Capítulo Vinte e Dois
Quinta-Feira, 15 de abril, 19:30hs
Rua Park Avenue, 910 Apt 11A
Nova York, Nova York
Lucien tinha certeza de que seu primo tinha perdido a cabeça.
"Um jantar?" ele ecoou enquanto entregava seu casaco à empregada,
que o recebeu para pendurá-lo no armário da sala.
"É só que..." Emil explicou baixinho, para que sua esposa, ocupada
com os garçons na sala de jantar, não pudesse lhe ouvir, "ela parece
ter essa fantasia de que você precisa de uma noiva e que Nova York
é o lugar em que você a encontrará. Não tenho nem como dizer como
eu sinto muito. Se você quiser me apunhalar, meu senhor, eu
entendo perfeitamente."
Lucien, ao invés de ficar furioso - o que ele sabia ser a reação que
Emil estava esperando dele - apenas sentiu-se surpreso. Embora ele
tenha deixado bem claro que ele não queria que ninguém soubesse
de sua chegada em Nova York, o que, claro, era uma questão
discutível. O dano já estava feito. Claramente, seus inimigos já
sabiam aonde ele estava: uma tentativa tinha sido feita contra sua
vida. A informação tinha simplesmente viajado.
Da mesma maneira que Lucien esperava que as notícias sbre a
maneira com que ele tinha tratado seu irmão se espalhassem. Ele
não se arrependia disso. Ele estava contando com isso. Se todos
ouvissem falar que Dimitri tinha iniciado uma batalha com ele e que
Lucien tinha ganho, eles estariam bem menos inclinados a encenar
um segundo ataque do tipo que ocorreu outra noite, ao que ele tinha
claramente sobrevivido.
O príncipe das trevas estava na cidade e mais indestrutível que
nunca.
Mas um jantar? Com humanos?
A idéia fez Lucien sorrir.
"Sua mulher," ele disse para Emil, "é uma mulher ousada."
"Essa é uma maneira de colocar as coisas," Emil disse com um sorriso
fraco. "Mas honestamente, meu senhor, se você prefere voltar para a
cobertura--"
"Está tudo bem, Emil," Lucien disse, tranqüilizando-o. Ás vezes ele
achava que Emil poderia explodir a si mesmo, agarrando-se a si
mesmo com extrema força. "Assumo que você tenha alguns vinhos
decentes a servir."
O sorriso de Emil abrilhantou-se consideravelmente. "Claro, meu
senhor," ele disse. "Alguns Amarones (marca de vinho) deliciosos que
comprei exatamente para você. Venha, deixe-me abrí-los."
Emil seguiu Lucien até a biblioteca, onde ele abriu um fino vinho tinto
italiano. Após um tempo, do ambiente escuro e confortável, eles
puderam ovir os convidados chegando e a voz alegre de Mary Lou
enquanto os cumprimentava.
"Eu suponho," Emil disse, relutante, "que nós devíamos ir lá fora."
"Vai ficar tudo bem," Lucien assegurou a seu primo. "Eu gosto dos
humanos. Eu costumava ser um, lembra? E eu dou aula para eles."
Os dois homens entraram na sala de estar, com Mary Lou dando um
gritinho de prazer.
"Bem, aqui estão eles!" ela gritou. Ela estava usando um vestido
turquesa longo com várias jóias de ouro para combinar com seus
sapatos dourados. A sombra em seus olhos era da mesma cor do
vestido. Seus longos cabelos loiros tinham sido perfeitamente
cacheados e arrumados. "Aonde vocÊs dois têm se escondido?
Príncipe Lucien, quero que você conheça nossos amigos Linda e Tom
Bradford, e esses são Faith e Frank Herrera, e Carol Priestley e Becca
Evans e Ashley Menendez, do escritório de Emil. Gente, esse é o
Príncipe Lucien Antonescu..."
As mulheres eram atraentes, e os homens joviais. Lucien apertou a
mão de todos eles, então se juntou à conversa sobre a cidade de
Nova York e os shows e restaurantes que ele não deveria perder
enquanto estivesse aqui.
Era um belo anoitecer de primavera, e os Antonescu tinham aberto
todas as portas francesas para seu terraço. O sol já tinha se posto no
oeste, e o céu estava em um amável tom de rosa e lilás. Lucien saiu
para o terraço, seguido por várias das mulheres, todas segurando
taças de champanhe e falando excitadamente sobre uma exposição
de arte que elas tinham ido na semana anterior.
Mary Lou não tinha escolhido mal. Suas convidadas eram mulheres
bonitas e inteligentes.
Quando Lucien ouviu a campainha do apartamento tocar, não olhou
para ver quem estava chegando porque não quis parecer rude. (E ele
sabia que não era um membro dos Dracul nem da Guarda Palatina
chegando para assassiná-lo. Eles nunca perderiam tempo com a
campainha.)
Mas então ele olhou, porque algo lhe disse que ele tinha que olhar.
E o som da conversa das mulheres ao seu redor morreu. Não porque
elas tenham parado de falar.
Mas porque ele não estava mais ouvindo.
Era a mulher que estava levando seu cachorro para passear na noite
de seu ataque, a que quase tinha sido morta. Meena Harper, era o
nome dela.
Ele viu que Mary Lou estava lhe cumprimentando com um beijo e
pegando uma garrafa de vinho barato da mão de seu alto
acompanhante masculino.
Claro que ela estava na casa de Emil. Claro que estava. O que ele
tinha esperado? Lá no fundo, ele deveria saber. Do contrário, ele
teria partido, ido embora há mais de uma hora. Ele não estava em
Nova York para socializar com os amigos humanos da esposa de Emil.
