domingo, 28 de julho de 2013

mord - mg - parte 2 - 16-17-18

16
Alaric entrou no apartamento e botou no chão a bolsa de academia que trouxe pendurada ao ombro, depois bateu e trancou a porta. Meena já tinha pegado o controle remoto na mesa de centro.
— Ah, oi, Alaric. — Jonathan saiu de dentro do quarto, tentando fazer parecer que a visita de Alaric era uma grande surpresa.
Mas Meena reparou que ele tinha tirado o moletom e colocado uma camisa passada e calça cáqui, que ele usava somente para trabalhar.
Mas não ia trabalhar naquela noite, porque eles a princípio iam sair com Leisha e Adam.
E por acaso ele estava carregando aquele negócio que inventou.
—Eu não sabia que você ia passar aqui — disse ele. — Smoking maneiro, cara. Super Daniel Craig em Cassino Royale.
Alarico ignorou. Ele se sentou no sofá e olhou para a tela da TV. Não pareceu perceber que Jack Bauer tinha pulado no braço do sofá e ofegava alegremente em sua orelha. O cachorro considerava Alaric um de seus humanos favoritos, desde que ele arriscou a vida para salvá-lo, por saber o quanto Meena o amava.
Meena tinha colocado no canal de noticiário 24 horas.
— A partir de amanhã, os residentes dos três Estados, Nova York, Nova Jersey e Connecticut, vão ter a oportunidade de ver uma das mais taras e valiosas coleções de arte do mundo — dizia um âncora simpático para a câmera. — A nova exposição, Tesouros do Vaticano: uma jornada pela [e’ e pela vida, estará até o final de dezembro no Metropolitan Museum of Art. A cidade de Nova York é a primeira parada na turnê americana da exposição. Nossa repórter Genevieve Fox está na inauguração desta noite, cheia de
convidados especiais. Genevieve?
Meena, que tinha se sentado no sofá ao lado de Alaric, olhou para ele sem entender.
— Não é pra lá que vamos daqui a uns cinco minutos? — perguntou ela. Alaric fez “shh”, pegou o controle remoto da mão de Meena e aumentou o volume.
— Oi, Pat — disse Genevieve. Ela estava de pé em um tapete vermelho na frente do Met, usando um vestido de noite, muitas joias de ouro e um largo sorriso. Ao redor dela estavam vários outros repórteres, nenhum deles tão bem-vestido. — Estou aqui na inauguração da nova exposição, Tesouros do Vaticano: uma jornada pela fé e pela vida. Muitos dos itens expostos nunca saíram do Vaticano nem foram vistos em público. E devo dizer que dá para sentir a eletricidade no ar quando os convidados famosos e os apoiadores do museu chegam para este evento sem precedentes.
— Ah, anda logo — resmungou Alaric para a televisão, frustrado.
— Não era isso que você queria ver? — perguntou Meena.
— Vai passar depois disso. Espere só.
— Mas a Tesouros do Vaticano não tem apenas relíquias, cálices lindamente enfeitados com pedras preciosas e trabalhos valiosos feitos por grandes artistas como Michelangelo e Bernini — declarou Genevieve para seus espectadores. — A exposição oferece a quem verdadeiramente acredita uma chance de chegar mais perto de sua fé. Esta tarde, oportunidade de falar com o padre Henrique Mauricio...
— Ah, não — disse Alaric, e escondeu a cabeça entre os punhos com que veio da arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, para se tornar o padre da recém-reformada catedral de St. George...
A imagem mudou para uma de Genevieve com um bonito twinset, o cabelo solto e os lábios em um biquinho inteligente enquanto colocava o microfone no rosto de um padre de cabelos escuros, extremamente bonito.
O inglês do padre Henrique era hesitante de uma forma charmosa, e seu sotaque, impressionantemente estrangeiro.
— É uma coisa muito emotiva. Os artefatos dessa exposição falam ao coração e reafirmam aquilo em que acreditamos. Ao vê-los, fé é sustentada. E
isso... Os olhos dele realmente se encheram de lágrimas na frente da câmera. Um dose do rosto de Genevieve mostrou que ela também estava visivelmente comovida pelas palavras do padre Henrique. — Como se diz em inglês? Ah, é... é como se um pedaço do Vaticano tivesse sido trazido para nós aqui em Nova York, como um presente. Você pode vir aqui ver alguns dos mais incríveis e comoventes objetos da história religiosa. E eu garanto que eles vão restaurar sua alma.
A câmera voltou para Genevieve, com lágrimas nos olhos de novo, de cabelo preso na frente do Met.
— Ah, Pat. Não consigo dizer o quanto me emocionei com as palavras do padre Henrique. Ele está tão certo. Que homem extraordinariamente...
— Extraordinariamente imbecil! — gritou Alaric para a tela. Jack Bauer latiu com entusiasmo, aparentemente concordando.
— E ele é apenas um dos vários representantes da arquidiocese que estarão aqui hoje para apoiar a exposição. Eles esperam que vários dos nossos espectadores venham vivenciar este evento único e, sim, vente. De volta a você, Pat.
— Obrigado, Genevieve — disse Pat. — Vamos voltar à história que estávamos acompanhando, o terrível incêndio em uma casa em Freewell, Nova Jersey..
Meena engasgou. Jonathan disse:
— Freewell? Não era lá que...
— Sim — disse Alaric, e aumentou o volume. Era essa a notícia que estava esperando.
— Dee Dee Chow está ao vivo em Freewell — falou Pat. —— Dee Dee, o que você pode nos contar?
A imagem mudou e Meena viu uma repórter de pé em uma rua com aparência familiar, cheia de carros de polícia, carros de bombeiro e ambulâncias. Atrás dela havia um gramado que um dia devia ter sido verde. Agora, estava preto e cercado de fita amarela.
