, como iam conseguir se manter. Estavam matando a maior parte da sua
fonte de alimentos antes de ela ter a chance de se reproduzir. Alguma coisa ia
acabar dando errado. Não estou surpresa de terem decid ido vir para cá. Só
estou chocada de terem demorado tanto tempo. Os Lamir são comedores de
carne, sabe. — Ela fez uma careta de nojo. — Um hábito repulsivo.
Meena balançou a cabeça.
—Brianna Delmonico foi infectada por um Lamir, então —-disse ela, e
olhou para Lucien. —Todos aqueles turistas desaparecidos foram comidos
por eles... Alaric estava certo.
Se Lucien ouvisse o nome Alaric mais uma vez, teria que levantar a mesa
e jogá-la pela janela de vidro.
— Eles esperaram até irmos embora para poderem se deslocar Comentou
Emil. — Faz sentido, O que não faz é que tenham planejado para coincidir
com a realocação do padre para cá. Se ele estava matando os Lamir na
quantidade que afirma, por que eles viajariam para o lugar onde ele está
morando? Não teriam medo dele?
— Não se foi ele quem planejou a armadilha para mim ontem — disse
Lucien. — Porque obviamente ele é um tolo incapaz que nunca matou
ninguém.
— Pois então. — Meena piscou algumas vezes. — Você acha que ele
mentiu sobre matar aqueles Lamir todos? É isso que Alaric acha.
Ela levantou a mão para passar o dedo no colar que tinha queimado
Lucien quase até o osso naquela tarde. Embora jamais tivesse confirmado que
Alaric lhe dera o colar, cada vez que falava no nome dele, ela levantava a mão
para tocar no talismã de prata.
Lucien refletiu que devia tê-la matado quando teve a chance, enquanto
ainda estava inconsciente naquela tarde. Assim, poderia ter posto a culpa da
morte dela em Brianna Delmonico e bancado o cavalheiro nobre ao trazê-la
de volta à vida.
Também podia ter arrancado o colar antes de tê-la reavivado, dizendo a
ela depois que deveria ter caído no túnel durante a luta. Mas ficara burramente
cego de raiva da vampira que tinha ousado atacar Meena para pensar em fazer
qualquer uma dessas coisas antes de ela acordar. Agora ela não só estava viva,
mas ainda usava o colar.
Às vezes ele se perguntava se sua transformação tinha mesmo sido
completa.
Naquele momento, um trovão muito, muito alto soou.
Só que não era um trovão, porque não havia sido precedido por
relâmpago.
E foi tão alto que fez o prédio todo — e possivelmente todos os prédios
do quarteirão sacudir. Lucien segurou a mão de Meena, assim como o tampo
da mesa, para impedir que o café caísse.
— O que foi isso? —- gritou ela.
Eles só precisaram virar a cabeça para obter a resposta. Uma fumaça
densa e branca tinha começado a sair das janelas da escola St. Bernadette, que
tinham quebrado com o impacto da explosão.
— O que aconteceu? — gritou a garçonete ao pegar o telefone para ligar
para a emergência. — O que causou isso?
Lucien sabia. Lucien sabia exatamente o que tinha causado aquilo. Duas
palavras, e apenas duas.
Alaric Wulf.
36
Fumaça. Todo mundo sabia que a melhor maneira de erradicar uma infestação
hostil de abelhas, formigas, capins, manifestantes, criminosos de guerra,
vampiros comedores de carne ou outros tipos desagradáveis — era provocar
desconforto o bastante para levar os causadores da infestação a um local ao ar
livre, onde era possível lidar com eles da maneira apropriada.
A maneira mais fácil para tal era usar fumaça. Ninguém conseguia
suportar o calor e a fumaça por muito tempo... a não ser, é claro, que não
respirasse oxigênio.
Onde havia fumaça, costumava haver fogo. E Alaric ainda estava para ver
alguma criatura, viva ou morta, que ficasse firme frente à ameaça de fogo.
Com um boiler tão velho e malcuidado quanto o do prédio que a Palatina
havia escolhido como quartel-general em Manhattan, era bem fácil provocar o
tipo de distúrbio que Alaric desejava, mesmo no meio de um mês de setembro
atipicamente quente, quando o aquecimento não estava ligado. Havia água
quente sendo levada para interior do prédio. As pessoas a estavam usando nos
vestiários para tomar banho, nos lavatórios para lavar as mãos e na cozinha
para preparar comida e lavar louça.
