Capítulo Cinqüenta e Sete
00h EST, domingo, 18 de abril
Catedral de St. George
Rua 78 East, 180
Nova York, NY
Meena nunca teve certeza do que exatamente houve depois disso,
porque tudo pareceu acontecer de um jeito meio enevoado, como se
fosse debaixo d’água ou em um pesadelo.
Ou pelo menos foi o que pareceu a ela.
Lucien caiu de joelhos.
Disso ela tinha certeza, porque estava a apenas meio metro dele. Ela
tentou pegá-lo quanto ele cambaleou, para impedir que ele
desabasse o chão de mármore duro.
Mas Dimitri a puxou de volta.
Ela pensou ter ouvido alguém dizer “não” baixinho.
Depois se deu conta de que esse alguém era ela mesma.
Então alguma coisa passou com um zumbido perto da cabeça dela.
Tanto Dracul quanto humanos começaram a gritar. Dimitri puxou o
braço dolorido dela com muita força de novo e gritou no ouvido dela:
— Abaixe-se!
Depois ele a puxou com força para o chão do altar.
Meena podia ouvir alguém — parecia Alaric — gritando alguma coisa.
Parecia “Pare, seu tolo! O que está fazendo?”.
Meena sabia que devia sentir medo. Sabia que devia sentir pelo
menos alguma coisa.
Mas ela não sentia nada. Nada mesmo. Apenas ficou lá deitada com a
bochecha pressionada contra o mármore frio, olhando na direção
onde tinha visto Lucien pela última vez.
Não conseguia ver nada lá agora. Nem mesmo o pó que ele devia ter
virado.
Ele está morto, ela pensou com a parte do cérebro que ainda
funcionava. Ele está morto e eu nunca tive a chance de avisá-lo que
ele ia morrer… porque nunca tive a chance de conhecê-lo quanto
estava vivo. Só o conheci quando já estava morto.
E agora ele está morto de verdade.
Depois ela pensou: Por que achei que ele ia matar Alaric e Jon? Ele
jamais faria uma coisa assim. É a pessoa mais gentil e maravilhosa
que já conheci.
E agora, está morto.
Depois ela pensou: Eu queria estar morta também.
E então ela foi puxada abruptamente para cima por Dimitri
Antonesco.
E Meena se deu conta de que seu desejo estava prestes a ser
realizado.
— Você vem comigo — disse Dimitri. O rosto dele era uma máscara
retorcida de avidez e ódio e alguma outra coisa. Alguma coisa que
Meena nunca tinha visto antes.
Maldade, ela pensou com aquela parte do cérebro que tinha
dominado o resto da mente, que parecia ter parado de funcionar
desde que ela vira Lucien morrer.
O irmão de Lucien não passa de maldade pura.
E então Dimitri a jogou por cima do ombro, segurando-a pelos
quadris, com tanta facilidade como se ela fosse feita de palha.
Agora o mundo de repente ficou de cabeça para baixo.
Não que Meena se importasse.
Mas ela achou interessante, enquanto estava lá pendurada como uma
boneca inerte, observar que o padre Bernard e a irmã Gertrude e o
resto das pessoas que ela havia conhecido na paróquia de St. Clare
estavam de repente no meio dos Dracul, na nave da catedral, lutando
com estacas e crucifixos e água benta… e, no caso de Abraham
Holtzman, com uma besta e uma brilhante estrela de Davi.
Interessante, mas nada muito além disso. Meena esperava que
ninguém morresse.
Mas ela sabia que iam morrer. Tinha tentado avisá-los. Todos eles
iam morrer.
Mas nenhum deles tinha ouvido. Ninguém ouvia.
E agora, aquilo tudo estava acontecendo.
Ah, tudo bem. Todo mundo ia morrer em qualquer momento. Até ela.
Podia muito bem ser naquela noite.
— Meena!
Ela ouviu alguém gritar o nome dela no meio da fumaça e do caos.
Ela achava que era Alaric.
Ela não se importava.
Dimitri a estava levando para algum lugar. ela não sabia para onde.
Ele provavelmente ia mordê-la — e não de uma maneira agradável,
como Lucien tinha feito — e depois ia sugar todo o sangue dela.
E depois era ele quem ia saber como todo mundo ia morrer.
Antes ele do que ela.
— Meena!
Por que Alaric não a deixava em paz? Ele era mesmo a pessoa mais
irritante do planeta.
Dimitri parecia estar levando-a escada acima, para o mezanino do
coral. Ele provavelmente ia estuprá-la também depois que
chegassem lá. Não seria o final perfeito para um dia perfeito?
—Meena!
Alaric era tão irritante. Ele nunca a deixara em paz quando estava
viva, e agora não a deixava em paz quando ela estava prestes a
morrer.
Relutantemente, ela ergueu a cabeça. Alaric estava lutando para
chegar até eles — sem dúvida para deter Dimitri, sem se dar conta
de que Meena queria que isso acontecesse; ela queria morrer. Que
motivo tinha para viver? Não tinha emprego. Não tinha apartamento.
Não tinha Lucien — mas Alaric tinha um vampiro pendurado em cada
braço, impedindo-o de ir em frente. Era até mio cômico o modo como
os Dracul estavam tentando morder o pescoço de Alaric.
Afastando as bocas sibilantes e as presas pontudas com saliva
pingando, Alaric tinha uma mão em volta do pescoço de cada um. Ele
lançou um olhar furioso para Meena. Parecia enfurecido com ela.
— Deixe de ser idiota — ele rugiu para ela. — Ele não está morto.
Olhe.
Meena olhou na direção em que Alaric inclinou a cabeça. O
presbitério.
E então ela viu.
Era verdade.
Lucien não estava morto. Ele estava se levantando.
Lentamente. Dolorosamente.
Mas estava se levantando.
Só que Meena viu mais do isso naquela olhada.
