19
Meena encostou a cabeça na lateral da cabine do banheiro. O metal estava frio contra sua pele. Não sentia mais vontade de chorar.
Mas não queria sair da cabine. Se saísse, teria que voltar para aquela multidão, e realmente não queria fazer isso. Ainda não conseguia entender por que fora convidada para esse evento, exceto por ser a esquisita de estimação da Palatina. Por que estaria na lista de convidados do que ouviu Genevieve Fox declarar ser “o evento social mais cheio de estrelas do ano”? Já tinha apertado a mão de um dos astros de rock favoritos de Jonathan, de um ex-prefeito de Nova York e, é claro, do atleta assassino de esposa.
Não ajudara o fato de ter começado a chorar na frente de todos. Não que tivessem reparado.
Ainda assim, não estava ansiosa para voltar para lá. Não conseguiria mais fazer previsões. Não que estivesse mesmo fazendo. Tinha mentido para metade das pessoas que perguntaram.
Alguém bateu na porta da cabine.
— Meena? ——Era a irmã Gertrude. — Você está bem, querida?
— Ah. Estou ótima.
Devia ser errado mentir para uma freira. Mas era só uma mentirinha.
—Ah, que bom——disse a irmã Gertrude. — Vou esperar lá fora, então.
— Tudo bem. Saio em um minuto.
— Não precisa ter pressa.
Meena ouviu os sapatos da freira estalando no chão de mármore. Alguns segundos depois, não havia som algum no banheiro. Estava sozinha.
Ela suspirou de alívio e ergueu a mão para tocar no acessório recém-adquirido. Ficou pendurado em seu pescoço com o peso de uma bigorna a
noite toda.
Vamos manter nossa relação estritamente no plano profissional, disse Alaric no táxi.
Ela passou o dedo no contorno suave do crucifixo, perguntando se por que ele tinha dado o presente se a odiava tanto.
Devia ser porque não queria se preocupar com a papelada que seria obrigado a preencher se ela morresse enquanto estava sob a proteção dele.
Ela se deu conta de que era burra por não ter pensado antes em usar um crucifixo. Embora, na verdade, parecesse ser um tanto simplista em se tratando de técnicas de autodefesa.
Mas ao se lembrar da história que o padre Henrique estava contando sobre como conhecera Alaric, ela ficou em dúvida. Alaric parecia acreditar que, se o padre não houvesse fugido como fugiu, os dois poderiam ter conseguido ajudar a pobre garotinha.
Talvez houvesse poder nos símbolos antigos e nas pessoas que os portavam.
O colar obviamente não faria mal.
Houve uma batidinha na porta da cabine.
— Só um minuto. Já vou sair...
Não podia ficar em uma cabine de banheiro para sempre. Teria que encarar a realidade em algum momento.
Ficou de pé e abriu a porta.
E se viu de frente para Mary Lou Antonesco.
20
— Meena como você está, querida?
Mary Lou esticou os braços para dar-lhe um abraço amigo... e fez uma pausa, olhando para o crucifixo em seu pescoço.
— Ah — disse ela, o sorriso murchando um pouco. — Que... lindo.
— Mary Lou. — Meena olhou rapidamente de um lado para o outro o banheiro. Não parecia haver mais ninguém nas cabines.
Mas isso não significava nada. A irmã Gertrude poderia voltar a qualquer momento.
—Está louca? — sussurrou Meena. —Este lugar está repleto de guardas palatinos nível Alfa. Se algum deles reconhecer você, vai enfiar uma estaca no seu peito.
— Ah, querida. Está falando sobre aquela freira que estava aqui com você um minuto atrás? Não se preocupe. Dei um empurrãozinho mental para que ela fosse para a cozinha. Ela vai ficar lá procurando por mais salmão durante horas.
Meena olhou para a loura alta e elegante. Ela estava usando um vestido de festa marrom-escuro, feito de um material transparente, preso a uma gargantilha de joias e que ia até seus tornozelos, uma camada de batom vermelho intenso e um par de Louboutins altíssimos. Estava com a exata aparência que Meena sempre imaginou que a famosa espiã Mata Hari teria.
— Mary Lou — disse Meena, exasperada, mas um pouco emocionada. — O que você está fazendo aqui?
— Tenho que te dar um recado—respondeu Mary Lou, e sacudiu a mão coberta de anéis. —É de Lucien, caso não tenha adivinhado. Você sabe, ele é louco por você.
— Acho que preciso me sentar.
— Ah — Mary Lou olhou ao redor. Bem, olha só, tem um sofá ali. É bom saber que todo o dinheiro que Emil e eu doamos para este lugar ao longo dos anos está sendo usado em uma coisa boa. Quantos quadros de santos em sofrimento precisam ter em um museu, afinal? Venha, Meena afundou no sofá. O estofamento era de vinil e fora colocado ali para mães amamentarem seus bebês, mas ela não se importou.
— Onde está Lucien? — perguntou a Mary Lou. — Não está aqui. está? No museu? Por favor, diga que não.
