quarta-feira, 25 de setembro de 2013

mord - mg - parte 3 - 34-35-36

 34
- Freewell foi um desastre - explicou Holtzman.  —  A esposa de
David Delmonico estava na casa. Nunca vi nada parecido. E você sabe que eu
pensava ter visto quase todas as formas do mal na face da Terra. Mas quando
ela saiu de dentro da lavanderia pulando em  cima de nós...  —  Ele tremeu.  —
Foi terrível.
—  Abraham.  —  Embora  Alaric  estivesse  feliz  em  ver  que  o  chefe  e
amigo estava vivo e bem, começava a se arrepender de tê-lo encontrado. Sua
cabeça ainda latejava e Holtzman parecia ter uma necessidade de contar  o que
havia vivenciado.
Mas  Alaric  não.  Ele  só  precisava  se  concentrar  em  como  ia  tirar  a  si  e
Abraham do prédio.
—  Brianna Delmonico foi para cima do pescoço de Carolina. E teria sido
bem-sucedida  se  Patrick não  estivesse  no  caminho. Patrick  Chen,  o  téc nico,
você  o  conheceu?  —  perguntou  Holtzman.  —  Muito  confiável.  Faz  um
excelente trabalho de análise.., ou melhor, fazia.
— O que você quer dizer com fazia? — indagou Alaric.
—  Aquela  mulher  simplesmente  o  atacou.  —  Holtzman  balançou  a
cabeça  com  a  expressão  assombrada  pela  lembrança.  —  Havia  sangue  e
miolos por toda parte. E então... Alaric, eu juro que é verdade. Ela o comeu.
Não só o sangue. Tudo.
Alaric  olhou  fixamente  para  o  chefe,  enojado.  Não  conhecia  Patrick
Chen.
Mas sentia como se nada mais pudesse surpreendê-lo.
— Onde está Carolina agora? — perguntou Alaric. — E os outros?
—Ah  —  disse Holtzman, inclinando a cabeça.  —  Ela está aqui ao lado.
Santiago e Morioka estão no final do corredor. Fomos suspensos, colocados
para fazer serviço administrativo por analisar dados críticos com ineficiência.
Dá  para acreditar?  Podemos  nos  comunicar  via  e-mail...  —  Ele  assentiu  em
direção  ao  computador  sobre  a  escrivaninha.  —  Mas  não  nos  permitem  ter
acesso  à  comunicação  externa  enquanto  não  investigarem  o  que  deu  errado
em  Freewell.  Morioka  acha  que  consegue  romper  o  firewall,  mas  tenho
dúvidas.
— Quem são eles? — perguntou Alaric, encostando o rosto à porta.
—  Se está ouvindo para ver se há guardas, não precisa perder seu tempo
—  garantiu Holtzman. —  Confie  em mim, nem se deram ao trabalho de fazer
isso. Dizem que não somos prisioneiros. Mas as portas estão trancadas. Com
trincos. Senha para entrar. Impossíveis de burlar. — Ele balançou a cabeça. —
Acredite, eu tentei. Mudaram todos os códigos...
— Analisamos dados com ineficiência, sei —  disse Alaric, e apontou para
o  computador  sobre  a  escrivaninha  de  Holtzman.  —  Essa  coisa  acessa  a
internet?
Holtzman olhou para o computador.
— Não. Eu já falei. É só para comunicação entre setores...
— E quanto a Meena Harper? Consegue fazer contato com ela?
—  Alaric  —  disse Holtzman  —, acabei de explicar que o programaram
apenas  para  que  possamos  contatar  uns  aos  outros,  para  que  possamos
trabalhar juntos em nossa defesa. É um dos nossos... O que está fazendo?
Alaric  tinha  começado  a  abrir  as  gavetas  da  escrivaninha,  puxando  e
virando o conteúdo de cada uma no chão.
—  Ah, Alaric —  disse Holtzman com um suspiro.  —  Você está fazendo
uma bagunça. Não há nada aí que possa usar para abrir a porta.
Até as dobradiças ficam do outro lado.
—  Posso reparar em alguma coisa que você deixou passar. Mas continue.
Alguém fez alguma coisa enquanto Chen estava sendo comido?
—  É  claro  —  disse  Holtzman,  horrorizado  pela  sugestão  de  que  havia
ficado parado enquanto um colega estava sendo ingerido.  —  Carolina pegou
aquela espada, a de 30 centímetros. Mas antes que conseguisse dar um golpe, a
vampira fugiu. Pulou por uma janela de vidro. É claro que pegou uma manta
de cima do sofá antes de fugir, para ter alguma proteção contra a luz do sol. E
não precisou ir longe para conseguir chegar à sombra. Os fundos da casa são
perto da borda oeste de Pine Barrens.
Alaric ergueu as sobrancelhas.
— Barrens? Era lá que você estava quando me ligou?
Holtzman assentiu.
—  Era. Nós a seguimos, embora não estivéssemos exatamente equipados
para andar no meio de uma planície costeira coberta por uma floresta densa.
Como você sabe, há mais de 40 mil hectares de pinheiros lá e os aglomerados
de árvores às vezes ficam muito densos... e a recepção dos celulares é terrível.
Quase  não  tem  antenas,  Tentamos  pedir  reforço  várias  vezes  e  não
conseguíamos completar a ligação e nem obter respostas até eu conseguir falar
com  você.  Isso  foi  depois...  —  O  rosto  de  Holtzman  ficou  um  tom  mais
pálido sob a luz fluorescente. — Depois que encontramos, é claro.
Alaric parou de olhar para a pilha de clipes de papel e blocos de Post-it no
chão.
— Encontraram o quê?
Embora,  a  julgar  pela  expressão  de  Holtzman,  não  tivesse  certeza  se
queria saber.
—  O ninho  —  disse Abraham.  —  Estava na parte mais escura que já vi
da  floresta.  Uma  espécie  de  área  de  pântano.  Não  sei  se  alguém,  alguém
humano, já esteve  lá. Não ultimamente, não  ainda  vivo. Brianna Delmonico
nos levou diretamente até lá, como se tivesse sido guiada por uma espécie de
farol. Você sabe que eu sempre acreditei que há lugares de enorme mal, assim
como há lugares onde o bem domina. Bem, esse  lugar era um deles, Alaric.
