23
Lucien podia simplesmente ter ignorado o fato de que Alaric Wulf estava correndo em sua direção com uma espada. Mais alguns metros e chegaria à claraboia, que pretendia quebrar ao passar para o teto, protegendo o corpo de Meena com o próprio corpo para que ela não se ferisse.
Mas a espada era um insulto ao qual ele não conseguia resistir, principalmente depois do crucifixo.
Meena não tinha admitido que Wulf lhe dera o colar. Mas Lucien não via quem mais podia ter sido. Sabia que ela própria não havia comprado.
E a moderna solidez do crucifixo brilhoso de metal indicava que fora escolhido por um caçador de vampiros de origem celta.
—Desça aqui — gritou Wulf. — Lute como homem. Ou será que você depende de seus truques demoníacos há tanto tempo que esqueceu o que significa a palavra homem?
Lucien voltou para o chão. Havia meses que não se sentia tão forte. Não tinha certeza se era por causa da proximidade de Meena ou do Mannette. Talvez as águas finalmente estivessem começando a fazer o efeito que desejava.
De qualquer forma, ele se sentia invencível, como se não houvesse nada e nem ninguém no planeta que pudesse impedi-lo de ter o que queria. Não desta vez. E certamente não Alaric Wulf.
— Já poupei sua vida uma vez, Wulf — disse ele em tom de aviso. — Não me provoque de novo.
Wulf ergueu as sobrancelhas.
— Está se referindo à vez em que derrubou um prédio em cima de mim e depois botou fogo nele? Não pareceu que você estava me poupando de nada,
considerando o fato de que só sobrevivi porque o torniquete que sua namorada fez me impediu de morrer de hemorragia.
— Não me chame disso — disse Meena ao tentar se libertar do abraço de Lucien, batendo no peito dele. Mas daria no mesmo se estivesse
dando socos num muro.
— De quê? — perguntou Wulf. — Namorada? Mas vocês parecem estar se dando tão bem.
Lucien deu de ombros.
— Você está certo — disse ele. — Eu devia ter matado você. Mas estou pronto para corrigit esse erro agora.
— Que bom. Então por que não a solta, para podermos começar?
— Lamento, mas... — Lucien se contraiu em uma careta quando Meena o queimou com o colar, embora não achasse que ela tivesse feito de propósito, ou mesmo que se desse conta do que fez. Se tivesse, tinha certeza de que ela o teria queimado mais. Ainda assim, manteve um braço preso na cintura dela. — Por mais que eu queira, estou um pouco ocupado no momento.
Wulf baixou a espada.
— É sério? Meena, você está ouvindo? É este o homem com quem escolheu ficar. Ele está usando você como escudo humano.
— Não está — gemeu Meena, e deu uma cotovelada na garganta de Lucien, sem efeito algum. — Ele sabe que, se me soltar, vou sair correndo.
Lucien não respondeu ao comentário dela. Apenas olhou para Wulf.
—Você sabe que tem uma pessoa que trabalha dentro da sua organização e que estava disposta a permitir que ela fosse morta só para
me atingir?
— De que ele está falando? — perguntou Wulf a Meena.
— É verdade — disse Meena. — O livro que Mary Lou roubou é o do meu sonho. Era da mãe de Lucien. Alguém o plantou na exposição para tentar atrair Lucien aqui para capturá-lo.
— Ah, bom, que bom que não funcionou — disse Wulf com sarcasmo. Lucien olhou para ele com desprezo. Não ter matado Alaric Wulf quando teve a oportunidade estava rapidamente se tornando seu maior arrependimento.
— Meena diz que aconteceram assassinatos. Não cometi nenhum.
Alguma outra pessoa está fazendo isso e tentando fazer parecer que fui eu para que idiotas como você acreditem.
— Ah, sim — concordou Wulf, cada vez com mais sarcasmo na voz.
— Você é um homem muito inocente. É o que parece agora. A maioria dos homens inocentes faz reféns.
—Já a usaram uma vez para tentar me atingir—disse Lucien, com a raiva aumentando. — Você já pensou que agora é você quem está sendo usado?
Wulf ergueu a espada de novo
—Eu não ligo. Só quero ver você morto
Lucien sorriu para si mesmo. Wulf tinha acabado de tornar as coisas fáceis demais para ele.
Era possível que Meena estivesse certa. Talvez houvesse um pouco de humanidade nele. E talvez fosse essa humanidade que tivesse feito com que poupasse a vida de Wulf na última vez em que se encontraram.
Mas não importava. Aquele pouquinho de humanidade logo sumiria se o Mannette fizesse seu trabalho.
E Wulf também, em um minuto.
E Meena nem podia ficar zangada com ele por causa disso, porque Lucien podia dizer que só estava se defendendo. Wulf tinha acabado de ameaçá-lo
— Tudo bem — disse Lucien. — Se dar a você a chance de me matar vai satisfazê-lo, fico feliz em ajudar. —Mais do que feliz. Nada me daria maior prazer
— O quê?
Meena parecia apavorada. Lucien a soltou para que pudesse se defender contra Wulf... tão de repente que ela tropeçou e caiu de joelhos.
Ela ficou de pé entre os dois homens, com dois pontos rosados nas bochechas e os olhos escuros parecendo faiscar.