Ela viu que os guerreiros da capela de St. Clare estavam sendo
vencidos pelos Dracul, que era mais do que o triplo do que eles em
número. Jon podia ter sido bem-sucedido em um disparo único nas
costas no príncipe das trevas, mas o resto dos disparos não teriam
atingido a lateral de um armazém se ele estivesse de pé ao lado de
um. Gregory Bane estava dando socos no rosto do irmão dela, e
parecia gostar do que estava fazendo, pelo sorriso de estrela de
cinema em seu rosto. Stefan Dominic prendia a irmã Gertrude numa
chave de pescoço. E em cima de Emil Antonesco havia três ou quatro
homens — que estavam vestidos de maneira estranha, como os caras
com quem Jon trabalhava na Webber and Stern — rasgando o paletó
do terno dele com as presas, enquanto Mary Lou tentava afastá-los
com um castiçal de ferro batido.
Meena esticou os dois braços — até mesmo o machucado — contra as
paredes da escadaria pela qual Dimitri a carregava, agarrando-se.
Dimitri não estava esperando que sua vítima, até então em estado de
semicoma, de repente voltasse a vida. Foi só por isso que Meena
conseguiu sair dos braços fortes que a seguravam e de cima dos
ombros largos, uma manobra física que exigiu o elemento surpresa e
uma falta total de medo da dor da parte dela… principalmente porque
ela acabou caindo pelos últimos degraus da escada e batendo sobre o
cóccix.
Dimitri deu meia-volta, parecendo estupefato. Ela havia passado de
completamente inerte a um projétil humano em questão de
segundos.
— Afaste-se de mim — Meena o avisou, indo o mais rápido que
conseguiu para longe da escada.
Mas Dimitri já descia a escada atrás dela, os olhos brilhando
vermelhos como holofotes. Meena ficou de pé e se virou para sair
correndo…
… e trombou contra o peito sólido e largo de Alaric Wulf. Ele havia
conseguido se livrar dos novos amigos vampiros e tinha ido correndo
com a espada em riste para ajudá-la.
— Você é muito popular com os garotos Drácula — comentou Alaric
secamente. — Todos parecem querer você para o jantar.
— Menos brincadeira — disse ela. Dimitri estava com a adaga na
mão, lâmina brilhando à luz das velas. — Mais corte de cabeças. E,
por favor, não erre dessa vez.
— Não é legal? — perguntou Dimitri a Alaric enquanto jogava a adaga
de uma mão para a outra. — Finalmente vamos terminar o que
começamos em Berlim. Você fugiu com seu parceiro naquele dia
antes que tivéssemos terminado. Não teve espírito esportivo.
— É — disse Alaric. — Bem, eu tinha coisas mais importantes a fazer
do que ficar por lá para matar você. Meu parceiro estava sangrando
muito, como você talvez se lembre.
O sorriso de Dimitri se alargou.
— Eu sei — disse ele. — Ele estava delicioso. Mal posso esperar para
dar outra mordida qualquer dia desses.
Alaric ergueu a espada, o rosto se enchendo de sombras.
Oh-oh, pensou Meena. Isso não é bom. Será que ele devia lutar com
raiva?
— Alaric — disse ela com urgência na voz. — Não…
Foi quando todos ouviram um som como nenhum outro —
certamente nada humano. Mas não era nada vampiresco, também.
Veio da parte da frente da igreja, onde ficava o altar. Foi tão alto que
sacudiu a edificação até os alicerces. Tão alto que voou poeira do
mezanino do coral e do teto baixo que havia sobre as cabeças de
Alaric e Meena.
Virando-se lentamente, Meena estava com medo do que ia ver —
mas sabia muito bem o que era. É claro. Ela estava na catedral de St
George. Todas as visões dela tinha sido de fogo. E havia desenhos
rudimentares em todas as paredes.
Ela ainda não conseguia acreditar nos próprios olhos.
Mas lá estava ele.
Um dragão.
No Upper East Side.
Capítulo Cinqüenta e Oito
00h15 EST, sábado, 18 de Abril
Catedral de St. George
Rua 78 East, 180
Nova York, NY
Ele estava agachado debaixo do portal que separava a nave do
presbitério, o enorme corpo e extensão das asas preenchendo o
espaço todo e a cabeça astuta ao fim de um longo pescoço chegava
quase até o teto de dez metros de altura.
As garras faziam sons terríveis de arranhar no chão de mármore.
As escamas eram vermelho rubi.
Fumaça saía das narinas dele.
Em um dos ombros estava espetada uma estaca de madeira.
Lucien, pensou Meena, sentindo o coração como gelo no peito. Meu
Deus. Lucien.
O que aconteceu com você? O que fizeram a você?
- Ah... meu Deus - disse Dimitri, soltando a adaga quando viu o
dragão.
Ao ouvir a voz de Dimitri e o barulho da adaga caindo no chão, a
cabeça do dragão se virou na direção deles... e depois desceu, para
olhar para eles debaixo do mezanino do coral.
O coração congelado de Meena bateu com fúria convulsiva. Oh, Deus.
Oh, Deus. O dragão estava olhando para eles.
Uma mistura de vapor e algo que tinha cheiro de enxofre foi lançada
na direção deles quando a besta expirou ar quente com força
suficiente para apagar todas as velas daquele lado.
De repente, todos foram mergulhados na penumbra.
Mas Meena ainda conseguia enxergar, graças ao brilho ardente que
vinha das narinas do dragão, que estava chegando cada vez mais
perto deles... e do qual ela ouvia um estranho som de farejar.
- Faça qualquer coisa - sussurrou Alaric no escuro, assustando-a,
enquanto esticava lentamente uma mão quente e firme na nuca de
Meena - mas não se mova.
- Eu não pretendia - sussurrou Meena em resposta. - Mas o que...
está acontecendo?
Não era o que ela queria perguntar. O que ela queria perguntar era:
Onde está Lucien? É possível mesmo que ele esteja ali, por baixo de
todas essas escamas? É eles mesmo?
- Não sei - respondeu Alaric. - Nunca vi isso antes. Mas acho que ele
está...