Era ao lado da água. Dava para sentir o fedor de morte e decomposição. E lá
estava ele, de pé ao lado do ninho, com as asas encolhidas, mastigando alguma
coisa.
—  Lá  estava  o  quê?  —  perguntou  Alaric,  sentindo  um  arrepio.  Mas  já
sabia.
—  O  demônio  —  disse  Holtzman  simplesmente.  —  Era  exatamente
como  todas  as  pessoas  que  moram  nos  arredores  de  Barrens  disseram  que
era...  bípede,  com  asas,  cabeça  de  cavalo.  Pareceu  bastante  surpreso  de  nos
ver. E desapontado por não estarmos levando presentes.
— Presentes?
—  disse  Holtzman.  —  Pareceu  que,  quando  era  visitado,  por  alguém
levando  comida.  O  ninho  estava  cercado  de  ossos.  Estavam  empilhados  ao
redor dele.
—  Ossos?  —  repetiu  Alaric.  Já  tinha  ouvido  algumas  coisas  estranhas
durante seus anos na profissão. Mas nunca algo assim.
—  Sim.  Ossos  humanos.  Acho  que  encontramos  nossos  turistas
desaparecidos.
Alaric olhou para ele, chocado.
—  É  assim  que  os  restos  estão  sendo  descartados?  Sendo  entregues  ao
Demônio de Nova Jersey?
—  É  o  que  parece  —  respondeu  Holtzman.  —  É  inteligente,  se  você
pensar bem. Um demônio usando outro para encobrir seus crimes.
Diabólico era a palavra que Alaric teria escolhido, não inteligente.
— O que vocês fizeram? — perguntou ele.
Holtzman piscou, surpreso com a pergunta.
—  Bem, nós o atacamos com tudo que tínhamos, é claro  —  disse ele. —
Água  benta,  estacas,  espadas.  Carolina  deu  alguns  chutes  na  cabeça  dele.
Morioka tinha uma Glock carregada com balas de prata. Ele atirou no coração
do demônio. Pareceu funcionar. Ele gemeu um pouco, mas isso foi tudo. Em
seguida, virou cinza. Foi bastante satisfatório para uma morte.
— Legal — exclamou Alaric, admirado.
—  Também achei  —  disse Holtzman.  —Mas o surpreendente foi que o
padre Henrique não pareceu nada satisfeito quando chegou...
Alaric pensou que devia ter passado tanto tempo pendurado pelos braços
que  um  coágulo  havia  se  formado  neles,  se  deslocado  até  o  cérebro  e
estourado.
Ao  menos,  foi  assim  que  pareceu  quando  Holtzman  disse  as  palavras
padre Henrique.
— O quê? — perguntou ele, quase gritando.
—  Sim  —  disse Holtzman.  —  Também achei curioso, a princípio. E eu
sabia que você reagiria dessa forma quando eu contasse, porque, é claro, eu
garanti  que  ele  tinha  sido  chamado  para  cá  apenas  como  padre,  não  como
parte da unidade. Mas, ao que parece, não é ocaso. Pelo que pude perceber, ele
recebeu uma posição de autoridade sem precedentes...
Alaric  engoliu  uma  série  de  palavrões  para  que  Holtzman  pudesse
terminar.
—  ...  em  uma  nova  divisão  interna  da  qual  nunca  ouvi  falar  —  disse
Holtzman.  —  Ele e sua equipe pareceram bastante perturbados por causa do
criptídeo. Até nos acusou de uso excessivo de força. Preferiam tê-lo capturado
vivo. E o helicóptero assustou a vampira, que obviamente ainda estava...
— Eles foram de helicóptero? — Alaric mal podia acreditar no que estava
ouvindo.
—  Ah, foram. Também fiquei surpreso. Uma despesa desnecessária. Não
estávamos em perigo mortal. Eu entenderia se estivéssemos sob ataque, mas
não  era  o  caso.  O  padre  Henrique  começou  a  dar  ordens  à  equipe  para
iniciarem  o  descarte  dos  restos,  como  fizeram  na  casa  de  Freewell,  para
encobrir  o  que  acontecera  a  Patrick,  o  pobre  homem.  Não  havia  maneira
possível  de  explicar  tamanha  carnificina  para  as  autoridades  locais.  E  há
incêndios florestais frequentes em Barrens. Considerando a secura do último
verão, não seria tão surpreendente que um começasse agora, de acordo com o
padre Henrique.
Alaric tinha ouvido o bastante.
—  Ele não levou em consideração que, se aqueles corpos são dos turistas
que sumiram nas últimas semanas —  perguntou ele —, é preciso fazer análise
do  DNA  para  que  possam  ser  identificados  e  as  famílias  notificadas  das
mortes? Entendo que precisamos manter o público sem saber a verdade sobre
a  existência  de  seres  sobrenaturais,  para  evitar  o  pânico  mundial.  Mas  essas
pessoas tinham família, Abraham.
Holtzman  parecia  cansado.  Ele  afundou  no  colchão.  Estava  bem
arrumado, com o lençol esticado. Abraham Holtzman nunca havia se casado.
Não achava justo deixar uma companheira preocupada em casa enquanto  saía
para lutar com demônios. Tinha dedicado a vida toda ao trabalho.
E agora, isso. Ele parecia abatido e pálido sob as luzes fluorescentes.
—Você  acha  que  não  falamos  isso,  Alaric?  Foi  quando  as  coisas
começaram a ficar um pouco... um pouco alteradas.  Estávamos todos tensos.
Tínhamos  passado  quase  12  horas  em  Barrens  e  perdido  um  membro  da
equipe, de uma forma grotesca. Claro, matamos o Demônio de Nova Jersey.
Mas aí Henrique aparece de helicóptero, o vampiro foge e ele anuncia que vai
botar fogo no local todo. Foi quando Carolina... bem, você sabe como ela é.