— Não — disse ela. Sua voz estava trêmula. — Não. Ninguém vai matar ninguém. Não mais. Vamos resolver isso juntos, sem matar, como pessoas racionais e normais.
Lucien quase sorriu. Ela ainda não entendia quem ele era agora... em que havia se transformado.
Nem Wulf, senão não teria sido tão tolo a ponto de pedir para lutar.
- Meena — disse Alaric, com impaciência. — Saia do caminho.
- Não — advertiu ela de novo. — A matança tem que terminar. Estão me ouvindo? É errado. A matança tem que terminar.
Naquele exato momento, a claraboia acima deles estourou.
Lucien percebeu imediatamente o que estava acontecendo e ficou furioso consigo mesmo por mais uma vez permitir que uma fraqueza humana — ciúme de Wulf — o distraísse. Se apenas o tivesse ignorado, tudo poderia ter sido evitado.
Agora homens, todos vestidos de preto, desceram usando cordas de rapei pelo buraco aberto no teto. Estilhaços de vidro e metal voaram e os fragmentos formavam o que parecia uma grande teia de aranha.
Lucien mergulhou para proteger Meena dos escombros, mas não foi rápido o bastante. Outros homens, também vestidos de preto, alguns carregando bestas, apareceram nas laterais do salão e a puxaram para longe. Tinham feito o mesmo com Alaric Wulf, que lutava contra eles e tentava cortar os pedaços de rede, imitando uma teia de aranha, que conseguia alcançar com a espada.
Estava claro que Alaric Wulf não sabia nada sobre a armadilha. Se Lucien não estivesse tão furioso, teria rido da ideia de Wulf cortando a enorme teia de metal com a espada.
Porém tinha preocupações mais importantes. A teia fora lançada diretamente sobre ele e o cobria por completo. E era feita de peças de prata maciça, uma substância que não só era desconfortável para sua pele, mas também queimava com mais intensidade do que o habitual. Ele levou um momento para perceber por quê.
Água benta. Tinham encharcado a corrente de prata com água benta.
— Segurem-no. — Lucien ouviu alguém falar. Achou que a voz parecia familiar. — Segurem-no bem!
Antes que tivesse a chance de ver se podia reconhecer o rosto a quem a voz pertencia, uma coisa afiada atingiu-lhe a pele. Ele olhou para baixo e viu que era um dardo. Um dardo tranquilizante.
Se não fosse pela dor intensa da prata e da água benta, teria sorrido um pouco. Era engraçado que achassem que poderiam sedá-lo com um dardo
tranquilizante.
Lucien sabia sem dúvida alguma que Alaric Wulf não era o responsável por essa operação. Ele jamais usaria uma arma tão idiota contra um vampiro. Principalmente o filho de Drácula.
Pensou em deixar que o levassem, só para ver quem estava por trás dessa tentativa tão grosseira e amadora de capturá-lo.
Mas então ele ouviu um som que o fez esquecer todo o resto. O grito de Meena Harper.
E soube que precisavam dele em outro lugar.
Ele se transformou em névoa e passou pelos vãos entre as correntes de prata, depois foi em direção à claraboia e voou para o céu noturno.
24
A visão de Lucien voando pela claraboia deixou as pessoas que tinham capturado Meena frenéticas.
Mas foi um grande alívio para ela, por mais furiosa que estivesse com Lucien pelo que havia tentado fazer. Bem feito para a Palatina ele te conseguido escapar. Como puderam fazer urna coisa tão idiota quanto tentar lançar uma rede sobre ele, mesmo sendo de prata? Isso jamais teria acontecido se Abraham ainda fosse o responsável.
Mas quando se virou para dizer isso para a pessoa que a tinha algemado — e que ela já havia chutado várias vezes. Por que estava algemada? —, ficou chocada, mais do que chocada, ao ver que era o padre Henrique.
— Lamento muito — disse ele, aparentemente se referindo às algemas. —Ficarei feliz em retirá-las assim que nos contar para onde ele foi. Ele tinha tirado a sobrepeliz branca. Por baixo, usava um dos uniformes pretos igual ao do resto da unidade, com um emblema de ouro acima do peito direito com a figura de um cavaleiro sobre um cavalo, matando um dragão: São Jorge, o padroeiro da Palatina.
Meena estava tão tomada de raiva que respondeu com uma tentativa de dar outro chute no padre Henrique. Mas uma oficial da Palatina que ela nunca vira antes a impediu.
O padre Henrique balançou a cabeça com tristeza.
— Você não está se comportando como a profissional que pensei que fosse, Meena Harper. Mas se é assim que prefere agir, que seja. — Ele deu de ombros e sacudiu a mão. A oficial começou a empurrar Meena em direção ao elevador.
— Ah — disse Meena com desprezo para o padre Henrique quando
passou por ele—, e você é um tremendo profissional, não é? Pensei que tivesse sido transferido para cá para a paróquia de St. George, mas pelo visto foi por ser um expert nos Lamir. Coisa que Lucien não é. Você não sabia que ele pode se transformar em névoa? Todo mundo daqui sabia.
Para a surpresa dela, quando as portas do elevador estavam prestes a fechar, o padre Henrique entrou com ela e gesticulou para que a guarda saísse. Ela fez o que ele mandou. Quando as portas se fecharam de novo, só havia Meena e o padre Henrique no elevador. Ela olhou para ele com desconforto, tentando imaginar em que havia se metido.
