Capítulo Sete
12:00 da manhã. EST, Terça-Feira, 13 de Abril
Estacionamento do Walmart
Chattanooga, TN
Alaric Wulf não se considerava esnobe. Longe disso.
Se alguém no escritório alguma vez se preocupou em perguntar - e,
com exceção de seu parceiro, Martin, nenhum desses ingratos
alguma vez perguntara - Alaric teria salientado que, nos primeiros
quinze anos da sua vida de trinta e cinco, ele viveu em extrema
pobreza, comendo apenas quando os seus vários padrastos
ganhavam algum dinheiro na pista, e somente se sobrasse algum
dinheiro para comida depois que sua mãe viciada comprava um
pouco de drogas.
E assim Alaric escolheu viver nas ruas (e fora do seu juízo) da sua
nativa Zurique, até que o Conselho Tutelar o pegou e o forçou a ir
para um lar, onde ele foi surpreendido ao encontrar-se sendo melhor
tratado por estranhos do que jamais havia sido por sua família.
Foi nesse lar que Alaric conheceu, e eventualmente foi recrutado,
pela Guarda Palatina, graças à ela que ele acabou sendo um braço de
espada forte, certeiro e objetivo, uma aptidão inata para línguas, e o
fato de que nada - nem os seus padrastos, assistentes sociais,
sacerdotes, que alegaram ter a voz de Deus sussurrando em seus
ouvidos, ou vampiros sanguessugas - o intimidou (ou o
impressionou).
Agora Alaric dormia em lençóis de algodão egípcio de oitocentos fios
todas as noites, dirigia um Audi R8, e rotineiramente jantava os seus
pratos favoritos, como foie gras e duck confit (comidas caras). Seus
ternos eram todos italianos, e ele nem sonhava em usar uma camisa
que não havia sido impressa à mão.
Ele gostava de nadar cem metros, e depois sentar na sauna toda
manhã na academia; ele tinha uma vida sexual ativa com numerosas
mulheres atrativas e cultas que não sabiam de nada sobre seu
conhecimento; colecionava os quadrinhos de Betty and Veronica (que
ele tinha que enviar especialmente à Roma da América a um custo
impressionante); e matava vampiros por viver como parte de uma
unidade militar altamente secreta do Vaticano.
A vida era boa...
Na verdade, ele tinha um estilo de vida sobre o qual a maioria de
seus colegas de trabalho franziam a testa. A maioria deles, por
exemplo, preferiam permanecer in conventos locais ou paróquias
enquanto viajavam, enquanto que Alaric sempre se registrava no
melhor hotel que podia encontrar... que ele pagava para si mesmo, é
claro. Por que não? Ele não tinha nenhum filho ou parente para
sustentar. Era sua culpa que um cedo interesse em investir
(particularmente em metais preciosos, especificamente ouro, que ele
não podia deixar de notar que parecia estar em grande parte em
torno do Vaticano) o fez ser o cliente favorito dos banqueiros de
Zurique?
Ainda assim, em nada Alaric Wulf poderia se considerar um esnobe.
Ele podia ser "grosso" como todo mundo. Ele estava sendo, na
verdade, "grosseiro" agora.
Sentado no seu carro de aluguel do lado de fora de um grande saldão
de um estabelecimento de varejo em Chattanooga - Chattanooga;
que nome para uma cidade! - Alaric viu como a multidão da hora do
almoço inundava a loja.
Um relatório incompleto de um casal de pais desesperados tinha
trabalhado de sua maneira com seus superiores na Guarda Palatina:
Uma jovem moça que trabalhava nesse Walmart em particular tinha
sido atacada por um vampiro neste estacionamento em seu caminho
para casa, voltando do trabalho, uma noite. Ela ainda tinha as
intrigantes feridas de punção em seu pescoço.
O problema era que ela insistiu com seus pais que as marcas não
foram de um "ataque", mas eram o resultado de um "beijo de amor".
Em outras palavras, ela adorou ser atacada.
É claro, Alaric pensou com seu cinismo costumeiro. Todas elas
gostam. A sociedade tinha romanticizado vampiros a tal ponto que
muitas jovens impressionáveis atiravam-se à atores que
interpretavam vampiros nos filmes e na televisão.
