Parte 1
1
Meena Harper sabia coisas, coisas que ninguém mais sabia... coisas que ninguém mais podia saber.
Uma delas era que o homem sentado ao seu lado no carro ia morrer.
Também havia muitas coisas que Meena Harper não sabia.
Uma delas era como dar a notícia da morte iminente para ele.
— Meena — disse ele, olhando para o perfil dela. — Você não faz ideia de como estou feliz em vê-la. É engraçado ter me ligado. Eu estava justamente pensando em você.
— É ótimo ver você também — concordou ela.
Era mentira. Não era ótimo vê-lo. Como contaria para ele? Principalmente porque a aparência dele estava péssima. O cheiro dele estava péssimo. Ou talvez fosse o interior do carro. Ela não conseguia identificar que cheiro era aquele.
— Eu também estava pensando em você — mentiu ela mais um pouco.
— Obrigada por vir me encontrar.
Ela olhou para a rua escura e estreita. Sentia-se culpada por falar tantas mentiras, inclusive que aquela era a rua onde morava. E por ter dito que ele não podia subir porque us pais da colega de apartamento estavam hospedados lá.
— Tem certeza de que não quer ir tomar um café? — perguntou ela.
— Tem um lugar logo ali na esquina. Seria bem melhor do que ficar sentada aqui no carro.
Principalmente por causa daquele cheiro. E do que tinha que dizer a ele.
— Tenho certeza — disse ele, sorrindo. — Você não faz ideia do quanto senti a sua falta.
Isso era novidade para Meena. Ela não tinha notícias dele havia mais de um ano. A separação havia sido relativamente amigável, embora na época tivesse ficado convencida de que estava de coração partido. Ela era uma roteirista que tentava ganhar a vida escrevendo para uma novela agora cancelada. Ele era um dentista especializado em coroas de cerâmica que queria se mudar para o subúrbio e construir uma família.
Naturalmente, as coisas não deram certo.
— Achei que você e Brianna estivessem muito felizes — falou ela. — Por causa do seu novo consultório, do bebê e tudo mais.
Isso só tornava tudo pior. Como ia dar a notícia sobre a morte iminente quando ele tinha tantos motivos para viver?
Ele deu uma risada amarga.
— Brianna. Ela não significa nada para mim.
— É claro que significa — disse Meena, surpresa. — O que você está dizendo?
Agora Meena estava preocupada de verdade com ele. David a tinha largado por Brianna, que era o mundo para ele.
Tinha que ser um tumor no cérebro. Fora isso que quase o matou da primeira vez. Mas ela havia pressentido e o avisou. Os médicos conseguiram encontrar o tumor a tempo de salvar a vida dele.
E era uma pena que o fato de ela saber sobre o tumor o tenha apavorado tanto que ele fugiu direto para os braços da enfermeira da radiologia.
Mas tudo bem. Meena tinha dado a volta por cima. É claro que essa nova vida havia sido destruída por Lucien Antonesco, o homem que lhe ensinou a verdadeira sensação de um coração partido.
E ela conseguiu nunca mais pensar nele.
Quase nunca.
Só que ultimamente ela vinha tendo sonhos terríveis com David. Nesses sonhos, ele estava morto. Não é que ela visse o cadáver. No sonho, ela não conseguia ver o futuro de David. Só escuridão.
Quando ela acordou, depois de sonhar com isso pela terceira manhã seguida, sem fôlego pela sensação da escuridão se fechando ao seu redor, soube que não tinha outra escolha além de ligar para ele.
Mas também sabia que não podia dar uma notícia assim pelo telefone. Eles tinham que se encontrar pessoalmente.
David ficara surpreendentemente ansioso e se ofereceu para passar na casa dela quando estivesse voltando para Nova Jersey, depois do almoço e de uma reunião com dentistas que tinha na cidade.
Mas como Meena sabia que não devia dar o novo endereço para ninguém, nem mesmo para ex-namorados com quem já tinha vivido, ela automaticamente deu um endereço falso e foi ao encontro do carro quando ele estacionou em frente ao prédio.
E, agora, ela começava a se arrepender desse plano. David agindo de um jeito muito esquisito. E que cheiro era aquele?
— Você — disse ele. — Sempre foi você, Meena.
— David. — Meena estava confusa. — Você me largou pra ficar com Brianna. Disse que queria uma pessoa que desse vida às pessoas, não alguém que previsse mortes. Lembra?