— Acho que você não entendeu a gravidade da situação, Meena — disse ele, apertando o botão para descer. — É imperativo que Lucien Antonesco seja capturado.
O inglês dele estava bem melhor agora do que durante a entrevista para Genevieve Fox e quando ele estava conversando com o padre Bernard e com a irmã Gertrude... ambos ausentes na operação, como Meena percebeu.
— Acha que não sei disso? - — perguntou Meena. — Mas não vejo como me algemar vai ajudar a situação...
O padre Henrique se inclinou na direção dela. Ele era bem alto.
— Não finja que não anda se encontrando com Lucien. Foi vista na companhia dele ontem à noite. Você ajudou a criar esta situação. Pelo que sei, foi você quem sonhou com ele, com o livro, e fez o pedido. Imagino até que tenha contado a ele sobre o livro. E agora, ele o tem. Você não pode nem começar a imaginar o que fez. Basicamente, despertou poderes em Lucien que ele jamais soube ter. Agora nada vai detê-lo.
Abalada, Meena olhou para ele.
— Eu... eu não sei de que você está falando. Isso não estava no meu sonho. Não foi com isso que sonhei mesmo.
— Eu falei antes que aquele não era um livro qualquer. E agora que caiu nas mãos dele, não há como saber o que ele vai fazer. Então, se você sabe onde ele está, é melhor nos contar, ou será responsabilizada por destruir tudo, tudo pelo qual trabalhamos duro para conseguir.
As portas do elevador se abriram e ele a pegou pelo braço.
— Mas é claro que quem decide é você — disse ele, guiando-a até o
corredor e em direção a uma saída dos fundos, onde vários outros guardas esperavam.
Foi nesse momento que ouviu Alaric gritar:
— Não conte nada a esse idiota, Meena!
Em seguida, a voz dele foi abafada pelo fechamento de uma porta de carro. Ele foi colocado em uma van que o aguardava e que saiu imediatamente quando a porta fechou. Outra van estava esperando atrás... por Meena, como ela pôde perceber.
O coração de Meena começou a bater forte de medo. Não tinha ideia de o que o padre Henrique estava falando ou o que ia acontecer com ela. Aquela era a Palatina, afinal, uma unidade secreta do Vaticano. Ninguém sabia que existia. Podiam fazer o que quisessem com ela e não serem responsabilizados.
Não que realmente acreditasse em nada do que Lucien tinha dito antes, sobre ter sido seu empregador o responsável por mandar David atrás dela. Isso era absurdo. A Palatina não tinha vampiros em cativeiro para infectar civis inocentes e depois soltá-los no meio da população só para atrair seu alvo número um...
Tinha?
— D-desculpe — disse Meena, olhando para o padre Henrique. — Mas eu realmente não sei onde Lucien está.
Porém não era completamente verdade. Mary Lou tinha dito qualquer coisa sobre uma caverna. Mas não compartilharia essa informação. Não só por causa do que Alaric havia gritado. Mas porque, em seu coração, não acreditava que o padre estivesse falando a verdade.
A expressão do padre Henrique ficou mais dura.
— Entendo. Posso lhe dar um conselho, Srta. Harper? Escolha seus namorados com mais cuidado. Nada de bom parece estar acontecendo com eles. E eu odiaria ter que dizer o mesmo sobre Alaric Wulf algum dia.
Meena piscou. Ele havia mesmo acabado de fazer uma ameaça contra Alaric? Não tinha muita certeza porque, um minuto depois, ele sorriu para ela, de uma forma tão encantadora como sorrira para Genevieve Fox na TV.
— Vejo você no quartel-general — disse ele.
E saiu andando, deixando-a para ser colocada, boquiaberta de choque, na
van que a aguardava.
Tinha quase certeza que iam levá-la direto para o rio e atirar nela, para depois jogá-la, junto com Alaric, nas águas escuras.
Mas é claro que não fizeram isso. Levaram-na direto para o quartel- general da Palatina em St. Bernadette, o que deveria ser tranquilizador, mas não foi. Não viu a van onde tinham colocado Alaric, nem conseguiu ouvir a voz dele no corredor. Depois do que o padre Henrique dissera, ela começou a ter uma sensação muito ruim. Independentemente de Lucien estar certo ou não sobre haver alguma espécie de conspiração dentro da Palatina, estava claro que não existia nenhuma amizade entre Alaric e o padre Henrique.
E agora, o padre Henrique parecia ter sido promovido a uma posição com certo poder. Não que ela pensasse que ele fosse abusar desse poder... mas o que ele quisera dizer sobre não querer que algum mal acontecesse a Alaric? Será que queria dizer que, sem a ajuda de Meena, alguma coisa de ruim ia acontecer a ele? Devia ter sido isso. Porque todo mundo percebera que Lucien tinha intenção de fazer alguma coisa a Alaric (mas só porque Alaric havia tentado ajudá-la).
Com certeza, o padre não tivera a intenção de dizer que ele mesmo pretendia fazer coisas ruins a Alaric. Pois quando Meena imaginava Alaric, não tinha a sensação de ele estar em perigo.., pelo menos, não do tipo mortal. Mas não fazia ideia de onde ele estava. Ela estava trancada na antiga enfermaria da escola, usada no passado para isolar crianças com doenças contagiosas. Não havia meio de sair.