De repente, a cabeça do dragão ficou bem ao lado de Meena. Ela
ficou paralisada, cada músculo do corpo contraído. Não conseguia se
lembrar de já ter ficado tão paralisada de medo na vida - nem
mesmo quando se dera conta de que Lucien era um vampiro de
verdade - como quando se viu sendo examinada por um olho
enorme, com pálpebras duplas, de trinta centímetros de altura, suas
muitas facetas, cada uma da cor de um sol vermelho, mostrando o
reflexo apavorado dela.
Acalme-se, ela tentou dizer para si mesma. É o olho de Lucien. Vai
ficar tudo bem.
Mas ela não tinha certeza se isso era verdade, já que não conseguia
ver lá dentro nenhum sinal do homem que conhecera e amara. O que
ela estava vendo não era um homem. Era um animal por completo.
Uma pálpebra gigante se moveu lateralmente sobre a pupila que a
observava, depois se abriu de novo enquanto o dragão olhava para
ela - e depois para Alaric, parado atrás dela.
Então ouviu-se aquele som de farejar de novo, tão alto que Meena
teria dado um salto se Alaric não a segurasse com firmeza pela nuca.
Ele acabou... de me cheirar? Meena se perguntou, atordoada.
Alaric apertou a nuca dela.
Ela entendeu a mensagem. Não fale. Não se mexa. Nem mesmo
respire.
Era um bom conselho.
Pena que Dimitri não pareceu querer seguir.
Ele tinha encontrado a adaga que havia deixado cair.
E logo depois saiu correndo da escuridão em direção ao animal, indo
para cima do olho gigante com um grito de puro ódio.
Mas isso acabou se mostrando ser um erro. Um tremendo erro.
- ... furioso - disse Alaric, terminando a opinião sobre o humor de
Lucien. Ele jogou Meena no chão e depois se jogou em cima dela. -
Fique abaixada.
O fogo que saiu do nariz e da garganta do dragão na direção de
Dimitri era branco e quente.
Era o calor abrasador do sol. Era o calor cheio de enxofre dos poços
ardentes do inferno, e estava apontado para apenas um alvo. passou
por cima das cabeças e dos corpos deles.
Meena nunca tinha sentido um calor assim antes na vida e esperava
jamais sentir de novo.
Meena não tinha certeza se Dimitri chegou a saber o que o atingiu.
Um minuto ele estava lá, e no próximo só havia fogo...
E depois só havia uma densa fumaça negra.
Onde Dimitri estava antes havia um ponto chamuscado e emitindo
fumaça.
- Ai, meu Deus - Meena ouviu alguém dizer. E depois percebeu que
tinha sido ela mesma. Estava dizendo isso sem parar - Ai, meu Deus,
ai, meu Deus.
- Fique abaixada - ela ouviu a voz grave de Alaric em seu ouvido. -
Continue abaixada.
Meena prendeu a respiração quando a cabeça do dragão desceu mais
uma vez em direção a eles. Lucien passou o brilhante focinho
vermelho a poucos centímetros deles, mais uma vez fazendo aquele
som de farejar.
Ele estava farejando-os. Meena tinha certeza disso.
Depois a cabeça desapareceu.
Lucien estava virando o olhar e o bafo de fogo em direção às pessoas
e aos vampiros no resto da igreja.
Alaric também deve ter percebido. Foi por isso que ele saiu de cima
de Meena e correu atrás da cabeça de Lucien.
Ela soube instantaneamente aonde ele estava indo.
E por quê.
- Não! - gritou ela.
E saiu correndo atrás dele.
Ela o perdeu no caos que se desenrolava do lado de fora do abrigo
que era o teto do mezanino do coral.
Sim, podia haver um dragão de vinte metros cuspindo fogo em uma
parte da igreja.
Mas no resto do prédio, ainda havia uma guerra entre vampiros e
humanos acontecendo. Ela viu alguns Dracul enfiando presas em
pescoços de noviças... A irmã Gertrude atacando um Dracul com um
pedaço de banco de igreja... Jon disparando a besta à queima-roupa
contra um Dracul (e errando). Fran e Stan jogando freis para o alto
com uma força sobre-humana que era impressionante para pessoas
que Meena nunca tinha visto levantando nada mais pesado do que
um knish. Abraham Holtzman e Emill e Mary Lou Antonesco tinham
formado uma espécie de parceria bizarra e pareciam estar tentando
matar o máximo de Dracul que conseguissem com qualquer coisa que
arrumassem... o que parecia ser não muitos com muito pouco.
Meena, horrorizada, sabia que não podia só ficar ali parada. Tinha
que fazer alguma coisa para ajudar... mesmo havendo um dragão por
ali, incinerando as pessoas com seu hálito.
Ela pegou um pedaço estraçalhado de banco de igreja e agarrou o
cabelo do vampiro mais próximo, que estava tentando enfiar os
dentes no pescoço de uma infeliz noviça...
... e ficou chocada ao se ver cara a cara de novo com Shoshana.
- Ah, tá - disse Shoshana, sorrindo com deboche para Meena e o
pedaço pontudo de madeira que ela segurava. - Como se você tivesse
coragem.
- Ah, eu tenho coragem - garantiu Meena.
Mas não havia como ela ter coragem.
Aquela era Shoshana. Claro, Meena nunca tinha gostado muito dela.
Tinha dito a si mesma, quase todo dia durante um ano, que hoje era
o dia em que ia finalmente avisar sua colega que, se não parasse de
se exercitar tanto, ia acabar morrendo.
Agora Meena se deu conta de que nunca tinha sido a academia que
Shoshana precisava temer.
Era Stefan Dominic, o homem que ela havia conhecido lá.
Mas Meena sempre tivera a intenção de salvar a vida de Shoshana.
Portanto, ela ia mesmo enfiar uma estaca no coração de Shoshana e
acabar com tudo? Ali, naquela hora?
Não. É claro que não.
- Pois é. - Shoshana riu com mais deboche. - Eu sabia. A propósito,
peguei uma outra coisa no seu apartamento além dessa bolsa.
Shoshana abriu o zíper da bolsa vermelha de Marc Jacobs que ainda
carregava a tiracolo e mostrou a Meena uma coisa lá dentro.
- Obrigada por todas as ótimas ideias para a história - disse ela,
sorrindo. - Divirta-se no desemprego.