— É claro que está. — Mary Lou estava de pé, admirando o próprio reflexo no espelho. Os dias em que vampiros não podiam se ver em espelhos ou em filmes já eram. Agora que o mundo tinha virado digital, os vampiros podiam ser capturados em filmes, assim como podiam se admirar em espelhos que não tivessem revestimento de prata, como todo mundo. — Ele falou que encontraria você no seu lugar favorito. Não tenho ideia do que isso significa e não perguntei. Soa curiosa, mas nem tanto. Supus que fosse algum segredinho entre vocês dois.
Meena sabia exatamente onde Lucien queria dizer.
Não tinha ido ver o quadro de Santa Joana desde a última vez em que fora lá naquela noite em que Lucien dissera ter privilégios especiais no Met e os dois entraram no museu depois do horário de visitação.
É claro que os únicos privilégios dele eram do tipo que todos os vampiros tinham em todo lugar que iam... do tipo no qual abusavam de seus poderes de telepatia e habilidade de se transformarem em névoa e, no caso de Lucien, voar.
Visitar o quadro de Santa Joana era doloroso demais para Meena agora, mesmo ele ainda sendo seu favorito.
— Mary Lou. Você tem que dizer para ele ir embora. O Vaticano emitiu um alerta de segurança mundial e Alaric acha que é por causa dele, como se soubessem de alguma forma que ele estava vindo. Há guardas por toda parte, só esperando que ele apareça. Ele vai ser capturado. — Ela se esforçou para continuar. — Ele vai ser morto.
Mary Lou parou de maquiar os olhos e olhou para o reflexo de Meena no
espelho.
— Querida — disse ela —, ele é o príncipe. Ninguém vai pegá-lo, muito menos matá-lo. Mas eu tiraria essa coisa do pescoço antes de ir encontrar com ele. Não que ele tenha qualquer coisa contra quem acredita. É só que, no que diz respeito a acessórios, não está lhe caindo muito bem.
Meena ergueu a mão e tocou no colar que Alaric tinha lhe dado. O metal estava quente pelo contato com sua pele.
—Mary Lou. — Seus olhos estavam cheios de lágrimas novamente. —Estou falando sério. Isso é loucura. E Alaric está aqui tornando conta de mim, aliás. Como posso sair desta festa e ir encontrar Lucien em outro andar do museu sem Alaric perceber que sumi?
— Ah, querida. Você acha que eu não criaria uma distração? Me dê um pouco de crédito. Posso ser bem criativa para forçar uma distração quando quero.
— Lucien pediu que você fizesse isso? — Meena balançou a cabeça. — Isso é... Mary Lou, você poderia ser morta. Como Lucien pôde ser tão egoísta?
— Egoísta?— Mary Lou pareceu surpresa. — Não acho que ele esteja sendo egoísta. Já falei, ele é louco por você. Quer ver você, e é aqui que você está. Se me pedir para ajudá-lo é egoísmo, bem, então talvez seja, mas se você pensar bem, tudo isso é culpa minha, como falei para ele mais cedo. Quero dizer, fui eu que apresentei vocês...
— Mas acho que é mais do que isso — interrompeu Meena. — Mais do que ele ser louco por mim. Mary Lou, estou preocupada. Acho que tem alguma coisa errada com ele. Tentei fazer com que falasse sobre isso ontem à noite, mas ele não quis.
— Ah — Mary Lou passava gloss nos lábios e parou. — Aquilo.
Meena olhou fixamente para ela.
— Sabe o que quero dizer? Sabe do que estou falando?
— Ah, sei exatamente do que você está falando. Mas boa sorte em tentar fazer com que ele se abra sobre o que é. Fiquei atrás deles o dia todo para que falasse sobre isso, atrás dele e de Emil. Por que o príncipe das trevas está morando em uma caverna? Era tudo que eu queria saber. Mas algum deles quis me contar? De jeito nenhum.
— Uma caverna? — Meena estava mais do que apenas perplexa. Estava chocada. — Lucien está morando em uma caverna?
— É isso mesmo. Mas alguém me conta por quê? Deus, não. Os homens nunca querem falar, não é? A não ser que seja sobre eles. Aí eles falam, falam, falam o dia inteiro. Eles sabem ser tão infantis, não é? Acham que tudo gira em torno deles. Sabe o que Lucien acha que é por causa dele?
Meena se levantou e foi até a pia ficar ao lado dela.
—O quê?
— Esta exposição. Acredita? A exposição toda. Ele acha que o Vaticano a montou para atraí-lo até aqui e capturá-lo.
Meena ficou olhando para o reflexo de Mary Lou no espelho.
— De que você está falando?