Não que isso fosse culpa deles.
Mulheres era programadas genéticamente para se sentirem atraídas
por homens poderosos e bem vistos, homens com um alto nível de
testosterona que seriam bons provedores para suas crianças, que
eram como os vampiros - ricos, altos, fortes e bonitos - eram
geralmente retratados em filmes.
Alaric adoraria saber se mulheres se sentiriam exatamente do mesmo
jeito sobre vampiros se pudessem ter visto seu ex-parceiro Martin na
UTI depois de se enroscar em um ninho de vampiros que tinha
encontrado em um armazém fora de Berlim. Eles haviam rasgado
metade do rosto de Martin. Ele ainda sugava o jantar por um canudo.
Felizmente, os demônios o deixaram o uso dos olhos, então ele ainda
conseguia ver a filha que ele e seu parceiro Karl haviam adotado -
afilhada de Alaric, Simone - celebrar o seu quarto aniversário.
Essa era a causa da dedicação de Alaric ao seu trabalho.
É claro, ele havia sido dedicado antes desse incidente em particular.
Quantas outras carreiras permitiriam a ele o uso de uma espada? Ele
conseguia pensar em bem poucas.
E Alaric era muito apaixonado por sua espada, Señor Sticky. A
lâmina, ao contrário dos humanos, não mentia. Ela não trapaceava, e
não descriminava... até mesmo se vampiros fossem babacas.
Especialmente vampiros americanos. Eles ficavam em lugar que
mesmo Alaric nunca teria ido, especialmente se fosse imortal. Tais
como escolas. E Walmart.
Se Alaric fosse um vampiro - e isso nunca iria acontecer, porque se
por algum erro do destino abominável ele fosse mordido vezes
suficiente para que isso ocorrese, Martin havia dado instruções para
ele se matar instantânemente, não importando o quanto ele lutasse -
ele iria se intensificar. Target, talvez. (Target é uma rede de lojas,
como o Walmart)
Alaric supunha que vampiros evitavam a Target porque o
estacionamento possuía muitas câmeras de segurança. (É um mito
que vampiros não podem aparecer em espelhos ou filmes.
Certamente nos velhos tempos isso era verdade, quando espelhos e
filmes de prata eram a norma. Mas agora que o mundo havia passado
para a era digital - e espelhos são mais baratos - o reflexo do
vampiro pode aparecer como o de qualquer outro.) Alaric, na
verdade, gostava da Target. Eles não tinham Target em Roma. Ele
havia comprado um relógio Goofy na última vez que estivera em uma
Target. Os outros guardas ficaram zoando dele, mas ele gostava do
seu relógio Goofy. Era fora de moda e não fazia nada senão dizer a
hora.
Mas, às vezes, tudo o que você precisa saber é a hora.
O celular de Alaric vibrou, e ele abaixou o seu quadrinho de Betty e
Veronica e pescou o celular do seu bolso do casaco, então leu a
mensagem de texto que havia recebido com interesse.
Manhattan. Denúncias de corpos completamente sangrados. Ao
menos três mortes. Alaric teve que ler a mensagem duas vezes para
ter certeza que tinha lido direito.
Corpos sangrados? Não existia um vampiro idiota o bastante, na
verdade, para drenar um corpo completamente do seu sangue há um
século. Ao menos não que Alaric tenha conhecido.
Porque isso - ao contrário do que esse vampiro estava fazendo em
Chattanooga - era assassinato, e não simplesmente um assalto com
um par de presas.
E assaltos como esses poderiam nunca ser provados - não em um
Tribunal de Justiça comum - porque a vítima daria seu
consentimento... devido ao controle da mente, é claro.
Mas apenas a Palatina e os pais das garotas iriam acreditar nisso.
Se algum vampiro era idiota o suficiente para estar matando suas
vítimas, isso só poderia significar uma coisa:
O príncipe estava saindo de qualquer buraco que havia ficado
escondido ao longo do século.
Ele precisava. Ele nunca iria permitir algo como isso, que ameaçava a
segurança de seus empregados.