Ela  foi  conversar  com  o  padre  Henrique,  na  língua  deles,  então  não  tenho
certeza  do  que  foi  dito.  Carolina  acredita  que  o  padre  Henrique  pode  estar
tentando esconder alguma coisa de nós. Acho que  as palavras trocadas entre
eles não foram muito gentis.
—  Tenho certeza de que não foram  —  murmurou Alaric. Ele conhecia
Carolina  da  Silva.  Ela  era  dedicada  ao  emprego  na  Palatina  e  era  uma
profissional de alto nível. Certamente viu em um piscar de olhos  a farsa que é
o Padre Caliente. -—O que aconteceu?
Holtzman pareceu pouco à vontade.
O padre Henrique disse que podíamos resolver a situação aqui, durante a
reunião. Mas não houve reunião. Fomos trazidos do heliporto para estas salas,
onde  recebi  uma  reprimenda  oficial  por  não  supervisionar  minha  equipe
adequadamente e fomos suspensos e realocados para o serviço administrativo
pelo Dr. Fiske. Preciso dizer para você, Alaric, que estou ficando preocupado
de Carolina talvez estar certa.
Alaric contraiu o maxilar, olhando para a bagunça que fizera no chão sem
realmente  vê-la.  Estava  aliviado  por  ter  encontrado  Holtzman  e  os  outros,
pois parte do motivo de ter fugido era para encontrá-los.
Mas o fato de estarem trancados, assim como ele, no quartel-general de
seu ex-empregador complicava as coisas. Alaric agora tinha que pensar em um
jeito  de  tirar  todos  de  lá.  Senão,  assim  como  as  evidências  deixadas  em
Freewell e Pine Barrens, eles seriam eliminados, de maneira limpa e eficiente.
Sabiam demais para serem deixados vivos. Só conseguia pensar em uma razão
para não terem sido eliminados ainda... e era a outra pessoa que &e precisava
salvar, Meena Harper.
Se algo ruim acontecesse a qualquer um deles, Meena saberia.
Alaric  tinha  visto  a  expressão  no  rosto  de  Mauricio  quando  a  rede  não
conseguiu segurar Antonesco. Fora uma expressão de puro terror. Henrique
Mauricio precisava de Lucien Antonesco morto — ou bem preso.
Mas a chave para encontrar Lucien era Meena Harper. Mauricio poderia
tentar intimidar Meena, mas  não ousaria fazer nada que trouxesse o risco de
aborrecê-la... ainda. Ela era a abelha rainha e Antonesco era o mel. Mauricio
poderia cutucar a colmeia, mas não estava pronto para destruí-la.
Alaric, por sua vez, não tinha esse tipo de reserva.
—  Consegue se comunicar com Carolina e com os outros?  —  perguntou
ele ao chefe. Ou ex-chefe, supunha ele.
— Sim, é claro. Já falei isso.
Alaric sorriu.
— Então quero que mande uma mensagem para eles.
Holtzman pareceu surpreso. Mas levantou e andou até o teclado.
—  Tudo  bem  —  concordou  ele,  começando  a  digitar.  —  Qual  é  a
mensagem?
— Diga para eles — disse Alaric — ficarem em alerta.
35
Emil se juntou a  Lucien  à  mesa  onde  ele  estava  sentado,  no  janelão
pretensioso café decadente estilo europeu.
—Tudo parece seguro -— notificou-o Emil.
— Excelente — disse Lucien.
— Que diazinho horrível esse — comentou Emil.
— Não é? —concordou Lucien. Ele não parecia nada infeliz com isso.
O mesmo não podia ser dito sobre todos os pedestres que saíam da agora
quase  vazia  festa  de  San  Gennaro.  Abrigados  debaixo  de  guarda-chuvas
comprados  às  pressas  de  vendedores  de  rua  ou  em  lojas  de  conveniência,
estavam indo para casa, molhados e completamente desanimados. A previsão
fora  de  tempo  ensolarado,  com  apenas  dez  por  cento  de  chance  de
precipitação.
No céu, os trovões ribombavam ameaçadoramente!
A previsão do tempo claramente havia errado.
—  Isso é desafiar um pouco o destino, é, meu senhor?  —  Emil assentiu
em direção ao prédio do outro lado da rua.  —  Tudo o que qualquer um deles
precisa  fazer  é  sair  de  lá,  e  poderia  facilmente  ver  você  sentado  aqui.  Eles
sabem como você é.
Lucien  mexeu  o  açúcar  que  colocara  no  café.  O  estabelecimento  usava
torrões  de  verdade,  o  que  ele  achava  encantador,  mas  sabia  que  os  outros
achavam nada higiênico, pois os torrões de açúcar não vinham em embalagens
individuais.
—  Eles sabem que estou chegando ——  disse ele. —  A surpresa não é o
fator que estou buscando usar nessa batalha.
Emil ergueu as sobrancelhas. 
— Como foi com seu pai em Targoviste?
—  Exatamente  como  foi  com  meu  pai  em  Targoviste  —  respondeu
Lucien. — Só que não vou empatar ninguém. Pelo menos não os membros da
minha corte real, e não só para chamar a atenção dos meus inimigos.  —  Ele
fez  uma  pausa  com  a  xícara  de  café  a  caminho  dos  lábios  para  pedir  com
gestos à garçonete muito tatuada que trouxesse uma xícara para o primo.  —
Ficar em um café do outro lado da rua é o bastante. Ao menos, por enquanto.
Emil pareceu aliviado.
— É bom saber, senhor.
A  garçonete  chegou  e  colocou  uma  xícara  na  frente  de  Emil.  Ele
agradeceu educadamente —  depois de admirar as tatuagens de rosas, inclusive
com espinhos, que cobriam os dois braços da moça  —  e acrescentou creme e
dois  torrões  de  açúcar  enquanto  ela  corria  para  recolher  a  conta  paga  pelo
freguês da mesa ao lado, que estava indo embora. Do lado de fora, o céu só
parecia escurecer cada vez mais, e todo mundo estava ansioso para chegar em
casa antes que a tempestade piorasse...
... e pelos olhares lançados na direção de Lucien, a tempestade com a qual
estavam preocupados não era apenas a que se armava acima de suas cabeças.
