quarta-feira, 24 de julho de 2013

insac - mg - 60-61-62

Capítulo Sessenta
18h, sexta-feira, 23 de abril
Hospital Lenox Hill
Rua 77 East, 100
Nova York, NY
Alaric estava profundamente infeliz.
Já era bem ruim ele estar no hospital.
Mas para piorar as coisas, estava lá há quase uma semana, e
ninguém tinha se lembrado de levar para ele suas coisas, que
estavam no quarto do Peninsula. Nem o pijama de seda, nem o
chinelo forrado de pelo de carneiro, nem mesmo um roupão.
Nada.
Então ele estava preso - com a perna suspensa, para piorar - em
uma cama de hospital incrivelmente desconfortável, sobre lençóis de
hospital terríveis, com um daqueles travesseiros baixos de hospital
horrendos e de camisola de hospital. Camisola de hospital!
Ela nem fechava direito nas costas. Então, se ele quisesse dar uma
volta no andar (coisa que ele não podia porque a perna estava
suspensa; disseram a ele que não caminharia em semanas -
semanas! -, e se diziam médicos), não podia, porque teria que expor
seu traseiro para toda a ala hospitalar.
E a televisão do quarto do hospital nem tinha nenhum canal premium
com filmes.
E não tinha frigobar. Não que ele pudesse andar até o frigobar e abrilo
caso houvesse um, já que a perna estava suspensa. Se ele
quisesse até mesmo um gole d'água, tinha que chamar a enfermeira.
Não podia nem andar até o banheiro.
Nunca tinha sido tão humilhado.
Alaric teria se dado alta se não tivessem dito que ele tinha uma
infecção tomando conta de suas veias, o que exigia que tomasse
antibióticos intravenosos. E ele nem tinha certeza se acreditava nisso.
Sempre havia sido muito saudável. Como podia ter pegado uma
infecção?
- Talvez porque você se esvaiu em sangue por causa de uma artéria
rompida em um desabamento e porque a Srta. Harper teve que usar
as próprias mãos e um torniquete feito com um lenço e um pedaço de
madeira para estancar o sangramento e salvar sua vida? - havia
sugerido Abraham Holtzman quando Alaric tinha feito essa pergunta a
ele.
Mas Holtzman só estava mal-humorado, Alaric sabia, porque tinha
perdido a maior parte das sobrancelhas e havia sofrido queimaduras
em 10% do resto do corpo graças ao sopro de despedida de Lucien
Antonesco - que tinha matado a maioria dos Dracul e queimado todo
o hábito da irmã Gertrude.
Como Alaric desejava ter estado lá para ver isso.
Não que tivesse algum prazer em ver freiras nuas.
Mas teria gostado de testemunhar todos eles tentando correr para as
catacumbas secretas que existiam debaixo de todas as igrejas
católicas da cidade antes que os bombeiros entrassem com suas
mangueiras.
- É sua culpa - tinha dito Holtzman, censurando-o, na primeira vez
em que tinha ido visitar Alaric no quarto de hospital. - Se você
tivesse ido até o fim como deveria e seguido atrás do animal em vez
da garota, nós o teríamos pegado. Mas não. Você tinha que ver se
Meena Harper estava ferida. E assim, por sua causa, o príncipe das
trevas escapou. Você nunca vai se safar dessa, Wulf.
Não havia analgésicos o suficiente no mundo para tornar suportável
uma repreensão pós-tarefa. O fato de que Alaric não estava tomando
nenhum porque não gostava de como sua cabeça confusa só piorava
tudo.
- Então eu devia ter deixado ela lá, caída? - perguntou ele. - Com
uma possível concussão ou algo pior? Ela havia sido jogada do outro
lado do recinto por um dragão!
- Lucien Dracul nunca ia ferir aquela garota. - Holtzman obviamente
não estava se sentindo muito bem. Tinha perdido a primeira camada
de pele das mãos e do rosto. Estava incrivelmente engraçado sem as
sobrancelhas.
Mas é claro que Alaric não podia falar nada sobre aquilo. Embora ele
ainda planejasse tirar algumas fotos com o celular, assim que
possível, para mandar para Martin, para ele dar umas boas risadas.
- Você sabia disso - disse Holtzman. - Você correu atrás dela em vez
de fazer seu trabalho porque está caído por ela. Tenho graves
reservas quanto à Srta. Harper e essa sua ideia de contratá-la para
trabalhar para nós. Acho que só vai criar confusão. Principalmente
com Lucien Drácula ainda à solta e obviamente apaixonado por ela.
- Não estou caído por ela. - Nunca em toda a sua vida, Alaric tinha
ouvido algo tão ridículo. Mas parte dele se perguntava: É tão óbvio? -
Mas se você não consegue ver as vantagens de ter alguém que...
- Ah, eu vejo vantagens. - Holtzman pegou seu lenço e limpou um
ponto da queimadura de onde escorria secreção. Alaric olhou para o
outro lado embora imaginasse que sua aparência não devia estar
muito melhor. Como ele odiava hospitais! - E, infelizmente, nossos
superiores também, pois eles já deram início à papelada para a
criação de uma unidade especial aqui em Manhattan, da qual eu serei
o chefe. - Ele acrescentou, mal-humorado: - Querem você nela
também.
Alaric, surpreso, tentou não mostrar o quanto essa informação o
deixava feliz. Exceto pela parte de Holtzman ser o chefe, é claro.
- Eu obviamente informei a eles que a Srta. Harper não é a única com
relação a quem eu tenho graves reservas. - Holtzman dobrou o lenço
e guardou-o, encarando Alaric. - Vi seu comportamento em campo na
semana passada, e achei longe de aceitável. Se você quer ser parte
dessa nova unidade, primeiro terá que tirar aquele período
obrigatório de duas semanas de descanso e recuperação que não
tirou depois de Berlim. - Olhando para a perna de Alaric, Holztamn
resmungou e acrescentou: - Bem, acho que você terá que fazer isso
de qualquer jeito. Mas vai ter que fazer terapia. Combinado?
Alaric franziu a testa. Não conseguia pensar em nada pior do que ter
que se sentar no consultório de um sujeito pretensioso, falando sobre
seus sentimentos.
Mas se isso significava ver Meena Harper mais vezes...
- Tudo bem - disse Alaric por entre dentes cerrados.
- Excelente. É isso que gosto de ouvir. Você não devia ser tão
resistente a essas políticas, Alaric. Elas existem para o seu benefício.
Mas isso não significa, é claro, que não vou estar observando de
perto como você se comporta perto da Srta. Harper. Se bem que ela
nem disse ainda se vai aceitar o emprego ou não - acrescentou
Holtzman.
Alaric quase saltou da cama de surpresa, apesar de estar
praticamente amarrado a ela por um complicado sortimento de fios.
- O quê? - gritou ele. - Por que não? Você não ofereceu...
- Ah, acalme-se - disse Holtzman secamente. - Oferecemos a ela um
pacote totalmente adequado.
- Adequado? - Alaric queria arremessar algo no chefe. Mas a única
coisa que estava perto o suficiente era o controle remoto da
televisão. E ele já o havia arremessado tantas vezes que as
enfermeiras tinham ameaçado não trazê-lo de volta se ele fizesse de
novo. - Ela...
- Ela é uma paranormal - Abraham o lembrou. - Ela não vai estar em
campo arriscando a vida. O pacote que oferecemos levava isso em
conta. Inclui benefícios completos e é bastante generoso, se você
quer saber. Não consigo imaginar alguém que não o aceitaria,
principalmente nessa área de trabalho. Quem não iria querer
trabalhar para a Palatina?