Alaric forçou um riso. Sua semana parecia estar sendo muito mais
brilhante.
De repente, em meio à multidão, Alaric viu um funcionário
uniformizado do Walmart vindo em sua direção, voltado para o carro
que os pais da garota haviam descrito como dela e que Alaric havia
cuidadosamente estacionado ao lado.
Sarah não se parecia à foto que seus pais haviam providenciado...
pelo menos, não mais. Ser uma doadora de sangue pessoal de
vampiros podia fazer isso com uma mulher. Suas bochechas
redondas anteriormente agora eram finas, e seu uniforme estava
pendurado em sua gasta estrutura. Seus cabelos encaracolados
vermelhos haviam perdido a vida e ela estava usando um lenço feito
de alguma coisa ao redor do pescoço para esconder a "mordida de
amor", que seu novo amigo havia deixado para trás durante a sua
última visita.
Ela estava muito anêmica, e nem percebeu quando Alaric saiu de seu
carro e ficou ali na frente dela, uma figura enorme no sol do meiodia,
Señor Sticky cuidadosamente escondido - por enquanto - nas
dobras de seu casaco. Ela simplesmente continuou bebendo de uma
forma barulhenta no copo grande de refrigerante que estava
segurando.
Ela precisava de todos os refrigerantes possíveis, ele supunha. Ela
tinha que continuar construindo um plasma novo se ia ser o jantar de
alguém hoje à noite.
"Sarah," Alaric disse baixinho.
Ela parou e finalmente olhou para ele, seus olhos azuis focando-o
num olhar apático.
Agora era a hora de mostrar à ela a espada. Algumas vezes, isso era
a única coisa que conseguia fazê-los entender no ardor-induzido e
torpor deles.
Alaric empurrou para trás as dobras do casaco.
"Apenas me diga onde ele está, Sarah," ele disse suavemente. "E eu
vou deixá-la viva."
Capítulo Oito
2:00 da tarde. EST, Terça-Feira, 13 de Abril
Edifício ABN
Avenida Madison, 520
Nova York, Nova York
VOCÊ ESTÁ CORDIALMENTE CONVIDADA...
PARA QUÊ: Uma requintada festa em nosso apartamento, Park
Avenue, 910. Apartamento 11A.
QUANDO: Quinta-Feira, 15 de Abril, às 7:30 da noite.
PORQUE: O primo de Emil, o príncipe, está na cidade!
VESTIMENTAS: Requintado! Vista-se! Esta é a sua chance de
conhecer a realeza, real à moda antiga! Ache seus
extravagantes, sexys e mais caros sapato e vestidos e divirtase!
Não há necessidade de se sentir para baixo só porque seu
marido não a deixou levar o cartão platinum para um passeio!
Venda seu armário e nos vemos na quinta-feira!
xoxo Mary Lou
Meena encarou o monitor do computador.
Ela supostamente deveria estar trabalhando em um diálogo para a
cena explosiva da próxima semana que Tabby iria confrontar sua mãe
por dormir com seu instrutor de equitação, Romero, por quem Tabby
mesma tinha uma paixão.
Mas tudo o que ela conseguia pensar era sobre a promoção de
Shoshona e seu terrível enredo sobre vampiros, que Fran e Stand
haviam, naturalmente, aprovado, concordando com a emissora (que
concordara com a CDI) que iria fazer Insatiable mais atraente para
todas-as-importante-de-dezoito-anos-quase-dezenove
telespectadores femininas... que por sua vez dariam mais dinheiro
em publicidade. Que por sua vez levaria à todos um aumento (os
escritores de Insatiable estiveram sob um congelamento salarial por
mais de um ano).
Então o email de Mary Lou havia estalado em sua caixa de entrada.
E Meena perdeu toda a capacidade de se concentrar em alguma outra
coisa.
Abatida, Meena encaminhou o email para sua melhor amiga, Leisha.
"Quem é essa pessoa?" Leisha chamou, poucos minutos depois de
perguntar.
"Minha vizinha Mary Lou," Meena disse, supresa por Leisha não se
lembrar. Ela só reclamava de algo que Mary Lou tinha dito ou feito
todos os dias.