E, se alguém estava pensando em resgatá-la, também não havia meio de entrar, exceto pela porta. Que estava trancada.
Mas evidentemente ninguém estava pensando em resgatá-la, pois, conforme as horas passavam, a maçaneta não se moveu uma única vez.
O prédio era tão a prova de demônios quanto a casa de Meena, então Lucien não conseguiria entrar se quisesse.
E Meena tinha que admitir que isso era um certo alívio, depois do modo como ele agira durante aqueles últimos minutos no museu. Por mais que tenha sentido pena quando viu a fumaça subindo da pele dele como resultado do contato da água benta, ainda não conseguia acre ditar no que ele tentara fazer
com ela. Agira como alguém que ela nem conhecia, O que ele havia pensado ao tentar sequestrá-la daquele jeito?
Meena teve muito tempo para pensar. Sozinha na enfermaria durante horas, não lhe sobrou mais nada para fazer. Tinham tirado as algemas mas levaram seu celular. Ela deve ter acabado caindo em um som exausto e agitado na maca de exames, pois, quando percebeu, estava sendo sacudida para acordar.
— Não! — gritou ela. — Eu não sei! Eu juro que não sei onde ele está?
— É uma pena — disse o padre Henrique, arrastando uma cadeira para perto da maca. — Eu tinha esperança de que você tivesse pensado sobre nossa recente discussão e mudado de ideia.
Piscando, Meena sacudiu a cabeça.
— Não. E você não pode me deixar presa aqui. Exijo ser libertada Onde está Alaric?
— Na verdade — disse o padre Henrique —, tenho todo o direito de manter você presa aqui. Você está escondendo provas valiosas que precisamos em nossa busca ao criminoso mais procurado do mundo... talvez da história do mundo. Mas não estou aqui para brigar. Na verdade, estou do seu lado, acredite se quiser.
Meena disse:
— Não acredito. Se estivesse do meu lado, não teria me trancado nesta sala.
— É para sua própria segurança — garantiu-lhe o padre Henrique
— Você sabe que Lucien Antonesco ia tentar transformar você est noite, não é?
Meena olhou para ele com raiva.
— Ele jamais faria isso — disse ela. Embora, na verdade, ele já tivesse tentado antes. Mas eles conversaram e concordaram que ele não faria de novo. Será que tinha mudado 1e ideia? Ela se recusava a acredita nisso. E mesmo se tivesse, como o padre Henrique saberia? — Não seu minha permissão.
— É exatamente isso que eu estava tentando dizer a você — disse o padre Henrique. — Ele está com aquele livro agora. As coisas estão diferentes. Ele está diferente. Com a posse daquele livro, Lucien Antonesco vai se tornar
invencível. Comparado ao pai dele.., bem, seria como comparar um bebê a um touro feroz. Aquele livro vai torná-lo o ser mais poderoso que o mundo já conheceu. Talvez... todo-poderoso.
Meena ficou olhando fixamente para ele. Não havia nada de diabólico no livro que vira nos sonhos. Também não havia nada de diabólico no livro que tinha visto no museu.
Embora tenha notado uma clara mudança em Lucien.
Mas essa mudança havia aparecido antes de ele botar as mãos no livro.
— Não entendo do que você está falando — disse ela por fim. — Pensei que Lucien já fosse todo-poderoso. Não é isso que significa príncipe das trevas? O quanto mais poderoso ou diabólico ele pode ficar?
O padre Henrique balançou a cabeça.
— Tenho certeza de que você ouviu falar dos horrores que o pai de Lucien infligiu em seu próprio povo. Das dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças que ele mandou empalar, vivos, por nenhuma outra razão além de intimidar seus inimigos. É disso que estou falando.
Meena, já cansada e confusa, não conseguia nem começar a conciliar essa imagem com a que tinha de Lucien na cabeça — e no coração. Não era possível.
— Se deixar o livro cair nas mãos de Lucien podia causar isso — disse Meena —, então por que o Vaticano permitiu que saísse de Roma?
A expressão do padre Henrique ficou sombria.
— Nem todo mundo acredita com tanta intensidade quanto eu que um livrinho tão pequeno poderia exercer tanto poder sobre o lorde das trevas. Obviamente, acreditam que ele quer o livro de volta porque pertenceu à mãe dele e estavam dispostos a usá-lo como isca para atraí- lo... mas nunca se deram conta das possibilidades caso permitissem que caísse nas mãos dele. Sei que você acredita, Meena. Consigo ver no seu rosto. Senão, jamais teria sonhado com ele. Você sabe do poder que ele tem sobre o príncipe... você acredita. E pode impedir o que está prestes a acontecer... nos dizendo onde ele está. — O padre Henrique parecia triste. — Acredite em mim, Meena. Sei o quanto pode ser doloroso fazer a coisa certa, em vez de fazer a coisa fácil. Mas aprendi ao longo dos anos que o bem maior é mais importante do que nossas
próprias necessidades egoístas. E se você realmente deseja ajudá-lo, vai me contar onde ele está.
Meena suspirou.
— Você está certo — disse ela.