Então ela se virou para procurar a noviça, que tinha saído correndo,
chorando.
Meena ficou olhando para as costas magras de Shoshana.
Seu laptop? Shoshana tinha roubado seu laptop?
Meena não tinha backup de nada que guardava naquele laptop. Nem
no computador do trabalho. Nem on-line. Em lugar nenhum.
Meena deu um passo e agarrou as costas da blusa de duzentos
dólares de Shoshana, virando-a para encará-la...
... depois enfiou o pedaço de banco quebrado no peito dela.
Shoshana virou uma pilha de pó na frente de Meena.
No topo do pó, estava a bolsa vermelha com pedras em forma de
dragão que Lucien tinha dado a ela, junto com as roupas de
Shoshana. Meena a pegou, tirou o excesso de pó e a colocou a
tiracolo.
O peso do laptop a deixou mais segura.
Quando Meena ergueu o olhar de novo, foi para ver a última pessoa
que esperava: Leisha, segurando a barriga e indo cuidadosamente
até Meena, no meio da fumaça e dos escombros.
- Ah, meu Deus - gritou Meena. - Leish?
Todos os piores pesadelos de Meena pareceram de repente virar
realidade. Seu namorado era um vampiro. Tinha acabado de matar a
própria chefe.
E sua melhor amiga grávida estava caminhando no meio de um
campo de batalha sem consideração nenhuma com a própria
segurança ou a do bebê ainda não nascido.
Meena correu até Leisha.
- O que você ainda está fazendo aqui? - perguntou Meena, ansiosa. -
Pensei que Mary Lou Antonesco tivesse levado você lá para fora!
- Ah, era ela? - Leisha parecia confusa. - É, ela me levou. Mas depois
que ela soltou Adam daquelas algemas e contou para ele o que
estava acontecendo, ele decidiu que queria ficar e ver o final da peça.
Meena ergueu as sobrancelhas.
- Peça?
- É - disse Leisha. - Eu meio que gostei no começo, mas agora não
sei, tem aquela coisa...
Ela apontou por cima do ombro de Meena. Meena se virou e ali, atrás
dela, estava Lucien, a cabeça de dragão indo de um lado para o outro
como se ele estivesse procurando por alguma coisa — ou alguém —,
sua longa língua entrando e saindo da boca. De vez em quando ele
abria a boca e soltava um rugido de romper os tímpanos.
— Está vendo? Aquilo parece demais para mim — disse Leisha.
O olhar de Meena voltou para a amiga. Ela tinha certeza de que
Leisha estava com a mente confusa por uma combinação de choque e
algum tipo de lavagem cerebral dos Dracul. Os olhos normalmente
alertas pareciam vidrados.
— Entendo que faz parte do show — reclamou Leisha —, mas tenho
quase certeza de que a fumaça não faz bem para o bebê. Não estou
me sentindo muito bem…
Meena esticou as mãos e segurou a amiga pelos dois braços.
— Leisha, isso não é uma peça — disse ela com urgência. — Você
tem que sair daqui. O bebê vai nascer prematuro. E não é um
menino. É uma menina. Me desculpe por não ter contado antes. Eu
sabia, mas…
— O quê? — gritou Leisha, puxando ambas as mãos. Fosse o que
fosse que tivessem feito com a memória de Leisha, não tinham
afetado a preocupação dela pelo bebê. — Você sabia e não me
contou? Meena, qual é o seu problema? Quão prematuro?
— O bastante para que Adam já tivesse que ter começado a preparar
o quarto do bebê faz tempo — disse Meena. Ao ver de repente o
irmão atrás de Leisha, ela gritou: — Jon! Jon! Venha cá.
Jon cambaleou até lá. Havia sangue saindo de um corte na testa
dele; Gregory Bane tinha feito aquilo a socos. Jon estava sujo e
suado e parecia estar se divertindo como nunca.
— O quê? — perguntou ele. — Ah, meu Deus. Leisha, o que você
ainda está fazendo aqui?
Perto do altar, o dragão soltou outro rugido.
As paredes tremeram.
Do lado de fora da igreja, sirenes tocavam alto. Os bombeiros e a
polícia de Nova York estavam chegando. Foi preciso uma guerra de
vampiros e um dragão de vinte metros para alguns vizinhos da
catedral ligarem para a emergência.
— Ah, graças a Deus — disse Leisha ao ouvir as sirenes. — Alguém
precisa atirar naquela coisa.
— Não! — gritou Meena. Depois, ao ver as expressões nos rostos do
irmão e da amiga, ela disse com mais calma. — Jon, acho que Leisha
está em trabalho de parto. Você precisa encontrar Adam e tirar os
dois daqui.
— O quê? — Leisha e Jon exclamaram juntos.
— Sim — disse Meena com firmeza. — Leisha acho que você está
tendo seu bebê. Jon, você tem que colocar ela e Adam dentro da
primeira ambulância que vir e mandá-la para longe daqui. Para bem
longe. Agora, Jon. Quero que vá com eles. Eles estão aqui por sua
culpa.
— Por que é minha culpa? — perguntou Jon, indignado.
— Você se lembra do bilhete que deixei na paróquia de St Clare? —
perguntou Meena. — Aquele onde declarei especificamente que
qualquer um que me seguisse até aqui ia morrer esta noite?
Jon revirou os olhos.
— Ah, certo. É, nós lemos o bilhete. Mas o que deveríamos fazer,
Meen? Deixar você vir para cá lutar com esses caras sozinha? Você
parecia estar se saindo muito bem quando cheguei aqui.
— Você disparou contra meu namorado — falou Meena. — Ele estava
lidando com tudo muito bem, e aí você o acertou. E agora, veja o que
está acontecendo. A polícia está aqui, os bombeiros estão aqui, e
pessoas inocentes vão se machucar. E a propósito, tenho quase
certeza de que é você que ele está procurando.
O dragão deu outro rígido. Pareceu bem mais perto do que o anterior.