— Ah, tem um livro antigo que Emil diz que era da mãe de Lucien. E é claro que ele precisa recuperá-lo. Não faço ideia do motivo. Fui dar uma olhada nele. Está sobre um pedestal, com um vidro ao redor. Você deve ter passado por ele. Eu passei direto. É uma coisinha mínima. Falei para Emil, será que Lucien não podia comprar uma bela Bíblia ou algo do tipo, se quer tanto ter uma, embora eu não consiga imaginar o motivo, em vez de ter todo esse trabalho? Mas não, tem que ser esse livro, porque era da mãe dele, ao que parece. Bem, você sabe como os homens são quando se trata da mãe deles. Nem quero começar a falar da de Emil. Que bom que ela morreu antes mesmo de eu nascer. E é bem pior com a mãe de Lucien, sabe, porque ela...
— Se matou — murmurou Meena.
De repente, sentiu como se alguém tivesse derramado uma bebida muito gelada em suas costas, algo que realmente acontecia com certa frequência quando era adolescente e era uma convidada pouco popular nas festas graças aos terríveis avisos que dava sobre os perigos de beber e dirigir... avisos que geralmente se tornavam realidade.
— Ah, eu sei, eu ouvi falar — disse Mary Lou. — Não é horrível? Pulou da janela do palácio quando ouviu que os turcos estavam invadindo. Eu também pularia da janela, porque eles faziam umas coisas não muito legais com as prisioneiras naqueles dias. Emil me contou algumas histórias... acredite, você não quer saber. E Lucien nunca superou a morte da mãe. E
nem do pai dele, pelo que sei. Emil disse que a mãe de Lucien era uma princesa e uma dama muito especial. As pessoas até diziam que ela era...
—Um anjo — concluiu Meena, sentando-se de novo.
Era sua culpa. Aquilo tudo.
Porque, se fosse verdade — e tinha que ser —, quem tinha feito o pedido do livro à Biblioteca Apostólica Vaticana, chamando a atenção deles para sua presença no catálogo?
Ela mesma.
Ah, Deus.
E agora Lucien estava ali para pegar de volta o livro da mãe dele.
Mas Alaric também estava.. assim como todos os guardas nível Alfa da Palatina.
— Isso mesmo! — Mary Lou pareceu satisfeita de Meena saber tanto sobre o assunto. — Um anjo! Embora não possa ser literalmente verdade, é claro. Porque, primeiro de tudo, anjos não existem. E, em segundo lugar, como um anjo poderia ser casado com Drácula? Muito menos dar luz o filho dele. Ainda assim, dizem que ela foi muito gentil e doce. Foi por isso que o pai de Lucien, Vlad Tepes, perdeu a cabeça quando soube que ela estava morta e se tornou “Vladimir, o Empalador”... — Mary Loa fez aspas no ar com os dedos. — E chegou um momento que isso também não era o bastante, então ele vendeu a alma ao demônio para poder viver para sempre e se tornar, ta-rá, Drácula...
Meena deixou a cabeça pender entre as mãos. Mas a voz de Mary Lou prosseguiu.
— ... E depois, ele passou o título para Lucien... embora, perguntar, Lucien nunca tenha se comprometido muito com a posição. Acho que ele preferia ter ficado com aquele livro de horas. Era a única coisa que tinha da mãe, mas acho que caiu em mãos inimigas depois que o castelo Poenari foi invadido pelos turcos. Lucien achou que tivesse sido perdido para sempre. Mas como saber? Acabou que o Vaticano estava com ele todos esses anos. E agora ele está aqui em Nova York, e Lucien está doido pra pegá-lo de volta, além de você... Meena? Meena! Cadê você?
21
Meena estava afundada demais em sua infelicidade para absorver a exposição. Para ela, tudo pareceu um borrão.
Agora, ela foi direto para o pedestal que Mary Lou tinha descrito.
Não queria acreditar que era o livro que vira nos sonhos... sobre o qual havia contado a Lucien e a todo mundo que quisesse ouvir.
Não podia ser o que ela requisitou à Biblioteca Apostólica Vaticana, achando que a descrição (Livro de horas, origem romena, da metade do século XV) parecia certa, embora as poucas ilustrações on-line se encaixassem apenas vagamente nas imagens que vira em sonho.
Porque, se fosse, isso significava..
Não queria pensar no que significava. Tinha que ver por si própria.
Precisava ter certeza, antes de fazer ou dizer qualquer coisa precipitada.
O manuscrito — bem pequeno, como Mary Lou tinha dito — estava de pé dentro de um cubo de vidro. Uma página lindamente ilustrada havia sido separada das outras e estava iluminada por trás, para que brilhasse com uma luz quase de outro mundo.
Meena sabia pela pesquisa que fizera que o motivo disso era que ouro de verdade tinha sido derretido e colocado em camadas finíssimas sobre o velino — era disso que as páginas do manuscrito eram feitas — ao redor da ilustração lindamente desenhada, que era de uma mulher de cabelo escuro usando um vestido longo azul royal com um carneiro nos braços.
Meena olhou para a mulher dentro da moldura de ouro reluzente, que também era decorada com desenhos de borboletas e flores, coloridas de vermelho, amarelo, verde, azul e branco. De acordo com a pesquisa, as pinturas tinham sido feitas misturando chumbo, cinábrio, e lápis-lazúli para
dar os tons duradouros e vibrantes.