- Alguém que está apaixonado pelo príncipe das trevas - disse Alaric,
da cama de hospital, um tanto amargamente.
Naquele momento, só de lembrar da conversa com Holtzman, ele
tinha vontade de arremessar alguma coisa de novo.
Pelo menos até que a própria Meena Harper o surpreendeu ao entrar
no quarto dele no hospital.
E ele de camisola de hospital. Que ótimo!
- Oi - disse ela, o braço imobilizado do cotovelo até o pulso. Na mão
direita, segurava um vaso cheio de margaridas.
Alaric nunca tinha dado bola para flores. Na verdade, sempre achou
flores uma coisa idiota.
Até aquele momento.
Até aquele momento. Agora, margaridas eram as flores favoritas
dele.
— Oi — disse ele. Exceto pelo braço imobilizado, Meena Harper
estava bem. Ele diria até que Meena Harper estava ótima. A marca
de mordida no pescoço dela tinha desaparecido quase
completamente. Ela usava roupas novas — bem, é claro. Porque da
última vez que ele a tinha visto, ela estava coberta de sangue.
Do sangue dele.
Ela estava de vestido. Era curto e preto, e um pouco justo no peito.
Alaric gostou muito.
Meena colocou as margaridas na janela. Estava chovendo lá fora, e
flores alegraram um pouco o quarto.
E isso era um milagre. Ele não imaginava que houvesse algo que
desse alegrar aquele quarto de hospital.
Mas agora ele sabia. Margaridas. Margaridas e Meena Harper.
— Eu vim visitar minha amiga Leisha — disse ela, sentando-se na
cadeira rosa de vinil perto da cama dele. Rosa! Vinil. A cadeira era
um desastre. Menos quando Meena Harper sentava nela usando o
vestido preto e curto. Porque aí ele podia ver uma boa parte das
pernas dela.
Então, talvez a cadeira não fosse um desastre tão grande. — Ela teve
uma menina. É um pouco prematura, mas elas vão ficar bem. Leisha
está tão feliz. Ela não parece lembrar o que aconteceu na igreja. E
nem em frente ao meu prédio. Adam falou para não contar a ela. Ele
acha melhor.
— Ele provavelmente está certo — disse Alaric, cuidadosamente.
— É verdade — disse ela, dando de ombros. — Adam diz que gostaria
de conseguir esquecer. Ele e Jon estão montando o quarto da bebê.
Se eles não terminarem, a bebê vai ter que dormir numa gaveta.
—Ah —disse Alaric. Ele não sabia nada sobre bebês. Só conhecia a
filha de Martin, Simone, que já tinha sido bebê um dia. Alaric achava
que Martin era louco por querer um bebê. Mas tentou demonstrar
apoio - assim como tinha feito com Martin, porque sabia que era
desse jeito que as pessoas deviam agir com relação aos bebês. —
Que bom.
— Escolheram o nome Joana. Joanie. — Ela estava olhando para
todos os cantos do quarto... menos para Alaric.
Isso, ele concluiu, era realmente estranho.
Principalmente porque, como a amiga de Meena, Leisha, também não
se lembrava bem do que tinha acontecido na igreja. Pelo menos não
de tudo. Ele sabia que tinha dito coisas a ela quando os dois ficaram
sozinhos, depois que o mezanino do coral desabou.
Só não conseguia lembrar que coisas tinham sido aquelas.
Quando perguntou a uma médica, ela disse que isso não era
incomum. Era por causa da perda de sangue. Ele não precisava se
preocupar.
Mas Alaric se preocupava. O que teria dito?
Ele esperava não ter soltado nada inadequado. Como, por exemplo,
seus sentimentos por Meena Harper. Isso não seria nada bom. Ele
não precisava que ela soubesse o que ele sentia por ela. Não se ela ia
trabalhar com ele na Palatina. Como isso poderia funcionar? Como ia
conseguir executar sua sutil magia de Alaric Wulf se ela já sabia o
que ele sentia?
Assim, a magia não seria nada sutil. Seria o mais distante possível de
sutil.
E então a magia não funcionaria. Ele já estava competindo com o
príncipe das trevas. Que diabos ele tinha a mais além de sua magia
especial de Alaric Wulf?
Mas talvez ele não tivesse falado nada sobre gostar dela.
É claro que ele podia simplesmente perguntar a ela o que tinha dito.
Mas aí, ia parecer que ele estava preocupado.
E ele não estava preocupado. Só estava... um pouco apreensivo.
Só isso.
— Joana é um nome bonito — disse Alaric. Depois se sentiu um
idiota.
— Foi sugestão minha — disse Meena. — Em homenagem a Joana
D'Arc. — Por fim, ela olhou para o rosto dele. Por algum motivo,
antes tinha parecido relutante em fazer isso. — É uma santa.
Ele respondeu:
— Já ouvi falar dela. Foi queimada numa fogueira acusada de
bruxaria. Eu estudei, sabe. Não sou um completo idiota.
A preocupação dele sobre o que possivelmente tivesse ou não dito
enquanto estava alucinando pela perda de sangue talvez o estivesse
fazendo agir na defensiva.
A boca de Meena se contraiu enquanto ela o observava.
— Não vim aqui para brigar com você.
Obviamente, o médico estava certo. Ele precisava relaxar quanto ao
lance da amnésia.
Ele mostrou as palmas das duas mãos.
— Estou num hospital. A única coisa com que estou brigando é uma
infecção. Que, pelo que sei, você me passou com suas mãos sujas.
Ela sorriu um pouco.
— Eu sei. Já me disseram. Me desculpe por isso. Eu estava tentando
salvar sua vida, sabe. Do mesmo jeito que você sempre salva a
minha. Pelo que percebo, nós dois temos complexo de herói.
— Dizem que é um milagre terem conseguido salvar minha perna
depois do jeito que você a massacrou — mentiu ele. Pronto, isso era
melhor. A velha magia de Alaric Wulf estava de volta.
Ela parou de sorrir e pareceu aflita.
— Ah, é mesmo? Achei que tinha feito certo. Me desculpe. Foi
daquele jeito que ensinaram quando fiz uma pesquisa para a novela.
Eu estava mesmo querendo impedir que você sangrasse até a morte.
Alaric estava tendo a distinta impressão de que não tinha expressado
sua devoção eterna a ela enquanto estavam presos atrás dos
escombros e ele estava deitado, com hemorragia.
Isso era um alívio.
Será?
— E incrível o tanto que você estava disposta a fazer para que eu não
morresse — disse Alaric, recostando-se sobre o horrível e achatado
travesseiro do hospital.
— O quê? — Ela balançou a cabeça — Não. Foi só um torniquete. Só
isso. E, pelo visto, quase matou você. Acho que você não é tão
heroico e fortão quanto quer que todo mnndo pense.
— E ainda assim, você está aqui comigo, e não em algum lugar se
escondendo de nós da Palatina com Lucien Antonesco — disse ele,
abrindo de novo os braços e mostrando as mãos.
Ela ficou. Olhando para ele.
— O que isso tem a ver? Já falei, eu vim visitar minha amiga Leisha e
pensei em dar uma passadinha aqui...
Alaric deu de ombros.
— Só achei interessante, só isso.
Ele tinha tocado num ponto importante. E ela sabia. Mais ainda, ela
sabia que ele sabia. Pôde ver um rubor rosado subindo pelo pescoço
longo, seguindo pela gola do vestido preto e indo em direção às
bochechas.
—Nós todos sabemos que ele não está morto, Meena - disse Alaric. -
Ele deve ter pedido que você fugisse com ele.
O rubor dela ficou escarlate.