— Se eu puder perguntar, meu senhor — disse Emil depois de tomar
—  Ah. Você vai saber quando a hora chegar. Você sempre teve cabeça
boa para esse tipo de coisa.
— Bem... — disse Emil, mas parou,
Pois naquele momento, sua esposa apareceu saindo dos fundos do café,
com o batom vermelho intenso recém-aplicado e uma boina preta por cima do
cabelo elegante, na altura dos ombros. Ela estava no banheiro feminino, onde
havia  trocado  de  roupa  e  colocado  o  que  considerava  ser  um  uniforme  de
batalha:  um  sobretudo  com  estampa  de  oncinha,  botas  de  couro  preto,  de
cano alto e salto fino.
—  Olá, querido disse ela, dando um beijo na bochecha de Emil enquanto
se sentava na cadeira.  —  Ai, eca, você está todo molhado. Lucien, essa chuva
já é demais. Não pode desligar?
—  É compatível com meu humor  —  disse Lucien para Mary Lou. Para
Emil, ele falou: — Você estava dizendo? 
— M-mas... — Emil pareceu atônito.—O que ela está fazendo aqui?
—Ah,  não  seja  burro,  querido—-disse  Mary  Lou.  —  Passei  o  dia  aqui,
avaliando  o  território.  Você  sabe  disso.  Só  mudei  a  roupa  para  uma  mais
marcante, para que se lembrem de mim.
—  Mas ela não pode estar aqui agora  —  argumentou Emil para Lucien.
— Vamos entrar. É perigoso demais.
—  Para eles, você quer dizer.  —  Mary Lou apoiou o queixo nas mãos e
olhou pela janela para a escola do outro lado da rua.  —  Eu sei. Também sinto
pena deles. Pobres carneirinhos.
— Não quero falar como alguém do século XV — reclamou Emil — mas
uma batalha entre o príncipe das trevas e a Palatina, no território da Palatina, é
lugar para uma mulher?
—  Bem, o príncipe parece achar que sim, considerando que ele a trouxe
—  disse  Mary  Lou,  apontando  para  Meena,  que  estava  de  pé  perto  do  bar,
falando com urgência ao telefone público do café.
Os olhos de Emil se arregalaram.
—  O que ela está fazendo aqui? —  explodiu ele, e se virou na direção do
príncipe  com  uma  expressão  atônita.  -—Me  perdoe,  meu  senhor,  mas  ela  é
uma deles. E é mortal.
— Não por muito tempo — disse Lucien, e tomou calmamente um café.
—  Ah  —  Emil fechou a boca e trocou um olhar nervoso com a esposa.
Mary Lou estava taticamente olhando para baixo e em outra direção.
Lucien olhou pela janela, fingindo não ter notado o desconforto do casal.
Sabia que eles se ajustariam à nova situação... assim como Meena. Era verdade
que ela podia se  chatear no começo, mas logo veria que o  modo dele era o
melhor. Principalmente quando a única opção era a morte.
Estava  certa  quando  falou  que  só  mordendo-a  uma  forçando-a  a  beber
seu sangue poderia transformá-la em um membro da espécie dele.
Mas havia uma outra forma. Se ela morresse, ele tinha o poder de trazê-la
de volta à vida como uma deles. Era o que seu pai fizera com ele, e o que ele,
como príncipe das trevas, tinha o poder de fazer com os outros
Ela ficaria infeliz por um tempo, é claro, como ele havia ficado. Mas ela
só reclamava quanto a ser um deles porque não sabia como era. Os humanos
eram famosos por terem medo do desconhecido.
Também  eram  frágeis  e  facilmente  enganados.  Por  esse  motivo,  eram
alvos tão fáceis para charlatães que prometiam meios de redenção, geralmente
em troca de dinheiro.
Por  isso  tinha  que  salvar  Meena...  dela  mesma.  Porque  ela  estava
comprometida com uma tarefa tola  que só geraria sofrimento e  infelicidade,
como  havia  acontecido  antes  com  tantos  da  espécie  dela.  Ele  tinha  tentado
avisá-la  —  ela  mesma  havia  falado  da  futilidade  de  sua  busca  ao  mencionar
tantas vezes o que acontecera a Joana D’Arc mas ela não quis ouvir
Então ele se sentia inocente quanto ao que estava prestes a fazer.
A  única  possível  falha  que  Lucien  previa  em  seu  plano  era  que  Meena
tinha insistido em embarcar nessa missão para “salvar” Alaric.
Mas ele não tinha intenção alguma de “salvar” Alaric.
A  dificuldade  seria,  depois  de  ter  recuperado  o  livro  que  estava  Wulf,
matá-lo sem que Meena visse.
Meena  ia  ter  coisas  bem  mais  importantes  do  que  Alaric  com  que
preocupar  no  futuro  próximo,  é  claro.  Mas  Lucien  tinha  fé  que  o
temperamento  doce  dela  faria  com  que  o  perdoasse  pelo  assassinato  dela
mesma bem rapidamente.
Uma  chuvarada  repentina  começou  a  atingir  o  grande  vidro  da  janela,
obscurecendo momentaneamente a visão do pátio do outro lado da rua.
Emil inclinou a cabeça em direção a Meena.
— Com quem ela está falando? Com eles?
— E claro que não — respondeu Lucien. — Com o irmão.
— Se despedindo —-observou Mary Lou. — Que gracinha.
Emil pareceu pouco à vontade.
—Mary Lou -—disse ele. —Por favor. Use a cabeça. Como pode estar se
despedindo? Ela não sabe que vai a lugar algum.
Mary Lou franziu a testa.
—  Ah,  certo.  Bem,  ainda  acho  uma  gracinha.  E  acho  romântico  —
acrescentou ela, com um sorriso na direção de Lucien.
—  Eu não —  disse Emil com firmeza.  —  Como seu mais íntimo e, acho
que  devo  acrescentar,  único  conselheiro, meu senhor,  afirmo  agora que  não
gosto das chances dessa luta. Alaric Wulf joga duro.
— Do jeito que eu gosto — ronronou Mary Lou.