— Eu devia ter ficado com você. Devia mesmo. Nos dávamos tão bem, eu e você, tão melhor do que eu e Brianna. Por que não fiquei com você, Meena? Por quê? Você era mágica, com sua... magia.
Por fim, ela compreendeu. Pelo menos agora sabia o que estava provocando o cheir6 estranho. E isso tornava o trabalho dela bem mais simples.
— Tudo bem — disse ela, procurando a garrafa pelo chão do carro. Ou talvez ele ainda estivesse bêbado desde o almoço. Quantos martínis os dentistas bebiam quando se reuniam para almoçar, afinal?
— Lembra quando você usou sua magia e eu fiquei bom? Faça de novo. Estou implorando.
— Não é assim que funciona — declarou Meena, ainda procurando a garrafa. —Não estou dizendo que não posso ajudar. Acho que posso. Você só vai ter que me ajudar também e me dizer onde está a garrafa.
Foi quando ele se lançou por cima do banco para beijá-la. E ela achou a garrafa. Era na verdade uma garrafinha de bolso, que estava sendo pressionada com força contra sua coxa de dentro do bolso da calça dele.
Ah, droga, pensou Meena. É isso que mereço por tentar bancar a salvadora. For
que sempre volto a fazer isso?
Ah, claro. Porque esse era seu trabalho.
E isso era uma coisa boa, pois achava que não conseguiria viver com a culpa de outra alma ter morrido no seu plantão. Tinha acontecido mais de uma vez, principalmente desde que conheceu Lucien Antonesco, que infelizmente se mostrara ser um dos demônios caçados pela Palatina — a organização pela qual ela havia sido contratada, depois de ter sido despedida sem cerimônia alguma da novela (antes do cancelamento).
E não era um demônio qualquer. Era o líder de todos os demônios na Terra, o príncipe das trevas.
Meena nunca tivera mesmo muita sorte no quesito namorados.
E como a maioria das pessoas não acreditava nela quando lhes contava que estavam prestes a morrer, também nunca teve muita sorte nessa área.
Não tinha certeza do que a levou a pensar que o ex, David Delmonico, valia a pena ser salvo. Até onde ela sabia, o planeta não ia ficar muito pior se ele simplesmente desaparecesse.
Mas havia o bebê, pensou ela. O bebê merecia ter um pai.
— Meena — gemeu David outra vez. Felizmente, ele tinha afastado os lábios dos dela, e agora estava grudado em seu pescoço. Graças a Deus, porque o hálito dele fedia ainda mais do que o carro.
Tirando o fato de que agora ele estava tentando enfiar as mãos pelo decote do vestido dela... o vestido cuja bainha ela mesma tinha feito, com uma ajudinha de Yalena, no brechó. Porque embora o novo emprego de Meena pagasse bem, ela teve que comprar roupas novas, depois que todas que possuía foram destruídas por um bando de parentes de Lucien Antonesco, os Dracul. Frequentar brechós tinha se tornado um novo hobby para ela.
— David — disse ela, usando o cotovelo para empurrá-lo pelo ombro. Mas não com muita força, porque sentia um pouco de pena dele. Afinal, era um homem à beira da morte. — Não foi por isso que liguei.
— Sim — continuou ele com outro gemido. — Foi por isso sim. Meena linda. Que idiota eu fui...
— David. Ela puxou a cabeça dele pelos cabelos e o olhou nos nos. Eram duas fendas embriagadas.
— O quê...? — perguntou ele, com olhos embaçados.
— Lamento que você esteja tendo problemas na sua vida pessoal. Mas você escolheu Brianna e não a mim, lembra? E eu superei.
— Mas... — Os olhos dele começaram a se focar um pouco mais. Você disse ao telefone que não estava saindo com ninguém.
Ela continuou a segurar a cabeça dele pelos cabelos.
— Não estou. — Que simpático da parte dele esfregar na cara dela o fato de estar solteira. Como se fosse culpa dela que o último namorado tivesse tentado queimar metade do Upper East Side. — Mas por que você acha que isso quer dizer que estou a fim de ter um caso com você?
Ele sacudiu um dedo na direção dela.
— Aceite, Meena. O fato de ainda estar solteira significa que nunca me esqueceu.
— Ou talvez signifique que há um cara com quem saí depois de que eu nunca esqueci. Ou essa possibilidade nunca lhe ocorreu? É, eu achei que não.—— Ela soltou a cabeça dele para se inclinar e tirar a chave da ignição. -—David, vá pra casa e fique sóbrio.