— Bem — disse ela, o olhar descendo para o chão. — É isso mesmo.
Mas eu disse não.
O coração de Alaric se inchou de deleite. Aquele era seu melhor dia
no hospital até aquele momento. Tudo. estava indo muito bem. Ele
definitivamente não tinha feito nada de imbecil embaixo do mezanino
do coral. Por que havia se preocupado?
— Foi porque você vai vir trabalhar com a gente, certo?- ele
entrelaçou os dedos atrás da cabeça, incrivelmente satisfeito consigo
mesmo. — Eu sabia que você só estava enrolando Holtzman. É assim
que se faz. O velho precisa ficar de olho aberto. Você vai pedir mais
dinheiro, não vai? E por que não? Você é uma aquisição valiosa para
a equipe. Ou será que está tentando conseguir um emprego para
aquele seu irmão também? Ele mostrou uma iniciativa surpreendente
lá no campo de batalha. — Embora além daquele primeiro disparo de
sorte, ele tivesse a pior mira que Alaric já tinha visto. —
Provavelmente podemos encontrar alguma coisa para ele no
departamento de tecnologia. Olha só, se eu fosse você, tentaria pedir
que pagassem um adicional de moradia. Onde você está morando
agora?
Ela ergueu o olhar. Mas o rubor, por algum motivo, estava
aumentando. Ele podia jurar que até os seios dela estavam
ruborizados. E essa era uma visão que ele se interessaria muito em
conferir mais detalhadamente.
— Na St. Clare — disse ela. — O padre Bernard foi muito gentil em
acolher Jon e a mim depois que meu apartamento foi infelizmente...
— Você não foi olhar, foi? — ele a interrompeu, rapidamente tirando
as mãos de trás da cabeça. Não queria que ela visse o apartamento.
Principalmente a cama e o que estava pichado na parede atrás dela.
— Não — disse ela. —Mas Jon foi. E ele disse...
— Não — disse ele. Aquilo era muito importante. — Prometa que não
vai nunca mais lá. Peça para alguém tirar tudo de lá e jogar fora.
Depois venda o imóvel. Nunca volte lá.
— Farei isso — disse ela. — Prometo. Mas não vou pedir mais
dinheiro, Alaric. A verdade é que... não vou aceitar o emprego.
Ele sentiu como se alguém tivesse aberto outra veia dele. Talvez do
coração.
— O quê? — disse ele estupidamente.
— Foi muita gentileza do Dr. Holtzman fazer a proposta — disse ela
apressadamente. — Estou lisonjeada. Mas eu... eu acho que não
posso fazer isso. Ir trabalhar para... as pessoas para quem você
trabalha. Nesse momento.
Alaric ficou olhando para ela.
— Mas pensei que você tivesse dito que Lucien pediu que fugisse com
ele. E que você tivesse dito não.
— Eu disse não — falou Meena. Ela tinha se encolhido, como se
estivesse com frio. — Mas isso foi... antes.
— Antes de quê? — Aos poucos, ele foi compreendendo. — Espere
antes de ele virar um dragão e tentar matar todos nós?
Meena assentiu, sem dizer nada.
— Então você não o viu desde aquela noite?
Ela assentiu de novo.
— Então você não está exatamente morando na paróquia de St. —
disse ele. Tudo estava ficando claro. Talvez até claro demais. — está
se escondendo lá. Está se escondendo dele. Porque está morrendo de
medo dele.
— Bem — disse ela —, eu não colocaria exatamente assim.
— Como colocaria então? — perguntou ele. — Se não está com medo
dele, está com medo de quê, então? De si mesma? Com medo de sim
se ele pedir de novo? —Alaric mal podia acreditar. Mas estava ali,
escrito no rosto dela.
— Não sei do que você está falando — disse Meena. — Só vim a:
dizer oi, não para ouvir um sermão.
Sermão!
— Mas se você vai agir assim — disse ela, no mesmo tom de voz —
vou embora. Acho que te deram muito remédio.
Ela se levantou para ir embora... mas não com rapidez suficiente.
Porque mesmo de cama, ele era rápido demais para ela. Ele conseg
esticar o braço e pegar a mão boa com a dele.
Não ia deixá-la ir a lugar algum.
— Não estou tornando nada — disse ele com o tom mais gentil que t
tinha, o que guardava para Simone e... bem, para mais ninguém, na
verdade. — E não tem problema ter medo, Meena.
Ela ficou ali parada por um segundo ou dois, olhando para os dedos
que seguravam os dela. Depois, abruptamente, se deixou cair de
novo sobre a cadeira rosa de vinil.
— Tudo bem — disse ela, erguendo o olhar de encontro ao dele. Seus
olhos castanhos estavam arregalados e atormentados. — Você está
certo. Estou apavorada. Assim que o sol se põe todo dia, pego Jack
Bauer e vou para um daqueles quartos sem janela onde enfiaram
Yalena. E fico lá. Não saio até a manhã seguinte. Porque sei que ele
não pode fazer contato comigo lá. Isso se ele estiver procurando por
mim, o que não sei se está acontecendo. Ele virou um dragão, Alaric.
Tentou nos matar, a todos nós.
— Você, não — disse Alaric. Não podia acreditar que estava
defendendo Lucien Drácula. Mas incrivelmente seu desejo de vê-la
sorrindo ale novo era maior do que seu ódio pelo príncipe. — Ele fez o
melhor que pôde para evitar que você morresse.
Ela lhe lançou um olhar sarcástico.
— Ele virou um dragão — lembrou-lhe.
Alaric olhou para a mão dela, tão pequena dentro da sua. Ela estava
segurando com bastante força.
Ela estava com medo. Estava com muito medo.
Alaric já tinha visto aquilo antes. Pessoas — homens e mulheres
crescidos, outros guardas, assim como ele — que tinham voltado de
missões exatamente do jeito que Meena estava agora, esgueirandose,
perdida em terror abjeto, com medo da própria sombra por causa
dos horrores demoníacos que tinham visto no campo de batalha.
Ele não queria que ela fugisse com o príncipe.
Mas não podia deixar que ela continuasse assim.
Mesmo se isso significasse perdê-la.
Ele respirou fundo e disse:
— Se aprendi alguma coisa nessa vida, Meena, foi que há muitas
coisas assustadoras por aí. Às vezes eu quero entrar em um quarto
sem janelas até que o sol volte a subir no céu e as coisas
assustadoras tenham ido embora. Mas a verdade é que... essas
coisas assustadoras não vão embora sozinhas.
Meena, como se sentisse onde ele estava querendo chegar, começou
puxar a mão, sacudindo a cabeça. Os olhos dela estavam cheios de
lágrimas.
Mas ele não soltaria os dedos dela. Porque ela precisava ouvir.
Mesmo que não quisesse.
— Porque acontece que tenho um dom — prosseguiu ele. — E esse é
o de ser bom em matar coisas assustadoras. Então uso meu dom
para ajudar os que não são tão fortes quanto eu, para tornar o
mundo um lugar mais seguro para eles. Não posso me trancar em um
quarto sem janelas até que o sol volte a nascer, Meena. Não importa
o quanto possa querer isso às vezes.
Ela virou a cabeça de repente na direção dele, começando a
protestar. Mas Alaric ficou segurando a mão dela e prosseguiu.
— Porque meu trabalho é encarar as coisas assustadoras. E acho que
lá no fundo, Meena, você sabe que é seu trabalho também. Que
talvez o motivo de pessoas como eu e você terem sido postas aqui na
Terra seja para que todas as outras pessoas, as que não têm nossos
dons, possam dormir em seus quartos sem janelas enquanto
tornamos o mundo um pouco mais seguro para elas.