— Par — disse Dee Dee — , as testemunhas dizem que o incêndio começou no fim desta tarde, quando os vizinhos viram fumaça saindo por baixo das portas da garagem e ligaram para a emergência.
Uma imagem confusa da cena vista de um helicóptero não acrescentou informação alguma.
— Mas apesar do esforço dos bombeiros, o inferno não pôde ser contido e rapidamente se espalhou pela casa — prosseguiu Dee Dee.
A câmera se afastou e Meena viu chamas alaranjadas de aparência maligna saindo de todas as janelas do que fora no passado a mansão de David Delmonico em Nova Jersey.
— Abraham — sussurrou ela. Não pretendia dizer o nome em voz alta. Apenas escapou.
— Espere — disse Jonathan. — Abraham Holtzman? Ele estava naquela casa? O que exatamente vocês estavam fazendo em Freewell?
O olhar de Alaric não saiu da tela. Ele não disse nada.
— Embora seja cedo demais para os investigadores especularem sobre a causa do incêndio —— prosseguiu Dee Dee — os oficiais dizem que, por causa do calor extremo e da rapidez com que o fogo se espalhou, acreditam que um catalisador pode ter sido usado.
Meena olhou para o rosto impassível de Alaric.
— Como você sabia sobre isso? —— perguntou ela. A equipe está bem? Abraham fez contato?
— Shh — disse ele impaciente.
— Os bombeiros declararam que o local ainda está perigoso demais para que entrem em busca de restos humanos — continuou a repórter — mas os vizinhos dizem que não parecia haver ninguém na casa na hora em que o fogo começou... o que pode ser a única boa notícia até agora para uma família que parece ter perdido tudo. Direto de Freewell, eu sou...
Alaric ficou de pé e desligou a televisão.
— Então... — Meena também ficou de pé. — Vamos voltar para Freewell para procurar por Abraham e pelos outros, certo?
— Nós certamente não vamos para Freewell — disse Alaric. — Vou manter você o mais longe possível de Freewell... de Nova Jersey toda, na verdade. Vamos para o Met e depois voltamos direto pra cá.
— O quê? — gritou Meena. — Mas Abraham...
Alaric andou em direção a ela até ficarem com alguns centímetros entre si,
para que pudesse olhá-la nos olhos. Ela controlou o impulso de dar um passo para trás. Não queria que ele soubesse o quanto a proximidade física a deixava nervosa. Em vez disso, ergueu o queixo e olhou nos olhos dele.
— Sei que você tentou me avisar — a voz dele estava baixa, sem a costumeira autoconfiança e arrogância. — Você não queria deixá-lo lá, mas eu não quis ouvir. Fui teimoso demais. Abraham me disse isso, sabe. Ele falou que é meu pior defeito. Disse que eu acho que todo mundo devia ser como eu. Inclusive você. Mas não é verdade. Eu só quero estar certo sempre. Queria ter estado certo desta vez, mas não estava. Abraham é o mais próximo que tive de um pai. Mas ele não está aqui agora, e você está. Vou fazer tudo em meu poder para garantir que permaneça viva. Então, não, não vamos para Freewell.
Meena olhou para ele boquiaberta, completamente impressionada com o que ele disse. Alaric quase nunca admitia ter errado e raramente falava de seus sentimentos, exceto para reclamar que estava com fome, com calor ou irritado com alguém que falava muito alto no celular em um restaurante.
Ela não sabia muito bem como responder, principalmente porque havia uma aparência de vulnerabilidade quase infantil naquele rosto, que fez com que ela desejasse passar os braços em torno dele e dizer que tudo ia ficar bem.
Mas sabia que isso não só seria inadequado — principalmente com o irmão de pé ali perto, observando de maneira constrangedora a conversa deles—, mas também seria mentira. Ela soube assim que viu Abraham dobrando a esquina da casa de David que jamais o veriam novamente.
— É minha culpa — disse Meena, com os olhos se enchendo de lágrimas. — Eu nunca devia ter ido me encontrar com David. Se eu não tivesse ido, nada disso...
Alaric limpou com o polegar a única lágrima que tinha começado a escorrer pelo rosto dela.
— Você só estava tentando fazer o que achava certo. Você não sabia. Como poderia?
— Como eu não saberia? — perguntou ela com voz trêmula. — Eu sempre sei.
— Bem, não há nada que possamos fazer sobre isso agora, exceto nosso
trabalho.
Mas ela nem tinha certeza se poderia fazer isso agora. Sua cabeça parecia a Bola 8 Mágica que lhe deram quando criança, a qual sacudiu vezes demais para poder obter respostas sobre si mesma, já que sabia as respostas sobre todo mundo.
Resposta incerta, tente de novo.
— Alaric — disse ela, esticando a mão para pegar a mão grande e cheia de calos que tinha acabado de tocar em seu rosto. — Me escute. A repórter da TV disse que não parecia haver ninguém na hora do incêndio. Então isso não quer dizer que Abraham e os outros não estejam bem.
— Então por que não fizeram contato? — perguntou Alaric. — Você sabe como Abraham é. E Carolina também estava na equipe. Abraham pediu que ela participasse, porque é muito boa em campo.
Meena empalideceu. Carolina da Silva. Sua única amiga no trabalho... além de Alaric, se é que podia considerá-lo um amigo. Carolina era vista como uma das melhores guardas da força. Se ela não tinha entrado em contato, o que aconteceu em Freewell só podia ser catastrófico...
Mas quando cutucou a parte de sua mente que lhe contava se as pessoas estavam vivas ou mortas e visualizou Abraham e Carolina, a única resposta que obteve foi “melhor não contar para você agora”
Ela não tinha certeza se as palavras eram as que desesperadamente queria ouvir ou se Abraham e Carolina estavam mesmo em algum lugar entre a vida e a morte.
— E não há sinal dos rastreadores de GPS de ninguém da equipe nos computadores do quartel-general — disse Alaric, com amargor. — Ou os celulares derreteram no fogo, ou...