Não era a imagem que tinha visto no sonho, para a qual a mulher e o garotinho estavam olhando. Mas havia alguma coisa nela que...
— Bonito,
Meena deu um salto de uns 30 centímetros. Em seguida, olhou por cima do cubo de vidro e viu que era apenas o padre Henrique. Ele também estava admirando o manuscrito.
— Hum, é — disse ela.
Olhou ao redor. A festa ainda estava animada, embora estivesse ficando tarde. Pôde ver Alaric atravessar o salão, conversando com a repórter do canal de notícias 24 horas de Nova York, Genevieve Fox. Parecia que não tinha reparado ainda que Meena havia saído do banheiro feminino.
— Não sei tanto quanto deveria sobre esses livros — dizia modestamente o padre Henrique —, mas li uma vez que era comum serem encomendados, como dizem que esse foi, pelo prometido da noiva, que o artista colocava em alguma parte do trabalho uma foto dela. Como dizem que esse pertenceu a uma bela princesa, eu pensaria que é a mulher da figura.
Ele apontou para a imagem iluminada da garota segurando o carneiro.
— Ela não tem halo, está vendo? — disse o padre Henrique. — Então não é nem a Virgem Maria, nem uma santa. E é muito atraente e está luxuosamente vestida.
Meena olhou de novo para a mulher da ilustração. Será que era a mãe de Lucien?
O retrato que vira uma vez do pai de Lucien, não parecia em nada com o filho.
Porém quanto mais perto chegava para examinar o retrato da jovem na ilustração iluminada, mais pensava ver uma semelhança com a mulher do seu sonho... e com Lucien. Não só no cabelo preto e sedoso, nas feições morenas e no corpo magro.
Havia uma delicadeza nos olhos que ela reconhecia e um certo humor e gentileza na pequena boca que não confundiria em lugar algum.
Não achava que estivesse vendo porque queria. Não queria ver semelhança alguma. Porque, se aquele fosse o livro do sonho, o mesmo que
havia requisitado, o fato de o Vaticano o ter colocado em exibição em vez de enviado para ela, como ela pediu, só podia significar...
Bem, exatamente o que Lucien — e até Alaric — sugeriram.
Que esta exposição tinha sido montada com um único propósito: atrair o príncipe das trevas de seu esconderijo, para que a Palatina pudesse capturá-lo.
Tinha que contar isso a Alaric. Era exatamente o que ele vinha desconfiando desde o começo.
Mas não podia. Porque não podia botar Lucien em uma situação ainda mais perigosa.
Além do mais, Alaric parecia completamente envolvido em sua conversa com Genevieve Fox. Na verdade, Genevieve estava completamente envolvida em sua conversa com ele. Tinha até tirado uma coisa da bolsa e estava...
Meu Deus. Era um BlackBerry.
Genevieve Fox estava gravando o numero de telefone de Alaric Wulf no BlackBerry.
Wulf. Fox. E eles realmente formavam um casal atraente. Eram os dois tão altos e louros.
Meena se perguntou por que esse pensamento fez suas entranhas darem um salto convulsivo.
Mas não tinha tempo para pensar nisso. Precisava avisar Lucien, e sem Alaric reparar que ela havia saído do salão. Na verdade, podia fazer bom uso da conversa dele com Genevieve Fox.
Mas primeiro tinha que se livrar do padre Henrique, que continuava falando.
— Esses livrinhos eram extremamente populares no século XV — explicou ele — e seu conteúdo era geralmente uniforme: fragmentos do Evangelho, as horas da cruz, os sete salmos penitenciais, um calendário de festas da Igreja e várias orações. Este, no entanto, é um pouco incomum. Tem também os signos astrológicos e as diferentes fases da lua.
— Isso é muito interessante — murmurou ela.
Meena não podia negar. Quanto mais olhava para o livro, mais acreditava que a mulher da imagem era a mulher do sonho... a mulher que tinha se jogado no que agora era conhecido como rio da Princesa em vez de ser
tomada como prisioneira pelos inimigos do marido. E que assim havia enlouquecido Vlad Tepes de tristeza e o transformado em Vladimir, o Empalador.
Essa era a mulher que tinha criado Drácula e dado à luz seu filho, Lucien.
E porque Meena atraíra tanta atenção para o livro de horas dela, estava prestes a se tornar, ainda que inadvertidamente, a mulher que contribuiria com a captura e morte desse filho.
Tinha que ir. Tinha que avisar Lucien para sair do museu o mais rápido possível.
— Me perdoe por falar isso — disse o padre Henrique. Ele a assustou ao esticar a mão e tocar no seu braço. O sorriso dele tinha desaparecido. Estava com uma expressão de preocupação gentil. — Mas você não parece bem. Deseja que eu traga alguma coisa? Uma taça de vinho, talvez? Ou um pouco de água?
— Eu... eu estou bem — disse Meena. Era sua imaginação ou o inglês dele parecia ter melhorado desde a última vez em que conversaram? — Acabei de lembrar que tenho que dar um rápido telefonema. Se me der licença...