Ele nunca ficava sem companhia feminina quando precisvaa, e era
perfeitamente capaz de encontrá-las sem a ajuda de Mary Lou.
E agora a última mulher do mundo de quem ele deveria se aproximar
- porque ele podia sentir, ele próprio, o mafnetismo que ela exercia
sobre ele - tinha entrado na sala. E ele estava lá, parado, olhando
para ela, em seu vestido preto barato e o corte de cabelo masculino.
E ficou claro, pelo único olhar que ela lhe deu, que a limpeza de
memória não tinha funcionado. Não, ela o reconheceu
instantaneamente. Pela maneira com que seus grandes olhos
castanhos se arregalaram e seu queixo caiu, era óbvio que ela
lembrava daquele encontro com perfeita clareza.
E mais ainda, com um toque mínimo em sua mente - que ele lançou
através da sala somente para ver se ela sentia prazer em vê-lo ou
apenas repulsa; era pura vaidade, e ele achou que merecia o choque
que veio em resposta - revelou algo impressionante, algo quase
horripilante que Lucien não conseguia entender por nada:
Vampiro.
Estava na pontinha de seu cérebro. Era tudo o que ela estava
pensando. Em vampiros.
E também, quase tão ruim de saber, morte.
Ele deixou sua mente imediaamente... mas não antes de captar seu
próprio nome.
Lucien.
Ela sabia. Ela sabia.
Porém, como? O que tinha acontecido? O que tinha dado errado? Por
que a memória dela não foi apagada com sucesso? Como ela poderia
ter feito essa conexão?
Quem era ela? O que era ela? O que acontecia com essa garota e seu
eletricamente carregado e hiperativo cérebro?
Ele precisava descobrir antes que a noite - e toda a sua missão em
Nova York - fosse por caminhos desastrosos.
"Meena Harper," Mary Lou cantarolou quando ele se aproximou. Ele
percebeu que tinha deixado as mulheres com quem ele tinha estado
conversando tão amigavelmente sem uma palavra. Mas a situação
tinha ficado perigosa. Não tinha nada a ver, ele disse para si mesmo,
com o negro dos olhos e cabelos de Meena Harper, ou a curva de seu
quadril naquele vestido preto barato de algodão. Nem um pouco.
Essa era uma questão de vida ou morte, para toda a raça dos
vampiros. "Eu quero que você conheça o primo de Emil, o Príncipe
Lucien Antonescu."
"Oh," Meena disse, sorrindo. Seus dois dentes da frente eram
levemente tortos. Como ele não tinha percebido isso na outra noite?
"Eu sei. Nós-"
"Quão encantador é conhecer-lhe," Lucien disse, a interrompendo. Ele
tomou a mão de Meena mesmo enquanto sua expressão surpresa
estava se transformando em confusa. O príncipe! seu cérebro estava
chorando. É ele!
O que em nome de Deus isso significava? Quem era ela?
"Certo," foi tudo o que ela disse em voz alta, entretanto, em uma voz
que era consideravelmente menos excitada que a atmosfera de circo
em sua mente. "Prazer em conhecê-lo, também."
Sua mão estava quente e escorregadia. A dele, ele sabia, estava tudo
menos isso.
"E esse é o seu irmão, Jonathan Harper," Mary Lou disse, com uma
nota mal disfarçada de desaprovação.
"Jon." O homem de cabelos negros parado ao lado de Meena corrigiu
Maty Lou, erguendo sua mão. "Eu sou Jon."
"Prazer," Lucien disse. Ele deu à mão de seu irmão um aperto rápido,
com cuidado para não apertar muito forte. Ainda assim, ele viu o
jovem se encolher.
Ele retornou sua atenção de volta à garota, que não tinha tirado o
olhar dele uma única vez desde que entrou no apartamento. Ele se
sentiu tentado a alcançar sua mente mais uma vezvampiro
morte príncipe padre dragão
e se retirou tão rápido quanto a tinha tocado.
Não era surpresa que ele não tivesse conseguido limpar de sua mente
sua memória: Ela era claramente perturbada. Era um caos completo
lá dentro.
"Jonathan," Mary Lou estava dizendo para seu irmão, "Eu sei que
você é bom com coisas eletrônicas. Minha amiga Becca acabou de
comprar um iPhone e está quebrando a cabeça para conseguir baixar
um daqueles, como vocês os chamam? Ah, sim, aplicativos. Será que
você poderia ajudá-la?"
O irmão olhou para Becca, uma jovem garota de bustos largos
usando um vestido colado de seda vermelha, e disse, "Claro."
A garota assistiu ao seu irmão sem comentários.
Vampiro, Lucien não podia evitar ouvir sua mente gritando. Lucien,
príncipe, caçador, dragão, morte.
A imagem de uma bolsa vermelha com uma jóia encrustada em
forma de dragão em um dos lados passou pela mente de Lucien, uma
imagem da qual ele não conseguia tirar nenhum sentido.
Não que ele tenha entendido qualquer uma dessas coisas.
"Então quer dizer," a garota se virou para dizer a ele quando seu
irmão se foi, "que você é o príncipe de quem tenho ouvido tanto
falar?"
Ele sorriu para ela educadamente - ele estava muito bem consciente
do efeito devastador que seu sorriso tinha em fêmeas humanas - e
então a pegou pelo braço e a conduziu gentilmente a um campo
desocupado do terraço, dizendo algo sobre que pena seria se ela
perdesse a vista.