O rosto do padre Henrique se iluminou.
— Estou?
— Quanto ao livro — disse ela. — Acredito que é mais importante do que qualquer pessoa parece acreditar. Mas você está errado quanto a Lucien. Ele não é mau.
A expressão do padre Henrique sumiu.
— Srta. Harper... — ele começou a falar.
— Tenho fé nele. Mesmo se ninguém mais tiver. Ele vai fazer a coisa certa. Agora, onde está Alaric?
O padre Henrique ficou olhando para ela com a maior expressão de raiva que Meena já tinha visto no rosto de um homem que havia decidido dedicar a vida ao próximo. Ele levou algum tempo antes de conseguir se acalmar o bastante para dizer simplesmente:
— Boa noite, Srta. Harper.
E saiu do aposento, trancando a porta.
Embora não gostasse dele, Meena se viu sentindo um pouco de pena do padre Henrique. Ele fora colocado em uma posição para a qual estava mal qualificado e na qual não se encaixava. Ela se perguntou quem o havia recomendado para o cargo e se essa pessoa seria demitida. Merecia ser.
Um pouco depois do amanhecer, a porta se abriu e o Dr. Fiske, o terapeuta de Alaric, entrou na sala, anunciando com um sorriso sem graça que tinha sido nomeado chefe temporário de recursos humanos na ausência de Abraham Holtzman.
Não estava lá para torturá-la ou matá-la, e nem mesmo perguntar o paradeiro de Lucien. Na verdade, foi apenas levar uma carta para ela.
Uma carta de demissão.
Meena, não o padre Henrique, era quem estava sendo demitida.
O Dr. Fiske fez com que ela lesse a carta com cuidado, para garantir que tivesse entendido, e pediu que assinasse para confirmar o recebimento.
Depois lhe entregou a bolsa e o celular e disse que um carro estava esperando para levá-la para casa.
Confusa, Meena desceu da maca de exames. De certa forma, isso era pior do que ser torturada, porque era totalmente banal em vista do que ela vinha esperando.
Estava despedida?
O Dr. Fiske não foi grosseiro. Na verdade, foi muito compreensivo, até mesmo solidário e simpático.
Mas disse que Meena tinha violado quase todas as regras do Manual de recursos humanos da guarda Palatina, muitas delas apenas nas últimas 48 horas.
E então era muito improvável, dada a magnitude, amplitude e extensão do dano que as ações dela causaram — essa frase foi usada na carta —, que, mesmo que ela entrasse com recurso, tivesse permissão de continuar sendo funcionária do Vaticano.
Então os serviços dela não eram mais necessários.
Quando Meena perguntou onde Alaric estava, o Dr. Fiske olhou para o relógio e disse:
— Acredito que esteja em um transporte particular para Roma.
De todas as coisas que Meena esperava ouvir, nada podia tê-la preparado para isso.
— Roma? — A voz dela falhou de tanta descrença.
— Bem — disse o Dr. Fiske, parecendo um tanto surpreso pela reação dela. — Não era a decisão administrativa mais fácil de se tomar, é claro. Ele teria que ser transferido ou perder o emprego. E como é um membro extremamente valioso desta organização, optei por transferi-lo. Pareceu fazer mais sentido.
Meena balançou a cabeça. O que podia fazer sentido para o Dr. Fiske não fazia para ela.
— E Alaric concordou? Com Lucien Antonesco possivelmente de posse de um livro que vai torná-lo o demônio mais poderoso na história do mundo?
Pela primeira vez, o Dr. Fiske pareceu ligeiramente desconfortável.
— Bem, não sei sobre tudo isso. Só trabalho na administração. Mas soube
que ele foi perfeitamente condescendente com...
— Você soube? — Os alarmes que dispararam na cabeça de Meena estavam tão altos que ela pensou por um segundo que fossem os detectores de fumaça do prédio. — Não falou com Alaric em pessoa?
— Srta. Harper — disse o Dr. Fiske. Ele olhou para ela por cima da borda dos óculos de leitura. — Como você mesma disse, estamos em busca do demônio mais poderoso do mundo. Tive que assumir a posição de um colega desaparecido que, eu gostaria de mencionar, não deixou sua mesa em condições muito organizadas. Mas sou o psicoterapeuta de Alaric há quase seis meses e acho que estou qualificado para dizer que ele permitiu que as emoções comprometessem a capacidade de tomar decisões, e isso já tem algum tempo. Desde que ele conheceu você, para ser mais preciso.
Isso não silenciou de forma alguma o alarme.
— Mas não acho que Alaric faria...
Ele colocou uma das mãos no ombro dela e a interrompeu com delicadeza.
— Mesmo você não pode negar, Meena, que você e Alaric Wulf desenvolveram uma relação que se tornou codependente de uma maneira nada saudável e que já causou a morte de vários de nossos colegas. É melhor que tenham um pouco de distância e de perspectiva. Foi por isso que Alaric concordou com a transferência e está a caminho de Roma e você está sendo liberada. Agora, por favor, não me faça mais perguntas sobre Alaric, pois eu não gostaria de violar minha obrigação de manter a confidencialidade entre médico e paciente...
As palavras causou a morte de vá rios de nossos colegas atingiram Meena com força.