— Espero que não se importe se eu comentar... Mas você parece uma pessoa infeliz. E não a culpo. Acho que eu também não conseguiria ser feliz sabendo como todo mundo ao meu redor vai morrer.
— Tento impedir que morram — respondeu Meena automaticamente. Tinha que sair do salão antes que Alaric terminasse sua conversa com Genevieve Fox. — Nenhum futuro é certo. Depende das escolhas que cada um faz. Gosto de pensar que, com minha ajuda, talvez possam fazer escolhas melhores. Tento consertar as coisas. Agora, se lua. me der lic...
O padre Henrique assentiu solenemente.
— Era para isso que existiam livros como este. — Ele indicou o livro de horas. — Para ajudar suas donas a fazerem melhores escolhas e ficarem no caminho certo. Quando este exemplar foi feito, havia poucos livros. A maior parte das pessoas passava a vida toda sem aprender a ler e sem ver ou ter um livro. Havia tão poucas pessoas esclarecidas, como você e eu, para ajudar a guiar os desinformados e mostrar a eles o verdadeiro caminho. Era tão fácil, mesmo naquela época, deslizar para as trevas. Agora é até mais fácil e... — Ele
olhou para o outro lado do salão, para Genevieve Fox, e suspirou. — As pessoas olham para mulheres como ela em busca de uma luz. Bem, O que podemos fazer, além do que você diz, continuar tentando?
Meena ficou olhando fixamente para ele, O que aquele padre sabia sobre deslizar para as trevas? Ele tinha fugido das trevas na noite do exorcismo com Alaric. Ele mesmo havia admitido. Talvez estivesse se esforçando para lutar agora.
Mas depreciar Genevieve, que fizera uma entrevista tão legal com ele, não parecia o melhor jeito de fazer isso.
— Pronta para ir? — perguntou urna voz grave.
Meena se virou, assustada, e viu Alaric de pé ao seu lado. De onde ele tinha vindo? Na última vez em que checara, ele estava do outro lado do salão... e parecendo que ia ficar lá por um tempo.
— Hã... — Meena não conseguia acreditar. Como ia escapar agora? — Ainda não estou pronta...
Ela parou. Mary Lou estava andando na direção deles, vinda do outro lado do salão.
— O quê? — perguntou Alaric, impaciente. Ele parecia irritado, mas se era com eia ou por ver que o padre Henrique estava ali, não importava. Mary Lou vinha direto na direção deles, com um grande sorriso nos lábios pintados de vermelho rubi. — Se precisa voltar ao banheiro antes de ir embora, é só dizer. Eu espero. Acha que não estou acostumado? Você passa metade da sua vida no banheiro.
— Eu... — Os olhos de Meena se arregalaram quando Mary Lou esticou as mãos, pegou Alaric pelos ombros e o virou.
— Alaric — disse Mary Lou alegremente. — Querido, aqui está você. Senti saudades. Faz muito tempo.
E deu-lhe um beijo na boca.
22
Meena há muito suspeitava que Alaric tinha uma queda por Mary Lou Antonesco.
Mas nunca soube o verdadeiro motivo de achar isso até ver o modo como Mary Lou beijava. Aquela mulher era um aspirador de pó Dyson. Dali a cem anos, Meena duvidava que Mary Lou teria perdido sua capacidade de sucção.
Assim que Mary Lou soltou Alaric, o alerta pareceu soar.
Vampiro!
Meena não tinha certeza de quem tinha falado primeiro. Definitivamente, não foi Alaric. Ele parecia perplexo, mas de uma maneira satisfeita.
Na verdade, quando Mary Lou afastou o rosto do dele, Alaric — que era famoso entre os colegas por ter ordenado que um campo cheio de adolescentes que estavam curtindo um festival a céu aberto com suas bandas de horrorcore favoritas fosse molhado com água benta por um avião, como Carolina contou uma vez para Meena, e que, por pura sorte, os membros da banda eram vampiros, enquanto os adolescentes apenas ficaram encharcados — murmurou:
— Ah, oi. Como você está?
Alaric foi o único no salão, além de Meena, Genevieve Fox e o atleta assassino, que não puxou uma arma no momento em que o grito soou.
Vampiro!
Nessa hora, Mary Lou executou um salto mortal para trás e derrubou o pedestal contendo o livro de horas da mãe de Lucien. Ele caiu no tapete sem sofrer qualquer dano aparente. Mary Lou o pegou e o enfiou cuidadosamente em sua bolsinha de mão.
Em seguida, com uma piscadela para Alaric, ela saiu correndo na direção de onde vinham os garçons com as bandejas de salmão.
A maior parte dos convidados da festa e todos os seguranças do museu saíram atrás dela, inclusive o padre Henrique e Alaric, que gritou para Meena, antes de desaparecer:
— Não se mova!
Então acabou sendo bem fácil para Meena sair do salão pela porta principal sem ser vista e andar pelo corredor do museu até encontrar um elevador. Apertou o botão e entrou quando as portas se abriram.