Tanto Lucien quanto o marido dela lhe lançaram olhares atônitos.
—  O que você sabe  —  perguntou Emil  —  sobre o modo como Alaric
Wulf joga?
—  Nada —  disse Mary Lou rapidamente.—  Onde está a garçonete? Pedi
um café latte séculos atrás. — Ela chamou a atenção da garçonete.
A garçonete, que parecia com pressa de vê-los irem embora, colocou um
café latte grande na frente de Mary Lou, que lhe deu um sorriso radiante.
— Ah, obrigada, você não é um amor?
—  Trarei a conta assim que quiserem  —  disse a garçonete, lançando um
olhar nervoso para Lucien. Em seguida, saiu andando rápido.
Do lado de fora, o céu havia ficado ainda mais escuro, embora a chuva
tivesse  parado.  As  luzes  começaram  a  se  acender  em  alguns  prédios  das
redondezas. A multidão diminuíra. Quase não tinha ninguém nas ruas. Até os
táxis  pareciam  ter  sumido  misteriosamente,  como  sempre  acontecia  quando
chovia.
Foi naquele exato momento que Meena, que tinha terminado a ligação, se
juntou a eles, com olhos brilhantes. Havia ponto s rosados nas maçãs do rosto
dela.
—  Me  desculpem  pela  demora—  disse  ela.  —  Jon  está  tomando  muita
medicação para dor, então foi meio difícil manter  uma conversa. Ele vai ter
que  passar a  noite  lá. Mas  está  indo  muito  bem,  considerando  tudo.  —  Ela
olhou para Emil e disse: —Ah, oi. Não o vejo desde... Bem, tem muito tempo.
—  Ela  o  beijou  na  bochecha  antes  de  se  sentar na  cadeira vazia  entre  ele  e
Lucien.
Emil pareceu aturdido.
Lucien  reparou  que  Meena  parecia  nervosa.  Mas  ela  acreditava  que  iam
invadir  seu  ex-local  de  trabalho  para  resgatar  o  homem  que  ele  estava
começando a suspeitar que ela amava.
Então  era  natural  que  ficasse  nervosa.  Ela  não  podia  suspeitar  de  mais
nada. Tinha afirmado inúmeras vezes que só podia prever a morte dos outros,
não a de si própria. 
—  Me desculpe, querida, mas  o  que  exatamente  aconteceu  com  seu  —
perguntou Mary Lou. — Acidente de cozinha?
—  Meena  acredita  que  ele  foi  atacado  por  um  Lamir  —  disse  Lucien,
maneira direta.
—  Ah,  não  —  comentou  Mary  Lou.  —Eles  não.  Conhecemos  alguns
Lamir na última vez em que fomos ao Rio. Lembra, Emil? Seres terríveis. E os
brasileiros  são  tão  gentis  e  adoráveis.  Os  humanos,  eu  quis  dizer.  Como
puderam ser amaldiçoados com vampiros tão terríveis, eu jamais entenderei.
Eu  não  sabia  que  já  tinham  chegado  aqui.  Que  pena.  Nova  York  está
condenada.
— Por quê? — perguntou Meena, parecendo alarmada.
—  Bem  —  disse Mary Lou  —  ,  havia um número enorme deles naquela
época  e  ninguém  os  estava  impedindo.  —  Ela  pareceu  perceber  o  olhar
nervoso  do  marido  para  Lucien  e  acrescentou:  —  Você  nunca  permitiu  os
Dracul de matar, senhor, e teve cuidado com o crescimento da nos população.
Mas  os  Lamir  não  eram  seus  sádicos.  Ninguém  parecia  ir  regras  a  eles  e  a
Palatina praticamente não tinha presença...
—  O  padre  Henrique  é  de  lá  e  alega  ter  enfiado  estacas  em  mais  cem
deles — declarou Meena.
Mary Lou ergueu as sobrancelhas.
—  Bem,  não  foi  o  bastante.  Eu  não  conseguia  imaginar,  nem  naquela
época, como iam conseguir se manter. Estavam matando a maior parte da sua
fonte de alimentos antes de ela ter a chance de se reproduzir. Alguma coisa ia
acabar  dando  errado.  Não  estou  surpresa  de  terem  decid ido  vir  para  cá.  Só
estou chocada de terem demorado tanto tempo. Os Lamir são comedores de
carne, sabe.  — Ela fez uma careta de nojo. — Um hábito repulsivo.
Meena balançou a cabeça.
—Brianna Delmonico foi infectada por um Lamir, então  —-disse ela, e
olhou  para  Lucien.  —Todos  aqueles  turistas  desaparecidos  foram  comidos
por eles... Alaric estava certo.
Se Lucien ouvisse o nome Alaric mais uma vez, teria que levantar a mesa
e jogá-la pela janela de vidro.
— Eles esperaram até irmos embora para poderem se deslocar Comentou
Emil.  —  Faz sentido, O que não faz é que tenham planejado para coincidir
com  a  realocação  do  padre  para  cá.  Se  ele  estava  matando  os  Lamir  na
quantidade  que  afirma,  por  que  eles  viajariam  para  o  lugar  onde  ele  está
morando? Não teriam medo dele?
—  Não se foi ele quem planejou a armadilha para mim ontem  —  disse
Lucien.   —  Porque  obviamente  ele  é  um  tolo  incapaz  que  nunca  matou
ninguém.
—  Pois  então.  —  Meena  piscou  algumas  vezes.  —  Você  acha  que  ele
mentiu sobre matar aqueles Lamir todos? É isso que Alaric acha.
Ela  levantou  a  mão  para  passar  o  dedo  no  colar  que  tinha  queimado
Lucien quase até o osso naquela tarde. Embora jamais tivesse confirmado que
Alaric lhe dera o colar, cada vez que falava no nome dele, ela levantava a mão
para tocar no talismã de prata.
Lucien  refletiu  que  devia  tê-la  matado  quando  teve  a  chance,  enquanto
ainda estava inconsciente naquela tarde. Assim, poderia ter posto a culpa da
morte dela em Brianna Delmonico e bancado o cavalheiro nobre ao trazê-la
de volta à vida.