Ela não ia falar para ele. Não desse jeito. Não enquanto ele estivesse bêbado e se comportando tão mal. Primeiro, porque ele poderia não se lembrar quando ficasse sóbrio.
E segundo, ele podia não lidar bem com a informação. Quem sabe o que poderia fazer? Pular da ponte George Washington, talvez.
E sempre havia uma chance. Meena tinha aprendido que as coisas podiam melhorar. Nossos destinos não estavam selados. Veja David. Ela o tinha avisado uma vez que ele estava morrendo, e ele tomou uma medida preventiva quanto à saúde, e agora estava...
Bem, talvez David não fosse um bom exemplo. Mas conseguia pensar em muitos outros. Alaric Wulf, um dos guardas palatinos com quem trabalhava. Ela o avisava quase todos os dias sobre alguma nova ameaça para a qual ele estava se dirigindo, e como ele a ouvia, continuava vivo.
Era uma pena que ele não a ouvisse sobre mais nada.
— Aprecie o que tem, David — aconselhou Meena, em vez de avisá-lo que seus dias estavam contados. De novo. — Você tem muita coisa, e a
verdade é que... você pode não ter isso por muito tempo.
— Mas — disse ele, parecendo confuso. — Eu quero você.
— Não — retrucou Meena com firmeza. — Me largar pra ficar com Brianna foi a coisa mais inteligente que você já fez. Acredite. Não fomos feitos um para o outro. Pegue um táxi até a Penn Station e o trem de volta para sua linda e segura casa em Nova Jersey. Eu mando isto pelo
— Ela sacudiu as chaves na frente dele. — Você vai me agradecer um dia, tenho certeza.
O que provavelmente só aconteceria depois que David estivesse sóbrio e ela tivesse ligado para dar as más notícias, e ele aproveitasse para marcar um exame médico completo.
Meena começou a abrir a porta para sair do carro e voltar para o novo apartamento, para a nova vida, da qual tinha certeza que David, se conhecesse, fugiria em um nanossegundo.
Pois havia muitas coisas que Meena Harper sabia e que seu ex- namorado nem imaginava. Não só como as pessoas iam morrer e que demônios e caçadores de demônios não eram personagens de ficção, mas que em cada criatura do planeta, demônio ou não, havia a capacidade para o bem e para o mal.
E que tudo que era preciso para alguém ultrapassar os limites era o menor dos empurrões.
Era uma pena que suas premonições não a avisassem quando seria bom fazer uso de um desses empurrões, nem com que finalidade... e nem quando a morte iminente era a dela própria.
Essa informação poderia ter sido útil para Meena naquele momento, quando estava saindo do carro de David e ele esticou a mão e agarrou seu pulso com força.
A pior parte foi que ele não falou nada. Apenas ficou com a mão ao redor do seu pulso, com o olhar fixo e morto.
E abriu bem a boca, revelando um par de caninos afiados.
2
A Reação de Meena foi puramente instintiva. Ela levou a ponta da chave do carro, que ainda estava em sua mão livre, direto para o rosto dele.
Mas, com os reflexos surpreendentemente rápidos para alguém tão embriagado, ele pegou a mão dela bem antes de as chaves chegarem perto de sua pele.
Em seguida, ele ergueu calmamente os braços de Meena por cima da cabeça, até que estivesse segurando com uma das mãos os dois pulsos dela contra o apoio de cabeça do banco do carro.
Um segundo depois, puxou uma alavanca e o encosto do banco do carona caiu para trás, e ela ficou quase completamente deitada dentro do carro.
Quando se deu conta, o ex-namorado estava em cima dela.
Meena olhou para ele sentindo um misto de medo, raiva, humilhação e surpresa. Como isso tinha acontecido? E como pôde ter sido tão burra? Como não percebeu que todos aqueles sonhos com David foram um aviso, não uma profecia? O tumor cerebral não havia voltado.
Ele tinha virado vampiro.
Mas como? E por quem? A Palatina, a organização para a qual Meena trabalhava atualmente, tinha passado os últimos seis meses caçando e destruindo todas as formas de vida demoníacas que conseguiu encontrar em Nova York, Nova Jersey e Connecticut, com uma brutalidade sistemática que fez até Meena, que possuía todos os motivos do mundo para odiá-los, sentir um pouco de pena desses seres. Não era culpa deles, afinal. Eles tinham sido contaminados.