Ele achou que talvez poderia conversar racionalmente com ela, por
mais psicótica que ela fosse.
"Eu não disse à mulher de meu primo o que aconteceu na calçada da
igreja," ele explicou a ela rapidamente em voz baixa quando eles
estavam suficientemente longe das outras pessoas. "Eu não quis
alarmá-la. Mulher nenhuma quer ouvir falar de uma colônia de
morcegos solta na vizinhança..."
Claro que ele não mencionaria os Dracul.
"Eu também não disse ao Jon," ela disse em um tom de voz
perfeitamente razoável, o surpreendendo. "Bem, pelo menos... não
sobre você."
"Isso foi provavelmete uma atitude sábia," ele disse. "Nós não
queremos preocupar nossos entes queridos."
Ela abaixou seu olhar escuro e pareceu estar olhando para as janelas
dos apartamentos de baixo, ao invés de olhar para seus olhos. Ele
tinha de adimitir que a achava bastante charmosa e teve que se
lembrar se tomar cuidado. Ela era humana e, a julgar pela cacofonia
em sua cabeça, louca.
O que era uma pena, já que ela era tão amável.
"Especialmente," ela disse, "já que ninguém se machucou."
"Então nós concordamos," Lucien disse, "que não mencionaremos o
fato. Para ninguém."
"Eu contei para minha melhor amiga," ela disse, finalmente olhando
para ele. "Ela não acreditou em mim. Acha que eu estava sonhando."
Talvez a situação, ele pensou, não fosse tão perigosa quanto ele tinha
imaginado.
"Quem pode culpá-la?" ele disse. "A coisa toda é um pouco difícil de
acreditar, não acha? Morcegos na Upper East Side (região nobre de
Manhattan). Absurdo."
"Não tão difícil de acreditar quanto a única explicação que eu
consegui elaborar para o motivo pelo qual você não se machucou,"
ela disse, se encostando na parede do terraço. "Já que eu sei que não
estava sonhando."
Vampiros, ele sabia que ela diria. Ele não tinha certeza de como ele
agiria uma vez que ela o dissesse. Já fazia tanto tempo desde que um
humano descobriu sobre eles... hum humano que desejava fazê-los
mal. Além dos Palatinos, é claro.
Que essa irritantemente linda, porém infelizmente insana garota
tenha descobeto, incomodava um pouco.
Incomodava ainda mais do que o que ele teria de fazer com ela, se
fosse verdade que ela sabia.
"E qual é?" ele perguntou, tentando soar casual.
"Eu acho que você é um anjo," ela disse, sorrindo para ele
abertamente. "E que aconteceu um milagre na calçada da igreja de
São Jorge aquela noite."
Capítulo Vinte e Três
Quinta-Feira, 15 de abril, 20hs
Rua Park Avenue, 910 Apt 11A
Nova York, Nova York
O Príncipe Lucien Antonescu não gostou de ser chamado de anjo.
Mas então, Meena percebeu com atraso, nenhum homem gostaria.
"Não houve nenhum milagre," ele dizia com insistência. "E eu não sou
um anjo. Disso eu posso lhe assegurar."
"Isso não é verdade," Meena disse. Ela estava o provocando. Ele
pareceu a ela ser um homem que não era provocado com muita
freqüência em sua vida. Ele parecia extraordinariamente sério. "Você
arriscou sua vida para salvar a minha, e então você desapareceu sem
nem ao menos me deixar agradecer apropriadamente. Isso foi
bastante angelical."
"Eu acho que sua amiga está certa," ele disse a ela quando um dos
garçons serviu a eles taças de champanhe em uma bandeja de prata,
"e você está confundindo seus sonhos com a realidade. Era apenas
alguns morcegos--"
"Você disse isso na noite em que tudo aconteceu," ela o lembrou com
um tom de indignação. "Não era verdade naquele momento e ainda
não é verdade. Muito provavelmente foi a coisa mais horrível pela
qual eu já passei na vida, e eu ainda digo que é um milagre você ter
saído sem um único arranhão. Mas se você quiser continuar
minimizando o que aconteceu, vá em frente. Podemos simplesmente
falar sobre banalidades como o resto das pessoas aqui. Por quanto
tempo você vai ficar na cidade, e você já assistiu algum espetáculo
interessante?"
Ele a encarou, com uma expessão de surpresa no rosto. Então ele
caiu na gargalhada. "Ainda não, na verdade," ele adimitiu. "Cheguei
no dia em que nos conhecemos, não estou aqui há muito tempo. O
que você recomenda?"
Meena tomou um gole de seu champanhe. Ela sentia como se sua
mente estivesse correndo a mil quilômetros por hora. Quais eram as
chances de Lucien - o seu Lucien, que ela tinha conhecido na calçada
da Catedral de São Jorge - e o príncipe da condessa serem a mesma
pessoa? Isso seria tão perfeito! Ela precisava descobrir tudo o que
podia sobre ele para poder escrever a descrição de personagem
perfeita para atacar Sy.
Não, é claro, que seu príncipe fosse ser uma réplica exata do Príncipe
Lucien. Primeiro porque ele parecia ser muito novo para Victoria
Worthington Stone. Eles teriam de encontrar alguém um pouco mais
velho para um par romântico decente.
Não que Cheryl se oporia a usar o Lucien da vida real, é claro. Ela
teria, em um segundo nova-iorquino. Qualquer mulher teria. Olhe
para ele! Ele era perfeito... aquele perfil, aqueles ombros
impressionantes.