Ela não disse nada por alguns segundos. Depois ele viu por quê.
Estava chorando.
Bem... ele não pretendia fazê-la chorar.
Talvez ele não soubesse fazer nada direito. Talvez não existisse a
magia de Alaric Wulf. Talvez Holtzman estivesse certo e ele
precisasse mesmo de terapia.
Depois de um tempo ela olhou para a frente e disse:
—Tenho sido uma boba.
— Não acho que você seja boba — disse ele.
Ele queria dizer muitas outras coisas. Mas não estava mais sofrendo
de perda de sangue. Então ficou em silêncio.
Meena puxou a mão de novo. Dessa vez, ele a soltou.
Meena levou essa mão e a imobilizada até os olhos, que estavam
vermelhos de lágrimas não derramadas.
— Você é muito irritante às vezes — disse ela.
Martin costumava dizer a mesma coisa.
— Eu sei — concordou ele.
— Por que você faz isso comigo? — perguntou ela, secando os olhos
com a ponta do lençol. Ele duvidava que ela fosse achá-lo muito
absorvente. O número de fios não devia ser muito alto.
Ele desejava envolvê-la com os braços, abraçá-la.
Mas tinha medo de que ela desse um tapa nele.
Ou que Holtzman entrasse no quarto. Qualquer uma das duas coisas
teria sido igualmente constrangedora.
E, além disso, Alaric não podia se inclinar o bastante para colocar os
braços ao redor dela por causa da perna imbecil, que estava
pendurada. Naquele momento, com os olhos secos, ela ficou de pé.
Ele achava que ela ia embora agora, e sua depressão ficou completa.
E não tinha ideia se a veria de novo.
Só que, para a surpresa dele, em vez de ir embora, Meena colocou a
mão boa no peito dele.
— Acho que ainda não estamos quites, estamos?
Ele balançou a cabeça sem entender o que ela queria dizer.
A confusão dele aumentou quando ela se inclinou e o beijou
gentilmente na bochecha, do modo como tinha feito na paróquia na
outra noite.
— Provavelmente não — continuou quando se ergueu. — Acho que
ainda estou em débito com você. Além do mais, você também salvou
Jack.
Ah. Ela estava falando de todas as vezes em que ele tinha salvado a
vida dela. Mas ela não estava em débito com ele por isso. Isso era o
trabalho dele.
— Você precisa se barbear — disse ela, franzindo o nariz. — Quer que
eu traga alguma coisa para você poder se barbear amanhã?
— Quero — disse ele, o humor melhorando visivelmente. Ela havia
sido a única a oferecer. A única.
Era por isso que ele a amava.
Além do mais, ela dissera que ia visitá-lo de novo amanhã.
Não, não era o mesmo que dizer que ia aceitar o emprego.
E talvez fosse só porque ela ia visitar a amiga na maternidade, então
era fácil dar uma passadinha lá para vê-lo.
Mas até amanhã ele teria outro discurso pronto sobre como ela
deveria fazer parte da Palatina.
E quando ela chegasse no dia seguinte — e ela iria, ele sabia que iria
—, ele teria outro.
E assim, acabaria vencendo-a pelo cansaço. Era assim que a velha
magia de Alaric Wulf funcionava.
E mesmo se a magia de Alaric Wulf não existisse — Martin dizer que
não existia —, um dia daqueles iam ter que tirar a perna posição em
que estava, pendurada, e ele ia dar de cara com mais perigo.
E então ela não ia conseguir resistir a avisá-lo para ficar longe dele.
E seria naquele momento que ele diria, com o tipo de lógica brilhante
e indiscutível pela qual era famoso, que ela podia muito bem ser paga
para fazer isso como profissão.
Ela ficaria impotente frente a tão superior argumento intelectual.
— Tudo bem — disse Meena. Ela sorriu e passou o dedo pela barba
por fazer na bochecha dele. Ele teve o cuidado de ficar muito parado
enquanto ela fazia isso, para que não parasse. Era outro exemplo de
como a magia de Alaric Wulf funcionava. — Te vejo amanhã.
Infelizmente, foi naquela hora que ela se virou e saiu.
Mas o quarto de hospital não parecia mais tão insuportável para
Alaric como era antes de ela ir visitá-lo.
Na verdade, o quarto de repente parecia até mesmo alegre.
Alaric não achava que era o resultado de poderosos
neurotransmissores, como a doparnina, sendo liberados em seu
cérebro. Ele concluiu que era por causa das margaridas.
Alaric provavelmente teria se sentido completamente diferente se
tivesse alguma ideia de para onde Meena Harper estava indo... se
soubesse que seu discurso sobre não dormir em quartos sem janelas
a tinha convencido não que ela precisava fazer parte da Guarda
Palatina ajudá-lo a lutar contra as forças do mal, mas que tinha que
ir, assim que saísse do hospital, para o único lugar que mais a
apavorava e o qual ele a tinha feito prometer que não voltaria.
Capítulo Sessenta e Um
20h, sexta-feira, 23 de abril
Park Avenue, 910, apto. 11B
Nova York, NY
Meena não tinha certeza do que a tinha feito voltar ao apartamento.
Todo mundo falou para ela não fazer isso. Alaric, que tinha estado lá
e tinha visto a terrível destruição com os próprios olhos. Abraharn
Holtzman, consultando o manual sobre estresse pós-traumático e
explicando como isso só pioraria as coisas para ela. A irmã Gertrude,
que era prática e gentil sobre essas coisas.
Até mesmo Jon, que também tinha estado lá, para ver se conseguia
salvar alguma coisa.
— Está horrível — disse ele com tremor. — Acredite em mim. Você
não quer saber.
Mas Meena queria saber. Desde aquela noite...
Ela tentou não pensar naquela noite. Não queria pensar sobre ela
porque cada vez que começava, as lágrimas vinham, e com elas a
convicção de que Lucien estava morto.
Ele tinha que estar morto.
E então vinha a terrível sensação de vazio no meio do peito...
E depois, também terrível, o medo de que ele não estivesse morto. E
se ele estivesse morto, e ainda a amasse, e quisesse que eles
ficassem juntos?
O que era pior?
O fato de que ela não sabia foi o que a fez decidir que não podia
pensar naquilo. Não podia mesmo.
Não pensar era mais fácil do que qualquer um poderia imaginar. Cada
vez que começava a pensar, ela afastava os pensamentos, as
lembrança. qualquer coisa e tudo relacionado a Lucien Antonesco da
mente dela e pensava com firmeza em outra coisa.
Ela se manteve tão ocupada na paróquia de St. Clare que não tinha
tempo para pensar em Lucien. Havia pratos para serem lavados
depois de cada refeição, as panelas e caçarolas e travessas
empilhadas na pia da cozinha da paróquia. Lavá-las era a penitência
de Meena pelas queimaduras que todos tinham sofrido por sua causa.
Ela as esfregava até brilharem, às vezes até tarde da noite, só ela,
sozinha na cozinha, com a esponja e as luvas de borracha e a água
quente e cheia de espuma.
E a escuridão atrás da janela acima da pia.
E os olhos vermelhos brilhantes que ela estava convencida que via
ardendo na escuridão, observando cada movimento dela.
Ela tentava não pensar nos olhos, e se eles estavam realmente lá ou
se estava apenas imaginando-os.
Havia a sopa dos pobres para ajudar a servir, os donativos para o
bazar para ajudar a separar. (0 bazar foi onde ela encontrou o
vestido preto novo, dentre várias outras aquisições para o guardaroupa
dela. Ela sabia que os donativos eram para serem vendidos no
bazar. Mas pegar uma coisa ou outra enquanto ela as separava não
parecia um grande crime. Tudo que tinha havia sido destruído pelos
Dracul ou ficado encharcado com o sangue de Alaric Wulf.)