Também podia ter arrancado o colar antes de tê-la reavivado, dizendo a
ela depois que deveria ter caído no túnel durante a luta. Mas ficara burramente
cego de raiva da vampira que tinha ousado atacar Meena para pensar em fazer
qualquer uma dessas coisas antes de ela acordar. Agora ela não só estava viva,
mas ainda usava o colar.
Às  vezes  ele  se  perguntava  se  sua  transformação  tinha  mesmo  sido
completa.
Naquele momento, um trovão muito, muito alto soou.
Só  que  não  era  um  trovão,  porque  não  havia  sido  precedido  por
relâmpago.
E foi tão alto que fez o prédio todo  —  e possivelmente todos os prédios
do quarteirão sacudir. Lucien segurou a mão de Meena, assim como o tampo
da mesa, para impedir que o café caísse.
— O que foi isso? —- gritou ela.
Eles  só  precisaram  virar  a  cabeça  para  obter  a  resposta.  Uma  fumaça
densa e branca tinha começado a sair das janelas da escola St. Bernadette, que
tinham quebrado com o impacto da explosão.
—  O que aconteceu? —  gritou a garçonete ao pegar o telefone para ligar
para a emergência. — O que causou isso?
Lucien sabia. Lucien sabia exatamente o que tinha causado aquilo. Duas
palavras, e apenas duas.
Alaric Wulf.
36
Fumaça. Todo  mundo  sabia  que  a  melhor  maneira  de  erradicar  uma  infestação
hostil  de  abelhas,  formigas,  capins,  manifestantes,  criminosos  de  guerra,
vampiros comedores de carne ou outros tipos desagradáveis  —  era provocar
desconforto o bastante para levar os causadores da infestação a um local ao ar
livre, onde era possível lidar com eles da maneira apropriada.
A  maneira  mais  fácil  para  tal  era  usar  fumaça.  Ninguém  conseguia
suportar  o  calor  e  a  fumaça  por  muito  tempo...  a  não  ser,  é  claro,  que  não
respirasse oxigênio.
Onde havia fumaça, costumava haver fogo. E Alaric ainda estava para ver
alguma criatura, viva ou morta, que ficasse firme frente à ameaça de fogo.
Com um boiler tão velho e malcuidado quanto o do prédio que a Palatina
havia escolhido como quartel-general em Manhattan, era bem fácil provocar o
tipo de distúrbio que Alaric desejava, mesmo no meio de um mês de setembro
atipicamente  quente,  quando  o  aquecimento  não  estava  ligado.  Havia  água
quente sendo levada para interior do prédio. As pessoas a estavam usando nos
vestiários para tomar banho, nos lavatórios para lavar as mãos e na cozinha
para preparar comida e lavar louça.
E isso significava que tudo que ele precisou fazer para causar a série de
eventos catastróficos que levaram à explosão que sacudiu  a Spring Street foi
desconectar a alimentação da válvula de água e depois desviar o detector de
baixo nível de água. Teve o cuidado de evitar quaisquer medidas de segurança
de  emergência  que  a  própria  máquina  poderia  estar  programada  para  tomar
antes de desligar a válvula principal de liberação do boiler e fechar o retorno.
E, apesar de ter  enrolado uma das cordas de couro ao redor do pé, ele
tinha  se  machucado  muito  (o  que  só  piorou  seu antigo  ferimento  na  perna)
quando chutou uma das válvulas, uma medida à qual havia recorrido para o
caso  improvável  de  alguém  com  conhecimento  estar  no  prédio  em  um
domingo e tentar consertar o problema que Alaric causara.
Sua  única  preocupação  era  não  explodir  a  si  e  aos  amigos  embora
soubesse que o boiler avisaria bastante antes disso. A coisa era grande como
um caminhão de entregas da UPS. Não ia desistir sem lutar.
Vinte. Dezenove. Dezoito.
O boiler soltou uma série de ruídos que pareciam um yeti no cio.
Alaric tinha certeza de que dava para ouvir — e sentir — no prédio todo.
Encontrou uma cadeira pequena em um dos cantos do aposento, levou-a
para o centro e sentou-se nela, evitando apoiar o peso na perna machucada.
Cruzou as mãos atrás da cabeça e pensou sobre o que gostaria de comer no
café da manhã, embora tivesse certeza de estar mais perto da hora do jantar
agora.
Ovos mexidos. E bacon. Bacon de verdade, não o de peru que costumava
comer.
Dezessete. Dezesseis.
O boiler emitiu um som de tiro de pistola.
Ele  ouviu  a  fechadura  da  sala  do  boiler  ser  destrancada.  Em  seguida.
aporta  abriu,  O  próprio  Padre  Caliente  subiu  na  escada  de  metal  vazada  e
desceu para a sala na qual Alaric estava sentado.
O  padre  não  tinha  ido  sozinho,  é  claro.  Era  covarde  demais  para  isso.
Estava  acompanhado  de  vários  homens  vestidos  de  preto  que  Alaric
reconheceu  da  tentativa  desastrosa  de  capturar Antonesco  na  noite  anterior.
Estavam segurando bestas, exatamente as mesmas de alumínio (com miras de
fibra  Ótica)  que  Holtzman  dissera  no  mês  anterior  ser  caras  demais  (e
impróprias  para  uso  urbano)  para  o  orçamento  apertado  da  unidade  de
Manhattan.
Maurício vestia uma batina esvoaçante — branca com debruados verdes e
dourados. Estava particularmente bonito e com aparência confiável. Alaric se
perguntou se ele foi para lá direto da missa... ou talvez de outra entrevista para
a televisão. 
O Padre Caliente olhou para Alaric do jeito que o papa olhava de cima
para  os  fiéis  que  se  reuniam  do  lado  de  fora  do  Vaticano  nas  manhãs  de
domingo.
— O que você fez, Wulf? — perguntou ele com voz cansada.
Alaric tentou parecer inocente.
— Eu? Não fiz nada. Tenho certeza de que não é nada. Mas eu começaria
a  evacuar  o  prédio,  só  por  segurança.  Nunca  se  pode  ter  certeza  quanto  a
equipamentos velhos.