Mas quem quer que o interpretasse deveria definitivamente ter
cabelos grisalhos nas têmporas e usar... óculos. Sim! Era isso! Um
caça-vampiros, ou como quer que eles fossem chamados, deveria
definitivamente usar óculos.
"Como assim?" o príncipe disse, olhando para ela intensamente com
aqueles lindos olhos castanhos dele. "Você disse algo?"
"Não," Meena disse. Seu olhar direto a deixou nervosa. Era quase
como se ele pudesse ler seus pensamentos. Ou ver através de seu
vestido.
Ainda assim, ele era o homem mais sexy que ela tinha visto em
muito tempo... a quem ela não tenha tido de implorar para ele largar
sua motocicleta.
"Quero dizer, eu estava me perguntando o que você faz," ela disse.
"Eu sei que essa é uma coisa rude e novaiorquina para se perguntar.
Nós somos obcecados com o que outras pessoas fazem da vida. Mas
estou realmente curiosa. Quero dizer, o que um príncipe faz, no fim
das contas? Você tem o hábito de resgatar donzelas em perígo, ou eu
estava apenas no lugar certo na hora certa? Você tem um castelo?
Você participa de combates de guerreiros?"
Ele continuava olhando perplexo. Ele parecia achar que ela causava
muita perplexidade. Meena adoraria saber sobre o que uma mulher
normalmente falaria com ele. Parecia natural, para ela, perguntar à
um príncipe sobre combates de guerreiros.
"Eu tenho um castelo, na verdade," ele disse. "Uma propriedade da
família, de verdade. Emil e Mary Lou vão me visitar no verão. Estou
certo de que ela disse isso para você-"
Meena levantou a mão. Ela percebeu tardiamente que já tinha ouvido
bastante sobre o castelo.
"Não se preocupe. Eu já sei. Na Romênia."
"Fora de Sighişoara," ele disse com um sorriso. "E em resposta à sua
outra pergunta, não, eu nunca participei de um combate de
guerreiros. Eu leciono."
"Você leciona?" Se ele dissesse à ela que ele tinha um Twitter ela
poderia não ficar mais surpresa. "Você leciona o quê? Evasão de
ataques de morcegos?"
"História da Europa Oriental," ele disse, ainda parecendo distraído.
"Na Universidade de Bucareste. Aulas noturnas, em sua maioria".
Meena levantou uma sobrancelha. "Sério?". Ela tinha o sentimento,
não pelo fato de que ele tinha o próprio castelo mas pelo relógio que
parecia caro que ele estava usando e pelo modo que ele se portava,
que Príncipe Lucien não precisava exatamente do emprego de
professor para se sustentar.
Sua próxima afirmação confirmou suas suspeitas.
"É importante para mim," ele disse, "que o rico patrimônio do meu
país não seja esquecido pela geração seguinte. Você sabe o quanto a
juventude de hoje está apegada aos videogames e às mensagens de
texto. Eu tento fazer uma história atraente para os meus alunos, para
despertar neles o tipo de amor que eu sempre tive por ela. Se eu
conseguir..." Ele encolheu os ombros modestamente.
Meena queria aplaudir. Se ele revelasse ter um par de óculos bifocais
no bolso da jaqueta ela achava que poderia realmente pular e beijá-lo
na boca. "E você está aqui para a Faxina da Primavera?" ela
perguntou.
"Não, não estou, na verdade," Príncipe Lucien disse, removendo um
par de óculos de leitura de aro de prata do bolso interno do paletó de
cashmere e colocando-os. "Eu estou aqui para uma série de palestras
que um colega está dando na Região Metropolitana sobre Vlad
Tepes."
Ao ver os óculos de leitura, Meena se inclinou sobre seus saltos altos
e finos e quase caiu.
"Você está bem?" ele perguntou, com uma preocupação genuína em
sua voz profunda. "Aqui, deixe-me ajudá-la."
Ela sentiu seu braço forte, tão familiar da outra noite na frente da
catedral, passar por seus ombros nus. Um segundo depois, ele estava
dirigindo-a, gentilmente e com habilidade, em direção à uma das
cadeiras de jardim brancas em ferro fundido da condessa.
Ela afundou-se graciosamente na almofada listrada de verde e
branco, capaz apenas de pensar, Os óculos! Os óculos!
Ele tirou os óculos e meteu-os às pressas de volta no bolso,
curvando-se sobre ela com preocupação. "Devo buscar um pouco de
água para você?".
"Não," Meena disse, esvaziando o conteúdo da sua taça de
champanhe e pousando-a sobre a mesa de ferro fundido ao lado dela.
Ela se apressou em dizer alguma coisa para mudar de assunto. "Qquem
é Vlad Tepes?"
"Ele era o príncipe mais poderoso de Wallachia, que é na atualidade a
Romênia, em quatrocentos anos," explicou. "Ele é considerado um
grande herói na Europa Oriental. Você tem certeza que está tudo
bem? Você realmente não parece bem."
Ela colocou a mão sobre a sua, onde descansou no braço da cadeira
ao seu lado. Ela não podia evitar. Havia algo nele que a fazia querer
tocá-lo. Ela não achava que havia sido somente o fato de ele ter
salvado sua vida, também.
"Eu estou bem," ela disse, pensando que seus dedos eram um pouco
frios. Mas então, não era exatamente verão ali fora. Ela desejava ter
trazido um cardigã. Mas eles estavam tão atrasados para a festa, ela
não teve tempo de ao menos olhar dentro de seu armário para uma
boa olhada para is com seu vestido. "Acabei de ter uma semana
muito ruim no trabalho."