A voz dele sumiu. Não precisava continuar. Meena sabia exatamente o que ele estava pensando.
Alguém os tinha desarmado.
Concentre-se e pergunte de novo.
— Ainda piora — disse Alaric, tirando o celular do bolso com a mão livre. — A caminho daqui, recebi este e-mail do quartel-general:
“Devido às crescentes incertezas sobre possíveis ataques por parte de
entidades demoníacas, o Vaticano declarou estado de emergência no mundo todo e ameaça permanente de segurança a todos os membros e seus familiares. Especificamente, todas as viagens desnecessárias a Nova Jersey devem ser adiadas até que se reporte o contrário.”
Jonathan assobiou do outro lado da sala.
— Nossa — disse ele. — Quem iria imaginar que Nova Jersey era uma incubadora de atividades demoníacas.
— Não é só Nova Jersey — disse Alaric. Ele continuou a ler em voz alta. — “O evento desta noite no museu também é considerado com alto potencial de instabilidade.” — Ele deu uma risada amarga. — “Todos os guardas do nível alfa e superiores devem com parecer à entrada do estacionamento do museu dentro de uma hora. Os outros devem comparecer ao quartel-general.” — Alaric colocou o celular de volta no bolso do smoking. — De lá, acho que vão ser Freewell, onde serão divididos em grupos de busca para procurar qualquer sinal de Holtzman e do resto da equipe de extermínio.
— Para o museu? — Meena sacudiu a cabeça. — Por que estão enviando todos os guardas do nível Alfa para o museu—
— É mesmo — disse Jonathan. — Estão mais preocupados com um bando de contribuintes ricos e bispos e tal do que com seus funcionários?
Alaric deu de ombros.
— O Vaticano não declara estado de emergência todos os dias. Nunca lugar fizeram isso antes, em todos os anos que trabalho na guarda Palatina. E acho altamente improvável que tenham feito esta noite porque a mulher de um dentista de Nova Jersey botou fogo na casa e está à solta na área dos três Estados. Posso garantir que estão preocupados com uma ameaça um pouco maior do que Brianna Delmonico. Tenho a impressão de que estão esperando um convidado famoso de surpresa no baile desta noite, e é por causa dele que sentiram a necessidade de aumentar a segurança.
— É mesmo? — perguntou Jonathan, impressionado. — Quem? O prefeito?
— Não exatamente — disse Alaric, olhando para os crucifixos nas janelas da sala.
Meena engasgou quando se deu conta.
— Não — disse ela.

17
Meena não podia azer nada além de olhar com raiva pela janela do táxi a caminho do Met. Não conseguia
Estava com muita raiva.
E Alaric sabia.
— Anime-se — disse ele do seu lado no banco detrás. — O arcebispo vai estar lá hoje. Você pode fazer um pedido formal de transferência. Talvez para a Irlanda. Nunca vai ter que me ver de novo se for transferida para lá. Há duendes demais, Odeio duendes. São uns merdinhas gananciosos.
— Não é engraçado-—falou ela com a raiva borbulhando. — Não consigo acreditar que contou para eles sobre eu ter visto Lucien ontem
— Meena. — Alaric olhou bem nos olhos dela. -— No contei para eles.
— Ah, tá. No caminho todo, de volta de Nova Jersey, você só falou sobre sua teoria de que Lucien Antonesco é quem está matando os turistas. Não me diga que não é por isso que decretaram estado de emergência. É claro que é, Alaric.
No apartamento, quando foi revelado que o príncipe das trevas estava de volta, Jonathan tinha gritado: “Ah, que ótimo. Isso é ótimo. Quando ia me contar? Preciso lembrar a todos que já dei um tiro nele? O cara deve estar sentado com todos os súditos tentando decidir corno se vingar de mim. Ah, meu Deus. Preciso me deitar.” Em seguida, foi para o quarto com a SuperEstaca.
— Eu falei pra você no carro que não podia ser Lucien quem estava cometendo esses assassinatos — disse Meena irada, embora mantivesse a voz baixa o bastante para que o motorista, por trás da parede de plástico que o separava do banco de trás, não pudesse ouvi-la. — E por que logo ele
apareceria no evento de hoje? Icones religiosos de qualquer época fazem mal a vampiros, então eu duvido muito que ele vá querer ver um bando de tesouros do Vaticano, muito menos ficar perto de várias figuras da Igreja. Essa coisa toda saiu de controle. Virou uma espécie de caça às bruxas, como no século XVII. Você quer culpar Lucien por tudo que há de errado no mundo, quando a verdade é que..
— Eu sei. Você já me falou — interrompeu Alaric. O olhar dele não estava exatamente calmo. — Ele está muito fraco e anêmico e você está preocupada demais com ele, blá-blá. Mas ele não estava fraco demais para arrancar a porta do Volvo, estava?
Meena balançou a cabeça.
— Você não entende — desistiu ela, se recostando no banco e olhando com raiva pela janela, para o trânsito. -—Você simplesmente não entende.
— Eu entendo —disse Alaric — que mais de cinquenta pessoas desapareceram ao visitar esta cidade nos últimos meses, dez delas só nas últimas duas semanas. Não há nada sobre isso na mídia além de uma nota aqui e outra ali de uma família que não fez check-out no hotel depois de visitar o museu de cera Madame Tussauds ou o Marco Zero. Pode ser que o desaparecimento deles na Big Apple sem deixar vestígios esteja no noticiário de Wisconsin ou do lugar de onde vieram, mas aqui, como os corpos não apareceram, ninguém se importa, exceto talvez por meu supervisor, que começou a investigar assim que mostrei a ele o ponto em comum entre todos os casos. Mas agora ele também desapareceu, que devo dizer que acho coincidência demais para ficar tranquilo.
Meena se virou para olhar para ele, surpresa demais para lembrar que estava com raiva.