—  Entendo  —  disse Mauricio, desafiando o blefe.  —  Que coincidência
isso acontecer logo hoje. Acho que Deus todo -poderoso quer me poupar do
pecado de ter que mandar que estes homens rachem seu cérebro ao meio com
uma flecha de madeira.
Alaric  inclinou  a  cadeira  para  trás,  mantendo  o  pé  ferido  em  cima  do
joelho.  Mauricio  decidira  parar  de  fingir.  Até  o  sotaque  tinha  praticamente
sumido.
—  Então  por  que  ainda  não  fez  isso?  -—perguntou  Alaric.  Mauricio
olhou para ele com raiva.
— Mais uma palavra e é o que farei.
—  Não fará, não —  disse Alaric. —  E eu sei por quê. E também por que
você não teve coragem de matar Holtzman e o resto da equipe em Barrens. Se
tocasse em um fio de cabelo nosso, se sequer tivesse pensado em fazer isso,
Meena Harper saberia. E ela o teria trazido aqui. E isso seria seu pior pesadelo,
não é? Porque você morre de medo de Lucien Antonesco.
O olhar de Mauricio se afastou de Alaric e seguiu em direção aos guardas
posicionados a cada lado da sacada onde ele estava.
Mas, assim como Alaric suspeitara, ele não mandou que atirassem.
—  É a coisa mais ridícula que já ouvi  —  retrucou Mauricio com desdém.
Quero encontrar Lucien Antonesco mais do que qualquer pessoa. Foi por isso
que mandei Meena Harper ser demitida da Palatina. Estamos seguindo-a pelo
celular  desde  que  ela  saiu  daqui.  Tenho  esperança  de  que  ela  vá  nos  levar
diretamente a ele e, quando isso acontecer, vamos fazer o que você foi incapaz
de fazer em todos os meses que passou aqui. Vamos destruí-lo.
—  É mesmo?  —  disse Alaric, erguendo uma sobrancelha, descrente.  —
Era o que eu estava tentando fazer quando você me interrompeu com aquela
rede  pretensiosa  e  com  os  uniformes  apertados  e  transformou  tudo  em  um
grande desastre. Mas deixe isso pra lá. Não estou dizendo que seja errado ter
medo do príncipe, porque ele é o lorde das trevas. Só estou dizendo que não
precisa  de  tanto  enfeite.  Uma  simples  espada  no  coração  funciona.  Então
onde está Meena agora?
Mauricio pareceu levemente desconfortável.
—  Bem, parece que estamos tendo alguns problemas com o satélite no
momento.
—  Entendo. Não quero dar muitas notícias ruins de uma vez, você acha
que há alguma possibilidade de ela ter descoberto seu plano e jogado fora o
celular? E que ela e Antonesco possam estar a caminho daqui?
Mauricio pareceu mais abalado por essa notícia do que deveria, sendo um
homem cercado de guardas armados.
— Por que diabos fariam isso?
—  Bem,  em  primeiro  lugar  —  respondeu  Alaric  —,  devo  supor  que
Antonesco  queira  o  livro  de  volta.  E  provavelmente  já  descobriram  onde
estou. Meena tem aquela coisa paranormal. — Ele deu de ombros. — O satélite
dela  não fica sem sinal. Pelo menos se não estiver sendo bloqueado por uma
porta do inferno.
Mauricio pareceu assustado, mas não entendeu o que Alaric quis
— E daí? Ainda não vejo...
— Bem — disse Alaric ——, eu sei onde o livro está, afinal.
Mauricio ficou surpreso. Mais do que isso. Ficou chocado. Ele estivou o
braço  e  se  apoiou  no  corrimão  da  sacada. Alaric viu que  os  nós seus  dedos
ficaram brancos.
— N-não pode ser — gaguejou Mauricio. — Antonesco está com o livro.
Ele fugiu levando-o ontem à noite. Você estava lá. Você viu.
—  Ele fugiu ontem à noite —-  disse Alaric.  —  Mas não com o livro. Eu
estou  com  ele.  E  o  escondi.  Mas  se  não  soltar  meus  amigos,  não  vou  dizer
onde  está.  E  —  acrescentou  ele  quando  o  boiler  fez  outro  ruído  —  você
deveria  mesmo  pensar  em  evacuar  o  prédio.  Já  vi  esse  tipo  de  coisa.—  Ele
sacudiu  a  cabeça.  —  Nada  bonito.  Voam  pedaços  de  cimento  e  de  carne
queimada para todos os lados. Não vai pegar bem aos olhos da imprensa você,
sendo o chefe responsável, ter nos deixado queimar.
O  olhar  de  Mauricio  foi  em  direção  ao  boiler,  que  tremia  como  um
elefante  em  trabalho  de  parto.  Alaric  viu  os  homens  que  estavam  de  pé  ali
perto trocarem olhares nervosos.
Quinze. Catorze. Treze.
—  Se você estiver mentindo quanto ao livro  —  ameaçou Mauricio  —  eu
vou matar você, independentemente  de Meena  Harper.  Peguem-no  —  disse
ele para dois dos guardas. Para o restante de sua equipe, ordenou:
—  Peguem  os  outros.  E  procurem  o  zelador  do  prédio.  Alguém  deve
saber consertar essa coisa.
—Excelente ideia  —  disse Alaric, embora soubesse que era tarde demais
para que alguém consertasse o boiler.
Ele  ficou  de  pé  obedientemente  quando  os  guardas  o  seguraram  e  não
protestou quando o levaram pelos braços em direção à escada. A perna ainda
estava doendo muito e ele precisou de ajuda para subir os degraus. Quando
chegassem ao corredor, seria diferente,  é claro. Aí, ele colocaria as mãos em
uma das bestas...
—  Ele  já  está  mal  das  pernas  faz  tempo  —  comentou  Alaric,  falando
sobre  o  boiler.  —  Já  deveriam  tê-lo  substituído.  Mas  você  ouviu  sobre  as
preocupações com o orçamento, tenho certeza.
Doze. Onze. Dez.
