domingo, 28 de julho de 2013

mord - mg - parte 3 - 31-32-33

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Meena nao tinha certeza do que achava mais perturbador: que estava caçando a esposa assassina de seu ex-namorado com um secador de cabelo por baixo das ruas de Manhattan ou que, quando abriu os olhos depois de ter sido deixada inconsciente por essa pessoa, se deu conta de que havia sido salva por outro de seus ex-namorados.
Achava que era a segunda coisa.
— Lucien — disse ela com uma voz que não parecia a sua. — O que aconteceu?
— Foi minha culpa — respondeu ele, com o olhar sombrio preso a
— Mas você está segura agora.
Ela tentou se sentar, mas caiu sobre uma coisa macia quando uma onda de dor a atingiu.
— Shhh — disse ele, colocando um pano frio em sua testa.-— Você bateu a cabeça contra o concreto quando aquela mulher te atacou. Mas não se preocupe. Ela não vai mais incomodar ninguém.
Meena não queria perguntar. Conseguiu se sentar desta vez sem sentir dor...
Mas quando olhou ao redor de si, quase perdeu a consciência de novo. Só que, desta vez, de choque.
Não conseguia acreditar. Estava em uma caverna. Uma caverna.
Com Lucien.
Ela achava que esconderijos secretos subterrâneos de milionários existiam só na ficção. Mas parecia que Lucien tinha criado um para si, bem sob as ruas de Manhattan, e o mobiliara do único jeito que um vampiro europeu de 500 anos faria. Tudo era de couro ou era antiguidade, com a exceção do próprio
Lucien, que estava olhando para ela com preocupação. Ela se encontrava deitada em um sofá que era tanto de couro quanto uma antiguidade... ou pelo menos fora feito com cuidado para parecer assim.
Se um mordomo tivesse aparecido para oferecer-lhe chá, ela não se surpreenderia.
— Que lugar é este? — perguntou ela, olhando para Lucien com desconfiança.
Era melhor que ainda estivessem em Manhattan —e ela achava que estavam, porque podia ouvir ao longe o som do metrô
Em pânico, ela olhou ao redor em busca da SuperEstaca.
Relaxou um pouco ao vê-la na bolsa, que estava ao lado do sofá, em um chão de pedra que se inclinava em direção a um corpo de água... uma espécie de córrego marrom.
— Tão desconfiada — disse Lucien com um sorriso, ao reparar o olhar nervoso em direção à bolsa. É claro que ele não sabia o que havia nela. Provavelmente achava que a SuperEstaca era um secador de cabelo.
— Honestamente, Lucien, depois do que você tentou fazer comigo ontem, acho que tenho o direito de estar desconfiada — retrucou Meena, com voz cansada.
Ele estava sentado sobre um baú de couro ao lado do sofá. Estava absurdamente lindo, como sempre. As queimaduras que devia ter sofrido na noite da véspera estavam curadas. Um dos superpoderes dele era a capacidade de se curar instantaneamente.
Enquanto isso, sua cabeça latejava com tanta intensidade que ela mal conseguia ouvir qualquer outra coisa... nem o som distante do tráfego acima deles, nem o ribombar distante do metrô, nem o gotejar da água do riacho, nem nada além da própria pulsação.
— Meena — começou ele em um tom que era meio suplicante, meio penitente. — Você sabe que foi só porque am...
— Não — disse ela com firmeza. — Não há desculpa. Não estamos no século XV e não sou a filha de um sultão que você pode sequestrar e levar consigo em direção ao pôr do sol. Você deveria saber. Como pôde?
Ele esticou os braços como se quisesse abraçá-la...
Mas, antes que pudesse tocar nela, ela tirou a SuperEstaca da bolsa, a segurou nas duas mãos e apontou para o meio do peito dele.
— É sério — disse ela. Suas mãos podiam estar tremendo, mas a voz não estava. — Estou falando sério. Não.