Mas talvez ela tivesse se mantido um tanto ocupada demais não
pensando em Lucien Antonesco (aqueles olhos, ardendo pela
escuridão do lado de fora da janela da cozinha) e no que tinha
acontecido naquela noite.
Porque até o discurso de Alaric sobre como era errado pessoas como
eles se esconderem das coisas assustadoras do mundo em vez de
lutar contra elas — e ele estava certo, ela sabia: acreditava piamente
que eles dois eram parecidos, ele com a espada, ela com o dom de
prever perigo e morte —, Meena achava que estava fazendo a coisa
certa ao não se permitir pensar em Lucien.
Mas, depois do discurso de Alaric, ela se deu conta de que isso era
errado. Era sua obrigação moral não só de pensar em Lucien mas de
encará-lo, e o que ele tinha feito a ela e à vida dela.
Ou seja, destruí-la.
Se ele estivesse vivo, é claro. Ela ainda não sabia se ele estava ou
não (mas... aqueles olhos). Ninguém parecia conseguir dizer a ela.
Abraharn só dizia que, depois do último sopro de fogo branco e
quente na igreja — que tinha deixado a ele e todo mundo
inconsciente por alguns segundos —, ele tinha acordado e visto que o
príncipe tinha sumido.
— Sumido? — tinha perguntado Meena, achando difícil acreditar que
um dragão de trinta toneladas e vinte metros de asas vermelhas
podia simplesmente desaparecer no ar, do modo como Emil e Mary
Lou Antonesco tinham desaparecido.
— Sumido — respondera Abraham com um movimento de cabeça.
Lucien não tinha saído voando. O teto da catedral, era verdade, tinha
sido queimado com o resto da construção, mas ninguém havia
declarado ter visto nenhum dragão voando sobre Manhattan naquela
noite. (O departamento de polícia de Nova York classificou o que
tinha acontecido na catedral de St. George como ação de incendiários
juvenis, graças em grande parte às vagas declarações que Meena e
Alaric deram aos policiais. Mas é claro que nenhum incendiário juvenil
foi preso.)
Então onde estava ele?
Talvez ele tivesse implodido, Meena pensou enquanto se aproximava
do prédio naquela noite chuvosa depois da visita a Alaric Wulf no
hospital, as chaves bem seguras na mão. Aquela última explosão de
fogo branco, da qual ele havia insistentemente tentado protegê-la,
tinha sido a combustão espontânea de Lucien.
Pelo menos desse jeito, ela pensou quando as portas automáticas do
prédio se abriram na frente dela, não teria mais que se preocupar se
ele ainda a amava. E nem se ele pediria, como Alaric tinha sugerido
no hospital, para que ela fugisse com ele.
E nem se ele a mataria e a transformaria em um membro da espécie
dele para que pudessem ficar juntos para sempre.
— Srta. Harper! — Pradip gritou quando a viu. — Está de volta!
— Estou — disse ela, tentando dar um sorriso para seu porteiro
favorito, mas não foi fácil, levando tudo em consideração. — Mas só
vim dar uma passada. Não vou ficar. Vou vender o apartamento.
O rosto de Pradip se entristeceu.
— A senhorita também? Os Antonesco acabaram de colocar o deles à
venda. — Ele parecia triste. — A senhorita soube? Eles já se foram. A
empresa do Sr. Antonesco os levou para a Ásia. Ou teria sido para a
índia?
Meena não ficou exatamente surpresa em ouvir isso. Emil e Mary Lou
podiam ter lutado do lado deles durante a guerra de vampiros, mas
não achava que isso ia tirá-los da lista de procurados da Guarda
Palatina.
— É uma pena — disse ela. Depois sorriu. — Talvez um astro do rock
rico compre meu apartamento e o deles e derrube a parede para ficar
com o décimo primeiro andar inteiro.
Pradip ficou olhando para ela. Estava tentando alegrá-lo e, para ela,
ter um astro do rock rico no prédio seria uma coisa boa.
E o dinheiro extra da venda do apartamento seria útil para que ela
pagasse o que devia a David.
Mas Pradip não pareceu achar a ideia tão atraente quanto Meena.
— Acho que o comitê não aprovaria um astro do rock — falou ele.
Por que não?, Meena queria perguntar. Tinham aprovado um casal de
vampiros. Em vez disso, respondeu:
— Você deve estar certo. Muito bem. Vou subir.
— Boa-noite, Srta. Harper — disse Pradip.
Meena conseguiu sorrir para ele, depois seguiu para o elevador.
Pela primeira vez em séculos ela subiu até o décimo primeiro anda:
sozinha, Mary Lou não segurou a porta quando estava fechando para
subir junto com ela, como sempre fazia no passado. Não houve
nenhuma conversa sobre algum cara do escritório de Emil que seria
perfeito para ela. Não houve sugestão de como Meena podia
melhorar o enredo de Insaciável... o que era triste, já que com Fran,
Stan e Shoshana desaparecidos — Paul tinha deixado um recado no
celular dela dizendo que todo mundo supunha que eles, junto com
Stefan Dominic, tinham sofrido um acidente a caminho da casa de
campo dos Metzenbaurn nos Hamptons e que era apenas questão de
tempo até que o veículo fosse recuperado, com os corpos dentro —,
Meena provavelmente ia conseguir a promoção para redatora-chefe
que sempre quis.
Por que não? Sem Shoshana, não havia registro sobre a "demissão"
dela. Quem sabia o que ia acontecer a ABN (e ao CDI) agora que a
presidente do novo dono também estava desaparecida?
Todos os tabloides fervilhavam sobre o fato de que o astro de
Luxúria, Gregory Bane, também estava desaparecido. Metade das
mulheres dos Estados Unidos estava de luto.
Logo suspeitariam de crime, Meena supunha.
Mas nenhum corpo jamais iria aparecer.
Quando o elevador chegou ao décimo primeiro andar, Meena saiu e
olhou ao redor, começando a sentir as primeiras pontadas de medo.
Por que mesmo ela tinha achado que aquilo era uma boa ideia?
Claro, os Dracul provavelmente estavam todos mortos.
Pelo menos os que moravam em Manhattan.
Mas e se alguns que moravam em outro lugar tivessem sabido do que
havia acontecido na catedral e decidiram procurá-la para se vingar?
Ou tivessem dado uma parada para provar o sangue dela, sobre o
qual àquela altura os vampiros do mundo todo deveriam ter ouvido
falar?
Pare, ela disse para si mesma. Alaric estava certo. Você não pode
passar o resto da vida em um quarto sem janelas, Meena.
Ela olhou para os lados no corredor. Tudo parecia bem... até mesmo
normal.
A porta do apartamento dela também parecia normal. Ela engoliu em
seco, andou até lá e enfiou a chave.
Fosse o que houvesse atrás da porta, disse para si mesma, podia
suportar. Tinha sido jogada do outro lado de uma igreja por um
dragão, afinal. Havia enfiado uma estaca, não em um, mas em dois
vampiros, um dos quais fazia papel de vampiro na TV.
Podia lidar com o que estava guardado para ela no apartamento 11B.
Ela abriu a porta, esticou a mão para o interruptor de luz...
... e se engasgou.
Esperava que estivesse ruim.
Mas não esperava aquilo.
Alguém já tinha ido lá e... tinha limpado o apartamento dela. Não
apenas limpado, mas transformado.., em um lugar completamente
diferente. As pichações dos Dracul haviam sido raspadas das paredes
e elas tinham sido pintadas de branco casca de ovo. A mobília
quebrada e os eletrodomésticos quebrados tinham sido jogados fora.