Foi até o andar em que Mary Lou disse que Lucien estaria esperando.
Não sabia o que ia dizer para ele quando o visse, além deque ele precisava ir embora. Para sempre, desta vez. Independentemente do quanto ele a beijasse, não ia mudar de ideia. Ele precisava seguir seu caminho e ela precisava seguir o dela, e os dois precisavam ficar afastados para sempre, recomeçar e fazer escolhas diferentes... como o padre Henrique tinha dito que o livro de horas oferecia a seus leitores.
Talvez se fechasse os olhos e rezasse com intensidade o bastante, quando as portas do elevador se abrissem ela magicamente teria a força para fazer isso acontecer. Por que não? Por muito tempo, não soube que existiam vampiros e demônios nesse mundo. Por que magia não podia existir?
Mas quando as portas do elevador abriram, lá estava a galeria da ala do século XIX, como sempre. Lá estava o quadro de Santa Joana que ela conhecia tão bem, olhando alegremente ao longe, em suas roupas de camponesa, enquanto santos sussurravam com urgência em seu ouvido sobre seu destino importante.
E lá estava Lucien Antonesco, na frente do quadro, esperando por ela.
E uma onda de desejo por ele tomou conta de seu corpo, com tanta intensidade que quase a derrubou.
— Meena — disse ele. A voz não estava muito firme. Seus olhos, tão escuros, tão luminosos, eram exatamente iguais aos da mulher que vira no manuscrito da mãe dele, lá embaixo. — Eu sabia que você viria.
Ele estava usando um suéter cinza-chumbo de algum material leve, que grudava em cada curva do peito musculoso, e as mangas estavam casualmente
puxadas de forma que ela podia ver a pele macia de seus antebraços.
E ele estava olhando para ela com aqueles olhos escuros, cheios de tanto amor. Amor por ela.
Ela fechou os olhos. Não.
Não existia magia. E isso não era um sonho. Era real. Não havia como voltar o relógio ou desfazer o dano que a relação deles havia causado a tantas pessoas.
Só podia fazer o que falou ao padre Henrique que sempre fazia: a escolha certa.
Mas não podia fazer isso se Lucien tocasse nela. Sabia disso. Se ele tocasse nela, ela desmoronaria, como sempre acontecia.
Ela apertou o botão de descer, se encolheu contra a parede do fundo do elevador — era imperativo que colocasse o máximo de distância possível entre si e Lucien Antonesco — e disse, enquanto as portas se fechavam:
— Me desculpe, Lucien. Foi um erro. É uma armadilha. Estão esperando por você. Tenho que ir.
Mas ele tinha outras ideias. Ele se moveu tão rápido que se tornou um borrão e enfiou os braços pela fresta entre as portas que se fechavam. Um segundo depois, as mãos enormes a seguraram pelos braços e a arrastaram do elevador para a galeria...
... e contra ele, até que colidiu com a parede de músculos de pedra que era seu peito.
Agora era ela quem estava na armadilha. Ouviu as portas do elevador fecharem atrás de si com uma campainha.
O som podia muito bem sinalizar o fim do que restava do mundo racional.
Ela levantou o rosto para olhar com angústia para Lucien e viu que ele estava olhando para baixo com pura agonia no rosto, os olhos escuros tempestuosos de emoção e a boca, tão sensível quanto ela lembrava, com uma expressão de sofrimento.
— Meena — disse ele, falando com dificuldade. — O que acha que está fazendo?
— Lucien — começou ela, sem fôlego, como se tivesse acabado de
correr. — Você tem que me ouvir. Não é seguro...
Mas ele não deixou que terminasse. Seus lábios começaram a se aproximar para cobrir os dela, e ela soube, com uma sensação de inevitabilidade que era terrivelmente decepcionante tanto quanto excitante, que assim que seus lábios se encontrassem, não conseguiria resistir a ele. Não queria resistir a ele. Estava impotente em seu abraço. Fechou os olhos e recostou a cabeça contra seu braço forte.
Só que... conforme os segundos passaram, os lábios dele não tocaram os dela. Em vez disso...
Nada.
Quando abriu os olhos para ver o que estava acontecendo, viu que ele olhava para ela com curiosidade. Não para os lábios nem para os olhos, mas para o pescoço.
Ela também viu, ou pensou ter visto, um ponto vermelho no meio de cada um dos olhos castanhos.
— O que é isso? — perguntou ele, passando um dedo pelo cordão preto onde estava pendurado o crucifixo de prata que Alaric havia lhe dado.
Meena foi trazida de repente para a realidade tão rapidamente quanto se alguém tivesse lhe dado um tapa. O que estava fazendo?
— Lucien — falou, tirando os braços de trás do pescoço dele, onde os havia colocado por instinto. — V-você não pode ficar aqui. É perigoso demais. Já estão atrás de Mary Lou. Você precisa ir...