Ele baixou os braços, com expressão perplexa... mas cautelosa.
— Meena, o que é isso?
— Se chama SuperEstaca. Meu irmão inventou. Está vendo este botão? — Ela apontou para um botão vermelho na parte de cima da arma.
— Estou — disse ele, ainda parecendo perplexo... e também um tanto divertido, a julgar pelos cantos da boca ligeiramente erguidos.
— Se ele acender — informou Meena —, significa que um raio UV está sendo lançado para onde a pessoa o mira. E se o alvo por acaso for um vampiro, isso significa que vai sentir dor. Muita dor. Eu sei porque o usei em Brianna. E ela não gostou. Fez um buraco de queimadura nela, na verdade. Foi assim que consegui achá-la aqui embaixo. Segui o cheiro de vampiro queimado.
— Na verdade — comentou Lucien, sorrindo com ironia —, acho que foi ela que encontrou você. Mas não vou discutir, pois você está me apontando uma arma. Você me odeia tanto, Meena, a ponto de me queimar até fazer um buraco?
— Eu... estou preocupada com você. Tentou me sequestrar. Mostrou que não posso confiar em você. Não tenho como saber o que vai tentar fazer. Você não é a pessoa que era quando me apaixonei. Você... você mudou.
Ele abriu as mãos em uma imitação convincente de inocência.
— Ainda amo você. Nisso, não mudei. Admito que ontem à noite eu talvez tenha avaliado mal as coisas. E na noite anterior a ela, eu obviamente não era eu mesmo. Por isso, humildemente peço perdão. Mas estou bem melhor agora, Meena. Você me ajudou a tornar isso possível.
Ela olhou para ele desconfiada.
— Como fiz isso? Você não ouve uma palavra do que digo.
— Eu me sinto forte — disse ele, com os olhos escuros brilhando na luz do fogo das tochas nas paredes. — Mais forte do que jamais estive na vida. Eu estava contando com o Mannette para fazer a transformação por mim, mas
não me dei conta que ele não podia fazer isso enquanto ainda faltasse uma parte tão vital de mim. Essa parte era você, Meena. Quando você voltou para minha vida, tudo se acertou.
Meena ficou olhando fixamente para ele, confusa.
— Que transformação? O que é o Mannette?
— Mannette é o outro nome do riacho Minetta — explicou Lucien, assentindo em direção à água que ela via passando ao lado dos carpetes no chão. — Os habitantes originais desta ilha achavam que era muito poderoso, mas os colonizadores o forçaram a ficar nos subterrâneos... de maneira não muito diferente da que nossa espécie sempre foi forçada a se esconder...
— Sei o que é o riacho Minetta — disse Meena. Ela se lembrava de ter lido alguma coisa sobre ele como parte da pesquisa que fez sobre os túneis subterrâneos de Nova York. — Mas o que você quer dizer com nossa espécie? Sua espécie gosta de se alimentar da minha.
— Meena. — Ele esticou a mão como se fosse acariciar o cabelo dela, mas viu que ela ainda estava com a SuperEstaca apontada e baixou a mão. — Eu me referia a todos que são diferentes. Você sabe perfeitamente bem que, se tivesse nascido em outro século, teria sido queimada na fogueira, ou apedrejada até morrer, ou afogada, devido à sua capacidade de prever o futuro.
— Ser paranormal não é a mesma coisa que ser um imortal que só consegue viver a base de sangue humano. — Ela olhou ao redor da caverna e tremeu. — Você pode colocar todos os móveis elegantes que quiser aqui, mas este lugar nunca vai ser aconchegante. Não consigo acreditar que esteja morando aqui.
— É perto de você — disse Lucien, dando outro dos sorrisos de derreter o coração. — E é um lugar sagrado. — O sorriso se desmanchou.
— E isso torna ainda mais insultante você continuar a apontar essa coisa para mim. Eu podia ter feito o que quisesse enquanto você estava inconsciente, inclusive transformá-la na minha espécie. Mas não fiz isso. Então por que não pode confiar em mim?