E isso significava que tudo que ele precisou fazer para causar a série de
eventos catastróficos que levaram à explosão que sacudiu a Spring Street foi
desconectar a alimentação da válvula de água e depois desviar o detector de
baixo nível de água. Teve o cuidado de evitar quaisquer medidas de segurança
de emergência que a própria máquina poderia estar programada para tomar
antes de desligar a válvula principal de liberação do boiler e fechar o retorno.
E, apesar de ter enrolado uma das cordas de couro ao redor do pé, ele
tinha se machucado muito (o que só piorou seu antigo ferimento na perna)
quando chutou uma das válvulas, uma medida à qual havia recorrido para o
caso improvável de alguém com conhecimento estar no prédio em um
domingo e tentar consertar o problema que Alaric causara.
Sua única preocupação era não explodir a si e aos amigos embora
soubesse que o boiler avisaria bastante antes disso. A coisa era grande como
um caminhão de entregas da UPS. Não ia desistir sem lutar.
Vinte. Dezenove. Dezoito.
O boiler soltou uma série de ruídos que pareciam um yeti no cio.
Alaric tinha certeza de que dava para ouvir — e sentir — no prédio todo.
Encontrou uma cadeira pequena em um dos cantos do aposento, levou-a
para o centro e sentou-se nela, evitando apoiar o peso na perna machucada.
Cruzou as mãos atrás da cabeça e pensou sobre o que gostaria de comer no
café da manhã, embora tivesse certeza de estar mais perto da hora do jantar
agora.
Ovos mexidos. E bacon. Bacon de verdade, não o de peru que costumava
comer.
Dezessete. Dezesseis.
O boiler emitiu um som de tiro de pistola.
Ele ouviu a fechadura da sala do boiler ser destrancada. Em seguida.
aporta abriu, O próprio Padre Caliente subiu na escada de metal vazada e
desceu para a sala na qual Alaric estava sentado.
O padre não tinha ido sozinho, é claro. Era covarde demais para isso.
Estava acompanhado de vários homens vestidos de preto que Alaric
reconheceu da tentativa desastrosa de capturar Antonesco na noite anterior.
Estavam segurando bestas, exatamente as mesmas de alumínio (com miras de
fibra Ótica) que Holtzman dissera no mês anterior ser caras demais (e
impróprias para uso urbano) para o orçamento apertado da unidade de
Manhattan.
Maurício vestia uma batina esvoaçante — branca com debruados verdes e
dourados. Estava particularmente bonito e com aparência confiável. Alaric se
perguntou se ele foi para lá direto da missa... ou talvez de outra entrevista para
a televisão.
O Padre Caliente olhou para Alaric do jeito que o papa olhava de cima
para os fiéis que se reuniam do lado de fora do Vaticano nas manhãs de
domingo.
— O que você fez, Wulf? — perguntou ele com voz cansada.
Alaric tentou parecer inocente.
— Eu? Não fiz nada. Tenho certeza de que não é nada. Mas eu começaria
a evacuar o prédio, só por segurança. Nunca se pode ter certeza quanto a
equipamentos velhos.
— Entendo — disse Mauricio, desafiando o blefe. — Que coincidência
isso acontecer logo hoje. Acho que Deus todo -poderoso quer me poupar do
pecado de ter que mandar que estes homens rachem seu cérebro ao meio com
uma flecha de madeira.
Alaric inclinou a cadeira para trás, mantendo o pé ferido em cima do
joelho. Mauricio decidira parar de fingir. Até o sotaque tinha praticamente
sumido.
— Então por que ainda não fez isso? -—perguntou Alaric. Mauricio
olhou para ele com raiva.
— Mais uma palavra e é o que farei.
— Não fará, não — disse Alaric. — E eu sei por quê. E também por que
você não teve coragem de matar Holtzman e o resto da equipe em Barrens. Se
tocasse em um fio de cabelo nosso, se sequer tivesse pensado em fazer isso,
Meena Harper saberia. E ela o teria trazido aqui. E isso seria seu pior pesadelo,
não é? Porque você morre de medo de Lucien Antonesco.
O olhar de Mauricio se afastou de Alaric e seguiu em direção aos guardas
posicionados a cada lado da sacada onde ele estava.
Mas, assim como Alaric suspeitara, ele não mandou que atirassem.
— É a coisa mais ridícula que já ouvi — retrucou Mauricio com desdém.
Quero encontrar Lucien Antonesco mais do que qualquer pessoa. Foi por isso
que mandei Meena Harper ser demitida da Palatina. Estamos seguindo-a pelo
celular desde que ela saiu daqui. Tenho esperança de que ela vá nos levar
diretamente a ele e, quando isso acontecer, vamos fazer o que você foi incapaz
de fazer em todos os meses que passou aqui. Vamos destruí-lo.