Ele ainda não havia tirado o olhar do crucifixo. Não tinha como ter certeza na luz fraca das lâmpadas de segurança do chão da galeria, a única iluminação além do brilho das lâmpadas de exibição nos quadros...
... Mas ela achava que ainda podia ver aquele brilho vermelho lá. Muito de leve.
— Onde arrumou isso? — perguntou ele, puxando a gargantilha, mas mantendo o dedo bem longe do crucifixo. — Todas as suas joias foram destruídas pelo meu clã. Este é um colar caro. Nunca vi você usando antes.
— Que ótimo. Agora está me espionando?
Lucien não sorriu.
— Não espionando — disse ele. — Cuidando de você. Falei que faria
isso. Como acha que vi o ataque a você na noite de ontem? E nunca a vi usando isso ant...
Colocou a mão sobre a boca dele. Não queria que ele falasse sobre o quanto conhecia bem seu guarda-roupa, principalmente por observá-la desde que terminaram.
E definitivamente não o queria perguntando sobre o colar. Esse tipo de pergunta fazia com que seu coração batesse com força demais, e Meena tinha certeza, por ele a estar abraçando tão de perto, que ele sentiria através do tecido fino e justo do vestido.
— Concentre-se no que é importante aqui — disse ela. — Sabe o livro da sua mãe, o que Mary Lou acabou de roubar? — Tentou manter a voz firme e sólida. Mas não se sentia firme. Nem muito sólida. Mas tinha que fingir que estava. Pelos dois. — É o livro dos meus sonhos, sobre o qual tentei falar ontem. É o que requeri à biblioteca do Vaticano alguns meses atrás, Lucien. E isso significa que alguma coisa muito assustadora está acontecendo.., além das coisas assustadoras normais e demoníacas que sempre parecem acontecer quando você está por perto. Primeiro David foi transformado em vampiro e agora meu chefe, que foi procurar a esposa de David, sumiu. Assim como um grupo de pessoas. Mas não há registros de vampiros aqui há meses. E não há corpos. Onde estão todos os corpos?
Lucien tirou a mão dela de sua boca.., mas ficou segurando seu pulso com força.
— Tenho que ser honesto com você — disse ele, olhando para o rosto dela com atenção. — Não gosto muito desse colar. Eu me sentiria muito mais confortável se você o tirasse.
— Bem, eu tenho que ser honesta com você — disse ela, tirando o pulso da mão dele. — A única razão de eu estar usando este colar é porque outros da sua espécie vivem querendo me morder. Então, se não se importa, vou ficar com ele.
— Eu estou aqui. Então você não precisa mais de um colar como proteção.
A voz dele assumira o habitual tom trovejante de quando alguém o contrariava.
E o brilho vermelho que ela pensava ver nas pupilas dele estava muito mais evidente agora.
— Lucien — disse Meena, lutando para sair do abraço dele. — O que está acontecendo com você? Me solte.
— Foi ele quem deu para você, não foi? — Lucien apertou-a ainda mais. — Alaric Wulf.
Ele disse o nome como se fosse uma maldição. Suas pupilas eram como duas chamas.
O coração de Meena deu um salto. Mas agora foi de medo por Alaric.
— Não — mentiu ela, ainda se contorcendo nos braços dele. — Por que ele me daria um presente? Somos colegas, trabalhamos juntos.
— Porque ele está apaixonado por você. E você também tem sentimentos por ele, senão não mentiria sobre isso.
— Não tenho sentimentos por ele. Somos amigos, mas...
— Você sente mais do que amizade por ele. Está com medo por ele agora. Posso sentir seu coração batendo forte...
—Porque você está me apertando com muita força — disse ela. — Está interrompendo minha circulação. Eu apreciaria se me soltasse para que pudéssemos falar sobre isso como seres humanos racionais.
Ele a soltou nesse momento. Mas apenas para poder segurar o rosto dela com as mãos de uma forma que não era menos restritiva do que quando a segurava pelo pulso.
— Meena. — A voz estava áspera, completamente diferente do tom normal, de tão rouca e instável. — Você ainda não entendeu. Não posso ser racional. Não quando se trata de você. E não sou um ser humano. Não mais.
— Lucien. — Ela esticou a mão para tocar no rosto dele, tomada de repentina pena dele. — É claro que é. Pelo menos parte de você ainda é. Você não vê? Eu não entendo direito, mas acho que é disso que trata o sonho que tenho, o que venho tentando dizer a você, que ainda tem escolha...
— Não. — Ele botou as mãos nos ombros dela. Podia percebei que ele estava tentando se controlar, mas o esforço era grande. —Não tenho. É isso que venho tentando dizer pra você. O que me tornei é melhor do que humano.
Ela tirou a mão do rosto dele.
— Lucien — disse ela, horrorizada. — Não pode estar falando sério.
— Por que não? O que há de tão bom nos seres humanos? Você mesma disse. Seus próprios empregadores, que são seres humanos, enganaram e usaram você. Não só hoje, mas ontem também.
Ela olhou para ele, confusa.
— Como? O que você está...?