Jon deu um pulo e pareceu se dar conta de que Meena estava certa:
Lucien estava indo atrás dele. Aqueles olhos enormes e vermelhos
pareciam estar procurando por alguém…
Jon rapidamente entregou a besta engatilhada para Meena.
— É — disse ele, culpado. — Lamento muito por isso. Eu estava
mirando no irmão dele. — Ele pegou Leisha pelo braço. — Relaxa
Leish. Vou tirar você daqui rapidinho. Tenho certeza de que vi Adam
perto das portas. Ele devia estar procurando por você.
Leisha olhou para Meena com nervosismo enquanto Jon a levava para
longe.
— Você não vem conosco? — perguntou ela.
Meena sorriu e acenou para ela.
— Quero ver o final da peça. Me liga mais tarde e me conta onde
você vai estar. — Ela levou um telefone imaginário ao ouvido.
Leisha assentiu e pareceu preocupada.
— O bebê é menina? Nunca nem falamos sobre nomes de meninas.
— Sempre gostei do nome Joana — gritou Meena…
… na mesma hora em que um Dracul a viu ali de pé e começou a
correr na direção dela. Enquanto Jon se apressava para levar Leisha
lá para fora, Meena se virou para encarar o vampiro…
… que era ninguém mais do que Gregory Bane.
— Oi, Meena Harper — disse ele, exibindo para ela o mesmo sorriso
lento e planejado que provocava ataques histéricos em tantas
milhares de mulheres entre 18 e 49 anos.
Meena revirou os olhos, ergueu a besta de Jon e atirou diretamente
no peito de Gregory Bane.
Depois passou por cima do pó que havia sobrado dele.
Foi quando outro projétil percorreu o ar, passando a centímetros da
bochecha de Meena.
Um segundo depois, o dragão deu um grito, dessa vez de dor, que foi
alto o bastante para sacudir os alicerces do prédio. Meena, confusa,
olhou para o alto e viu uma estaca presa no pescoço dele.
Uma estaca. Outra estaca.
Alguma outra pessoa além do irmão dela atirava em Lucien.
Meena se virou, tentando ver quem era.
Ela viu Abraham Holtzman no meio da igreja repleta de fumaça, uma
besta apoiada no ombro, recarregando-a.
Ela largou sua própria besta e saiu correndo em direção a ele.
— Pare — gritou Meena para ele. — Você tem que parar. Está
machucando-o!
— É claro que o estou machucando, Srta. Harper — disse Abraham,
sem rodeios. — É esse o objetivo, não é? Estou tentando distraí-lo
enquanto Alaric…
— Mas Lucien está do nosso lado — gritou Meena. — Está tentando
nos ajudar! Ele matou Dimitri.
— Não seja ridícula, Srta. Harper. Ele matou o irmão para preservar o
próprio trono — disse Abraham com paciência calculada. — Ele é o
príncipe das trevas, o filho escolhido de Satã na Terra para governar
todos os seres demoníacos. Sei que você acha que o ama, minha
cara, mas ele tem que ser destruído para que o bem e a luz tenham
chance…
— Mas ele é parte do bem e da luz — insistiu Meena. — A mãe dele
era…
— Srta. Harper — disse Abraham. — Você não pode estar querendo
me dizer que há alguma parte daquilo, ele gesticulou em direção ao
dragão, que estava soltando o fogo branco em cima dos banqueiros
que Meena tinha visto atacando a irmã Gertrude. Num minuto, eles
estavam lá.
No outro, tinham sumido.
— Ah, céus — Meena ouviu uma voz perto de si dizer. Ela virou a
cabeça e viu Emil e Mary Lou Antonesco de pé ao lado dela.
Mas eles não se pareciam em nada com o que costumavam ser
quando ela os via no prédio onde moravam. Os dois estavam
cobertos de fuligem e sangue, as roupas de grife rasgadas e o cabelo
de Mary Lou, completamente desgrenhado. Ela estava agarrada ao
marido, observando apavorada Lucien cuspir fogo nos Dracul.
— Vocês sabiam sobre isso? — Meena perguntou a eles. — Vocês
sabiam que Lucien… — ela nem sabia muito bem o que dizer —
podia… podia…
Emil se virou para olhar para ela. A expressão dele era grave. E um
pouco triste.
E não deixava dúvida alguma, ao menos na mente de Meena, de que
ele sabia. Oh, ele sempre soubera.
— O príncipe sempre teve um temperamento muito difícil — foi tudo
que ele disse, entretanto.
— Um temperamento difícil? — gritou Meena. Ela gesticulou em
direção ao dragão, que tinha baixado o pescoço longo e esguio para
pegar Stefan Dominic na boca e agora o partia em pedaços, membro
a membro. Meena teve que cobrir os olhos com as mãos. — Você
chama isso de temperamento difícil? — ela perguntou com um
gemido.
— Nunca é uma boa ideia irritar o príncipe — disse Emil. — Dimitri
deveria saber.
Meena, com cuidado para não olhar na direção de Lucien, baixou as
mãos e perguntou:
— Bem, e como acabamos com isso? Como fazemos ele se
transformar de volta?
— Oh — disse Emil, apertando mais a esposa. — Não dá.
O queixo de Meena caiu.
— O quê? Está querendo dizer…
Era exatamente o que Meena tinha temido quando ficou tão perto
daquele olho gigantesco e não viu nada nele do homem que amava…
que Lucien jamais voltaria a ser ele mesmo de novo.
Não que importasse. Meena ainda ia fazer tudo que pudesse para
impedir que ele fosse destruído por uma combinação dos bombeiros
de Nova York, polícia de Nova York, Guarda Palatina e Dracul, fosse
ele o que fosse, homem ou animal. Ou vampiro.
— Ah… ele vai voltar a ser ele mesmo em algum momento, quando
não estiver mais tão zangado — disse Emil. — Enquanto isso ele
olhos por cima do ombro para o policial que agora gritava para dentro
da igreja em um megafone, mandando que soltassem as armas e
saíssem com as mãos atrás da cabeça —, Mary Lou e eu vamos
embora. Sugiro que faça o mesmo, Srta. Harper.