"Oh, isso mesmo," Leisha disse. "A que você costumava gostar, até
que ela começou a persegui-la no elevador todos os dias-"
"-tentando me arranjar com cada único indivíduo que ela conhece,"
Meena terminou a frase por ela, "depois que David e eu rompemos.
Certo. Além disso ela continua dizendo sobre como investigou a
ascendência do marido Emil até a realeza romena. Ela descobriu que
ele é um conde, o que faz dela uma-"
"Condessa," Leisha disse. Meena podia ouvir os secadores de cabelo
zunindo no fundo. Leisha trabalhava como estilista em um salão de
alta qualidade em SoHo. "Não era ela a única na comissão de
diretores do seu prédio que não iria deixar você e David comprarem o
apartamento, em primeiro lugar, porque não eram casados? Mas
então, quando descobriu que você escreve para Insatiable, ela mudou
de ideia porque é uma grande fã de Victoria Worthington Stone?"
"Sim," Meena disse. Ela deu uma mordida no mini-Butterfinger que
havia puxado da sua gaveta secreta de doces. "E ela odeia Jon, mas
finge que não."
"Porque ela odeia seu irmão?" Agora Leisha parecia surpresa.
"Ela acha que ele é um vagabundo por viver comigo," disse Meena.
"A questão verdadeira é, como eu vou escapar de ir à sua festa?"
"Uh," Leisha disse, "sem ofensas... mas porque você não quer ir? Da
última vez que eu ouvi, sua agenda social não estava exatamente
cheia."
"É, bem," Meena disse, "Eu não tenho tempo para ter relações
amigáveis com o suposto príncipe romeno quando eu preciso me
preocupar com o que vai acontecer na próxima semana com Victoria
Worthington Stone e sua vulnerável, ainda que teimosa, filha
Tabitha." Meena deu outra mordida em seu mini-Butterfinger. O
importante era fazer com que cada um durasse tanto quanto
possível, o que era difícil, porque eles eram muito pequenos.
"Como sou idiota," Leisha disse. "É claro. Então o que vai acontecer
com Victoria Worthington Stone e sua vulnerável, ainda que teimosa,
filha Tabitha?"
Meena suspirou. "Um palpite. Que desceu do céu hoje. Escrito em
uma tabuleta de pedra do Consumer Dynamics Inc. mesmo".
"O que você disse?"
"Lust começou com uma história de vampiros, e eles estão nos
matando nas avaliações. Então..."
Leisha soltou um pequeno balbucio de riso. "Oh, yeah. Gregory Bane.
Caras estão me pedindo para fazer seus cabelos como o dele há
semanas. Tipo, é um estilo atual, e não algo feito com uma lâmina de
barbear e um pouco de mousse. Pessoas estão malucas por esse
cara."
"Me fale sobre isso." Meena girou em sua cadeira de escritório para
que pudesse desviar o olhar de sua tela do computador para o vale
cinza dos arranha-céus que compõem a Rua Quinquagésima-Terceira
entre a Madison e a Quinta. Ela sabia que, em algum lugar lá fora,
Yalena estava descobrindo que seus sonhos de uma nova vida na
América não estavam exatamente saindo do jeito que ela esperava
que eles saíssem. Meena adoraria saber quanto tempo teria antes
que ela ligasse. Ou se ela ligaria. "Eu não entendo. O cara parece um
palito de dentes. Com cabelo."
Leisha balbuciou com um pouco mais de riso. Meena adorava o som
da risada de Leisha. Ele a animava e a fazia lembrar dos velhos
tempos, antes de elas terminarem, ambas, com empréstimos.
Ainda assim, Meena se sentiu obrigada a dizer, "Não é engraçado.
Você sabe como eu me sinto sobre vampiros."
"Sim," Leisha disse, soando um pouco entediada. "O que é que você
está sempre dizendo de novo? Na seita dos monstros misógenos,
vampiros são os reis?"
"Bem," disse Meena, "eles parecem escolher sempre vítimas
femininas. E ainda assim, por alguma razão, as mulheres acham isso
sexy."