Meena só apertou os olhos de descrença ao ouvir isso.
— Você não podia ter me transformado na sua espécie. Para virar vampiro, a pessoa tem que ser mordida três vezes e depois beber o sangue de
um vampiro. Você não poderia me forçar a beber seu sangue enquanto eu estivesse inconsciente. Então não ganha pontos por isso. Além do mais, tem algumas coisas que preciso que você faça para mim — acrescentou ela. — E como não vai gostar de fazê-las, eu provavelmente vou ter que atirar algumas vezes para motivar você.
— Não há nada no mundo que me faria mais feliz do que fazer alguma coisa para você —— disse Lucien.
— Ótimo — declarou ela, dando de ombros. — Encontre Alaric WuIf. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso... mas não pareceu zangado.
Como não era a reação que esperava, ela disse:
— Talvez não tenha me ouvido. Falei que quero que...
— Ah, não — disse ele. — Eu ouvi. E entendi. Você quer que eu encontre Alaric Wulf.
— Ele não está atendendo o celular. O que significa que alguma coisa tem que estar errada. Ele sempre atende. Me disseram que o mandaram de volta para Roma, mas você e eu sabemos que ele jamais permitiria que isso acontecesse. Eu estava indo para a casa dele para procurá-lo quando Brianna me atacou. Estou torcendo para que ele esteja lá, mas...
— Ah — disse Lucien com conhecimento. — Não está.
Meena sentiu um calafrio na espinha que não tinha nada a ver com a temperatura da caverna.
— O que quer dizer com não está? — perguntou ela. — Como pode saber? Você foi lá?
— Não precisei. Sei que não está lá. Também estou procurando por
Meena quase apertou o gatilho da SuperEstaca devido à surpresa. Era por isso que as pessoas não podiam ter armas, ela percebeu — ou, pelo menos, pessoas como ela. Por causa da tendência de dispará-las acidentalmente. Ela tirou o dedo do gatilho.
— Por quê? — perguntou ela. — Aquela rede com água benta não foi ideia dele, Lucien. Nem a inauguração da exposição de ontem. Ele não teve nada a ver com isso. E jamais tentaria atrair você transformando meus amigos em vampiros e soltando-os no meio da sociedade. Então por que diabos está procurando Alaric?
— Porque acredito que ele esteja com uma coisa minha — disse Lucien com a voz baixando até ficar tão fria quanto a caverna. — Uma coisa que quero muito. Então, apesar do que você pode pensar que eu ache dele, tenho muito apreço pela segurança de Alaric. E por isso passei o dia procurando-o. É por essa razão que eu não estava lá quando você precisou de mim. Mary Lou e Emil estão procurando por ele também. Portanto, não precisa mais continuar apontando a arma para mim, Meena. Estou mais do que preparado para juntar minhas forças a você para encontrá-lo. Na verdade, já encontrei.
Meena balançou a cabeça. Estava tão confusa, e tinha certeza de que não era por causa do golpe que levara na cabeça.
— Mas... o que Alaric poderia ter que é seu?
— Isso não é importante agora —— disse Lucien. Ele esticou a mão colocou no cano da SuperEstaca — Mas eu gostaria de comentar uma coisa que é.
— Que você está tentando usar a força para me obrigar a fazer uma coisa — disse ele com sua voz profunda e hipnótica. — Exatamente o que não queria que eu fizesse a você ontem.
Ela piscou. Ele estava certo. Não o estava tratando diferente do que ele a havia tratado na noite anterior. Estava tratando-o ainda pior, porque ele havia feito o que fez por desespero, solidão e, ela presumia — pois ele ficava insistindo que era verdade —, amor.
Ela estava agindo por... bem, nem tinha mais certeza.
— Ah, Lucien — exclamou ela, com os ombros tremendo. — Sinto muito.