Os livros encharcados, as roupas rasgadas, os pratos quebrados...
tudo tinha sumido.
Eletrodomésticos de aço inoxidável tinham sido instalados na cozinha.
O piso de parquete tinha sido lixado e brilhava com a cera fresca. Até
a chaminé da lareira estava finalmente liberada, embora ela nunca
tivesse funcionado.
O apartamento estava melhor do que em qualquer época em que ela
esteve morando lá. Estava melhor do que no dia em que ela e David
tinham se mudado.
Quem tinha feito aquilo tudo?
Não jon, tinha certeza disso. Ele estivera na casa de Leisha e Adam
semana toda, trabalhando no quarto da bebê, tentando terminar
antes que Leisha e a bebê voltassem para casa do hospital.
Não Alaric, obviamente. Como ele podia ter feito aquilo enquanto
estava deitado numa cama com a perna pendurada?
E Abraham Holtzman e o padre Bernard e os outros estavam sem a
primeira camada de pele dos rostos e mãos.
Além do mais, onde eles teriam conseguido dinheiro?
Só havia uma outra explicação.
E enquanto Meena estava pensando que era impossível — impossível,
porque ele estava morto, tinha que estar morto (exceto pelo fato de
que ela podia jurar sentir o olhar de alguém toda noite pela janela da
cozinha da paróquia enquanto lavava a louça); tinha quase se
convencido de que queria que ele estivesse morto —, ela se virou e lá
estava ele, saindo da chuva e entrando pela porta da varanda.
Capítulo Sessenta e Dois
20h30, sexta-feira, 23 de abril
Park Avenue, 910, apto. 11B
Nova York, NY
— Oi, Meena — disse ele.
Havia gotas de chuva no cabelo preto e curto dele.
Ela prendeu a respiração, o coração dando um pulo repentino e
doloroso.
Ficou surpresa de o coração sequer se lembrar de como bater, pois
apenas de vê-lo ali, entrando no quarto daquele jeito, ela teve um
choque tão grande que pensou que sofreria uma parada cardíaca.
Ele estava incrível, é claro, como sempre, mesmo vestido de forma
casual com um suéter de cashmere cinza e calça preta. Alto, ombros
largos, ocupando tanto espaço no pequeno quarto onde eles haviam
feito um amor louco e intenso, tentando fazer silêncio para que não
despertassem suspeitas no irmão dela e em Alaric, bem ali no
cômodo ao lado...
Ele parecia tão sombrio e lindo, e tão seguro de si.
Não dava indicação alguma de que há menos de uma semana ele
tinha virado...
... bem, o que tinha virado.
Ou feito o que tinha feito.
— Tenho esperado por você — disse ele, aqueles olhos castanhos
escuros tão melancólicos como sempre. Ainda assim, por mais tristes
que aqueles olhos pudessem estar, Meena não deixou de perceber o
olhar que lançou na direção dela, fazendo-a sentir, como sempre, que
ele sabia exatamente como ela era por baixo do vestido que estava
usando. E é claro que ele sabia. — Eu tinha esperança de que você
voltasse. Sei que você não quer me ver. Mas espero que agora
possamos conversar...
Abruptamente, os joelhos de Meena se dobraram. Simplesmente
deixaram de suportar o peso do corpo dela. Ela teria caído no chão —
não havia mais mobília no apartamento para ela se apoiar e impedir
que caísse no chão de madeira que se aproximava com tanta rapidez
— se ele não a tivesse pegado nos braços fortes e depois deitado no
chão com ela, aninhando o corpo dela contra si.
— Desculpe-me, Meena — sussurrou ele contra os cabelos dela. Havia
um mundo de remorso, de dor, de sofrimento na voz baixa e intensa
dele. — Lamento muito. Você tem que saber que eu...
— Você não tem o direito — disse ela. Ficou surpresa pelos lábios e a
língua funcionarem. Ela se sentia toda entorpecida. Tinha sido por
isso que as pernas cederam. Mas ao que tudo indicava, apesar de
estar fraca, ela ainda tinha voz. Depois do que você fez...
— Eu sei — disse ele. Estava embalando-a, a testa pressionada
contra a dela. — Eu sei.
— Você não pode simplesmente vir aqui — disse Meena. A voz tinha
começado a soar mais forte. — E limpar meu apartamento como se
isso fosse fazer tudo melhorar. Porque não vai. Lucien, pessoas
morreram.
— Eu sei — disse ele. Ele parecia (e soava) como se carregasse o
arrependimento de mil vampiros de mil anos, e não de apenas um,
de quinhentos anos. — Mais gente do que você sabe, Meena. Meu
irmão era mau. Sempre foi. Eu devia tê-lo matado há muito tempo.
Isso foi tudo minha culpa. Tudo. Mas agora ele se foi. Não vai mais
matar ninguém.
— Pessoas se machucaram — disse ela, balançando a cabeça. Ele
tinha que entender que não era suficiente o fato de Dimitri ter
morrido. Se é que ele tinha mesmo morrido...
— Eu sei — disse ele, e ergueu o pulso ferido dela e o beijou. — E
quero passar a eternidade compensando você por isso.
— Não fui só eu — disse Meena, as lágrimas nos olhos tornando difícil
enxergar. — Sequestraram minha melhor amiga. Que estava grávida.
Morderam o pescoço do marido dela quando ele estava tentando
impedi-los. E ela entrou em trabalho de parto por causa do que
aconteceu. Ela podia ter perdido o bebê. Quase perdeu.
Lucien a acariciou.
— Como podemos compensá-los? — perguntou ele. — Uma caderneta
de poupança para a faculdade do bebê, talvez? Vou abrir uma e
transferir um milhão de dólares amanhã.
— Lucien! Meena ficou olhando para ele sem acreditar em meio às
lágrimas. — Você não pode sair por aí dando dinheiro para as
pessoas para compensar os seus erros. Você incendiou uma igreja!
— Eu sei, Meena — disse ele. Ele pegou algumas lágrimas dela com o
polegar. — Mas o que você quer que eu faça? Como espera que eu
compense as pessoas? Já fiz uma doação anônima para a igreja. Uma
doação considerável que deve cobrir todos os consertos que não
forem cobertos pelo seguro de incêndio...
Meena inspirou fundo.
— Não. Isso não conserta nada. Você virou um...
Ele pousou um dedo sobre os lábios dela para silenciá-la antes que
ela pudesse pronunciar a palavra dragão.
— As circunstâncias contribuíram. Seu irmão disparou contra mim.
Uma estaca. Nas costas.
Ela fez uma careta.
— Eu sei — disse ela. Ele tinha afastado o dedo. — E você jamais vai
saber o quanto lamento sobre isso. Mas Lucien...
— Independentemente do que mais aconteceu, Meena, e apenas do
que fiz de errado, e não estou negando que tenha feito muitas,
muitas coisas erradas naquela noite, por favor, permita que eu
comente que, apesar do que você insistia que eu faria, não matei
nem seu irmão nem aquele guarda palatino do qual você gosta
tanto... apesar dos esforços meticulosos dos dois para me assassinar.
Os dois ainda estão bem vivos.
Meena inspirou de novo.
— Por minha causa. Eu os salvei. Fiz um torniquete em um e mandei
o outro para a maternidade com minha melhor amiga. Mas, Lucien,
não posso ficar fazendo essas coisas. Não vou sempre estar presente.
Não posso ficar observando as pessoas que amo quase serem mortas
por sua causa. Ah, espere, perdão. Quase serem incineradas...