Não por ela acreditar que tivesse provocado a morte de Abraham e Carolina e do resto da equipe enviada a Freewell. Ela ainda não sabia onde estavam e nem por que não haviam se manifestado. Mas quando se lembrava dos rostos deles, tinha quase certeza de que estavam vivos.
Ainda assim, era por causa dela que eles tinham ido para Freewell. Era por causa dela que eles e Brianna Delmonico desapareceram.
A morte de David, por outro lado... bem, isso Meena tinha provocado.
Era por causa dela que ele fora transformado em vampiro.
Ela sabia disso e estava disposta a aceitar, assim como a demissão da Palatina.
Só havia uma coisa que não estava disposta a aceitar. Uma coisa que, aparentemente, o Dr. Fiske não sabia.
— Pronto, pronto — disse o Dr. Fiske, vendo a expressão dela e, ao que parecia, interpretando errado. — Sei que parece o fim do mundo no momento. Mas você vai se sentir melhorem alguns dias. O sol subiu agora e está seguro para você ir embora. Um carro está lhe esperando. Adeus, Meena.
Sentindo-se anestesiada, ela pegou a carta que o Dr. Fiske lhe entregou. Em seguida, saiu da enfermaria e desceu o corredor vazio até estar sob a luz do sol da manhã nos degraus do quartel-general da Palatina, perto da fonte de Santa Bernadete ajoelhada em frente à Madona sem pés, sem água alguma, como sempre esteve.
Como tinha acabado de amanhecer, não havia ninguém por perto, exceto pelo carro que, como afirmou o Dr. Fiske, estava esperando por ela depois dos arcos no final do pátio. Meena ficou olhando para ele, com os olhos doloridos e a boca seca.
O que Alaric dissera no táxi a caminho do museu quando ela perguntou quando ele iria para Antigua? Ah, sim:
Não se preocupe. Não vou embora deixando negócios pendentes.
Meena sabia que não havia meio de Alaric Wulf ter entrado em um avião particular para Roma. Não por vontade própria. Não sem se despedir dela. E não com Lucien Antonesco ainda solto.
Alaric tinha muitos negócios pendentes em Nova York para ter ido embora para Roma.
Meena tinha certeza de que o Dr. Fiske acreditava que não havia mentido. Ele acreditava no que dissera.
O que significava que alguém tinha mentido para o Dr. Fiske.
De pé nos degraus da escola St. Bernadette na luz do amanhecer, depois de ter dormido tão pouco e com as emoções tão à flor da pele, a complexidade da situação finalmente começou a ficar clara.., assim como a percepção de que estava sozinha agora. Tudo dependia dela. Ia ter que
resolver tudo sozinha.
Mas estava tudo bem. Ela conseguiria.
Era o que esperava.
Passou pela limusine que a aguardava — o motorista lá dentro estava tão absorto na leitura do jornal que sequer olhou para a frente — e andou até seu apartamento.
Parte 3
25
Jon olhou furioso para os três homens que tinham entrado no Beanery e sentado à mesa no canto, abaixo da TV de tela plana que ficava pendurava na parede de tijolos expostos.
Eles pareciam achar que podiam comprar o item mais barato do cardápio — cafezinhos — e ocupar a mesa durante horas só porque trouxeram laptops caros e os abriram.
E nem pagaram pelo wi-fi. Ele podia que tinham pen-drives de banda larga portátil.
O mínimo que podiam fazer era comprar um muffin.
Além do mais, não conseguia entender o que estavam achando tão fascinante na televisão. O som nem estava ligado. A IV estava sintonizada no canal de notícias 24 horas, por insistência do dono, que por acaso era a Igreja Católica, mais especificamente a capela de St. Clare, embora isso não fosse de conhecimento público.
Jon gostaria de ter colocado na ESPN ou mesmo no noticiário financeiro, mas tentara isso uma vez è o padre Bernard, que por acaso havia olhado pela vitrine quando saía do brechó ao lado a caminho da igreja, quase teve um ataque cardíaco.
Não valia o risco. Jon precisava do emprego, mesmo tendo sido dado a ele por pena. Principalmente agora que ainda não tivera a oportunidade de mostrar a Alaric Wulf sua SuperEstaca.
Jon não sabia o que havia acontecido. Só Deus sabia que horas Meena voltara do evento a que tinha ido com Alaric. Jon desconfiava que ela havia chegado depois do amanhecer. Quando a viu no quarto logo antes de ir para o trabalho, Jon percebeu que ela estava dormindo. Tinha se deitado na cama
completamente vestida.
E não havia sinal de Alaric.
Estranho. Talvez a coisa com Lucien Antonesco tivesse sido alarme falso.
O que significava que ia ter que agir sozinho. E sabia muito bem como.
Ia disparar a SuperEstaca contra um dos vamps sentados à mesa perto da TV.
Seria difícil, claro, porque se a SuperEstaca não funcionasse, se só queimasse o vamp de leve em vez de transformá-lo em pó, ele teria um demônio extremamente irritado com o qual lidar.., além dos dois amigos dele.
Mas Jon não conseguia tirar da cabeça as palavras de Adam do dia anterior... que precisava dar o primeiro passo e fazer alguma coisa. Senão, sempre teria os mesmos problemas idiotas — um leve vício em videogames, desemprego, depender da irmã para ter um lugar para morar — e nunca o tipo de problema que queria ter... do tipo que Adam tinha: uma esposa, um bebê, uma hipoteca. Eram problemas normais para um cara da idade dele. Problemas certos. Jon faria qualquer coisa por problemas assim.