"Eu sinto tanto por ouvir isso," ele disse, retirando o paletó e
colocando-o suavemente sobre seus ombros... como se este fosse o
gesto mais natural do mundo.
Meena sentiu como se tivesse levado um soco no peito por uma
cliente em uma venda de mostruários da Marc Jacobs.
Acalme-se, ela disse para si mesma. Ele é um príncipe. Isto é o que
os príncipes fazem. Eles são treinados desde que nasceram para agir
dessa maneira.Quero dizer, olhe só para ele. Ele é tão legal, seu
casaco não está nem mesmo quente!
"Está melhor?" ele perguntou, com o que parecia ser uma
preocupação real.
Oh, Meena pensou. Shoshona. Se você pudesse me ver agora. Como
você iria chorar na sua salada sem molho.
"Muito obrigada," ela disse. "Está muito melhor, Lucien. Oh... posso
te chamar de Lucien? Ou você prefere Professor Antonescu? Ou Dr.
Antonescu? Ou Sua Alteza Real?"
"Lucien está bom," ele disse, sorrindo um pouco mais. Ele era quase
insuportávelmente bonito quando sorria, com todo aquele cabelo
escuro e os olhos tristes. Meena não ajudava pensando para si
mesma que Lucien Antonescu era um homem que precisava de muita
provocação. Talvez a vida dele, para superar qualquer coisa que
havia acontecido com ele, colocara toda sua dor dentro daqueles
olhos castanhos. "E o que aconteceu com você para você ter tido uma
semana tão ruim?"
"Oh," disse Meena. "Bem, você já ouvir falar sobre a guerra de
vampiros, não ouviu?"
"Perdão?"
Por uma fração de segundos, ela quase podia jurar que aqueles olhos
castanhos tristes piscaram vermelhos, como ela achava ter visto
naquela noite, na frente da catedral. O olhar que ele lhe deu foi um
misto de incredulidade com quase... bem, raiva. Sua mão saiu de
debaixo da dela tão rapidamente quanto se sua pele tivesse
chamuscado a dele.
"O jantar está servido," chamou o fornecedor de comida, com rabo de
cavalo loiro, vestindo uma camisa branca e calças pretas, sorrindo
para eles de perto das portas francesas.
Meena não tinha idéia do que ela tinha feito para ter insultado o
príncipe. Mas ele definitivamente parecia ofendido. Ele pegou o copo
de champanhe pelo qual ele não tinha mostrado interesse algum até
aquele momento e bebeu todo o seu conteúdo.
O que foi que eu fiz? Meena se perguntou. O que ela tinha dito? O
que tinha acontecido para fazer com que o príncipe, em um
momento, estivesse emprestando-lhe gentilmente sua jaqueta para
mantê-la aquecida e no outro estivesse engolindo álcool como um
viciado em busca de sua próxima dose?
“E-eu sinto muito,” Meena gaguejou. “Eu só-”
Mas quando ele virou sua cabeça para olhá-la novamente, ela ficou
aliviada de ver que seus olhos tinham voltado para sua cor normal de
marrom.
É claro. Ela deve ter imaginado a parte vermelha. Ela realmente tinha
uma imaginação muito ativa. Era por isso que ela tinha conseguido o
trabalho que tinha.
“Não, eu sinto muito,” ele disse, soando mais como o seu eu cordial.
Entretanto, ela não pôde evitar de sentir que ele estava se
controlando com um esforço. As juntas dos dedos da mão que estava
segurando a taça de champanhe estavam brancas. Em um segundo,
ela pensou que ele poderia quebrar o copo na metade apenas com o
seu aperto. “Mas eu não acho que eu te ouvi corretamente. Você
disse guerra de vampiros?”
“Si-i-im,” Meena disse lentamente. Ela notou a condessa vindo em
sua direção de dentro do apartamento e sentiu um pouco de alívio.
Talvez Mary Lou pudesse ajudá-la a explicar. “Eu escrevo para a
Insaciável. Passa na ABN. Nós estamos sendo massacrados na
audiência pela Lust (a tradução seria Luxúria, mas como eu vi que
escreveram Lust mesmo, acho melhor deixar assim). Eles tem um
enredo com um vampiro... eu sei, é ridículo, na verdade. Mas essa
semana meus chefes anunciam que eles querem que nós façamos um
enredo com vampiros...”
"Ah," ele disse. "Essa guerra de vampiros."
"É claro," ela disse, rindo com um pouco de incredulidade. Esse cara
era realmente intenso! Ela não havia estado totalmente errada sobre
ele precisar ser um pouco provocado. Ele precisava ser muito
provocado. "Que outro tipo existiria? Você pensou que eu estivesse
falando de uma guerra de vampiros real?"
Ela o viu jogar um olhar na direção da condessa... um olhar que
Meena não conseguia entender. Ela não tinha certeza do que estava
acontecendo entre os dois, mas Mary Lou, chegando a erguer a taça
de champanhe dos dedos das mãos do príncipe, aparentemente,
antes que ele pudesse quebrá-la, dizendo: "Agora, o que vocês dois
ainda estão fazendo aqui? O jantar está na mesa e todos estão
esperando. Sobre o que vocês poderiam estar conversando para não
terem sequer ouvido o anúncio?"
"Ah, nada de mais," Príncipe Lucien disse, ainda olhando como se
estivesse segurando o queixo com força. "Só sobre a guerra de
vampiros."
A condessa deu uma olhada para ele rapidamente, então jogou sua
cabeça loura para trás e começou a gargalhar.