— É por isso — disse ele, inclinando a cabeça para colocar os lábios
onde, um minuto antes, o dedo havia estado — que sugeri irmos para
longe. Para a Tailândia. Lembra?
Meena ficou olhando para ele, o rosto molhado, a boca ainda
formigando devido ao beijo.
Ela não se sentia mais entorpecida. Em parte alguma. As lágrimas e
os lábios dele tinham resolvido o problema.
— Não posso ir para a Tailândia com você, Lucien — disse ela,
balançando a cabeça novamente. Como ele podia não entender? — É
claro que pode. Por que não?
A mão dele já estava subindo pela coxa dela, entrando por baixo da
barra da saia do vestido preto novo de segunda mão.
— Por um... um milhão de razões — disse ela.
— Sei que você está com medo, Meena — disse ele com a voz grave.
O olhar escuro parecia exercer uma atração hipnótica sobre ela.., o
mesmo tipo de atração que seus dedos pareciam exercer.
Ela estava tendo dificuldades em se lembrar do quanto estava furiosa
com ele a tocando daquele jeito. Como ela podia ter tido medo dele?
Daqueles lábios, que a beijavam naquele momento no pescoço?
— E você tem direito de estar — prosseguiu ele com a voz profunda e
grave. — Há horrores indescritíveis no mundo, que você não
consegue nem imaginar. O que aconteceu com você naquela noite,
naquele dia, foi imperdoável. Aquelas coisas, aquelas criaturas, nunca
deviam ter tocado em você. Foi minha culpa você ter sido colocada
em uma posição na qual eles conseguiram fazer isso. E você está
absolutamente correta: nada do que aconteceu pode ser consertado
com um cheque, não importa o tamanho dele.
— Não quero seu dinheiro, Lucien — murmurou ela. A sensação dos
lábios dele na pele do pescoço era quase mais do que ela era capaz
de suportar. Estava pronta para começar a arrancar o vestido ali
mesmo, no chão do quarto.
— Sei disso. E nunca vou permitir que você seja colocada nesse tipo
de situação de perigo de novo — disse ele. A mão que ele havia
enfiado por baixo da saia dela tinha chegado à calcinha. Agora os
dedos dele passeavam pela borda da renda na parte de dentro da
coxa dela. — Mas para que eu proteja você do jeito que quero, você
tem que vir morar comigo. Para que possamos ficar juntos. De
verdade.
— Na Tailândia — disse Meena, de olhos fechados. Ela tinha
encostado a cabeça no peito dele, o pescoço à mostra num convite
tentador.
— Ou onde você quiser. Não precisa ser na Tailândia. — Os lábios
dele se aproximaram do pescoço dela.
O coração de Meena deu outro salto. Tudo parecia tão perfeito. Os
dois iriam embora juntos. Talvez para a Tailândia. Lucien a
protegeria. Ele podia fazer isso, pois era grande e forte. E rico. Ela
não precisaria se preocupar se Leisha ou Jon ou Adam ou Alaric ou a
bebê ou qualquer um de quem gostava seria morto.
Porque ela teria ido embora. Estaria longe deles. Só teria Lucien com
quem se preocupar.
Mas...
Uma coisa a incomodou lá no fundo da mente. A mesma coisa que
sempre a incomodava quando Leisha mencionava o bebê. A mesma
coisa que a incomodou quando Yalena mostrou a ela a foto do
namorado no celular...
O poço de nada.
Ela abriu os olhos, surpresa de ver que a boca de Lucien estava
aberta e em seu pescoço.
— Espere — disse ela, se afastando, a pulsação disparando, a
respiração travada na garganta. — O que você está fazendo?
Lucien olhou para ela sem expressão alguma no rosto. A mão debaixo
da saia dela ficou parada.
— Nada — disse ele cuidadosamente. — Não estou fazendo nada com
você, Meena. A não ser amar você.
Ela ergueu a mão e tocou o pescoço. Ficou aliviada de ver que estava
seco.
Mas só seria preciso mais uma mordida, ela sabia, e então um gole
do sangue dele...
E ela se tornaria como ele.
Ela sabia. Ele sabia.
Meena ficou parada, de repente sentindo como se as paredes do
quarto se fechassem sobre ela.
O coração dela estava disparado, como o de um coelho. Tão
disparado que ela teve medo de que ele pulasse para fora do peito.
O que estou fazendo?, ela se perguntou. O que estou fazendo aqui?
Alaric Wulf a tinha avisado para não ir ao apartamento. Ele tinha
falado... ele a tinha feito prometer que não iria lá ver.
Será que ele sabia? Será que ele sabia que Lucien voltaria para lá
para encontrá-la e que faria aquilo com ela?
É claro que ele sabia.
E ela não tinha escutado. Ah, Deus, por que não tinha escutado? Ela
era como todas as pessoas que nunca a escutavam.
Porque só agora o grande perigo que ela corria estava começando a
ficar claro para ela... dessa vez, era ela que estava na beirada do
precipício. Como ia escapar? Como ia sair daquela situação?
Não tinha arma nenhuma.
E mesmo se tivesse, será que ela poderia matar o homem que
amava, mesmo se isso significasse...
... a vida dela?
Ela andou de um lado para outro do quarto e depois voltou,
respirando de forma rápida e leve.
— Meena — disse Lucien, olhando para ela com curiosidade. — Qual é
o problema?
— Nada — disse ela. Será que ele conseguia ler a mente dela?
Sim. É claro que conseguia. Em parte, ao menos. Sempre conseguira.
Muito bem, ela decidiu. Que ele a leia agora.
Ela parou na frente dele, os dedos bem na beirada do precipício.
— Não posso fazer isso — disse ela. — Não posso... fazer isso. Ele
olhou para ela do chão, onde ainda estava sentado.
— Não sei do que você está falando — disse ele.
— Ah, não minta pra mim, Lucien — disse ela, explodindo. — Depois
de tudo que passei por sua causa? Da aberração do seu irmão tentar
me matar? De um exército de vampiros tentar beber meu sangue? E
você vai ficar aí sentado, mentindo na minha cara?
Ele ficou parado, a atitude dura de tranquilidade desaparecendo.
— Tudo bem disse ele. As mãos grandes estavam crispadas. Havia
um músculo latejando no maxilar dele. Era óbvio que ele sabia
exatamente sobre o que ela estava falando desde o começo. — E daí?
Admita que tornaria tudo mais simples, Meena.
— Mais simples? — Ela riu alto, mas sem humor, — Se eu estivesse
morta?
— Se você fosse uma de nós — disse ele, colocando as coisas de uma
forma que obviamente achava mais palatável.
— Aí eu e você poderíamos ficar juntos de verdade. Toda essa
conversa de ir para a Tailândia...
— Ah, tá — Meena o interrompeu com sarcasmo. — Para sua
informação, eu sempre soube que isso nunca ia acontecer, porque
você queimaria como fogos de artifício na praia.
— ... não significa nada se você vai envelhecer ao meu lado enquanto
eu...
— Ah, mas que legal — disse Meena, interrompendo-o de novo. Então
você vai me trocar por outra mais jovem quando eu ficar velha, como
todos os caras fazem? Está sugerindo que eu experimente usar o
creme para rugas Revenant ou que me hospede em um dos spas de
Dimitri...
Ele esticou as mãos e as colocou sobre o rosto de Meena, olhando
bem dentro dos olhos dela.