— Acha que foi coincidência que alguém como David, a’guém de quem você nunca desconfiaria, mas não alguém que você via todos os dias, foi transformado? — perguntou ele. — É claro que não. Mas quem teria acesso a esse tipo de informação sobre você? Um clã qualquer de vampiros? Acho que não.
— O que...? — Ela estava em choque. — Está dizendo que acha que o Vaticano...
— Eles não sabiam que aquele livro tinha qualquer relação comigo até você pedir por ele, Meena. E então o colocaram, e a você, em exibição para me atrair até aqui e me matar. Primeiro mandaram David atacar você, para ter certeza de que eu sairia do meu esconderijo. Depois usaram o livro para me atrair. Eu os conheço há quinhentos anos, e nada mudou nesse tempo. Veja o que estão dispostos a fazer com seus próprios funcionários só para me atingir. Veja o que fizeram com você. — Ele a puxou mais para perto... mas sempre tomando o cuidado de manter uma distância entre si e o crucifixo. — Deixe-os. Fuja comigo. Mary Lou está com o livro, e ela e Emil estão esperando por mim. Só falta você. Podemos ir agora. Nunca voltaremos. Você vai ficar em segurança comigo.
— Mas... — Ela não conseguia pensar. Sentia-se fisicamente exausta... e mentalmente confusa. Tudo que ele dizia fazia sentido...
O que só piorava as coisas.
— Mas você não vê, Lucien? — perguntou ela. — Se o que você diz é verdade, então não posso ir embora. Tenho que ficar.
— Por quê? — Ele a sacudiu com força.
— Bem, quem mais vai tentar impedi-los? — perguntou ela com simplicidade.
Em seguida, olhou para trás dele, para o quadro que sempre amou.
Ele apertou ainda mais os ombros dela.
— Aprenda uma coisa com o erro dela — disse Lucien, de forma ameaçadora. — O empregador dela a vendeu para o inimigo por dez mil francos. Ela foi executada como herege e traidora da Igreja. Pela Igreja.
Ela balançou a cabeça. Não sabia o que estava acontecendo com Lucien e nem pelo que ele passou desde que se separaram. Tinha que ser alguma coisa terrível, porque ele não parecia feliz. Sabia que ele não queria dizer aquilo. Não podia. Aquela não era a pessoa por quem havia se apaixonado...
... nem o garotinho que vira em seus sonhos todas as noites, cuja vida tinha sido tão cheia de amor e luz. Como aquele garotinho podia ter se tornado alguém tão cheio de trevas...?
— Não — disse ela, balançando a cabeça. — Você não vê, Lucien? Se o que está dizendo sobre David for verdade, essa é exatamente a razão. Eu tenho que ficar, para tentar impedir que aconteça com alguma outra pessoa.
Colocou uma das mãos no rosto dele.
— E não acredito em você quando diz que o que se tornou é melhor do que humano. Conheço você e sei que ainda há uma parte sua, a melhor e mais importante, que ainda é humana.., se, por humana, você entender boa. E é essa parte que eu amo. Não tente negar essa parte, Lucien. Porque acho que essa pode ser a mensagem do meu sonho. Negar essa parte pode ser o que está deixando você tão...
— Tão o quê? — perguntou ele, os olhos brilhando perigosamente.
Ela engoliu em seco. Queria dizer que achava que podia ser o que o estava deixando tão doente na noite anterior.
Mas ele não parecia doente agora. Então devia estar errada.
— Nada. Acho que você precisa ir agora, Lucien. Proteja a si mesmo. Não a mim. Não sou eu que eles querem. É você. A sua permanência aqui é o que me bota em perigo. Se realmente me amasse e quisesse me proteger, você iria. Não estou apenas dizendo isso porque amo você e quero que fique em segurança. Estou dizendo porque sei que é verdade. Sei que, se você ficar, isso não vai terminar bem para ninguém. Eu sei.
E sabia mesmo. Sabia como soube que ela e Alaric nunca deviam ter
deixado Abraham em Freewell. Como soube desde o dia em que conheceu David que ele iria morrer jovem. Como soube cada vez que olhou para aquele quadro de Joana D’Arc que, por mais que o admirasse, alguma coisa muito ruim ia acontecer com ela própria também.
E agora, estava acontecendo.
Porque, em vez de soltá-la, os braços de Lucien apertaram-na ainda mais. Seus olhos brilharam em um tom intenso e profundo de vermelho.
Em seguida, ele se inclinou e a tomou nos braços.
— Lucien — disse ela, entrando em pânico. — Espere... O que está fazendo? Não. Não...
Seus pés começaram a se erguer do chão e ela gritou e lançou os braços ao redor do pescoço dele, apavorada, enquanto ele seguia diretamente para a claraboia acima.
Nessa hora, as portas do elevador se abriram com uma campainha e Alaric Wulf entrou a passos largos na galeria.
— Meena — disse ele. — Pensei ter mandado você não se mexer.
E, então, desembainhou a espada que mantinha presa nas costas, sob o paletó do smoking.
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