"Oh, minhas estrelas," disse ela. Seu sotaque sulista sempre parecia
ficar mais pronunciado quando ela bebia. "Meena deve estar falando
para você sobre a guerra de vampiros entre a série que ela trabalha,
Insatiable, e sua arqui-rival, Lust. Sem ofensas, Meena, você sabe
que eu sou uma fã Insatiable até o fim. Mas eu não me canso desse
sexy Gregory Bane."
"Bem," Meena disse, olhando de cara feia, como sempre fazia quando
ouvia o nome de Gregory Bane, "Eu ouvi dizer que o nosso vampiro
vai ser tão sexy quanto."
Lucien, entretanto, parecia visivelmente aliviado. "Televisão," ele
disse. "É claro."
Meena ainda não entendia nada do que estava acontecendo. Como
porque a tensão finalmente havia saído do rosto do príncipe... ou
porque o sorriso que ele deu à Meena quando se virou era tão
deslumbrante que fez seus joelhos se sentirem fracos novamente, de
modo que ela não tinha certeza se ia ser capaz de andar todo o
caminho até a sala de jantar dos Antonescu em seus saltos altos.
Pelo menos, não sem vacilar.
Mas tudo bem com isso, porque Mary Lou disse com uma risada, "É
claro que era isso que ela queria dizer, bobo. Que outra guerra de
vampiro seria? Bem, longe de mim tentar interromper a conversa. Eu
reservei para vocês dois lugares no final da mesa de jantar. Príncipe
Lucien, seja gentil e acompanhe Meena até lá."
Príncipe Lucien era gentil. Ele se levantou, apresentando
galantemente seu braço à Meena. Ela olhou para ele com um pouco
de surpresa no início.
E não era de se admirar: nenhum homem havia oferecido seu braço à
Meena antes. David não tinha sido exatamente o mais cavalheiro de
seus pretendentes, sendo mais interessado em seus livros sobre
dentes e em organizar festas de boas maneiras.
Meena não tinha certeza se deveria deslizar sua mão através da
curva do braço do príncipe ou colocar seus dedos sobre ele, do jeito
que ela tinha visto as heroínas de Jane Austen fazerem em produções
da BBC.
Ela realmente se sentiu apenas um pouco tonta... mas se foi pela
proximidade do príncipe ou pela champanhe, Meena não estava certa.
Ela se perguntava o que havia de errado com ela. Não era como se
ela nunca tivesse ficado perto de um homem bonito antes. Ela
trabalhava com alguns dos atores mais gostosos da televisão, pelo
amor de Deus.
Talvez fosse apenas porque nenhum deles jamais demonstrou
qualquer interesse particular por ela.
Ou talvez... apenas talvez... fosse porque, pela primeira vez desde
que David a deixara, ela na verdade conhecera um homem por quem
se sentia atraída que não era casado, não era gay e não tinha uma
morte certa que pesava sobre ele.
Ela deslizou sua mão pela curva de seu braço - no caso, ela teve de
se apoiar nele para se sustentar, caso o atordoamento piorasse - e
sorriu para ele.
"Então," disse ela. "Onde estávamos?"
Capítulo Vinte e Quatro
9:00 da noite, EST, Quinta-Feira, 15 de Abril
Do lado de fora do número 912 da Avenida Park
Nova York, Nova York
“O que você está fazendo aqui?” a mulher idosa de cabelo azul
perguntou enquanto seu Pekingese (raça de cachorro) levantou uma
perna não muito longe de onde Alaric Wulf estava de pé. “E não tente
mentir para mim, meu jovem. Eu estava te vigiando da minha janela.
Você está de pé aqui fora faz uma hora.”
“Só estou esperando pela minha esposa, senhora,” ele disse. “Ela tem
uma hora marcada com o Dr. Rabinowitz.” Ele balançou a cabeça em
direção à placa de bronze no prédio no qual ele estava encostado que
dizia Dr. Rubin Rabinowitz, Obstetrícia.
A Cabelo Azul seguiu seu olhar, depois virou-se novamente para ele.
Ela não estava, ele viu pela sua expressão, acreditando em nada
disso.
“A esta hora?” a mulher idosa exigiu. “E por que você não está na
sala de espera?”
“Claustrofobia,” Alaric disse. Ele encarou o Pekingese. Seu pequenino
rosto estava franzido em um olhar de repulsa que parecia combinar
com o de sua dona. “E o Dr. Rabinowitz é muito atencioso com a
agenda ocupada da minha mulher como supermodelo que viaja o
mundo inteiro.”
“Hmph,” disse a mulher idosa, e saiu andando rapidamente pelo seu
caminho.
Alaric, de pé na porta ao lado do número 910 da Avenida Park – mas
fora do campo de visão, encostado no lado do prédio onde ele não
seria notado por ninguém a não ser mulheres mais velhas que
passavam enquanto levavam seus cachorros impossivelmente
pequenos para passear e lançavam olhares de reprovação em sua
direção – sentia que ele aprovava.
Não a Cabelo Azul, embora ele tivesse gostado dela. Ele gostava de
mulheres com espírito. Elas lembravam-no de Betty e Veronica.
O que ele aprovava era a Avenida Park em si, e seus moradores.
Os moradores vivos, de qualquer jeito.