"Eu não," Leisha disse. "Eu quero ser morta pelo Frankenstein. Eu
gosto de caras grandes. E idiotas. Não conte isso ao meu marido."
"Mesmo que esses caras admitam mais e mais que querem nos
matar," Meena continuou, "a ideia de que eles estão nobremente se
contendo de fazer isso é, supostamente, para ser atraente? Desculpeme,
mas saber que um cara quer matá-la é picante?"
"O fato de que ele quer mas não faz é o que faz algumas meninas se
sentirem especiais," Leisha disse simplesmente. "Além disso, os
vampiros todos são ricos. Eu poderia lidar com ter um cara rico
querendo me matar - mas que é nobre e contêm a si mesmo - estar
super dentro de mim agora. Adam não tem um emprego, mas ele
não me ajuda nem mesmo com a roupa."
"Vampiros não são reais!" Meena berrou no telefone.
"Calma aí. Olha, eu não vejo qual é o grande problema," disse Leisha.
"Se alguém que consegue te dizer como cada pessoa que conhece vai
morrer pode existir, porque não podem existir vampiros?"
Meena respirou fundo. "Eu te disse que Shoshona conseguiu a
promoção de escritor principal? Por que você simplesmente não vira a
faca?"
"Oh meu Deus." Leena soou como se se desculpasse. "Eu sinto tanto,
Meen. O que você vai fazer?"
"O que eu posso fazer?" Meena perguntou. "Aguardar. Ela vai
estregar tudo, no final das contas. Eu espero que quando ela
estragar, o show e eu ainda estejamos aqui, e eu posso entrar e
salvar o dia."
"Vai nessa," Leisha disse. "Complexo de Herói."
Meena uniu as sobrancelhas. "O quê?"
"Vampiros são monstros misógenos," Leisha disse. "E você tem um
complexo de herói. Você sempre tem. É claro que você pensa que vai
salvar o show. E provavelmente o mundo, enquanto estiver com
isso."
Meena bufou. "Certo. Já chega de falar de mim. Como está Adam?"
"Não tem conseguido sair do sofá em três dias", Leisha respondeu.
Meena assentiu com a cabeça, esquecendo que Leisha não podia vêla.
"Isso é normal para o primeiro mês após a demissão."
"Ele está lá na frente da CNN, como um zumbi. Ele está começando a
pirar com essa coisa de serial killer."
"Que coisa de serial killer?" Então Meena lembrou do quê Shoshona
estivera falando em sua reunião com Sy. "Oh, aquela coisa com as
garotas mortas, nos parques?"
"Exatamente. Você sabe, na verdade ele grunhiu para mim outro dia
quando eu pedi a ele se ele podia pegar a correspondência da Caixa
do Correio lá embaixo."
Meena suspirou. "Jon ficou da mesma maneira depois de perder o
emprego e ter que ir morar comigo. Ao menos ele ajudava com a
roupa. Só porque eu tinha uma máquina de lavar e secar única no
apartamento e você não pode deixar de tropeçar nas pilhas pelo
caminho para se mover."
"Eu perguntei para Adam quando ele vai começar o quarto do bebê,"
Leisha disse. "Ou o canto do quarto do bebê, eu acho que é assim
que eu devo chamar aquilo, vendo que o quarto é tão pequeno, é
praticamente um closet. Ainda assim, ele tem que colocar uma porta
naquilo, e uma parede, e pintar e tudo. Você sabe o que ele disse?
Ainda é muito cedo e que há muito tempo para fazer isso. Thomas
chegará em dois meses! Algumas vezes eu não sei se nós vamos
fazer isso. Eu realmente não sei."
"Sim, vocês vão," Meena disse de modo tranquilizante. "Nós vamos
superar tudo isso. Realmente, nós vamos."
Meena não acreditava nisso, é claro. Fazia meses desde que seu
irmão, Jon, havia sido despedido da empresa de investimentos onde
ele trabalhou como analista de sistemas, e ele não estava tão perto
de encontrar um emprego quanto estava no dia de sua demissão... e
o mesmo com o marido de Leisha, Adam, que tinha sido colega de
faculdade de Jon antes de Jon apresentá-lo a Leisha. Os poucos
empregos que estavam lá fora nos seus domínios tinham centenas,
talvez milhares, de candidatos igualmente qualificados competindo
com eles.