Isso não podia estar acontecendo.
Principalmente com ela, que tinha sido treinada para se defender desse tipo de coisa.
— David. — Ela gemeu enquanto tentava soltar as mãos da dele. Se pudesse alcançar a bolsa, pegaria a estaca afiada que sempre levava consigo e a enfiaria no coração dele.
Então lembrou que não tinha se dado o trabalho de levar a bolsa. Havia saído do apartamento sem nada além do celular e das chaves enfiadas no bolso interno do cardigã de lã que foi vestindo ao sair. Não imaginou que o encontro fosse durar tanto tempo. Afinal, só ia contar para David que ele estava morrendo.
Mas David já estava morto.
E era por isso que ela não conseguia se soltar. Ele tinha força sobrenatural.
— Quem fez isso com você? Como isso aconteceu? E o que você quer? O que você acha que quero? — disse ele, falando arrastado. Seus olhos mortos ainda não estavam completamente abertos. Ele era bem mais pesado do que ela, O tronco dele era praticamente um peso morto. E ele era tão, tão forte. E seu hálito ainda fedia.
— Você sabe para quem eu trabalho agora? — perguntou ela por entre os dentes cerrados. — É melhor me soltar, ou você não tem ideia do tamanho do problema que vai ter.
— Não — disse ele simplesmente, e afundou o rosto em direção ao pescoço dela.
Seu vestido era de saia rodada e um tanto curto. Ela devia ter conseguido erguer um joelho facilmente para atingi-lo onde interessava.
Mas era difícil, com o painel do carro no caminho, sem contar o peso do corpo dele pressionando o dela. Também estava difícil respirar e ele segurava os pulsos dela com tanta força que cortava a circulação das mãos.
O pânico de Meena aumentou. Não só por causa dos dentes que ainda não tinha sentido furando sua pele, mas porque se deu conta de que a coisa dura sob a calça dele não era só uma garrafa de bolso. Não mais.
Quando David começou a mexer no zíper com a mão livre, o desejo de
Meena de escapar superou todos os pensamentos racionais.
Ela encheu os pulmões com o ar fétido e soltou um grito agudo que fez com que David, cujo ouvido estava ao lado da boca de Meena, erguesse os lábios de seu pescoço e falasse um palavrão.
Foi nessa hora que a porta do lado do motorista do Volvo de David não foi apenas aberta, mas arrancada.
E, um segundo depois, David desapareceu completamente.
Ele simplesmente pareceu sumir. Um minuto antes, estava ali, em cima dela.
No minuto seguinte, tinha sumido.
Desorientada por causa do choque, Meena ficou ali deitada, ofegante enquanto tentava recuperar o fôlego e fazer com que o sangue voltasse a circular nas mãos, depois tentando entender o que havia acabado de acontecer. Será que tinha sonhado? A parte em que estava tentando fazer a coisa certa e salvar David Delmonico — que obviamente nunca mereceu ser salvo — e ele acabou se revelando um vampiro?
Mas não fora um sonho, porque quando ela virou a cabeça, viu que a porta do lado do motorista tinha desaparecido.
A rua deserta estava silenciosa, exceto pelos sons habituais da cidade... Em algum lugar ao longe, uma sirene soou. Ela podia ouvir o trânsito na avenida. Não muito longe, havia música saindo por alguma janela aberta.
E então, do nada, um corpo caiu no capô do carro, fazendo com que o veículo todo quicasse como um brinquedo de parque de diversões, O para-brisa afundou, estilhaçado.
Meena gritou de novo, sua voz ecoando pela rua toda.
David estava ali deitado, completamente imóvel — não muito diferente de um cadáver.
Ela não se deu conta do que tinha acontecido com ele — que David não tinha sido agarrado por macacos voadores e depois largado sem vida sobre o capô do próprio carro, onde agora estava deitado, imóvel — até que o homem que tinha feito isso bateu educadamente na janela ainda fechada da porta do banco do carona.
Ela gritou de novo antes de reconhecer quem a olhava pelo vidro.
— Meena? — Os olhos escuros dele estavam tomados de preocupa Você está bem?
Era Lucien Antonesco.
3
-Estou bem-respondeu Meena automaticamente.