Então levou a arma para o trabalho. Só precisava achar um vamp em que atirar.
E agora, ali estava ele, com três vampiros sentados à sua frente. Problema resolvido.
É claro que era possível que esses caras não fossem vampiros. Agora que Jon estava pensando no assunto, como tinham entrado no café sem se queimarem, considerando que já estava bastante ensolarado lá fora?
E não pareciam particularmente vampirescos, de calça cáqui e camisa polo com as golas levantadas. Pareciam ser caras como ele mesmo, se a sorte tivesse sido diferente... caras com empregos na área de investimentos, que tiraram a manhã de folga enquanto as mulheres estavam no clube do livro da livraria independente que havia na rua. Quando a reunião terminasse e as mulheres fossem se encontrar com eles ali, eles guardariam os laptops nos carrinhos caros dos filhos e iriam para a festa de San Gennaro, onde comeriam uma fatia de pizza e um cannoli, depois pegariam um táxi de volta até o prédio com porteiro 24 horas em que moravam em Tribeca ou em algum lugar parecido.
Além do mais, não deixaram gorjeta. Se não fossem vampiros, o raio ultravioleta não os machucaria. E se fossem... puf
Ele ergueu a arma. Um pequeno passo para ele, um grande passo para matadores de vampiros do mundo todo...
— Bom dia, Jon.
Yalena estava do outro lado do balcão, com o rosto jovem e lindo, como sempre.
— Hum... o-oi — gaguejou ele, sentindo-se ficar vermelho, e baixou a SuperEstaca imediatamente.
Nem ouvira a porta abrir. Estava realmente perdendo a cabeça se a garota mais bonita do mundo tinha acabado de entrar na loja e ele nem reparou.
— Estou vendo que você acabou prendido no turno da manhã de domingo também — disse Yalena, sorrindo daquele jeito incrível que fazia parecer que o sol estava brilhando ali dentro.
— Preso — corrigiu jon automaticamente. Não que se importasse com o jeito como ela às vezes falava errado. Era uma de suas qualidades mais adoráveis. Torcia para que ela nunca aprendesse a falar inglês corretamente. — E é mesmo, aqui estou. Como você está? Quer o de sempre? Um cappuccino?
— Ah, sim, obrigada, seria ótimo. —Yalena colocou a enorme bolsa sobre o balcão. — Estou bem. “Preso.” Sempre esqueço essa. O que tem aí? Um secador de cabelo? Trouxe para o trabalho?
Jon rapidamente enfiou a SuperEstaca no bolso do avental.
—Não, não — disse ele. — Nada. É só um projeto no qual estou trabalhando. Para a, hum, Palatina.
Assim que a palavra saiu de sua boca, ele se arrependeu.
— Ah. — O rosto todo de Yalena se iluminou. —Você agora também trabalha para eles? Como sua irmã?
Jon queria ter ficado de boca calada. O que dera nele?
Agora Yalena ia achar que ele era funcionário da Palatina, mas não era. Pelo menos não até matar aqueles caras ali, que, se ele pensasse bem, com certeza não eram vampiros. Vampiros não levantariam as golas das camisas. Vampiros nem usavam camisas poio. Pelo menos, nunca tinha visto.
—Bem, por fora — disse ele. — É meio que um projeto secreto.
— Ah, projeto secreto. Que interessante! — Ela estava pegando a carteira, mas Jon fez sinal de que não queria o dinheiro dela.
— Pare com isso — disse ele. — Você sabe que é por minha conta. Ou pela do chefe, na verdade. Você sabe. O sujeito de lá. — Ele olhou para cima, indicando o céu. — Acho que Ele não vai se importar.
— Ah, Jonathan — exclamou ela, rindo. Ele adorava o jeito como ela falava seu nome. Ninguém mais falava daquele jeito. Como se fosse especial. — Você é tão gentil. Quando tudo estava péssimo para mim na primavera, quando... bem, quando eu estava passando por um momento ruim, você foi o único que conseguiu me fazer rir. Não sei se conseguiria ter sobrevivido sem você nos últimos meses. — Quando ele passou o cappuccino para Yalena, a mão dela tocou na dele e ela permitiu que o toque durasse. — Estou tão feliz por conhecê-lo.
— Ah — disse ele, com o coração acelerando um pouco.
Era isso, pensou ele. O que Adam estava dizendo... sua chance de dar o primeiro passo. Talvez não precisasse de uma SuperEstaca, afinal. Yalena dissera que não sabia o que teria feito sem ele. Ela o achava gentil. Ele a fazia rir. Ela estava feliz por conhecê-lo!
E a mão dela ainda estava sobre a dele, enquanto os dois ainda seguravam a bebida.
Seu coração parecia que ia explodir dentro do peito de tão cheio de alegria que estava... e de nervosismo.
A/a, ele disse para si mesmo.
— Sinto a mesma coisa por você, Yalena. Sabe, eu estava pensado que depois do trabalho podíamos ir para a festa de San Gennaro juntos, talvez comer alguma coi...
— Cara.