"Isso é uma previsão?" Leisha perguntou.
"É," Meena disse com firmeza.
"Estou esperando que seja," Leisha disse. "Bem, boa sorte com o
príncipe. Eu vestiria preto. O preto é sempre apropriado. Mesmo para
uma reunião da realeza." E desligou.
Meena enganchou o receptor no aparelho, mastigando o lábio
inferior. Ela odiava mentir para Leisha.
Porque as coisas não iriam ficar bem.
Alguma coisa estava errada. Leisha continuava falando para Meena
que a data do parto seria em dois meses.
E talvez isso fosse o que o médico havia dito.
Mas o médico estava errado. Toda vez que Leisha dizia isso -
"Thomas estará chegando em dois meses" - Meena sentia uma
pontada incômoda.
O bebê - Meena era posivita - viria no próximo mês. Possivelmente,
ainda mais cedo o que isso.
E Thomas! Leisha e Adam queriam colocar o nome de Thomas
Weinberg no bebê!
A criança seria um engraçado Thomas, considerando que era uma
menina e não um menino.
Mas como dizer para uma gestante que tudo o que o médico havia
dito estava errado... quando você estava se baseando em um
sentimento? Especialmente quando todas as suas previsões
anteriores haviam sido sobre mortes, não sobre novas vidas?
Fácil. Você não dizia nada à ela. Você mantinha sua boca fechada.
Voltando para a tela do computador, Meena foi confrontada
novamente pelo email de Mary Lou. Algumas vezes ela achava difícil
de acreditar que ainda existiam pessoas que não precisavam
trabalhar para viver... garotas com supostos príncipes que não
precisavam fazer nada a não ser planejar elaboradas festas e usar os
cartões de crédito dos maridos para fazer compras o dia todo.
E então, entretanto, existiam garotas como Yalena, sendo devoradas
por vermes como o seu namorado, Gerald, sobre quem a polícia não
poderia fazer exatamente nada...
Mas essas pessoas existiam.
E elas viviam no seu prédio. Justamente na porta ao lado, na
verdade.
Meena resolveu clicar em Apagar, então abriu um novo documento e
começou a escrever.
Capítulo Nove
11:00 da noite. GMT, Terça-Feira, 13 de Abril
Algum lugar acima do Pacífico
Lucien Antonescu não gostava de voar comercialmente, mas não,
talvez, pelas mesmas razões que outras pessoas talvez não gostem
disso. Ele não tinha problemas de controle - que não fossem suas
preocupações normais como controlar a sua própria raiva - e, claro,
não tinha medo da morte. A ideia de uma queimante ou qualquer
outra dor não o incomodava, de qualquer maneira.
Ele estava, no entando, perturbado pela maneira que as companhias
aéreas embalavam seus clientes dentro de tubos de metal que são
chamado atualmente de "aviões", então esperavam que eles se
sentassem naquelas incrivelmente pequenas e apertadas desculpas
para "lugares" por muitas horas a fio, sem nenhum exercício ou ar
fresco.
Então havia algum tempo desde que Lucien Antonescu havia estado
em um avião que ele mesmo não possuísse (seu Learjet pessoal era
ideal para a maioria das viagens, mas não forte o bastante para um
vôo transatlântico sem escalas). Quando pediram para ele falar com
uma conferência exterior ou para ele viajar por um de seus livros,
Lucien simplesmente tendeu à negar. Ele não gostava de publicidade,
em qualquer caso...
Mas hoje Lucien estava voando na primeira classe. Os assentos foram
feitos com compartimentos individuais, de modo que os outros
passageiros sentados na frente, atrás ou ao lado dele não eram
visíveis.
Num determinado momento durante o vôo, a atraente e muito
agradável aeromoça - elas eram chamadas de assistentes de vôo
agora, ele lembrou a si mesmo - mostrou-lhe um menu, a partir do
qual ele foi convidado a escolher entre uma seleção estonteante de
comidas e vinhos, incluindo alguns decentes Barolos Italianos (tipo de
vinho)...