Ela destrancou e abriu a porta, depois saiu do carro, um pouco trêmula, mas com toda a decência que conseguiu reunir. Lucien segurou a porta para ela, porque era o tipo de homem que sempre se lembrava de segurar a porta para uma mulher.
Também era o tipo de homem que tinha, diante dos olhos de Meena, destruído uma igreja e quase a matado, junto com vários amigos dela.
Então havia isso a ser levado em consideração.
— Tem certeza de que está bem? — perguntou ele de novo.
Na verdade, ela sentia como se fosse desmaiar, mas mentiu e repetiu:
— Estou bem.
Não era exatamente uma mentira. Agora que estava fora do carro, o ar da noite a fez se sentir renovada, com seu aroma deliciosamente fresco (depois do fedor do interior do Volvo de David), apesar das latas de lixo empilhadas na rua ali perto.
— Ele está...? — Ela olhou para David, que ainda estava jogado por cima do capô do carro, com a cabeça virada em uma posição nada natural. Afastou rapidamente o olhar. — Ele está...?
Lucien franzia a testa.
— Tecnicamente, ele estava morto antes que eu chegasse. Mas não, ele está apenas se recuperando de um pescoço quebrado. Tome. Você está sangrando.
Ele entregou um lenço a ela. Meena olhou para o próprio corpo, assustada. Havia gotas de sangue na parte da frente do vestido.
— Ah, meu Deus — disse ela. — Onde...?
Lucien gesticulou em direção ao pescoço dela.
— Ele me mordeu? — Tarde demais, ela se lembrou do modo como David pressionou os dentes contra seu pescoço e de como havia ficado aliviada por não ter que sentir mais o hálito desagradável. — Mas não senti nada...
Ela parou de falar. Também não tinha sentido nada nas outras vezes em que havia sido mordida.
Pelo homem que estava de pé ao seu lado.
— Não. Não é para sentir mesmo. — Estava claro que Lucien também se lembrava daquelas vezes. Mas ele olhou discretamente para o outro lado, na direção de David. — Quem é ele? Amigo seu?
Ele falou a palavra amigo com desgosto, embora estivesse estrategicamente tentando não demonstrar.
— É só um cara com quem eu saía — disse ela. Apertou o lenço contra o pescoço e olhou para Lucien, pensando que exatamente a mesma coisa podia ser dita sobre ele.
E ele parecia consideravelmente melhor do que David naquele momento. Ele era intimidante, com sua altura e os ombros largos, o cabelo negro grosso e brilhoso. Lucien estava tão bonito e arrumado como sempre, com seu terno escuro Brioni e a camisa branca impecável. Era como se o tempo não tivesse passado desde a última vez em que o viu.
Mas, na verdade, seis meses haviam se passado.
Seis meses durante os quais as pessoas com quem ela trabalhava — Alaric Wulf em particular — tinham vasculhado cada centímetro da cidade, assim como os distritos mais próximos, à procura dele, sem sucesso.
E ali estava ele, bem na frente dela, como se nunca tivesse ido embora.
— Tenho tido pesadelos com ele — continuou Meena lentamente. Ainda se sentia um pouco confusa. — Eu queria que ele soubesse que estava em perigo...
— É claro que queria — disse Lucien. Os cantos dos lábios dele se ergueram um pouco, como se achasse alguma coisa um tanto diverti Suponho que tenha sido ele quem escolheu o local do encontro.
—Não. Fui eu. Mas... — Ela ficou ali de pé, com os pulsos ainda latejando no ponto em que David os tinha segurado com tanta violência. —
Como isso pode ter acontecido?
— Ao que tudo indica, ele tem saído com pessoas diferentes desde que você o conheceu — disse Lucien. Ele parou de sorrir. — Pouquíssimas pessoas conseguem resistir à imortalidade quando a oferecem. O vampirismo é um estilo de vida extremamente tentador e excitante.
Meena olhou para o chão. Era uma das “pouquíssimas pessoas” que tinham resistido à opção do vampirismo quando oferecido a ela. Por esse motivo, ela e Lucien não estavam mais juntos.
Bem, era uma das razões.
— Não consigo acreditar que ele seja uma dessas pessoas. Ele tinha mulher. E um bebê.
— Bem, ele não tem nada agora. Exceto um apetite voraz por sangue. Ah, e álcool, pelo visto. Ele fede como uma destilaria.
— Eu peguei as chaves dele — disse Meena, mostrando-as. — Pensei que o estaria protegendo ao evitar que dirigisse bêbado. Achei que não era seguro ele sair pelas ruas nessas condições.