— O que você quer dizer? -—perguntou ela.
— Você sabe exatamente o que quero dizer — disse Alaric. — Meu supervisor está desaparecido, assim como a equipe dele... mas ainda assim, por algum motivo, meus superiores acham mais importante mandar seus melhores guardas para uma festa em um museu hoje em vez de para a área onde meus colegas sumiram. Não relatei seu encontro com Lucien para ninguém ainda porque, até onde sei, não tenho ninguém para quem relatar. Seja lá quem for
que está dando as ordens agora que Abraham sumiu, ou está com as prioridades meio distorcidas ou sabe alguma coisa que não sabemos.
Meena pensou por um momento.
— Bem, se você não relatou o encontro, o alerta que o Vaticano emitiu não pode ter nada a ver com Lucien — disse ela, por fim.
— Talvez não. Mas só por precaução... — Ele enfiou a mão no bolso do smoking e tirou uma caixinha achatada de um tom familiar de azul-celeste. — Tome.
Ele jogou a caixa no colo dela. A palavra Tiffany estava impressa em letras pretas na parte de cima da caixa.
— Alaric. — Meena imediatamente se viu ficando vermelha. — O que é isso ?
— Uma coisa que eu devia ter dado pra você há muito tempo. Você precisa disso mais do que qualquer outra pessoa. Talvez tivesse evitado que recebesse essa última mordida. Que eu ainda consigo ver, aliás. Você não passou o corretivo muito bem.
Com esse comentário evidentemente nada romântico — se é que ele chegou a querer que o momento fosse romântico — , Alaric desviou o foco de atenção para a janela, deixando Meena sem outra coisa para fazer além de abrir a caixa.
Dentro havia uma cruz de prata elegante e brilhosa, pendurada em uma gargantilha fina de couro preto.
— Ah — disse ela baixinho.
Era perfeita... exatamente o que escolheria para usar, se tivesse se permitido alguma vez fazer uma compra tão extravagante.
— E me faça um favor — disse ele, se virando para olhar para ela. —Coloque-a e, independentemente do que acontecer, não a tire.
Ela fez o que ele pediu, com dedos trêmulos.
— Obrigada — disse ela.
— Você está chorando? — perguntou ele, parecendo chocado.
— Não — negou ela, virando o rosto enquanto lutava com o fecho.
— Está sim — disse ele, de forma acusadora. — O que há de errado com você?
— Nada. É que é tão... — Ela lutou para encontrar a palavra certa.
— Perfeita. Ninguém nunca me deu uma coisa tão perfeita.
—Venha cá — falou Alaric, ficando claramente impaciente com a incapacidade dela de mexer no fecho. — Se vire. — Ela fez o que ele pediu e levantou o cabelo. Sentiu os dedos dele na pele sensível da nuca.
— O vampiro te deu uma bolsinha — ele a lembrou.
— Era uma sacola — corrigiu ela.
— Você queria a bolsinha. Sei que você não queria isto. — Ele terminou de fechar a gargantilha e se recostou no banco. — Mas está óbvio que precisa.
— Obrigada — disse ela de novo.
— Não foi nada — respondeu ele. — Meena.
Ela olhou para ele. O olhar dele estava muito intenso. Mesmo se quisesse, ela não podia ter desviado.
—O quê?
— Eu... comprei uma casa em Antígua.
Ela arregalou os olhos.
— Hoje?
Uma expressão de irritação passou pelo rosto dele.
— Não, não hoje. Quando eu teria tido tempo pra comprar uma casa em Antígua hoje?
— Não sei — disse Meena, e se sentiu burra. Principalmente porque a informação de que ele comprou uma casa em Antígua a deixou bem triste. Nunca tinha pensado sobre isso antes, mas é claro que o trabalho de Alaric em Nova York era temporário. É claro que ele alguma hora iria embora. — Não tenho certeza do que devo dizer. Parabéns?
— Não me para parabenize — falou ele, parecendo mais irritado do que nunca. — Sabe por que comprei uma casa em Antígua?
Ela balançou a cabeça, desnorteada.
— Porque Antígua é a única ilha do Caribe que sofre de secas frequentes. Por ser tão perto do equador. O sol brilha o dia todo, todos os dias. Chove de vez em quando, mas não com frequência. E sabe o que nunca houve em Antígua?
Ela balançou novamente a cabeça, ainda desnorteada. Ele apontou para o
crucifixo.
— Vampiros — explicou ele. — Eles não gostam de lá. Tem sol demais.
Ela sorriu ao perceber que ele estava brincando. Ou pelo que conhecia dele, talvez não.
— Ah — disse ela, apontando para a cruz. —Isto é pra eu me lembrar de você? Quando você vai embora?
Ele se virou para a janela de cara amarrada.
— Mal pode esperar para se livrar de mim, bem. Para poder ficar sozinha com seu príncipe?
— Não — disse ela, magoada. Por que nunca encontrava a coisa certa para dizer a ele? — Não foi isso que eu quis dizer. Você sabe que não foi isso que eu quis dizer.
— Não se preocupe — falou ele com o que parecia quase um rosnado. — Não vou embora deixando negócios pendentes.
Ela não gostou de ouvir isso.
— Alaric. Olhe para mim.
Ele olhou para ela. Mas só para dizer:
— Vamos manter nossa relação estritamente no plano profissional, certo?

18
-Meena Harper. Que prazer conhecer você.
— O padre Henrique Mauricio era ainda mais bonito pessoalmente. A pele dele parecia brilhar de saúde e os dentes eram brancos como pérolas, mas levemente tortos, o que provava que eram naturais.
Alaric não se considerava um expert em campo, mas em sua opinião, a Tesouros do Vaticano tinha trazido à tona os maiores impostores de Nova York, inclusive o padre Henrique Mauricio.