— Eu vou amar você, Meena — disse ele com intensidade — até o fim
dos tempos. Nunca vou deixar de amar você. Minha vida antes de eu
te conhecer não era nada. Você consegue entender isso? Minha vida
não era nada, não significava nada, mesmo eu não sabendo disso. E
então você apareceu, e de repente tudo que eu sabia, ou achava que
sabia, foi virado de cabeça para baixo. Nunca mais serei o mesmo.
Como poderia? Você me mostrou o que é amar, sentife rir e, sim, até
mesmo me sentir vivo de novo. Então quer você escolha ser como eu
ou não, vou continuar amando você, Meena, mesmo depois que
tenha virado um cadáver apodrecendo debaixo da terra. Mas, Meena,
eu gostaria de fazer o que puder para impedir que você vire um
cadáver. Acho que já mencionei isso antes.
Ela ficou olhando para ele, abalada.
— Sim, mas, Lucien — disse ela, pegando os pulsos dele e olhando
nos olhos escuros, onde ela achou ver o brilho de uma chama —, me
enganar para me fazer virar vampira para que eu não envelheça e
morra ao seu lado? E se eu não quiser ser vampira? E eu não quero,
aliás. Tenho um cachorro que odeia vampiros, lembra? Tenho amigos
e família aqui na cidade de Nova York que eu gostaria de poder
visitar.,, durante o dia. Além disso, já vi a morte. Não gosto mesmo
de ir por esse caminho. Mesmo só de visita. Mesmo que por um
tempo curto. E mais uma coisa, Lucien. — Ela tirou as mãos dele do
rosto e as virou de forma que ela pudesse segurá-las. — Consigo
fazer uma coisa especial. Acho que você teve uma experiência com
ela, pelo menos em pequena escala, quando bebeu meu sangue. Sei
quando as pessoas vão morrer... E ultimamente sei quando elas
estão em perigo. E isso significa que posso avisá-las, dar uma chance
real para que lutem contra a morte... ou pelo menos que a adiem. Se
você me matasse e me transformasse em vampiro.., não sei se ainda
teria essa habilidade. Acho mesmo que, se meu sangue deixasse de
correr nas minhas veias, isso acabaria. E...
Ela respirou fundo de forma trêmula.
— Não sei se consigo viver sem isso. Porque, sabe aqueles horrores
indescritíveis que você mencionou antes, os quais você acha que não
sou capaz de imaginar e os quais tenho certeza de que você governa?
Ele ficou olhando para ela sem entender.
— Sim? O que tem eles?
Acho que é deles que eu devo proteger as pessoas — disse ela.
Esperava que as lágrimas que tinham começado a correr pelo rosto
de novo não o fizessem pensar que ela estava se arrependendo do
que dizia.
Porque não estava. Nem um pouco.
— Não sei ao certo — prosseguiu ela. — Mas sei que sempre que não
ajudo às pessoas... coisas ruins acontecem. Então... é isso que vou
fazer.
Ele sacudiu a cabeça. Agora Meena tinha certeza de que havia um
brilho de chamas naqueles olhos escuros, pequenas brasas, ardendo
com intensidade. Do lado de fora do apartamento, a chuva, que caía
com suavidade antes, de repente começou a desabar com força. Um
trovão soou não muito distante.
— Meena — disse ele. As brasas brilhavam num tom de vermelho
profundo, exatamente como os olhos do dragão. — Não estou
entendendo. O que você está dizendo?
— Estou dizendo — continuou ela, incapaz de conter um soluço —
que vou trabalhar para a Palatina.
Ele ficou olhando para ela por um segundo ou dois.
Depois jogou a cabeça para trás e riu.
Quando ele olhou para ela de novo, as brasas tinham virado chamas
vermelhas e ardentes.
— Ah, Meena, Você está brincando,
—Não estou brincando — disse ela, erguendo a mão boa e limpando
as lágrimas. A Palatina me ofereceu um emprego. E decidi que vou
aceitar.
Os olhos dele estavam completamente vermelhos agora. O castanho
tinha sumido. O dragão estava assumindo.
— Eu jamais faria qualquer coisa para ajudá-los a ir atrás de você,
Lucien — se apressou em explicar. — Você sabe disso. Sempre vou
tentar fazer tudo que puder para ajudar você. Porque também amo
você. E sempre vou amar. Mas não posso ficar com você. Não se isso
significa que meus amigos vão se machucar. E esse emprego...
significa que finalmente posso fazer o que sempre deveria ter feito.
— Você não precisa de um emprego — disse ele com selvageria
repentina. Ele esticou a mão e a pegou pela cintura, puxando-a com
força contra si. Do lado de fora, um relâmpago brilhou na mesma
hora em que o trovão fez o prédio tremer. A tempestade estava
diretamente acima deles. — Já falei que vou cuidar de você.
Meena ergueu o queixo para olhar nos olhos dele. Naqueles ferozes
olhos de dragão.
— Mas não sem me matar — disse ela baixinho.
Ele olhou para ela enquanto a chuva caía com força na varanda, o
olhar volátil dele queimando de tanta intensidade. Ela achou que ele
podia consumi-la em sua ira e apagá-la completamente da face do
planeta, do modo como o fogo de dragão tinha apagado os Dracul
naquela noite.
E ninguém saberia. Ninguém jamais saberia o que tinha acontecido
com Meena Harper.
Ele podia fazer isso. Não havia nada para impedi-lo.
Exceto sua coragem.
— Sabe — disse ela, engolindo em seco. — Quando você me contou a
história de São Jorge e o dragão na noite em que estávamos no
museu, Lucien, teve uma coisa que você deixou de fora.
— O que foi?
Ele estava se controlando com esforço. Ela podia sentir os braços dele
tremendo quase tanto quanto os joelhos dela enquanto Lucien
tentava corajosamente não levar os lábios ao pescoço dela e fazer o
que tanto queria.
— Você não me contou que era o dragão — sussurrou ela.
Um trovão — ou talvez tenha sido a voz dele — fez tremer as paredes
do apartamento, com tanta força que Meena teria colocado as mãos
por cima dos ouvidos se não as tivesse colocado defensivamente
sobre o rosto, certa de que a próxima coisa que veria seriam as
presas dele indo em direção a seu pescoço.
— Sou o príncipe das trevas. — A voz dele era como um ribombar nos
ouvidos dela. — O que você achava que isso significava, Meena?
Achava que significava que... eu... era... um... santo?
E, exatamente quando ela achou que ele ia cair sobre ela...
... ele a soltou.
Lucien baixou os braços e ficou ali parado, tremendo e olhando para
ela.
Nunca tinha visto tanta tristeza nos olhos de alguém.
— Não, Meena — disse ele em sua voz normal. — Você é a santa. O
que isso significava? Por que ele a tinha soltado?
— Vá — disse ele secamente, assentindo em direção à porta do
quarto. Ela deu um pulo.
— Se você quer ir embora — insistiu, o tom de voz subindo —, vá
agora. Antes que eu mude de ideia. Acho que você sabe o que vai
acontecer se eu mudar.
Ela se virou e saiu correndo do apartamento, sem parar para trancar
a porta atrás de si. Ignorou o elevador, não querendo esperar, e
correu pelos onze lances de escada, incapaz de acreditar que ele não
estava indo atrás dela — fosse em forma de morcego, de dragão ou
de homem.
Não diminuiu o passo. Como Lucien tinha dito, ele ainda podia mudar
de ideia.
Saiu correndo pelo saguão, sem parar para dizer adeus a Pradip. Saiu
correndo pela chuva, que imediatamente a encharcou, e pegou o
primeiro táxi vazio que viu. Desabou no banco de trás, ofegando e
dizendo sem fôlego o endereço da paróquia de St. Clare para o
motorista.
Ela não olhou para trás.
Não ousava fazer isso.

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