— Deveria mesmo — disse ele, e tirou a SuperEstaca das mãos dela. Ela o observou colocar a arma na extremidade do sofá, fora do alcance dela, a não ser que quisesse rastejar por cima dele para pegar.
— Você é muitas coisas, Meena — prosseguiu ele —, mas uma criminosa durona não é uma delas. Se tem algo que quer que eu faça para você, sugiro uma forma diferente de persuasão.
E então, antes que soubesse o que estava acontecendo, ele passou os braços em torno dela.
Meena gostaria de pensar que era o ferimento recente na cabeça que a
impedira de lutar contra aquele abraço. Afinal, devia ter sofrido uma concussão. Sem fazer um raio X ou uma tomografia computadorizada, jamais teria certeza.
A verdade era que a sensação do peito forte dele pressionado contra ela, a força tranquilizadora dos braços que se apertavam ao seu redor, até o cheiro dele... todas essas coisas traziam sensações bem-vindas e familiares. Por um ou dois segundos vertiginosos, foi como se o tempo não tivesse passado e as coisas tivessem voltado a ser como deveriam, antes de todo o dano ter sido provocado, antes de as mentiras serem contadas, antes das coisas terríveis que aconteceram...
Mas essa, é claro, não era a realidade.
A realidade era que pessoas estavam mortas. Muitas pessoas.
A realidade era a dor que Lucien tinha causado a ela e aos amigos e familiares.
A realidade era a percepção de que, assim que os lábios dele estavam prestes a tocar os dela, o cheiro de alguma coisa queimando dominou a atmosfera.
com

32
Lucien se afastou com um xingamento e olhou para o triângulo de pele que aparecia acima da camisa aberta. Marcado em sua pele, como uma queimadura a ferro quente, estava a imagem da cruz que Alaric dera a ela e que ainda estava pendurada em seu pescoço.
Meena ofegou... mas não tão alto quanto Lucien.
— Pensei ter mandado você tirar essa maldita coisa — disse ele furioso.
— Ela salvou minha vida — murmurou ela, ainda olhando para a pele queimada. Na verdade, já havia salvado a vida dela várias vezes.
— Eu não ia machucar você. Sabe que eu jamais machucaria você. Tire.
— Não quero. E minhas experiências anteriores indicam o contrário.
Ele lhe lançou um olhar ferido. A queimadura no peito já estava começando a cicatrizar diante dos olhos dela.
O ferimento que ela tinha provocado no coração dele não cicatrizaria tão facilmente.
— Não é justo — disse ele. — Só quero o melhor para você... proteger você. Ninguém parece fazer isso. Você viu o que aconteceu hoje quando eu não estava lá...
Ela falou com voz rouca, sem acreditar.
— Lucien, acho que você não me ouviu antes. Meu irmão está no hospital. Não sei onde meu chefe está, nem Alaric. E fui demitida. Tudo por sua causa. E enquanto você tem arrumado essa... seja lá o que isso aqui for... ao que tudo indica, os vampiros andam pela cidade, comendo as vítimas inteiras, o sangue, a pele, os ossos e tudo...
— Isso é impossível. Vampiros não comem carne. Só zumbis e lobisomens fazem isso.
— Não, Lucien — disse ela —, não é impossível. Eu mesma vi. Sabe Brianna, a vampira que você matou? Ela arrancou um pedaço do meu irmão, e isso foi depois de lanchar um pobre turista que tinha capturado e arrastado para trás de um latão de lixo. — Ela tirou as pernas de cima do sofá. — E esse cara novo da Palatina, padre Henrique Maurício, o que tentou pegar você ontem à noite, me contou sobre a espécie de vampiros que há na América do Sul... os Lamir. Dizem que são descendentes de uma espécie de morcego pescador que come a carne da presa.
— Os Lamir — murmurou Lucien sombriamente, observando o pequeno riacho que passava pelo meio da sala de estar dele. — Eu sei sobre eles.