—Não  tenho  tempo  para  discussões  —  reclamou  Mauricio.  —O
arcebispo está no meu pé o dia inteiro por causa de Ontem noite. Está furioso
por Antonesco ter fugido.
— Posso imaginar — disse Alaric
estava na metade da escada. Podia ouvir portas sendo abertas no corredor
e a voz alterada e com leve sotaque de Carolina perguntando:
—  Por  quê?  Por  que  estamos  evacuando  o  prédio?  O  que  está
acontecendo?
Alaric  esperava  que  Holtzman  tivesse  passado  a  mensagem.  Quando  o
boiler  explodisse, provavelmente  levaria  toda  a  parede  atrás  de  si... a  parede
que  levava  ao  escritório  onde  tinham  trancado  Holtzman.  E  a  parede  atrás
daquela sala também.
— Mas ele ficará feliz de o livro ao menos estar em segurança — concluiu
Alaric.
—  Ele  não  vai  ligar—disse  Mauricio.  —  Não  quis  me  ouvir  sobre  a
importância do livro. Tentei explicar que a rede não funcionaria. Mas ele viu
isso  em  algum  programa  de  TV.  Esse  é  o  problema  com  esses  velhos. Não
ouvem  ninguém  mais  jovem  do  que  eles.  Quando  colocam  uma  ideia  na
cabeça, sempre acham que estão certos.
Alaric estava no topo da escada agora. Teve que se reclinar pesada- mente
nos braços dos guardas para se apoiar, mas conseguiu.
Até  ter  certeza  de  que  Holtzman  e  os  outros  estavam  seguros  fora  do
prédio, ia se comportar como se estivesse do lado de Mauricio.
Embora  a  verdade  fosse  que  não  tinha  mais  certeza  sobre  de  que  lado
estava.
Nove. Oito. Sete.
—  Exatamente  —  disse Alaric.  —  E o que eles sabem sobre as coisas?
Nunca  estiveram  em  campo.  A  maior  parte  deles  nunca  viu  um  vampiro
pessoalmente.  Se  um  daqueles  sugadores  de  sangue  andasse  até  eles  e
mostrasse as presas, eles provavelmente o abençoariam e achariam que estava
curado.
A expressão de Mauricio foi de diversão.
—  Exatamente  -—disse ele.  —  Estão completamente por fora. Está na
hora de termos uma nova direção. Uma nova guarda.
— Concordo plenamente — falou Alaric.. — Mas como poderemos fazer
isso?
—  Venho  trabalhando  nisso  há  algum  tempo,  na  verdade  —  disse
Mauricio.  —  E  a  resposta  é  que  tem  que  ser  vindo  de  dentro.  É  o  único
caminho.
—  De  dentro,  —  Agora  que  estava  no  corredor,  Alaric  podia  ver
Holtzman  sendo  levado  para  fora.  Infelizmente,  Holtzman  também  reparou
nele.
—  Alaric?  —disse Holtzman, parecendo surpreso.  —Padre Henrique? O
que está acontecendo? Posso fazer alguma coisa para ajudar? 
O padre Henrique fez um sinal tranquilizador para Holtzman.
—  Tudo está bem, Dr. Holtzman  —  gritou ele.  —  O boiler só está com
uns problemas.
— O boiler? —Holtzman arregalou os olhos para Alaric. —Ah, não...
A porta da escada do térreo se fechou, abafando o som da voz dele.
Seis. Cinco. Quatro.
O padre prosseguiu.
—  Quando conseguirmos nos infiltrar completamente, não teremos mais
essas preocupações incômodas.
—  Ah? —  perguntou Alaric. Ele tinha olhado para os rostos dos guardas
e não reconheceu nenhum. Quem eram? De onde tinham vindo? Ele pensava
conhecer  todo  mundo  da  Palatina.  Era  verdade  que  sempre  havia  novos
recrutas, mas a organização nem era tão grande.
— Como aquele desastre no museu ontem — disse Mauricio.
O pulso de Alaric havia disparado. Não tinha certeza se era por falta de
alimento,  pela  dor  na  perna  ou  pela  expectativa  do  que  sabia  que  estava
prestes a acontecer. Só não era por medo, com certeza. Seu objetivo era usar a
fumaça  para  tirar  os  vilões  de  lá.  Aqueles  vampiros  comedores  de  carne
deviam estar em algum lugar por ali.
Assim como Lucien Antonesco, ele tinha certeza.
O problema era Meena. Por que a intuição dela só funcionava com outras
pessoas?  Por  que  ela  sempre  aparecia  exatamente  na  hora  errada,  no  lugar
mais perigoso em que poderia estar?
—  Sempre foi muito importante que o príncipe das trevas não colocasse
as mãos naquele livro — afirmou Mauricio. — Eu tentei avisá-los. O livro tem
o  poder  intrínseco  de  unir  Lucien  Antonesco  com  forças  além  do  controle
dele, além do controle de qualquer um.
—  Então  foi  uma  grande  burrice  —  comentou  Alaric  secamente  —
colocá-lo em exibição na cidade que ele habita no momento.
—  Mais uma vez  —  disse  Mauricio  —, não é uma decisão que eu teria
tomado se fosse o responsável. É um erro que venho tentando retificar desde
que ouvi falar dele.
—  É  mesmo?  —  perguntou  Alaric.  Sua  garganta  estava  seca, apesar  de
toda a água com ferrugem que bebeu.
Mauricio estava quase na porta para a escadaria principal.
—  Quando expliquei a situação para alguns indivíduos-chave, recebi total
liberdade para fazer o que fosse necessário para obter o controle.
—  Eu estava querendo perguntar sobre isso  —  disse Alaric.  —  Porque
me parece que o que você fez para obter o controle foi transformar um exnamorado de Meena Harper em vampiro.
—  Sim  —  disse Mauricio, sorrindo para ele.  —  Foi precisamente o que
fiz. Só que não apenas o ex-namorado de Meena Harper.
Foi  só  naquele  momento  que  Alaric  reparou  nos  dentes  do  padre
Henrique. Ou, mais precisamente, presas.
Três. Dois. Um.
Bum.

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