Capítulo Sessenta e Três
22h, sexta-feira, 23 de abril
Capela de St. Clare Sullivan Street, 154
Nova York, NY
Só quando estava na metade do caminho, Meena conseguiu parar de
tremer e começou a acreditar que tinha conseguido. Tinha dito não
para ele.
E ainda estava viva.
Tinha sobrevivido.
Não sabia o que ia acontecer depois.
Mas sabia que a terrível sensação de vazio no peito tinha sumido.
Conseguia pensar nele e ainda respirar. Estava a salvo.
E mais ainda, tinha um plano. Mais que um plano... tinha um
objetivo, pela primeira vez na vida.
Talvez tudo fosse ficar bem, como Alaric tinha dito. Talvez ela não
precisasse mais dormir em um quarto sem janelas.
Quando o táxi parou em frente da paróquia, tinha parado de chover.
A tempestade repentina tinha desaparecido.
Ela pagou o motorista, saiu do carro e subiu correndo os degraus até
a porta da frente. Pela primeira vez, não olhou ao redor, com medo
de que ele pudesse estar esperando por ela, observando das
sombras.
Tudo estava pingando, mas Meena não se importou. Era como se o
mundo tivesse sido batizado, lavado e renovado, só para ela. De
repente parecia uma noite adorável de primavera. Talvez ela até
convencesse Jon e Yalena a sair para tomar uma bebida com ela. Por
que não?
Não havia mais nada a temer.
Ela apertou o interfone.
Foi Jon quem abriu para ela, as roupas cobertas de pó do trabalho
que ele estava fazendo no apartamento de Adam e Leisha.
— Ei, por que você demorou tanto? — perguntou ele. — Achei que
você só ia visitar Leisha. O horário de visitas acabou há muito tempo.
Jack Bauer — sentindo, como sempre, que Meena tinha chegado —
pulou do colo de Yalena, que estava no sofá da sala de estar
assistindo TV, e correu para ela, latindo com alegria.
— Como está meu homenzinho? — Meena se ajoelhou para fazer
carinho nele, deixando que lambesse seu rosto. — Quem foi um bom
menino? Quem salvou o mundo hoje?
— Bom, ele não — disse Jon. — Ele fez cocô nas rosas da irmã
Gertrude. Ela não gostou. Falei que era um bom adubo, mas mesmo
assim ela não ficou feliz. Mas falando sério. Onde você estava?
— Você fez cocô nas rosas da irmã Gertrude? — perguntou Meena ao
cachorro, pegando-o e deixando que lambesse seu rosto mais um
pouco. Ignorou a pergunta do irmão sobre onde estivera. — Quem é
o pior menino? Quem é o pior menino do mundo?
Yalena, que os observava do sofá, deu uma risada. Meena havia
reparado que Yalena vivia de olho no irmão dela, Jon. Com
frequência. Mas Meena não tinha certeza se Jon se dava conta.
Mas ela notou que naquela noite Jon tinha dobrado bastante as
mangas da camiseta. Ela aprendeu com o tempo que ele costumava
fazer isso para mostrar suas "armas", das quais tinha muito orgulho,
sempre que havia uma mulher atraente por perto que ele queria
impressionar.
E ele não fazia isso para qualquer garota.
Tinha que ser Yalena que ele estava tentando impressionar com os
bíceps. Quem mais podia ser ali na paróquia de St. Clare? Todas as
outras mulheres eram noviças ou freiras.
Meena ficou feliz por ele ter transferido a afeição por Taylor
Mackenzie para alguém um pouco mais próximo.
— Tudo bem, não conte onde estava — estava dizendo Jon para
Meena com um tom de voz uma oitava mais grave do que seu tom
normal. — Abraham está procurando por você. Ele disse que houve
algum tipo de, sei lá, tumulto em Viena. Seja lá o que isso quer dizer.
E precisa conversar com você sobre isso. — Ele olhou para ela de um
jeito estranho enquanto Meena colocava Jack Bauer no chão, depois
tirava a jaqueta e a pendurava no cabide de casacos. — Por que ele
precisaria conversar com você sobre isso?
— Porque... — disse Meena. Estava se perguntando como ia explicar
isso para Jon. E quando. Agora parecia uma hora tão boa quanto
outra qualquer. — Vou começar a trabalhar para a Palatina.