— Você sabe sobre eles? — Mais uma vez, a voz de Meena falhou. — Lucien, você é o príncipe das trevas, o filho de Satanás. Não deveria estar um pouco mais por dentro dessas coisas?
— Estou ciente — disse Lucien com voz fria, ainda olhando para o córrego — de que, no passado, nem sempre mostrei comprometimento total com minha posição, como deveria. E, por isso, tive que sofrer.
— O que isso quer dizer? — Embora ainda não se sentisse cem por cento firme, Meena conseguiu ficar de pé e andar até Lucien. De perto, reparou que o riacho Minetta tinha um cheiro ruim, como uma coisa que tivesse ficado dentro de uma garrafa por muito tempo. Deu um passo apressado para longe da água marrom que estava prestes a tocar na ponta de um dos seus tênis. — Como você sofreu? Como não mostrou o comprometimento total que deveria?
Ele olhou na direção dela.
— Como você acha, Meena? — perguntou ele, o tom amargo e cínico. — Como acha que sofri? Abra os olhos. Você pergunta por que eu escolheria morar aqui? Eu não escolhi... Eu preciso, se quero recuperar forças o suficiente para não ser destruído pelos meus inimigos na minha próxima batalha com eles. E como não mostrei meu comprometimento? Que tipo de vampiro pede que seus súditos não matem? Que tipo de príncipe das trevas não sabe e nem sequer se importa com os nomes daqueles que o servem.., e se apaixona por uma mortal que está convencida de ter sido colocada no mundo para salvá-lo de pessoas como ele?
— Lucien — disse Meena ansiosamente, dando outro passo para longe dele... e do riacho marrom e turvo. Queria poder ir em direção a ele, para poder confortá-lo de alguma maneira. Mas a raiva pura na voz dele e o cheiro fétido da água pareciam avisá-la para ficar longe.
— Você não sabia — disse Lucien. Ele olhou para a água repulsiva, que tinha começado a subir — não era imaginação de Meena. Só uma fração de centímetro, mas era impossível não perceber. E também estava borbulhando com mais vitalidade. — Como poderia? Mas é isso que o príncipe das trevas é, Meena. Esse foi o pacto que meu pai fez,.. para se tornar, em troca de sua alma, o filho de Lúcifer na terra. E quando a Palatina matou meu pai, o título foi passado para mim. É verdade que lutei para aceitar, principalmente depois que conheci você.
Ele virou a cabeça para que a intensidade ardente de seu olhar escuro ficasse clara para ela. Meena queria dar outro passo para trás, mas se forçou a ficar onde estava.
— Mas agora, comecei a perceber que sempre tive a solução para o meu problema — declarou ele. A raiva sumiu de sua voz e ele até conseguiu sorrir.., embora não de forma muito convincente. — Que é de simplesmente aceitar meu destino e não lutar contra ele. Não é o que sempre dizem naqueles talk shows da TV? Aceite o que é e os outros também o aceitarão? Encontre aquilo que faz bem e faça, e o resto vai se ajeitar?
Meena balançou a cabeça. Não estava gostando daquilo. De nada.
Cheirava tão mal quanto o riacho.
— Lucien. Não, não é isso que querem dizer. Não quando se trata de ser bom em fazer o mal. Isso tem alguma coisa a ver com o motivo de você querer tanto o livro da sua mãe?
Lucien olhou para ela com intensidade.
— O que o livro da minha mãe tem a ver com isso? — perguntou parecendo surpreso.
— O padre Henrique diz que a posse do livro de horas da sua mãe vai tornar você todo-poderoso.
Meena não tinha certeza, considerando tudo que Lucien dito, que essa era uma informação que deveria revelar para ele.
Por outro lado, seus sentimentos sobre o livro que vira no sonho eram opostos aos do padre Henrique. Tinha certeza de que não havia nada de terrível nele e que a razão para os sonhos era que alguém — ou alguma coisa — queria se certificar de que mostraria o livro para Lucien. Queria desesperadamente ver o que Lucien achava.., e queria ver o livro para poder confirmar suas crenças.