E com isso, os dois desapareceram bem na frente de Meena. Num
minutos eles estavam lá, e no outro não havia nada onde estavam
eles exceto dois pequenos redemoinhos de fumaça.
Atordoada, Meena olhou para Abraham, que recarregava a besta. Ele
pareceu absorver o que tinha acontecido sem se perturbar. Nem
ligava por ter perdido a oportunidade de enfiar uma estaca nos
Antonesco.
Estava atrás de um alvo bem maior.
Ela ia acordar em breve, Meena decidiu. Porque aquilo tudo tinha que
ser um pesadelo. Ia acordar no próprio quarto, com Jack Bauer nos
braços, e ainda seria manhã e o sol estaria brilhando e iria trabalhar
e…
— Meena — ela ouviu Alaric gritar de algum lugar na igreja — Meena!
Então ela o viu. Ele estava de pé diretamente atrás do dragão.
— Saia daí! — ele gritou para ela e fez um gesto de saia da frente
com os braços, indicando que queria que ela se afastasse de
Abraham.
E bem naquela hora, naquele momento, ela soube exatamente o que
ele e o chefe estavam planejando fazer.
Abraham atiraria contra Lucien, distraindo-o com outra estaca no
pescoço.
E então, enquanto Lucien estivesse rugindo pela dor, Alaric subiria
pelas costas do dragão…
… e cortaria a cabeça dele fora.
Meena concluiu que Alaric era louco. Principalmente se achava que
Meena ia deixar isso acontecer.
— É melhor fazer o que ele diz, Srta. Harper — disse Abraham,
levantando a besta até o ombro e mirando. — Sei que é doloroso
para você. Mas acredite, é o melhor jeito. Prometo que vai se sentir
bem melhor quando tudo estiver acabado.
Enquanto Abraham falava, o dragão, que tinha terminado sua última
refeição, olhou ao redor. Ele começou a balançar a cabeça de um lado
para o outro como se procurasse sua próxima vítima. Mas então ele
parou de repente… e fixou o olhar em Meena e Abraham.
Aqueles olhos gigantescos e cristalinos se focaram diretamente neles,
sem piscar, como os olhos de uma serpente. Todos os pelos da nuca
de Meena ficaram arrepiados quando o dragão a encarou. Ela viu
filetes de fumaça saindo das narinas dele. O odor nauseante de
enxofre os envolveu um segundo depois.
— Oh, céus — disse Abraham, com o dedo paralisado no gatilho da
besta. — Acho…
Meena ergueu uma das mãos para soltar a fivela da alça da bolsa de
dragão. A alça deslizou pelo ombro dela. Depois, segurando a alça
com as duas mãos, ela bateu em Abraham com a bolsa com o
máximo de força que conseguiu, o peso do laptop dentro atingindo-o
com toda força nas costas.
— O quê…? — gritou ele quando perdeu o equilíbrio.
Mas ele não caiu. Era pesado demais e tinha experiência demais.
Mas o disparo passou longe.
O que aconteceu a seguir não fazia parte do plano de Meena.
Capítulo Cinqüenta e Nove
00h30 EST, domingo, 18 de abril
Catedral de St George
Rua 78 East, 180
Nova York, NY
A ponta da cauda longa e vermelha do dragão se lançou à frente, se
enrolou na cintura de Meena e ergueu o corpo dela no ar.
Meena teria gritado se pudesse. Mas estava sendo apertada com
tanta força que não conseguia respirar.
Além do mais, estava apavorada demais para gritar.
Sendo balançada por cima das cabeças de todos mundo na igreja,
Meena teve uma visão vertiginosa de bancos estraçalhados, paredes
fumegantes, sua bolsa de dragão e o laptop esquecidos nos
escombros e, por fim, do resto estupefato de Alaric… até que foi
recolocado ao local em que o dragão aparentemente tinha
reconhecido o cheiro dela primeiro, ao lado da escada para o
mezanino do coral, e onde ele parecia querer que ela permanecesse.
Porque foi lá que ele a soltou, com o que ela acreditava que o dragão
devia achar uma gentil consideração, mas que na verdade foi uma
aterrissagem que fez com que ela rodopiasse até a mesma parede
onde havia apenas um ponto queimado como prova de que Dimitri
Antonesco tinha existido no planeta.
Atordoada demais para se mover, ela ficou caída lá, vendo apenas a
escuridão.
— Meena! — Ela pensou ter ouvido alguém gritar ao longe.
Mas ela se sentia enjoada demais pela experiência no ar, em
combinação com a força com que atingiu a parede, para responder.
E então Alaric estava lá, tentando abrir um dos olhos dela e depois o
outro, verificando as pupilas, perguntando se ela estava bem.
— Vá embora — disse ela. Queria vomitar. A cabeça doía. O braço
doía. Só queria ir para casa.
Mas não tinha mais casa.
— Meena, olhe para mim.
Ela olhou para ele. Mas conseguia vê-lo na escuridão esfumaçada.
Mas o rosto dele parecia tenso de preocupação.
— Achei que você tinha um dragão para matar. — disse ela.
— Bem — disse ele —, acho que perdi minha oportunidade. Quantos
dedos tem aqui? — perguntou ele, erguendo dois.
— Nove — disse ela.
E então o pior aconteceu. A cauda voltou. Meena prendeu a
respiração quanto a viu, fazendo com que Alaric se virasse e visse
também. Ela brilhou, perigosamente vermelha no meio da fumaça,
parecendo procurar alguma coisa. Meena ficou paralisada na hora em
que a viu, pensando: Oh não. De novo não.
Era legal que Lucien a amasse tanto.
Mas ele precisava trabalhar nas aterrissagens.
Alaric parecia estar pensando do mesmo jeito, pois ergueu a espada,
como se estivesse pronto para cortar a cauda de Lucien na ponta se
ela chegasse muito perto…
Mas dessa vez, não era Meena que Lucien estava procurando. A
cauda encontrou um dos pilares de sustentação do mezanino do
coral. Se enrolou em torno dele…
… e puxou.
— Merda — disse Alaric, jogando os braços sobre Meena.
Não houve tempo de fazer mais nada.