Era uma elegante estrutura de tijolos, construída em uma esquina e
obviamente bem preservada. As plantas de vaso em cada lado das
portas eletrônicas pareciam saudáveis e viçosas. Tinha um imaculado
tapete vermelho debaixo do toldo verde em cima das portas, e o
porteiro de pé embaixo do toldo era jovem e ávido em fazer o seu
trabalho bem. Alaric o viu encurralar e repreender (a tradução que eu
achei para a palavra original era bater ou algemar, o que eu duvido
que ele fez, então essa foi a melhor palavra que eu consegui) um
entregador de comida chinesa antes que ele conseguisse passar de
fininho por ele, determinado a colocar menus debaixo das portas de
moradores ingênuos.
O porteiro também parou para verificar cuidadosamente o nome de
cada convidado que chegava para comparecer à festa dos Antonescus
em uma lista que eles tinham lhe dado antes de deixá-los subir.
Foi assim que Alaric descobriu que ele não conseguiria de jeito
nenhum simplesmente entrar de penetra na festa sem ser
convidado... a não ser, é claro, que ele usava força.
E ele não estava disposto a usar esse truque. Ainda.
E pelo fato do prédio ter vinte andares, e os Antonescus viverem no
décimo primeiro sem escada de incêndio, seu truque de “primeiro o
pé através da janela pelo telhado” também não iria funcionar.
Até ele descobrir um jeito de se esgueirar para dentro através do
estacionamento no subsolo – ou possivelmente usando a entrada de
serviço – ele iria acabar conhecendo os carros estacionados do lado
de fora da Avenida Park, 910 muito bem, ele suspeitava.
Mas tudo bem. Ele tinha tempo. Todo o tempo do mundo para
planejar seu próximo passo.
Alaric tinha feito o check in no Peninsula na noite anterior e estava
apreciando muito a subida de nível em comparação com seu hotel em
Chattanooga. Tinha vários canais Premium de TV a cabo para ele
aproveitar – em uma TV tela plana, nada menos, enquanto se
banhava em uma grande e profunda banheira com nenhuma tira de
borracha antiderrapante no banheiro – e lençóis Frette, sem
mencionar uma piscina coberta em um átrio de vidro na cobertura de
modo que ele conseguisse continuar com os seus exercícios; um
vasto e variado menu de serviço de quaro para explorar; e vários
saguões onde era possível achar mulheres atraentes de todas as
nacionalidades depois de um dia de compras tomando chá e
mandando mensagens para as amigas. Não, Alaric não estava com
pressa alguma para deixar Manhattan.
Exceto por um pequeno detalhe desagradável.
A razão pela qual ele estava lá para começo de conversa.
Mas então, se o e-mail que Martin tinha enviado para ele era
genuíno, o príncipe estava na cidade pelo mesmo motivo: para se
assegurar que mais nenhuma garota tivesse o sangue de sua vida
sugado de si.
O arquivo que continha todas as suas fotos estava esperando por
Alaric quando ele tinha feito o check in.
O que aquele arquivo continha tinha horrorizado-o.
E era necessário muito para horrorizar Alaric, o qual estava
convencido de que já tinha visto de tudo em seus vinte anos com a
Palatina.
Não tinha nomes junto com as fotos das vítimas. O escritório do
legista suspeitava – de acordo com a arcada dentária das moças –
que elas eram da Europa Oriental ou até nascidas na Rússia e
estavam no país ilegalmente... o que explicaria por que ninguém
tinha se apresentado para identificá-las.
Alaric tinha dado para elas nomes americanos para combinar com os
sonhos americanos com os quais ele tinha certeza que cada uma
delas tinha viajado para este país:
Em primeiro lugar estava Aimee com cabelo comprido, descoberta
cedo em uma manhã apenas dez dias atrás na pista de pedestres do
Central Park.
Então, a ruiva Jennifer, encontrada alguns dias depois pelo
empregado de um parque no Bryant Park.
A última vítima, ele chamou Hayley. Sua foto era talvez a mais
perturbadora de todas para Alaric, porque ela tinha mais do que uma
leve semelhança com a filha de Martin, Simone. As duas tinham a ele
escura, com cabelos negros se espiralando ao redor de seus rostos
em cachos semelhantes.
Ela tinha sido encontrada na semana passada no Central Park, como
Aimee... Alaric, estudando as fotos em seu quarto de hotel, tinha
visto o que o público em geral - e alguns membros do esquadrão
policial - não tinham. Não havia dúvidas da causa de morte e muito
menos, já que as fotos tinham sido enviadas para o Vaticano, quem -
ou melhor, o quê - tinha sido responsável por aquelas mortes.
A única questão era, será que os Palatinos seriam capazes de
exterminar a ele - ou eles, porque Alaric, após ter visto as fotos, ficou
convencido de que tinha sido mais do que simplesmente um atacante
- antes do príncipe?
Ainda parecia assustador demais para Alaric que um vampiro poderia
estar em Nova York na verdade com uma missão similar à sua. E não
qualquer vampiro, mas o príncipe das trevas.
Mas Alaric achava que o príncipe não ligava para as garotas mortas.
Para ele, os assassinatos daquelas três garotas só significavam
possível exposição de sua raça ao público. A descoberta, pelo resto
da humanidade, de que vampiros não eram apenas uma invenção da
imaginação febril de Bram Stoker - algo que, se Alaric fosse honesto,
tinha de admitir que o Vaticano se dava ao trabalho de fazer tanto
quanto os vampiros. Eles não precisavam de outro surto de pânico
como o que se espalhou pelo Leste da Europa durante os anos 1700,
quando aldeões ignorantes, engabelados por charlatões se passando
por "exterminadores de vampiros", foram levados a acreditar que os
próprios membros de suas vamílias eram na verdade mortos-vivos e,
após serem coagidos a comprarem "armas contra vampíros" muito
caras, os arrancaram de suas covas e os decapitaram.