— É mesmo? — disse Alaric, erguendo uma sobrancelha, descrente. —
Era o que eu estava tentando fazer quando você me interrompeu com aquela
rede pretensiosa e com os uniformes apertados e transformou tudo em um
grande desastre. Mas deixe isso pra lá. Não estou dizendo que seja errado ter
medo do príncipe, porque ele é o lorde das trevas. Só estou dizendo que não
precisa de tanto enfeite. Uma simples espada no coração funciona. Então
onde está Meena agora?
Mauricio pareceu levemente desconfortável.
— Bem, parece que estamos tendo alguns problemas com o satélite no
momento.
— Entendo. Não quero dar muitas notícias ruins de uma vez, você acha
que há alguma possibilidade de ela ter descoberto seu plano e jogado fora o
celular? E que ela e Antonesco possam estar a caminho daqui?
Mauricio pareceu mais abalado por essa notícia do que deveria, sendo um
homem cercado de guardas armados.
— Por que diabos fariam isso?
— Bem, em primeiro lugar — respondeu Alaric —, devo supor que
Antonesco queira o livro de volta. E provavelmente já descobriram onde
estou. Meena tem aquela coisa paranormal. — Ele deu de ombros. — O satélite
dela não fica sem sinal. Pelo menos se não estiver sendo bloqueado por uma
porta do inferno.
Mauricio pareceu assustado, mas não entendeu o que Alaric quis
— E daí? Ainda não vejo...
— Bem — disse Alaric ——, eu sei onde o livro está, afinal.
Mauricio ficou surpreso. Mais do que isso. Ficou chocado. Ele estivou o
braço e se apoiou no corrimão da sacada. Alaric viu que os nós seus dedos
ficaram brancos.
— N-não pode ser — gaguejou Mauricio. — Antonesco está com o livro.
Ele fugiu levando-o ontem à noite. Você estava lá. Você viu.
— Ele fugiu ontem à noite —- disse Alaric. — Mas não com o livro. Eu
estou com ele. E o escondi. Mas se não soltar meus amigos, não vou dizer
onde está. E — acrescentou ele quando o boiler fez outro ruído — você
deveria mesmo pensar em evacuar o prédio. Já vi esse tipo de coisa.— Ele
sacudiu a cabeça. — Nada bonito. Voam pedaços de cimento e de carne
queimada para todos os lados. Não vai pegar bem aos olhos da imprensa você,
sendo o chefe responsável, ter nos deixado queimar.
O olhar de Mauricio foi em direção ao boiler, que tremia como um
elefante em trabalho de parto. Alaric viu os homens que estavam de pé ali
perto trocarem olhares nervosos.
Quinze. Catorze. Treze.
— Se você estiver mentindo quanto ao livro — ameaçou Mauricio — eu
vou matar você, independentemente de Meena Harper. Peguem-no — disse
ele para dois dos guardas. Para o restante de sua equipe, ordenou:
— Peguem os outros. E procurem o zelador do prédio. Alguém deve
saber consertar essa coisa.
—Excelente ideia — disse Alaric, embora soubesse que era tarde demais
para que alguém consertasse o boiler.
Ele ficou de pé obedientemente quando os guardas o seguraram e não
protestou quando o levaram pelos braços em direção à escada. A perna ainda
estava doendo muito e ele precisou de ajuda para subir os degraus. Quando
chegassem ao corredor, seria diferente, é claro. Aí, ele colocaria as mãos em
uma das bestas...
— Ele já está mal das pernas faz tempo — comentou Alaric, falando
sobre o boiler. — Já deveriam tê-lo substituído. Mas você ouviu sobre as
preocupações com o orçamento, tenho certeza.
Doze. Onze. Dez.
—Não tenho tempo para discussões — reclamou Mauricio. —O
arcebispo está no meu pé o dia inteiro por causa de Ontem noite. Está furioso
por Antonesco ter fugido.
— Posso imaginar — disse Alaric
estava na metade da escada. Podia ouvir portas sendo abertas no corredor
e a voz alterada e com leve sotaque de Carolina perguntando:
— Por quê? Por que estamos evacuando o prédio? O que está
acontecendo?
Alaric esperava que Holtzman tivesse passado a mensagem. Quando o
boiler explodisse, provavelmente levaria toda a parede atrás de si... a parede
que levava ao escritório onde tinham trancado Holtzman. E a parede atrás
daquela sala também.
— Mas ele ficará feliz de o livro ao menos estar em segurança — concluiu
Alaric.