Mais tarde, depois do piloto desligar a luz, a assistente de vôo
perguntou se ele gostaria que ela arrumasse sua cama para ele. Ele
aceitou, por pura curiosidade. Qual cama? Seu assento amplo e
espaçoso, ele verificou, automaticamente se dobrou em uma cama de
tamanho razoável (mas não para ele, sendo vários centímetros além
de um metro e oitenta), tudo com um toque em um botão.
Então a linda assistente de vôo produziu um colchão almofadado de
um outro compartimento escondido, lençóis que ela havia realmente
"dobrado", um edredom e um travesseiro, que ela amaciou.
Ela então entregou-lhe um saco de pano contendo um grande par de
pijamas, uma escova de dentes e pasta e uma máscara para os
olhos.
Finalmente, ela desejou-lhe boa noite com um sorriso. Ele sorriu de
volta, não porque ele não tinha nenhuma intenção de pôr o pijama ou
de ir dormir, mas porque ele descobriu que o processo - e ela - eram
absolutamente encantadores.
Seu sorriso a fez corar. Ela era divorciada de um homem
inescrupuloso que a havia traído durante todo o seu casamento de
oito anos e ela estava sustentando o bebê deles sozinha. Ela desejava
apenas que seu ex-marido pagasse pensão alimentícia e visitasse sua
filha de vez em quando. Ela não disse a Lucien essas coisas... mas
bem, ela não precisava. Ele sabia disso porque ele não conseguia
ficar em torno de pessoas sem invadir os seus pensamentos secretos
dentro deles mesmos. Era uma coisa que ele se acostumou ao longo
dos anos, uma coisa que às vezes ele apreciava. Isso o fez se sentir
humano novamente.
Ou quase.
Ela se desculpou e foi ver outro passageiro, um empresário
corpulento sentado de modo transversal no corredor espaçoso, na
poltrona 6J. O passageiro da poltrona 6J não conseguia parar de
reclamar: Seu travesseiro não estava amaciado o bastante, os
pijamas não eram grandes o suficiente, as cerdas de sua escova de
dentes eram muito rígidas e sua taça de champagne não tinha sido
cheia com rapidez suficiente.
Baseado nas observações de Lucien, o homem na 6J estava
pressionando o botão de chamada aproximadamente a cada quatro
ou cinco minutos, irritando tanto a assistente do vôo quanto a
senhora no banco em frente à ele, que levantou sua máscara de
dormir e espiou para fora do seu compartimento escurecido, para ver
o que era toda aquela perturbação. Ela tinha uma importante reunião
na parte da manhã e precisava de seu descanso.
Lucien levantou-se enquanto a assistente de vôo deslizou de volta
para cozinha para buscar outro travesseiro ao empresário. Então ele
atravessou o corredor para fazer uma visita ao 6J.
"O que você quer?" O homem - cuja mente era tão superficial quanto
um dedal - olhou com desprezo para Lucien.
Quando a assistente de vôo voltou, se surpreendeu ao descobrir que
o passageiro na 6J parecia alarmantemente pálido e num sono
profundo, ele parecia estar quase comatoso. Ela lançou um olhar
rápido e questionador em torno da cabine, encarando o olhar de
Lucien, pois ele estava de pé, buscando um livro que ele havia
deixado no compartimento alto.
"Cansado por todo o champagne, eu suponho," Lucien disse para ela.
"Não está acostumado com tanto álcool em uma altitude tão
elevada." Ele deu à ela uma piscadela.
A assistente de vôo hesitou e então, como se silenciada pelo sorriso
de Lucien, sorriu timidamente de volta e ofereceu-lhe o travesseiro
extra.
"Ora, muito obrigado," ele disse.
Mais tarde, enquanto passeava pelos corredores escuros enquanto o
jato empurrava o céu nortuno em direção à Nova York, escutando a
respiração dos passageiros inconscientes e experimentando seus
sonhos, Lucien olhou para as nuas e vulneráveis gargantas que
cochilavam e pensou que realmente alguém devia fazer algo para
tornas as viagens de avião mais agradáveis para todos, não apenas
para os poucos privilegiados na primeira classe.
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