— Não é seguro ele sair pelas ruas nessas condições — concordou Lucien. — Mas não por causa do que pode acontecer se ele dirigir.
Meena se sentia deprimida, e não só por causa de David. Não fora assim que tinha imaginado seu reencontro com Lucien.
E tinha imaginado esse momento mais vezes do que gostaria de admitir.
Mas sabia que isso era errado, e não só por ele ser o homem mais procurado em todo o universo de caçadores de demônios, com fotos dele em preto e branco grudadas em quase todas as paredes do quartel- general da Palatina. Era obrigada a passar por elas todos os dias nos corredores do trabalho. Sabia que era errado também por causa dos outros sonhos que vinha tendo. Os sonhos que tinha desde que ela e Lucien se separaram, bem antes de começar a ter os sonhos com David.
Foram esses sonhos que a levaram a fazer um pedido nada ortodoxo a uma área altamente restrita (ao menos ao público) de seu empregador.
Meena nem tinha cem por cento de certeza de que possuíam aquilo que ela queria. Mas se estivesse lá, podia ser a chave de tudo.
A resposta, até o momento, tinha sido um retumbante silêncio.
— Como pude não perceber imediatamente que ele já estava morto? — perguntou ela com tristeza, olhando para o corpo de David. Se as coisas fossem assim a partir dali, era melhor pedir demissão. Era possível que ela estivesse melhor trabalhando como roteirista.
Por outro lado, ninguém que conhecia naquela área conseguia novos empregos, graças ao sucesso dos reality shows, como aquele sobre donas de casa da cidade de Nova York.
—Não seja tão dura consigo mesma — disse Lucien, sorrindo de Ele foi transformado recentemente, no máximo há um ou dois dias. E não está lidando bem com isso, a julgar pela ingestão de álcool. E, se tivesse ido para casa, teria matado o bebê e a mãe, é claro. Então você salvou duas vidas esta noite.
— Você salvou duas vidas esta noite — afirmou ela, olhando para ele. Essa era uma coisa que certamente contaria para Alaric Wulf, que costumava jurar que Lucien Antonesco era a encarnação do mal. Mas por que alguém mau se interessaria em salvar vidas? E é claro que não podia contar para Alaric, porque ele caçaria Lucien e o decapitaria. — Três, se incluir a minha.
— Não concordo — replicou Lucien friamente. — Ele não queria matar você. — Acenou com uma das mãos na direção do pescoço dela. — Você se importa? É um pouco... perturbador.
— Ela ficou vermelha e apertou o lenço dele contra a ferida no pescoço. — Me desculpa.
Ela pensou com raiva que isso não ajudava a sustentar a teoria de que Lucien não era como os outros vampiros. Ele obviamente não era imune à visão de sangue.
Nem mesmo o sangue dela.
— Será que posso perguntar — disse Lucien, enquanto atravessava a rua em direção a alguns móveis empilhados ao lado das latas de lixo perto de uma varandinha — por que concordou em se encontrar com ele neste veiculo? Achei que a essa altura você teria já aprendido a ser mais cuidadosa.
Meena amarrou o lenço ao redor do pescoço enquanto o observava virar uma cadeira abandonada e dar um chute vigoroso em uma das pernas.
— Principalmente considerando seu novo emprego. Ou será que não
treinaram você direito? — Ele pegou o pedaço quebrado da cadeira e entregou a ela, depois se aproximou de David, que estava começando a voltar a si, apesar do pescoço terrivelmente torcido.
Ela levantou o queixo com indignação.
— É claro que fui treinada. Mas isso era diferente. Eu o conheço.
— Você o conhecia — disse Lucien, corrigindo-a.
— Eu quis dizer que somos velhos amigos. Nós morávamos juntos. E, mesmo assim, fui cuidadosa. Não falei para ele onde eu morava nem nada.
Ele respondeu com ironia:
— Não. Você se sai muito bem quando quer manter essa informação em segredo.
Ela lhe deu um olhar gélido. O que ele queria dizer? Será que andava procurando por ela, do mesmo modo que a Palatina andava procurando por ele?
Bem, ele a tinha encontrado. Provavelmente, já havia algum tempo.
Ela se perguntou por que ele esperou até que alguém a atacasse para ir falar com ela.