— Ele não vai ligar—disse Mauricio. — Não quis me ouvir sobre a
importância do livro. Tentei explicar que a rede não funcionaria. Mas ele viu
isso em algum programa de TV. Esse é o problema com esses velhos. Não
ouvem ninguém mais jovem do que eles. Quando colocam uma ideia na
cabeça, sempre acham que estão certos.
Alaric estava no topo da escada agora. Teve que se reclinar pesada- mente
nos braços dos guardas para se apoiar, mas conseguiu.
Até ter certeza de que Holtzman e os outros estavam seguros fora do
prédio, ia se comportar como se estivesse do lado de Mauricio.
Embora a verdade fosse que não tinha mais certeza sobre de que lado
estava.
Nove. Oito. Sete.
— Exatamente — disse Alaric. — E o que eles sabem sobre as coisas?
Nunca estiveram em campo. A maior parte deles nunca viu um vampiro
pessoalmente. Se um daqueles sugadores de sangue andasse até eles e
mostrasse as presas, eles provavelmente o abençoariam e achariam que estava
curado.
A expressão de Mauricio foi de diversão.
— Exatamente -—disse ele. — Estão completamente por fora. Está na
hora de termos uma nova direção. Uma nova guarda.
— Concordo plenamente — falou Alaric.. — Mas como poderemos fazer
isso?
— Venho trabalhando nisso há algum tempo, na verdade — disse
Mauricio. — E a resposta é que tem que ser vindo de dentro. É o único
caminho.
— De dentro, — Agora que estava no corredor, Alaric podia ver
Holtzman sendo levado para fora. Infelizmente, Holtzman também reparou
nele.
— Alaric? —disse Holtzman, parecendo surpreso. —Padre Henrique? O
que está acontecendo? Posso fazer alguma coisa para ajudar?
O padre Henrique fez um sinal tranquilizador para Holtzman.
— Tudo está bem, Dr. Holtzman — gritou ele. — O boiler só está com
uns problemas.
— O boiler? —Holtzman arregalou os olhos para Alaric. —Ah, não...
A porta da escada do térreo se fechou, abafando o som da voz dele.
Seis. Cinco. Quatro.
O padre prosseguiu.
— Quando conseguirmos nos infiltrar completamente, não teremos mais
essas preocupações incômodas.
— Ah? — perguntou Alaric. Ele tinha olhado para os rostos dos guardas
e não reconheceu nenhum. Quem eram? De onde tinham vindo? Ele pensava
conhecer todo mundo da Palatina. Era verdade que sempre havia novos
recrutas, mas a organização nem era tão grande.
— Como aquele desastre no museu ontem — disse Mauricio.
O pulso de Alaric havia disparado. Não tinha certeza se era por falta de
alimento, pela dor na perna ou pela expectativa do que sabia que estava
prestes a acontecer. Só não era por medo, com certeza. Seu objetivo era usar a
fumaça para tirar os vilões de lá. Aqueles vampiros comedores de carne
deviam estar em algum lugar por ali.
Assim como Lucien Antonesco, ele tinha certeza.
O problema era Meena. Por que a intuição dela só funcionava com outras
pessoas? Por que ela sempre aparecia exatamente na hora errada, no lugar
mais perigoso em que poderia estar?
— Sempre foi muito importante que o príncipe das trevas não colocasse
as mãos naquele livro — afirmou Mauricio. — Eu tentei avisá-los. O livro tem
o poder intrínseco de unir Lucien Antonesco com forças além do controle
dele, além do controle de qualquer um.
— Então foi uma grande burrice — comentou Alaric secamente —
colocá-lo em exibição na cidade que ele habita no momento.
— Mais uma vez — disse Mauricio —, não é uma decisão que eu teria
tomado se fosse o responsável. É um erro que venho tentando retificar desde
que ouvi falar dele.
— É mesmo? — perguntou Alaric. Sua garganta estava seca, apesar de
toda a água com ferrugem que bebeu.
Mauricio estava quase na porta para a escadaria principal.
— Quando expliquei a situação para alguns indivíduos-chave, recebi total
liberdade para fazer o que fosse necessário para obter o controle.
— Eu estava querendo perguntar sobre isso — disse Alaric. — Porque
me parece que o que você fez para obter o controle foi transformar um exnamorado de Meena Harper em vampiro.
— Sim — disse Mauricio, sorrindo para ele. — Foi precisamente o que
fiz. Só que não apenas o ex-namorado de Meena Harper.
Foi só naquele momento que Alaric reparou nos dentes do padre
Henrique. Ou, mais precisamente, presas.
Três. Dois. Um.
Bum.
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