A maior parte deles fingia gostar da arte, quando na verdade estava se embebedando, exibindo as roupas novas de grife e rindo nervosamente sobre o que Meena Harper dizia a respeito de como iam morrer.
A favor dela, era preciso dizer que estava lidando bem com o fato de que alguém contara para os convidados sobre seu “dom”. Se fosse com Alaric, ele daria um soco na cara de cada pessoa que tivesse ido pedir para ser o próximo.
Mas Meena dizia, com voz calma, segurando na mão da pessoa: “Se você tem uma viagem planejada para ir esquiar, cancele” ou “Você tem uma vida muito longa à sua frente” ou “Acho que precisa observar sua taxa de colesterol”
Isso normalmente resultava em um grito de “Ah, meu Deus, que coisa estranha!” ou em um riso contido e alegre, ou em “Meu médico me falou exatamente isso!”
Alaric se deu conta de que não podia ser fácil ser Meena Harper, principalmente quando os sussurros e olhares começavam. Havia outras celebridades no local... um astro do rock envelhecido, um ex-prefeito, um atleta que assassinara a mulher e tinha sido absolvido graças a um detalhe técnico, embora fosse claramente culpado.
Mas ela era a única pessoa presente que podia ver o futuro e dizer como iam morrer.
Não era de surpreender que o padre Caliente estivesse em cima dela. Sendo o maior impostor de todos, é claro que o padre Henrique pegou a mão de Meena e a beijou. Na verdade, Alaric achava que Lucien Antonesco era mais falso, mas não havia sinal dele em parte alguma, apesar das suspeitas de Alaric.
— Ouvi tantas coisas sobre você — disse Mauricio com um sorriso. Era o mesmo sorriso reticente que Alaric vira o padre dar para Genevieve Fox na TV. — Fico feliz de finalmente podermos nos conhecer depois de tanto tempo.
— Bem, é um grande prazer conhecer você também, padre. Está gostando de Nova York?
— Ah. — O padre olhou para cima. — Mais do que posso dizer. É claro que sinto saudade do meu amado Rio, mas quem não amaria a Big Apple, não? Como dizem, ela captura seu coração e não solta.
Alaric revirou os olhos e observou a bandeja de salmão defumado. Basicamente, era a única proteína servida, e ele estava morrendo de fome. O problema era que todo mundo também estava, então toda vez que o salmão chegava perto, as pessoas voavam como abutres para as bandejas.
— Ah. — disse alguém que Alaric não reconheceu, mas que Meena havia recomendado ficar longe de barcos. — Então é verdade. É por isso que sempre amei Nova York. E é por isso que é tão maravilhoso essa exposição ter vindo pra cá primeiro
Alaric não fazia ideia do que essa pessoa estava falando. Ele não gostava de arte. Na verdade, gostava de pinturas de piscinas e do mar. Elas o faziam lembrar da casa na praia que tinha comprado em Antígua, sobre a qual contara a Meena, e para a qual esperava ir quando se aposentasse... não no futuro próximo, mas um dia. Saberia quando a hora chegasse. Tinha dinheiro o bastante guardado para viver sem trabalhar e às vezes — em dias como aquele, por exemplo — achava que devia fazer as malas e pegar o próximo avião para o Caribe. Não queria terminar como Abraham, por quem tinha quase certeza que os superiores não estavam se importando de procurar. Vira o olhar nos
olhos de Meena.
Não havia sobrado nada de Abraham para procurarem.
Ainda assim, podiam ao menos agir como se estivessem se importando, em vez de ficar de pé na festa bebendo champanhe como se nada tivesse acontecido.
Ser arrastado de um lado para o outro para conhecer oficiais pedantes da Igreja era ruim, principalmente tendo que fingir que não estava observando o salão a cada momento em busca do perigo em forma do maior impostor de todos, Lucien Antonesco.
Mas agora Meena estava sendo requisitada por um relações públicas da Igreja, para que previsse como o Padre Caliente ia morrer.
Inacreditável.
— Ah, não — protestou ela com delicadeza, como fazia com todo mundo. Alaric percebia que ela estava cansada. Afinal, fora um longo dia. — Ele não quer saber isso.
— Quero sim — insistiu o padre. — Ouvi falar do seu dom. E estou ansioso para saber o que o Senhor tem planejado para mim.
Alaric esperava intensamente que fosse um frigorífico qualquer, no qual o sujeito ficaria trancado e seria confundido com um hambúrguer, sendo servido para uma turma de escoteiros famintos. Embora essa morte fosse boa demais para aquele cara.
— Uma vida longa e saudável — respondeu Meena, para grande decepção de Alaric.
O Padre Caliente sorriu com alegria enquanto todos ao redor o parabenizavam.
— Mal posso esperar para compartilhar as boas notícias com minha nova congregação.
Alaric não conseguiu mais se controlar.
— Falando na sua nova congregação — disse ele —, fez algum exorcismo desde que chegou aqui, padre?
Parecendo confuso, o padre respondeu:
— Me desculpe, não entendi.
Será que realmente estava fingindo não se lembrar do desastre total
naquela favela no Rio cinco anos antes? Ele tinha que estar brincando. Alaric nunca havia visto um adulto correr tão rápido.
— Exorcismo — repetiu Alaric. — A expulsão de espíritos demoníacos de indivíduos que estão possuídos por eles. Fez algum desde que chegou aqui?
—Hum, não. — O padre Henrique olhou com insegurança para o padre Bernard, que por acaso era a única pessoa que tinha ficado por perto, além da irmã Gertrude. — Me desculpe. Eu deveria ter feito? Exorcismos são muito comuns na cidade? Achei que não tivesse havido muitas atividades dessa natureza ultimamente...
O padre Bernard, um homem gentil que Alaric vira matar dois vampiros de uma vez com um candelabro de madeira na batalha da catedral de St. George, pareceu ter pena do padre mais jovem.
— Bastante incomum ultimamente, eu diria. Não sei bem a que Alaric está se referindo.