Talvez se a catedral de St. George não fosse tão velha. Talvez se não
estivesse precisando tanto da reforma. Talvez se não tivesse
agüentando tantos golpes de um dragão de trinta toneladas, rugindo
e cuspindo fogo pela última meia hora.
Talvez aí a integridade estrutural tivesse agüentado um pouco
melhor.
Mas no final, a remoção de um único pilar fez com que uma enorme
parte do mezanino do coral despencasse.
Não em cima deles. Só em volta deles.
O bastante para os isolar efetivamente de tudo que estava
acontecendo na nave e no altar, prendendo-os em uma espécie de
caverna de madeira e gesso feita por um dragão.
E esse tinha sido o plano de Lucien desde o começo, Meena teve
certeza. Ele estava cansado de se preocupar que ela se ferisse. E isso
era doce, de uma certa forma, ela achava.
Mas ela não tinha certeza de quanto tempo mais ia conseguir
sobreviver ao modo como os dragões expressavam seu afeto.
— Ah, meu Deus. — ela tossiu. Havia muita poeira.
E Alaric Wulf, em cima dela, pesava uma tonelada. Como sempre.
— Você está bem? — perguntou ela.
Ele não disse nada a principio. Isso foi um tanto alarmante.
— Alaric?
A força do desmoronamento tinha provocado o deslocamento de
algumas peças de compensado, arrancando as tábuas de uma janela
que estava selada, o que agora permitia a entrada de um pouco de
luz cinzenta na rua. Nela, Meena conseguiu ver que o rosto de Alaric,
acima dela, estava coberto de cinza e poeira de gesso. Ele parecia…
estranho. Ela não conseguia entender como.
— Alaric? Você está ferido? — perguntou de novo.
— Não — disse ele, de um modo lento e um tanto pensativo. — Acho
que não.
O que estava errado com ele? por que ele estava daquele jeito?
Bem, ele devia estar desapontado. Tinha perdido a grande chance de
matar Lucien, e agora provavelmente jamais teria outra. Graças ao
sentimento do namorado por ela, eles estavam presos ali até que
alguém os retirasse. Era culpa de Alaric por ter ido correndo ver se
ela estava bem. Se ele ao menos ativesse ficado no altar…
— Meena — disse ele, olhando para ela. Seus olhos ainda estavam
tão brilhantes e azuis como sempre. Mas agora, ela pensou, eles
pareciam…
— Ainda vou morrer? — perguntou ele.
— O quê? — Ele era tão pesado. Por que tinha que ser tão grande? E
por que estava agindo de forma tão estranha?
— Ainda vou morrer? — perguntou ele. — Agora. Esta noite.
— Oh, Alaric. — disse ela com um suspiro.
E então o coração dela deu um salto. Ele ainda ia morrer.
Só que… isso não era possível.
Lucien tinha jogado-a ali para mantê-la em segurança. Alaric devia
estar em segurança também. Tudo devia estar bem agora.
Mas, por algum motivo, Alaric ainda ia morrer.
Como isso podia estar acontecendo? Não fazia sentido.
Ele devia ter visto a verdade na expressão horrorizada dela, pois
disse:
— Foi o que pensei. É por isso que vou fazer isso agora.
Então ele abaixou a cabeça e começou a beijá-la.
Apesar de esse acontecimento ser alarmante — assustou-a mais do
que qualquer coisa que tinha acontecido a ela nos últimos dias, e isso
queria dizer muito —, não era nem um pouco tão alarmante quando o
fato de Meena não ter achado nada desagradável ser beijada por
Alaric.
Bem, ao contrário, na verdade.
Já fazia algum tempo que tinha sido beijada por um homem com
batimentos cardíacos e sangue pulsando nas veias… duas coisas que
Alaric Wulf tinha em abundância. Ela podia sentir as duas coisas com
intensidade enquanto ele a beijava com lenta deliberação… um beijo
que ele parecia não ter pressa de terminar, um beijo sobre o qual ele
parecia, se ela não estivesse enganada, ter pensado antes… pensado
bastante. Alaric Wulf a estava beijando como se fosse o último beijo
que daria em alguém em sua vida.
E quando ela abriu os olhos e olhou para baixo, se perguntando o que
havia no copo dele que a estava aquecendo tanto, e viu o corto
enorme na panturrilha direita dele, do qual jorrava sangue em um
volume alarmante, ela pôde ver porque ele achava que beijá-la podia
ser a última coisa que faria antes de morrer. Um prego ou alguma
outra coisa devia tê-lo perfurado ali quando o mezanino do coral
despencou, e ele galantemente tinha rolado para cima dela. Para
salvar-lhe a vida. De novo.
Isso é que era complexo de herói.
Por que ele sempre estava tentando fazer aquilo? Ele não sabia que
assim ia acabar morrendo?
Meena falou um palavrão, empurrou-o de cima dela e até o chão sem
cerimônia e se moveu para estancar o sangramento com as mãos.
— Alaric — disse ela, tentando manter a calma. Havia tanto sangue.
— Você se machucou. Está sangrando.
— Eu sei. — disse ele. não parecia ligar muito. Ele continuou a olhar
para o rosto dela. Parecia perfeitamente feliz.
Ele já tinha perdido muito sangue. Havia uma poça no chão debaixo
deles. O sangue a cobria. E cobria Alaric também.
— Temos que estancar o sangramento — disse Meena. — Acho que
você rompeu uma artéria. — Ela tentou se lembrar de todos os cursos
de primeiros socorros que tinha feito na escola. Por que não
conseguia se lembrar deles agora, quando mais precisava? — Acho
que preciso fazer um torniquete.
— Você disse que eu ia morrer — falou ele, dando de ombros. — Você
disse que estaria escuro e que haveria fogo. E agora, está
acontecendo. Você estava certa.
— Não — disse ela. O coração dela parecia estar correndo a mais de
cem quilômetros por hora. Por favor , ele parecia dizer. Que eu tenha
errado. Só desta vez. Para longe do precipício. — Eu errei. Preciso do
seu cinto ou de algo parecido.