Jon, que estava tomando refrigerante, imediatamente cuspiu o que
estava prestes a engolir. Isso fez com que Yalena, que ainda
observava os dois, desse mais algumas risadas.
— Espere — disse ele. — O quê? E Insaciável?
— Bem — disse Meena com um movimento de ombros —, vou pedir
demissão. Acho que é hora de seguir em frente. Preciso começar a
ajudar a tornar o mundo um lugar mais seguro.
— Mas você já faz isso — disse Jon. — Você diz o tempo todo para as
pessoas como elas vão morrer. Não que ninguém acredite. O que faz
você pensar que isso vai ser diferente?
— Hum — disse Meena, começando a subir a escada com Jack Bauer
atrás —, porque vão me pagar? Então devem estar propensos a
escutar.
— Não é verdade ninguém acreditar nela — disse Yalena do sofá. —
Eu acredito.
Jon lançou um olhar azedo para Yalena.
— Não a encoraje. Você tem alguma ideia do que ela me fez passar a
vida toda, praticamente? Sabia que a chamavam de Garota Você-Vai-
Morrer na escola? Experimente ser irmão disso.
Yalena só riu novamente do comentário.
Rindo, Meena subiu correndo o resto da escada. Queria colocar um
suéter antes de ir ver sobre o que Abraham precisava conversar com
ela. Era um pouco frio lã na paróquia.
Ela abriu a porta do quartinho sem janelas — falaria com a irmã
Gertrude no dia seguinte sobre se mudar para um novo quarto, um
que tivesse janelas — e foi direto para a pequena pilha bem
arrumada de roupas de segunda mão sobre a cadeira ao lado da
cama.
Ela tirou o suéter do topo da pilha e estava voltando para a porta
quando vislumbrou uma coisa com o canto do olho. Uma coisa sobre
a cama. Não estava lá quando ela saiu para ir ao hospital. Ela voltou
para olhar o que era, com Jack Bauer logo atrás.
Uma carta.
Havia uma carta meio enfiada debaixo da ponta do travesseiro dela
sobre a cama.
Meena se sentou na cama e pegou a carta, e Jack Bauer pulou sobre
o colchão para se deitar ao lado dela.
Mas os dedos de Meena ficaram paralisados quando ela viu a cor e o
tamanho do envelope.
Prateado. Exatamente da mesma cor do bilhete que estava na caixa
que Lucien tinha mandado para ela. A caixa que guardava a bolsa
com o dragão cor de rubi na lateral.
A bolsa, assim como o laptop, tinha virado cinzas na catedral de St.
George.
O sangue dela pareceu congelar nas veias. Meena olhou ao redor no
quartinho com as paredes nuas e brancas — nuas exceto pelo
crucifixo sobre a cama.
Não. Não era possível. Como ele tinha entrado lá? Era um quarto sem
janelas. A porta da frente da paróquia — definitivamente um portal
sagrado, do tipo que ele tinha garantido a ela que os vampiros não
podiam cruzar a não ser que fossem convidados — ficava sempre
trancada. E tinham consertado todas as janelas quebradas no ataque
da semana anterior...
Talvez, disse a si mesma, ao mesmo tempo em que seu coração
começou a bater com tanta força que ela só ouvia os batimentos, ele
tivesse enviado o bilhete por um mensageiro e alguém, quem sabe
Yalena, o tivesse posto no quarto...
Mas quando ela abriu o envelope com dedos trêmulos e viu a
caligrafia elegante e antiquada, percebeu que não tinha sido isso que
havia acontecido. De jeito algum.
Meena, minha querida, ele tinha escrito.
O que eu queria dizer agora mesmo, embora estivesse sofrendo e em
estado de choque, é que acho certo e bom para você trabalhar para a
Palatina. Espero que eles saibam o quanto têm sorte em ter você.
Mas isso não significa que vou-parar de tentar ter você para mim.
Você sabe tão bem quanto eu, Meena, que fomos feitos um para o
outro.
Espero que esse dia chegue logo.
Nesse meio-tempo: trégua.