— Ele diz que não é um livro de orações comum — prosseguiu Meena — e que você tomar posse dele significa o fim do mundo.
Lucien pareceu surpreso.
— Quem disse isso?
— O padre Henrique— disse ela. — O padre que tentou capturar você com a rede e depois me demitiu. Não fez sentido algum para mim também. Se alguma coisa assim realmente existisse, o Vaticano jamais seria burro o bastante para deixar sair de Roma. Não se soubessem o que era.
As sobrancelhas de Lucien se franziram.
— É claro que não — disse ele. Mas o olhar se distanciou. — Você está perfeitamente correta.
Meena começou a sentir como se apenas tivesse piorado as coisas.
O que havia com o livro que estava deixando todo mundo tão nervoso, menos ela?
— Então — disse ela—, não é verdade quanto ao livro da sua mãe? Ele só inventou para me fazer contar onde Você estava?
— É claro — respondeu Lucien, olhando para ela com outro daqueles sorrisos que não afetavam seus olhos. — Não há nada desse tipo no livro. Como poderia? Quando meu pai mandou fazer aquele livro para minha mãe, estava apaixonado. Estava feliz e ansioso para o que achava que seriam muitos anos de felicidade familiar. Não tinha ideia do que o aguardava.., ou à minha mãe... ou a mim.
O olhar dele se afastou dela. Meena o seguiu e viu que ele estava novamente olhando para o riacho. Ela se lembrou de ter lido que a Minetta Lane foi batizada em homenagem ao riacho que passava pelo centro da Quinta Avenida, indo até a Spring Street, e que fora coberto por causa da tendência de inundar casas das redondezas, às vezes até matando pessoas. Em
determinado momento, diziam ter fornecido água para o chafariz que tinha sido desativado no pátio da escola St. Bernadette, por causa de um terrível acidente quase um século atrás. Aquele córrego marrom era tudo que havia restado do riacho.
Ela achava estranho que Lucien estivesse tão atraído por ele. Alguma coisa a incomodava nisso. Mannette. Tinha certeza de ter ouvido, ou lido, aquela palavra antes.
— Talvez devêssemos dar uma olhada no livro — disse ela, tentando se manter no assunto — Porque é possível que, depois da morte da sua mãe, seu pai tenha feito alguma coisa com ele... que o tenha alterado de alguma forma, com um elemento oculto. E que alguns membros do clero, como o padre Henrique, saibam sobre isso, enquanto outros não. E foi assim que ele acabou indo parar na exposição. Estou concluindo que a Igreja Católica é uma burocracia, como qualquer outra empresa. — E que demitia pessoas injustamente, como qualquer empresa, pensou ela, sem mencionar — Que cada funcionário esteja envolvido em todos os detalhes é totalmente impossível... Então, onde está?
Lucien pareceu assustado pela pergunta.
— Onde está o quê?
— O livro da sua mãe — disse ela pacientemente, embora não estivesse mais se sentindo muito paciente. Estava mesmo era com medo. O som gotejante da água a fazia querer gritar.
— É exatamente o que eu gostaria de saber. E é por isso que eu gostaria de encontrar seu amigo Alaric Wulf.
— Alaric? — Meena balançou a cabeça. Um nó se formou entre suas clavículas. — Por que Alaric saberia onde está seu livro? Mary Lou o pegou. Eu vi. Todo mundo saiu atrás dela.
— Sim — disse Lucien, falando com cuidado. — Todo mundo foi atrás de Mary Lou. Mas só uma pessoa a pegou e arrancou a bolsa dela antes que ela conseguisse fugir. A bolsa continha o livro de horas da minha mãe.
Meena ficou olhando para Lucien com horror crescente. Ela se lembrava da bolsa de Mary Lou. Era uma bolsinha de mão.