— Ninguém tira Señor Sticky de mim — disse Alaric, segurando o
punho da espada.
— Ah, meu Deus — disse Meena. — Não quero sua espada idiota.
Eu…
Então ela se lembrou.
— Meu lenço. Aquele que eu te dei. Ainda está usando?
Ele ergueu o pulso e puxou a manga. Ela ficou aliviada de ver que o
lenço vermelho que tinha dado a ele na paróquia ainda estava lá.
— Está falando disso? — perguntou ele. — Mas você deu para mim.
— Bem, preciso que devolva — disse ela. — Tire-o. Me dê.
Os dedos grandes dele, tão habilidosos para tantas coisas, se
mostraram desajeitados com isso, lutando contra o nó que Meena
tinha dado.
— Estou muito surpreso com você, Meena Harper — disse ele,
parecendo desapontado como uma criança. — Achei que você tinha
me dado de presente. Não é muito educado de sua parte pegar uma
coisa de volta depois que deu para alguém, sabe.
Além da pilha de escombros ao redor deles, Meena ouviu um rugido
— Lucien. então o prédio tremeu. Meena fechou os olhos. O que
Lucien estava fazendo?
Por favor, ela rezou. Mais nenhuma morte. Já havia havido tantas
mortes naquela noite. Até demais. Ela não aguentava mais.
Alaric também ouviu. Ele balançou a cabeça enquanto continuava a
lutar com o nó.
— É por isso que você precisa vir trabalhar na Palatina — disse ele.
— O quê? — As mãos dela estavam com sangue até os pulsos de
apertar o ferimento. — Do que você está falando?
— Você. Não vê, Meena? Se você viesse trabalhar na Guarda
Palatina, poderia impedir que coisas assim acontecessem. Os
demônios… eles não teriam chance se você estivesse do nosso lado
em vez do deles.
— Não estou do lado dos demônios — replicou Meena. Ela sabia que
não era culpa dele. Ele obviamente estava tendo alucinações por
causa da perda de sangue. Tinha sido por isso que ele a havia
beijado. Nunca teria feito aquilo se estivesse em juízo perfeito. Ele a
odiava. — Só não entendo por que todo mundo quer matar Lucien.
Ele…
— Como o dia em que Martin e eu entramos naquele armazém perto
de Berlim — disse Alaric, ignorando-a. — Não tínhamos ideia de que
estávamos entrando em uma armadilha. Mas se você estivesse
trabalhando na Palatina, talvez tivesse dito: “Ei Alaric. Ei Martin. É
perigoso lá. Tomem cuidado.” E nós teríamos tido mais cuidado. E
talvez agora Martin ainda conseguisse mastigar.
Ele entregou o lenço a ela depois de conseguir desamarrá-lo.
Meena ficou olhando para ele por um segundo.
Ele estava falando sério? Ou isso era parte da alucinação, causada
pela grande perda de sangue?
Ir trabalhar na Guarda Palatina? Ela?
Não. Esse era o sonho do irmão dela, não o dela. Ela não queria ser
uma caçadora de demônios. Estava apaixonada por um demônio.
Isso não seria um leve conflito de interesses?
— Queria que você viesse trabalhar conosco, Meena — disse Alaric, o
olhar fixo no dela. — Não quero morrer. Um aviso seu sobre quando
esperar que isso pudesse acontecer seria bem legal. Sei que todo
mundo ia gostar.
Ela pegou o lenço da mão dele. Os olhos dele, mesmo na penumbra,
estavam muito azuis.
— Vou… vou pensar nisso. — disse ela.
E então ela se inclinou para se concentrar em fazer um tornique com
o lenço e um pedaço de madeira que encontrou nos escombros.
Felizmente, ela havia escrito os diálogos para o episodio de Insaciável
em que Victoria Worthington Stone teve que colocar um torniquete
na perna do meio-irmão quando o avião em que eles estavam caiu
em uma floresta da América do Sul. Victoria tinha feito contato pelo
rádio com uma clínica médica local para obter instruções, e Meena
tinha sido cuidadosa em colocar os detalhes certos, para o caso de
algum dos expectadores algum dia estar na mesma situação…
Nem em um milhão de anos tinha imaginado que ela poderia ser uma
dessas pessoas.
Mas o torniquete funcionou. O sangue parou de jorrar da perna.
Ou isso, ou o fluxo de sangue tinha parado porque Alaric estava
morto.
Mas quando ela olhou para o rosto dele, viu que ele ainda olhava
para ela, com uma expressão pensativa no rosto.
— E aí? — perguntou ele.
— A má noticia é que você beija muito mal — informou ela com
seriedade debochada. Era melhor usar humor para fazer com que ele
pensasse que a situação não era tão grave quanto era do que contar
a verdade. — A boa noticia é que você tem tempo para melhorar sua
técnica. Você vai viver.
— Não — disse ele. Ele pegou a mão dela, não parecendo ligar por
estar coberta de sangue. O sangue dele. — Não estou falando disso.
Estou falando sobre a outra coisa.
Ela sacudiu a cabeça.
— Alaric — disse ela, rindo, sem jeito. — Não vou me mudar para
Roma.
Ele pareceu pensar nisso.
— Será que seus poderes psíquicos funcionam por Skype? —
perguntou ele por fim.
Depois ele desmaiou.
Mas ele não soltou da mão dela. Ainda estava segurando com firmeza
horas depois, quando os bombeiros fizeram um buraco nos
escombros e perguntaram se eles estavam bem.
— Estou bem — gritou Meena. — Mas meu amigo precisa de uma
ambulância. A perna dele está muito machucada.
— Tudo bem, senhora — disse o bombeiro. — Fique parada. Vamos
tirar os dois daí em um minuto.
— E as outras pessoas? — perguntou Meena preocupada, pensando
em Lucien… mas também, disse para si mesma, em Abraham
Holtzman, na irmã Gertrude e nos outros. — Está todo mundo bem?
— Não sei nada sobre isso, senhora — disse o bombeiro. — Pelo que
sei, vocês dois são os únicos sobreviventes.
11 set (4 dias atrás)
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