— Acho que nunca me ocorreu que alguém que um dia amei pudesse querer me matar — disse ela com tristeza quando David começou a esfregar o pescoço e gemer.
Apesar de Lucien uma vez ter tentado fazer exatamente isso... havia sido um pouco diferente.
— Mas ele não queria matar você, queria? — perguntou Lucien. — Pensei que tivesse entendido isso. O que foi que você me contou uma vez sobre a filha do rei de Troia?
Os olhos de Meena se encheram de lágrimas de repente... não pela repreensão, mas pelo fato de ele se lembrar. Havia sido em uma conversa durante uma época mais feliz. Meena tinha quase certeza agora de que nunca seria tão feliz novamente. A não ser que conseguisse provar para todo mundo, inclusive para o próprio Lucien, que ele não era o monstro que parecia.
— Que ela ganhou o dom da profecia — respondeu ela, mantendo os olhos no chão na esperança de que Lucien não reparasse que transbordavam. — E como não retribuiu o amor de um deus, o dom foi transformado por
esse deus em uma maldição, de forma que suas profecias, embora verdadeiras, não fossem levadas a sério.
— Bem, suas profecias são levadas a sério. Por eles. — O tom de Lucien foi amargo, e ele indicou David com o queixo. — Como você sabe, qualquer demônio que beba seu sangue possui temporariamente seu dom da profecia. É uma tentação irresistível para a maioria deles. E, pelo que vejo, não estão descartando a ideia de transformar seus amigos e familiares em um deles para atrair você para um local exposto e conseguirem o que desejam. Eu uma vez ofereci proteção contra isso,
Meena ergueu um pulso para limpar os olhos úmidos.
— Você está certo — disse, olhando para David enquanto ele se contorcia no capô do carro, tentando colocar a cabeça na posição normal. — Eu recusei sua oferta de proteção porque o preço era alto demais para mim. E eu jamais deveria ter concordado em vir me encontrar com ele. Eu nunca devia ter saído do meu apartamento sem ser para ir trabalhar. Por que eu deveria esperar ter uma vida normal, considerando o que sou?
Lucien olhou para ela com expressão de remorso.
— Meena — disse ele, aparentemente arrependido das palavras du Eu não quis dizer..
— Não.— Ela o interrompeu, dando de ombros. — É verdade. Exceto por uma coisa. — Não havia lágrimas nos olhos dela quando ergueu o olhar para ele. — Você não é um deus, Lucien.
— Não. — Sua boca se contorceu com sofrimento. — Sei que não sou. Se eu fosse, eu...
Mas ele não teve oportunidade de terminar, pois David, com a cabeça de volta no que era mais ou menos sua posição normal, se sentou olhou para eles.
— Quem é você? — perguntou ele para Lucien.
O céu, antes limpo, ficou escuro. A lua desapareceu atrás de algumas nuvens de tempestade. A música que saía da janela ali perto tinha arado havia um bom tempo. Um vento frio soprou, levantando folhas ecas e sacos plásticos abandonados e agitando o cabelo de Meena e a saia de seu vestido.
— Você devia me conhecer A voz de Lucien era tão grave e imponente que parecia reverberar pelo peito. Essa voz também carregava um quê de
gélido que fez os pelos dos braços dela se arrepiarem. —— Sou o profano, o líder de toda vida demoníaca no lado mortal do inferno, o mau em forma humana. Sou o príncipe das trevas, filho de Vlad,o Empalador, também conhecido como Drácula.
Quando ele falou o nome Drácula, outra rajada de vento percorreu a rua, dessa vez vinda de outra direção, fazendo todas as folhas e todos os sacos plásticos que tinham voado antes seguirem na direção oposta. Meena tremeu e apertou o cardigã com uma das mãos. David pareceu percebê-la pela primeira vez desde que acordou.
— Ah — disse ele, com uma voz levemente menos truculenta. Ele começou a se afastar de Lucien e ir na direção dela. — Eu me lembro agora. Acho que alguém falou de você. Mas eles disseram que você estava morto
— Como pode ver — disse Lucien, esticando a mão para agarrar a frente da camisa de David e puxá-lo mais para perto — -, eles estavam errados. Agora, quem são eles?
O olhar de David se desviou na direção
— Ei. Você não vai me ajudar aqui?
Ela usou o pedaço de madeira que Lucien tinha entregado a ela para apontar para o lenço amarrado ao redor do pescoço.