Padre Henrique olhou com mais intensidade para Alaric.
— Alaric — disse ele. — Não... Alaric Wulf? Nossa, eu me lembro de você! — Ele esticou a mão. — Como você está? Faz muito tempo, velho amigo!
Alaric olhou para ele com raiva. Velho amigo? Se fosse o padre, não assumiria o relacionamento com tanta rapidez. E teria pedido desculpas em vez de apertar a mão. Será que o homem realmente não o tinha reconhecido?
Ou ainda estava tão envergonhado pelo comportamento covarde que tinha fingido não reconhecê-lo (o que era mais provável)?
— Sim — disse Alaric delicadamente. — Alguns anos se passaram, não é?
— Quem diria! — falou o Padre Caliente, assombrado. — Tanto tempo atrás, naquela favela horrível. E agora, aqui estamos nós, nesta festa maravilhosa, com tantas pessoas bonitas, em Nova York. Como a vida é estranha, sim?
Alaric ficou olhando para
— Sim. A vida é estranha. — Estranho que ninguém tivesse dado no padre o chute no traseiro que ele merecia.
— O que você deve ter pensado de mim naquela noite! — Henrique olhou para Meena, para o padre Bernard e para a irmã Gertrude e disse: —
Imaginem o seguinte: eu, um padre muito jovem, com minha primeira congregação. E recebo o chamado que diz que um dos meus paroquianos está possuído, possuído de verdade, por um espírito do mal. Fico apavorado. É claro que ouvi falar dessas coisas, filmes. Não faço ideia de que pode ser real.
— Ah — diz o padre Bernard. — é real, sim. Eu me lembro de um que tive em Brooklyn Heights...
— Deixe-o terminar, padre —— disse Alaric. Estava interessado em ver a desculpa que o padre mais jovem ia dar para seu comportamento.
— Então eu chego na casa, que na verdade era um barraco, e lá está aquela garotinha doce, com carinha de anjo. E ela está flutuando a 30 centímetros acima da cama, em uma espécie de... círculo de luz. Mas tem umas vozes saindo dela... Eu nunca tinha ouvido vozes assim na vida.— O Padre Caliente tremeu. ——Elas diziam cada coisa.
— O que as vozes diziam? — perguntou Meena, com olhos arregaçados.
O padre olhou para ela.
— Ah, você não quer saber. Acredite. Palavrões, provavelmente Alaric sabia que a garota dizia coisas bem piores do que isso, mas guardou a informação para si.
— Pois então — prosseguiu o padre Henrique. — Lá está a família da garota, chorando, implorando por minha ajuda. E havia este homem.
— O padre Henrique indicou Alaric. — Ele me disse para pegar minha água benta e meu crucifixo e começar a rezar, rápido. Rápido! Mas eu estava tão apavorado! Nunca na vida tinha visto uma coisa tão...
O padre Bernard colocou a mão no ombro do padre mais novo.
—Eu sei. O mal em essência. Na primeira vez em que você vê, correndo ou fica paralisado.
Ou luta, pensou Alaric. Ou sou o único que pensou nisso? Ele sabia que a irmã Gertrude tinha duas Berettas escondidas debaixo do hábito e nunca hesitava em usá-las.
Mas ninguém dera a ela uma paróquia no Upper East Side.
— Sim — disse o padre Henrique, lançando um olhar de gratidão para o padre Bernard. — Larguei tudo e... bem, tenho vergonha de dizer, mas saí correndo.
A irmã Gertrude balançou a cabeça.
— Ah, coitadinho — disse ela. — Saiu mesmo correndo? — respondeu o padre. — Venho tentando compensar desde então, lutando com os Lamir na mesma favela...
— Os Lamir — interrompeu-o o padre Bernard, parecendo impressionado. — Ouvi falar que são complicados. Os vampiros sul-americanos não são como o resto da espécie, pelo que sei. São muito agressivos. — confirmou o padre Henrique. — São muito diferentes dos primos europeus. A lenda local diz que são descendentes dos Noctílio leporinus, ou grandes morcegos pescadores, da América do Sul. São famosos por pegar as presas voando perto da superfície de rios e lagos com as garras para baixo, e além do sangue devoram também a carne, depois de capturá-las.
— Horrível—comentou a irmã Gertrude com um tremor. — E acho que você mais do que se redimiu pelo que aconteceu no exorcismo se acabou com algumas dessas criaturas terríveis.
— Algumas — gritou o padre Bernard. — Ele matou cem.
— Bem — disse o Padre Cal lente com modéstia. — Eu tento. Jamais me perdoaria por deixar que este homem lidasse com aquele negócio horrível sozinho. — Ele andou em direção a Alaric para segurar a mão dele. — Obrigado, meu bom amigo. Finalmente posso dizer isso. Obrigado por salvar aquela pobre alma indefesa.
— Eu não a salvei — disse Alaric. Ele não tentou disfarçar a amargura. — Ela precisava demais ajuda do que eu podia dar. Foi por isso que chamei o padre da paróquia. Depois que você saiu correndo, ela morreu.
Houve um breve silêncio. A irmã Gertrude fez o sinal da cruz e disse baixinho:
— Que Deus a abençoe.
Meena, com os olhos escuros cheios de lágrimas, disse:
— Que coisa mais triste.
Alaric olhou para ela, alarmado.
— Não comece a chorar agora — disse ele. Qual era o problema dela? Começava a chorar a toda hora. Ele podia jurar que eia havia chorado no táxi, quando deu o colar a ela. — Aí vem o arcebispo. E vem trazendo Genevieve
Fox.
— Ah, Deus — disse Meena, e ergueu a mão para limpar os olhos, deixando uma linha preta de rímel borrado em direção às têmporas.
Alaric olhou para as manchas sem acreditar.
O arcebispo, que vinha cruzando o salão em direção a eles, por fim parou. A equipe de filmagem que o estava seguindo fez o mesmo.