Fazia um certo sentido, Alaric pensou, que o príncipe estivesse lá,
tentando parar o assassino - o os assassinos - assim como os
Palatinos. Ele tinha que estar tão preocupado quanto o Vaticano que
se espalhasse a verdade sobre a existência de sua espécie.
Ainda assim. Isso deixava Alaric lívido, o fato de que ele podia ter o
mesmo objetivo que o príncipe.
Claro, Alaric tinha outro objetivo, além de achar, e parar, quem ou o
que quer que fosse que estava fazendo isso: ele pretendia destruir o
príncipe, também. Quer os seus chefes Palatinos aprovassem ou não.
Ele tinha passado um longo tempo remoendo sua frustração pela
tarefa na piscina do hotel mas tinha dado seguimento com um
excelente jantar no Per Se.
Então embora ele não estivesse feliz com sua situação, pel menos
estava comendo bem.
E ele certamente não morreria de fome enquanto ficava parado
encarando a entrada do Park Avenue, 910, esperando para ver se o
príncipe realmente apareceria.
Ele estava até memso começando a pensar que poderia - a
contragosto, é claro - aprovar as pessoas que ele tinha decidido
vigiar. Os Antonescu eram ricos - ricos imundos e fedorentos. Como
ele, eles pareciam não se envergonhar de aproveitar as coisas finas
da vida. Eles tinham a casa de verão na Romania - nada humildes, a
julgar pelas fotos - e pareciam curtir freqüentar restaurantes acima
da média. Na noite passada eles tinham jantado no Four Seasons.
Bem, "jantado" era um termo relativo. Claro que eles não tinham
comido muito, sendo as bestas nojentas de Satã que não respiravam,
que eles eram.
A mulher era a síndica do condomínio do Park Avenue, 910 - um tipo
de conselho que escolhia quem teria permissão ou não de morar no
prédio - sem dúvidapara que ela pudesse manter distante a escória
(pessoas como ele, Alaric pensou).
Ainda assim, ninguém que Alaric havia falado até agora tinha
qualquer coisa negativa para dizer sobre ela... e absolutamente
nenhuma delas havia seguido suas pistas de que ela possivelmente
era um membro dos mortos-vivos. (Não que ela precisasse dormir
em seu próprio caixão ou ter a terra de sua sepultura perto de si.
Estes eram outros antigos mitos que Stoker havia feito errado em seu
livro.) Ou ela não era vampira, ou ela e seu marido assimilavam
melhor do que qualquer outro demônio que ele já tinha visto. Ela
ainda atuava em várias instituições de caridade, era ela que ajudava
a pagar Acampamentos de Verão no Campo para crianças com
câncer.
Crianças com câncer. Bom disfarce, para uma sanguessuga.
O marido era proprietário e gerente de numerosas propriedades
imobiliárias por toda a cidade, e muitas vezes acompanhava sua
mulher nos eventos beneficentes, como aqueles para o Acampamento
do câncer.
Vampiros que participam de eventos beneficentes para arrecadar
dinheiro para acampamentos de verão para crianças... com câncer!
Hilário. Ainda mais hilário do que Betty and Veronica.
Agora, ele disse à Martin, tinha visto tudo.
Simone tinha agarrado o telefone enquanto Alaric ainda estava rindo
com seu pai sobre os vampiros que-vão-em-eventos-beneficentes e
disse, "Tio Alaric?"
"Sim, querida?"
"Você está indo pegar as pessoas que comeram a cara do meu
papai?"
"Sim," ele disse, moderando instantâneamente. "Sim, eu estou."
Assim como ele estava indo pegar quem quer que tivesse matado
Aimee, Jennifer e Hayley... ou qualquer que fossem os nomes reais
das vítimas.
Porque isso era o que importava. Se esses Antonescus realmente
estivessem relacionados a esse Lucien Antonescu, e ele era
realmente o príncipe das trevas, Alaric iria destruí-los. Todos eles. Ele
não se importava com o que seus superiores no Vaticano queriam ou
o quanto de dinheiro os Antonescus haviam doado para que crianças
com câncer pudessem ir ao acampamento. Eles ainda eram parasitas
- como carrapatos - que precisavam ser exterminados pelo que
fizeram com Martin. Com aquela garota, Sarah, do Walmart de
Chattanooga. Para aquelas mulheres mortas não-identificadas,
deitadas no necrotério.
E para os incontáveis outros como elas, que Alaric havia visto sendo
abusadas e vitimizadas por todos esses anos com a Guarda Palatina.
Eles precisavam ser destruídos como os canalhas que eram. Porque
eles iriam só criar mais criaturas como eles mesmos, que iriam
vitimizar mais pessoas como Martin e Sarah e aquelas garotas.
Vampiros eram uma imundície. E eles propagavam a sua imundície -
e doenças - para tudo e todos que tocavam.
Eles todos tinham que ser erradicados.
Não havia muito mais do que isso.
No meio tempo, Alaric ficaria parado do lado de fora do número 910
da Park Avenue e esperaria. Ele não se importava com quantas
senhoras idosas e pequenas passariam por ele e perguntariam o que
ele pensava que estava fazendo. Ele mostraria à elas as fotos de
Aimee, Jennifer e Hayley, se precisasse.
E talvez, já que estava com uma, mostraria uma foto de como o rosto
de Martin costumava ser.
Isso iria calá-las.
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