— Você quer dizer... — Mal conseguiu pronunciar as palavras.
— Sim. Seu amigo... Alaric. — Ele falou a palavra amigo como se fosse um xingamento.
— Alaric não estava com a bolsa quando fomos presos — disse ela, pensando no momento em que o viu perto das vans.
— Não. Não estava. Emil encontrou a bolsa depois, quando voltou para o museu achando que, por algum milagre, podia ter caído no meio da confusão. E ela estava lá. Enfiada em uma lixeira no banheiro masculino. Vazia.
— Mas isso significaria que Alaric teria que estar com o livro com ela — falou ela. — Ou que o escondeu em algum lugar no museu...
— Precisamente — disse Lucien. Ele parecia furioso, com os olhos começando a ficar vermelhos. Podia ser a imaginação de Meena, o gotejar do riacho também tinha começado a ficar significativamente mais alto. — Emil passou o dia no museu procurando. Não encontrou nada. E Mary Lou está observando o quartel-general da Palatina desde ontem à noite. Ela disse que os viu arrastarem Alaric Wulf para dentro logo depois de terem levado você para lá. Mas, até agora, ainda não o viu sair.
Meena olhou para ele com o coração na garganta.
— Alaric ainda está lá — disse ela.

33
Alaric nao precisou roer as cordas nos punhos, como achou que teria que fazer. Conseguiu desfazer os nós com os dedos, apesar de ter demorado um tempo e de não haver nada de digno na posição para a qual teve que se contorcer e sustentar por tanto tempo.
Depois de cair no chão, precisou descansar um pouco para se recuperar. Estava exausto, desidratado, com fome e, acima de tudo, furioso.
Seus empregadores estavam sendo descuidados. E se deixassem tudo tão fácil para que vampiros e outros demônios escapassem?
Quando voltou a sentir todos os membros de seu corpo, explorou a sala do boiler. Não havia muito lá, embora tenha bebido água à vontade da torneira enferrujada que encontrara no canto. Em seguida, ponderou sobre como agir.
Não tinha telefone —, nem sapatos, nem camisa nem cinto. Não tinha arma alguma e sabia que a porta não estava apenas trancada, mas provavelmente com vigias.
Não havia janelas e nem outra forma de saída do aposento, exceto por uma pequena porta trancada que havia encontrado atrás do boiler industrial, parecido com um vagão de carga, que dizia PROIBIDO ENTRAR SEM AUTORIZAÇÃO.
Não tinha outra escolha além de arrombá-la. Senão, teria que esperar sobre as vigas, como um morcego, até que alguém entrasse pela porta, para cair sobre essa pessoa e esperar usar o elemento surpresa para conseguir subjugá-la e fugir.
Mas Alaric sabia que estariam esperando uma atitude dessas da parte dele e só entrariam em seu cativeiro em grupos grandes e armados.
Sua melhor opção parecia ser a porta marcada com “Proibido entrar sem autorização”. Mesmo se levasse a uma sala de controle elétrico, talvez conseguisse encontrar uma forma de contactar Johanna através de alguma ligação elétrica no sistema interno de telefone.
Deixou a mente cuidadosamente vazia quanto ao que faria depois. Como alguém que passara muitos anos da vida em um estado de incerteza quanto à origem da próxima refeição, Alaric havia aprendido que normalmente era melhor não planejar demais. Daria um passo de cada vez.
Primeiro, precisava sair da sala do boiler.
Ele chutou a pequena porta trancada.
Por trás, encontrou outra sala, consideravelmente menor do que a do boiler e mais bem mobiliada para habitação humana, com carpete, luzes fluorescentes, um colchão e até uma escrivaninha com um computador. À escrivaninha estava sentado um homem que Alaric reconheceu
— Ah — disse Abraham Holtzman, não parecendo surpreso em vê-lo. Não consegui abrir aquela porta. Eu não sabia por que não tinha tido notícias suas. O que aconteceu com sua camisa?

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