— Vossa Excelência — disseram os padres Bernard e Henrique, se ajoelhando. A irmã Gertrude fez o mesmo. Alaric ficou onde estava.
O arcebispo não pareceu perceber.
— Ah. — disse ele, sorrindo. — Estou tão feliz que puderam vir. — não fazia a menor ideia de quem eram as pessoas, com a possível exceção do padre Henrique, com quem Alaric o vira tagarelando, e Meena, que já tinha dito antes que ele viveria uma vida longa e saudável. — Obrigado por compartilharem conosco esta noite muito especial.
—Vossa Excelência — disse o padre Henrique, ficando de pé. — Quero apresentar Alaric Wulf, um bom amigo meu.
O arcebispo olhou para Alaric.
— Seu nome me soa familiar — disse ele. Em seguida, pareceu se lembrar do motivo. — Ah, sim.
Mas não ousava dizer mais nada diante das câmeras. Afinal, a Palatina era uma organização secreta. Ou talvez o que o arcebispo tivesse ouvido falar sobre Alaric não fosse particularmente elogioso. A reputação de Alaric por matar demônios era das melhores.
O resto da reputação dele não era tão impecável.
— Que Deus abençoe vocês, meus filhos — disse o arcebispo, e fez o sinal da cruz sobre todos eles.
Assim que se afastou, a irmã Gertrude disse:
— Meena, minha querida. E apontou para os olhos dela.
Meena abriu a bolsa e pegou um espelhinho. Assim que viu seu reflexo, falou uma palavra altamente imprópria de se dizer perto de membros do clérigo. Ao se dar conta do que tinha acabado de dizer, cobriu a boca com a mão.
— Me desculpem — exclamou ela, com expressão de culpa.
— Ah, não tem problema — disse a irmã Gertrude, sorrindo. — Já ouvi coisas piores. Moro no Village, lembre-se disso. Eu estava indo ao toalete. Vamos?
— Vamos — disse Meena, e deixou que a irmã fosse na frente.
Neste momento, o celular de Alaric fez um ruído. Ele o tirou do bolso e ficou atônito — e aliviado — ao ver o nome e número de Holtzman brilharem na tela.
— Por onde você anda? — perguntou ele depois de levar o telefone ao ouvido. — Todo mundo pensou que você estivesse morto.
Tudo que ouviu na outra extremidade da linha foi estática.
— Holtzman? — perguntou ele, e olhou para a frente. O resto dos convidados da festa parecia estar apreciando os drinques e petiscos que conseguiram pegar. Não viu um único membro da Guarda Palatina no salão... que, ao que parecia, tinha péssima cobertura de celular. Ele andou em direção à porta mais próxima. — Holtzman? Você está aí?
Ao abrir a porta de saída, ouviu mais ruído de estática, depois a voz de seu chefe.
— Ah, graças a Deus alguém atendeu. Não consigo ligar pra ninguém no quartel-general. Onde está todo mundo? Mas não importa, você atendeu. Nós... desastre...
— Holtzman. — Alaric estava no corredor do lado de fora da exposição, com o telefone pressionado contra o ouvido. Entre os ruídos de estática, a ligação ruim e o tom frenético da voz do chefe, Alaric mal conseguia entender o que ele dizia. — Onde você está?
Mais estática. E depois:
— ... Jersey. Você estava certo. Estava certo sobre tudo. Encontramos os corpos. E é pior do que você pode imagin... — Mais estática.
Alaric, por mais empolgado que estivesse por seu chefe lhe dizer que ele tinha razão sobre alguma coisa, estava mesmo preocupado com o bem-estar dele e do resto da equipe.
— Abraham, está me ouvindo? Em que parte de Nova Jersey você está? — perguntou Alaric desesperadamente. — Temos pessoas lá procurando por você. Por algum motivo, não conseguimos rastrear sua localização pelo GPS.
Abraham? Você está...?
— Ah, não — disse Holtzman, falando com clareza de repente. — É claro que não conseguem. É por causa do...
A estática ficou tão intensa que pareceu um assobio que quase furou o tímpano de Alaric.
E a linha ficou muda.
— Abraham — gritou Alaric ao telefone. — Abraham?
Mas não adiantava. Ele não estava mais lá.
Alaric rapidamente ligou para o quartel-general. Incrivelmente, bora tenha deixado tocar dez vezes, ninguém atendeu.
Inacreditável. Ele sabia que todo mundo estava na rua, procurando por seu chefe, ou na festa. Mas pelo menos uma pessoa deve ter ficado tomando conta dos computadores. O que estava acontecendo com seu local de trabalho?
Ele desligou e ligou para outro número, desta vez o departamento de TI no escritório principal de Roma. Havia funcionários 24 horas por dia, então, embora estivesse amanhecendo lá, sabia que alguém atenderia.
— O que você quer, Wulf? — perguntou uma voz de mulher com mau humor, em italiano.
— Onde você está?
— A localização do GPS do celular de Abraham Holtzman nos Estados Unidos — disse Alaric.
— Sumiu. — Ele reconheceu a voz como sendo de Johanna, uma brilhante técnica em computação que o tinha ajudado em casos anteriores, algumas vezes contra a vontade dos superiores. Mas ela raramente deixava o escritório, o que a deixava mal-humorada às vezes. — O satélite não consegue encontrar. E você sabe que todos os celulares de vocês são equipados com rastreadores GPS em tempo real, moderníssimos e indestrutíveis, com sensores de movimento que fazem atualização da localização a cada dez segundos e que têm precisão de até 20 centímetros. Então, se o satélite não consegue encontrar Abraham, isso só pode significar uma coisa. — Em seguida, parecendo lembrar que Abraham não era apenas chefe de Alaric, mas também amigo, acrescentou: — Lamento, Wulf.