— Espere aí — disse ela. — Você se lembra disso? Foi você quem fez. Dentre outras coisas que eu poderia mencionar, mas não vou.
Para a surpresa dela, David caiu em lágrimas.
— Me desculpe — falou ele, chorando. — Eu não queria. Juro que não. Mas não consegui parar. Não sei o que tem acontecido comigo. Acho que estou doente. Meena, você sentiu minha temperatura? Acho que estou com febre.
Meena ergueu uma sobrancelha.
— Hum, tenho certeza de que não é febre.
Lucien não estava tolerando nem um pouco o drama de David. Ele o ergueu pela camisa e o tirou de cima do capô do carro.
— Me conte quem transformou você e quem o mandou até esta moça, ou desta vez arranco sua cabeça.
— Não sei — insistiu David com um soluço. . — Não sei do que você
está falando. Por favor, me ponha no chão. Lamento pelo que fiz a Meena. Já falei que não consegui me controlar...
Lucien apertou a garganta de David, sufocando o resto das palavras. Embora obviamente os vampiros não respirassem, os barulhos que David começou a fazer foram insuportáveis para Meena. Ficou claro que ele estava sofrendo muito.
— Lucien — disse ela, com dor no coração. — Pare. Você o está machucando. Ele disse que não sabe de nada.
— Ele está mentindo — afirmou Lucien, sem emoção e sem olhar na direção dela. — É um demônio cruel e perverso.
— Conheço algumas pessoas que diriam o mesmo sobre você. Como vou convencê-los de que estão enganados e que devem lhe dar uma segunda chance se você não faz o mínimo pra provar o contrário?
Lucien lançou um olhar surpreso por cima do ombro.
— Do que você está falando
— Sei que há bondade em você, Lucien — disse ela. — E estou tentando persuadir as pessoas para quem trabalho de que tenho razão. Mas você dificulta muito quando sai por aí torturando os outros. Mesmo pessoas que talvez mereçam.
Ele a olhava como se ela fosse louca.
— Como você, dentre todas as pessoas, pode me pedir para ser misericordioso com ele? Principalmente depois do que ele tentou fazer com você? Como pode ter pena dele? Não há vestígio algum de humanidade aqui.
— Isso pode ser verdade quanto a David. Mas me recuso a acreditar nisso com relação a você. Como posso, depois do que passamos juntos? Mas se é nisso que você realmente acredita — continuou ela, enfiando a mão no bolso —, tudo bem.
— O que está fazendo? — perguntou ele, parecendo atônito quando ela pegou o celular.
— Meu trabalho — disse ela. Não sabia outra maneira de fazê-lo entender. —Você é um demônio cruel e perverso. Ele também. Vou ligar para a Palatina para avisar que vi os dois.
Os olhares deles se encontraram quando ela levou o celular ao ouvido.
E, por um momento, tudo pareceu desaparecer... a rua escura e deserta; o vampiro chorão; o para-brisa despedaçado; o carro quebrado. Tudo. Só havia os dois, do jeito que tinha sido antes — antes que ela descobrisse que ele era um vampiro, antes que ele descobrisse que ela era amaldiçoada com um dom terrível —, quando estavam muito apaixonados e cheios de esperança para o futuro.
Um futuro que tinha sido despedaçado quando Alaric Wulf chegou porta de Meena contando a verdade sobre a identidade de Lucien.
Foi naquele exato momento, quando ela e Lucien estavam distraídos, perdidos nos olhos escuros um do outro, que David provou que realmente não tinha mais vestígio algum de humanidade e que o demônio dentro dele havia tomado conta do corpo. Ele atacou Lucien, atingindo-o com tanta força que ele cambaleou para trás alguns passos, surpreso, soltando-o completamente.
E isso deu o tempo exato para David... não para escapar, como qualquer outro demônio poderia ter feito, mas para partir para cima de Meena, com o rosto contorcido de ódio, a boca escancarada, afiados prontos para afundarem no pescoço dela.
Lucien correu atrás dele, mas era tarde demais. Infelizmente para David.
Pois Meena estava mais do que pronta desta vez. Ela apenas ergueu o pedaço de perna de cadeira que Lucien lhe dera. Foi o próprio movimento de David — e a firmeza da mão dela — que enfiou a estaca improvisada no peito dele.
David olhou para baixo, surpreso.
— Meena — falou, com uma voz levemente ferida.
Um segundo depois, ele sumiu, explodindo em uma nuvem de ossos e poeira.
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