Com todo o amor no meu coração,
Lucien
Estupefata, Meena ficou olhando para o cartão cor de marfim, no qual
a tinta ainda não tinha secado completamente. Ela soube disso
porque já tinha conseguido manchar uma parte com o dedão.
Como ele tinha feito aquilo? Como tinha conseguido entregar o
bilhete tão rapidamente, antes que — Meena tinha certeza — ela
mesma saísse do táxi?
Meena não sabia.
E não tinha certeza se queria saber. Tudo que sabia ao certo era que
tinha sido mesmo o olhar dele que havia sentido todas as noites
quando lavava a louça na cozinha da paróquia. Tinham sido mesmo
os olhos dele, observando-a da escuridão.
Teria ele evitado se aproximar dela porque suspeitara que ela não
estava pronta para vê-lo de novo depois do que havia acontecido e
tinha preferido que ela tivesse pelo menos aquele lugar para se sentir
segura?
Ou será que estava esperando que ela estivesse pronta, que parasse
de ter medo e fosse até ele?
É claro. É claro que era isso que tinha acontecido.
Só que, em vez de concordar em se tornar sua esposa quando
finalmente foi até ele, do jeito que ele esperava, ela fez o
impensável: Ela mudou de lado e se juntou ao inimigo.
E agora ele queria que ela soubesse que, onde quer que ela fosse,
fosse lá o que fizesse no resto da vida dela, ela não podia escapar.
Não com tanta facilidade.
Ele sempre estaria lá, na escuridão. Observando. Esperando. Para
protegê-la, era como ele sempre encararia.
E Meena não tinha a menor dúvida de que ele a protegeria. Ele
protegeria cada segundo da vida dela.
Ela olhou para a caligrafia graciosa e um tanto antiquada. Uma
trégua, ele chamara.
Ela sorriu.
Depois enfiou o bilhete debaixo do travesseiro, chamou o cachorro e
desceu para se juntar a Abraham e aos outros.
Não tinha medo. Não mais.
Só conseguia pensar que Lucien tinha errado no primeiro bilhete. Ela
não tinha matado o dragão. Não mesmo.
Esperava que ninguém jamais conseguisse.
FIM
Nota da Autora
Todos os detalhes sobre a vida de Vlad, o Empalador (Vlad Drácula),
mencionados neste livro — incluindo o suicídio por afogamento no Rio
da Princesa da primeira esposa dele; o desconhecimento da
localização dos restos dele; e o fato de que Bram Stoker pegou o
sobrenome dele emprestado para o título de seu clássico — são
historicamente precisos.
A GUARDA PALATINA foi uma unidade militar real do Vaticano,
formada em 1850 para defender Roma contra ataques de invasores
estrangeiros. Atualmente, a Guarda Palatina aparece na maioria das
enciclopédias e mecanismos de buscas como extinta.
A IGREJA LOCALIZADA na Sullivan Street, 154, na cidade de Nova
York, se chama Capela de St. Anthony of Padua, não Capela de St.
Clare. No entanto, a Capela de St. Anthony é dirigida por freis
franciscahos. Santa Clara, uma das primeiras seguidoras de São
Francisco de Assis, fundou a Ordem das Irmãs Pobres de Santa Clara,
mais conhecida hoje em dia como Ordem das Clarissas.
SANTA CLARA FOI DESIGNADA a padroeira da televisão em 1958
pelo papa Pio XII,
SÃO MIGUEL ARCANJO, Santa Joana D'Arc e São Jorge são os
padroeiros dos militares.
TRAGICAMENTE, NÃO EXISTE MAIS uma catedral localizada na rua
78.
HÁ TANTAS PESSOAS a quem devo muitos agradecimentos pela
ajuda e apoio enquanto eu escrevia este livro que, se eu listasse os
nomes de todas, a lista seria mais longa que o próprio livro. Então
vou apenas dizer muito obrigada a todos! Um agradecimento especial
vai para Beth Ader, Jennifer Brown, Barbara Cabot, Benjamin Egnatz,
Carne Feron, Michele Jaffe, Laura Langlie e Abigail McAden.
MANDO TAMBÉM um agradecimento extraespecial para todos os
meus leitores.
MEG CABOT
Fique ligado na Traduções de Meg Cabot para novas
traduções, digitalizações e novos livros lançados pela Meg!
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