— O satélite está errado — disse Alaric, tentando manter a voz calma. Não fazia sentido descontar suas frustrações em Johanna, que não tinha culpa. — Holtzman me ligou do celular dele há menos de um minuto. A ligação estava péssima, mas ele disse que ainda está em Nova Jersey...
— O quê? — Johanna pareceu muito mais desperta. E também alarmada. E zangada. — Mas não é possível. Os dados que estou recebendo do satélite me dizem que não há sinal algum de...
— Não ligo para o que os dados que você está recebendo do satélite dizem — interrompeu Alaric. — Estou dizendo que acabei de receber uma ligação de Abraham. Então descubra de onde veio, ache a localização de Holtzman e do resto da equipe e depois notifique o grupo de busca em Nova Jersey, para que os tire de lá. Entendeu?
Ele podia realmente ouvir Johanna digitando.
— Entendi. Pode levar alguns minutos, mas...
— Leve o tempo que for. E não deixe de me ligar assim que tiver qualquer informação.
— É claro — disse Johanna. — Alaric?
—O quê?
— O que está acontecendo aí? — sussurrou ela. — É... você sabe. Ele? O príncipe das trevas?
— Não tenho certeza. Mas assim que descobrir, aviso. Alaric desligou.
O que Holtzman quis dizer quando falou que tinham encontrado os corpos? E o que era pior do que ele poderia imaginar?
Alaric podia imaginar muita coisa.
O que não conseguia imaginar era que a organização para a qual trabalhava tivesse prioridades tão deturpadas que mandaria todos os funcionários mais habilidosos para uma festa enquanto outros ainda estavam vivos — e aparentemente em perigo — em campo...
E não havia ninguém cuidando do atendimento no quartel-general enquanto a busca por eles estava acontecendo.
Furioso, ele voltou para a galeria de arte e procurou por algum sinal de alguém, qualquer pessoa, que tivesse uma posição de poder dentro da Palatina.
Mas o que viu foi Genevieve Fox vindo em sua direção, guiada pelo padre
Henrique. Um fotógrafo vinha logo atrás.
— Venha — dizia o padre Henrique. — Srta. Genevieve, quero que conheça meu velho amigo Alaric Wulf. Ele me conhece desde o início da minha carreira, no Rio. E agora, mora em Nova York.
Meu Deus, pensou Alaric. Agora não. Mas não podia ver como escapar sem parecer rude. Além do mais, não havia mais ninguém que ele conhecesse no salão, fora o arcebispo.
— Olá, Alaric Wulf — ronronou ela, esticando bem-feitas. As pulseiras de ouro que cobriam seus Genevieve tinha cheiro de perfume caro. — Como é que não conhecemos ainda?
— Não sei — disse Alaric. Os dedos dela pareciam pequenos galhos. Só que tinham vida.
— E o que você faz? — perguntou Genevieve.
— Segurança — disse Alaric. Ele olhou por cima do ombro exposto e ossudo dela e viu a irmã Gertrude sair do banheiro feminino. Ela olhou nos olhos dele, piscou e acenou, indicando que Meena ainda estava lá dentro e que estava bem. Aquilo era bom. Daria alguns minutos para que ela se recompusesse. Era improvável que fosse atacada por Lucien Antonesco, se ele estivesse por perto, dentro do banheiro feminino.
E a irmã Gertrude estava armada, de qualquer modo.
— Segurança — ronronou Genevieve. — Sabe, um pouco de segurança poderia me ser útil.
— Sim — disse Alaric, pousando o olhar nela novamente, avaliando-a. — Tenho certeza de que sim.
Genevieve inclinou a cabeça para trás e riu.
— Você é ousado.
— Não. Não sou. Não hoje. — Ousado era como menos se sentia naquele momento. Zangado, talvez. Frustrado, com certeza. Talvez até vingativo.
Mas não ousado.
Genevieve parou de rir.
— Nossa, mas que estraga-prazeres — disse ela.
— Pensei que você fosse uma repórter séria — falou ele. Sua mente tinha
começado a trabalhar furiosamente. Televisão. Jornalista. Pessoas desaparecidas. — Não uma garota festeira.
— Acho que você nunca vai saber — disse Genevieve, dando uma piscadela. — Vai? — Ela olhou para o fotógrafo. — Vamos, Manny. Vamos acabar com isso.
Em seguida, ela entrou entre Alaric e o padre Henrique e fez pose de modelo, colocando um sorriso largo no rosto e encolhendo a barriga. Alaric não entendia por que uma mulher tão magra acharia necessário deixar a barriga achatada ainda mais achatada.
Mas o trabalho dela era aparecer bonita na televisão.
Onde transmitia notícias.
— Digam xis, meninos — disse ela. — Esta foto vai para o site.
Flashes começaram a piscar. Alaric foi cegado, mas Genevieve e o padre Henrique não pareciam afetados, talvez porque posavam com frequência para fotos.
— Por favor, me mande por e-mail — disse o padre Henrique. — Alaric Wulf e eu somos velhos amigos. Eu gostaria muito de ter uma foto para me lembrar desta noite.
— Pode deixar — garantiu-lhe Genevieve, soltando os dois. — Manny, pegue o contato do padre. — Ela olhou para Alaric. — E você? Gostaria de se lembrar desta noite?
— Acho que não — disse ele.
Ela sorriu e colocou seu cartão de visitas no bolso da frente do smoking dele.
— Posso fazer alguma coisa para você mudar de ideia?
Ele pensou no telefonema de Holtzman. Nunca ouvira tanto pânico na voz do chefe antes, e eles já tinham passado por vários apertos no passado.
Você estava certo, disse Holtzman. Estava certo sobre tudo. E é pior do que pode imaginar.
— Na verdade — disse Alaric para Genevieve —, talvez haja uma coisa que você possa fazer.
— Bem — ela sorriu —, parece que nós dois talvez encontremos alguma coisa para nos fazer lembrar desta noite, afinal.

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