O sujeito de gola rosa levantada tinha ficado de pé e ido até o balcão.
— Você pode aumentar o som? — Ele apontou para a TV.
Nunca na vida Jon sentira tanta vontade de assassinar alguém. Principalmente porque, naquele momento, Yalena pegou o cappuccino e o colocou sobre o balcão, quebrando o contato entre os dois.
— Hã — disse Jon. — Não. É por isso que as legendas estão ligadas.
O som perturba os clientes, que vêm aqui para apreciar um momento de tranquilidade.
Gola Rosa Levantada olhou ao redor, pelo café vazio.
— Que outros clientes? Somos os únicos aqui. E queremos ouvir isso. É uma notícia muito importante. — Ele se virou para os amigos.
— Estou certo?
Um dos amigos, de camisa polo verde-limão, tirou os olhos da tela do computador.
— Cara, que se dane esse sujeito. Encontrei a notícia em tempo real no site do canal.
— Rá. Toma essa, barista — disse o Gola Rosa Levantada, e voltou para a mesa para aumentar o volume do laptop. De onde Jon estava, só conseguia ouvir um leve murmúrio de vozes.
Que babacas.
Isso foi tudo que Jon conseguiu pensar.
Ah, claro, os vampiros mordiam seu pescoço e sugavam seu sangue vital. Mas pelo menos não humilhavam você na frente da garota que você amava. Eles apenas matavam você.
— Tudo bem, Jon — disse Yalena. — Bem, eu...
— Oi, pessoal.
De repente, a irmã de Jon, Meena, estava de pé no balcão ao lado de Yalena, usando óculos de sol, uma camiseta velha e um par de jeans mais velho ainda, com um casaco de moletom amarrado na cintura. Usava um colar estranho que Jon nunca tinha visto antes. Não estava claro se ela havia testemunhado a indelicadeza entre Jon e os três clientes e, em caso positivo, se tinha notado. Não pareceu ter sido o caso de Yalena, que se virou para Meena e deu um abraço alegre.
— Ah, oi, Meena! Como você está?
— disse Meena, retribuindo o abraço. — Como você está? Sua aparência está ótima, como sempre.
— Ah, obrigada. Você também.
Yalena obviamente só estava dizendo isso para ser gentil, porque Meena não estava ótima. Parecia ter acabado de sair da cama, vestido as primeiras
roupas que encontrou e ido para lá. Era possível que nem tivesse tomado banho, mas Jon não tinha certeza.
Ela estava com o cachorro. Ele não devia deixar as pessoas levarem animais lá para dentro. Havia uma placa de “Animais não são permitidos” bem ao lado da porta. Será que todo mundo que entrasse ali hoje, com exceção de Yalena, é claro, ia se recusar abertamente a obedecer as regras?
— Hã, não, eu não estou ótima, Yalena — disse Meena com uma gargalhada. — Obrigada por ser tão gentil. Tive uma noite muito ruim. Falando nela, Jon, eu queria saber se podemos falar em particular. E pode me servir um café grande com leite desnatado e um daqueles enormes muffins de blueberry?
Jon queria dizer que os muffins tinham acabado, para que Meena fosse embora e ele tivesse alguns minutos sozinho com Yalena. Mas infelizmente havia um muffin na vitrine que estava bem na frente dela.
E ele tinha quase certeza de que, depois de Yalena ter testemunhado sua humilhação pelo Trio das Golas Levantadas, ele jamais conseguiria outra chance com ela em um milhão de anos.
Além do mais, Meena havia dito que queria falar com ele. Em particular.
Que ótimo. Agora Yalena era obrigada a ir embora.
Nunca tinha sido divertido ter a Garota Você-Vai-Morrer como irmã, mas ele achava que havia se acostumado e sempre lidou com isso com humor.
Até agora.
— Claro — disse ele, e se inclinou para pegar o muffin e depois pretrar o café de Meena.
— Bem, eu tenho que abrir a loja — falou Yalena, sorrindo para es. — Vejo vocês depois. Muito obrigada mais uma vez, Jonathan. E i gostaria muito de ir à festa de San Gennaro hoje à noite. Venho me encontrar com você quando terminar o trabalho. Tchau!
Com o café de Meena na mão, Jon disse tchau para ela, sentindo-se como um homem em transe. Não conseguia acreditar na sua sorte.
Sim. Incrivelmente, ela disse sim.
Tudo iria ficar bem. Tudo iria ficar ótimo.
Observou em estado de choque Yalena passar pela mesa onde o Trio de
Golas Levantadas estava sentado e depois desaparecer pela porta.
Estava acontecendo. Tinha dado o primeiro passo. E ela dissera sim!
Na mesa em frente à TV, os três caras de camisa polo começaram a rir no minuto em que Yalena saiu. Jon não ia deixar que estragassem eu humor.
—Jon — disse Meena. — Escute. Sei que você é bom com computadores. Eu queria saber se você poderia...
Por trás dela, as risadas continuaram.
— Com licença — disse Jon, elevando a voz e colocando o café de Meena sobre o balcão, que não respingou porque estava com tampa.
—Jon — falou Meena em tom de advertência, com um rápido olhar aa direção dos três imbecis. Havia empurrado os óculos de sol para cima da cabeça e Jon viu que, embora tivesse maquiado os olhos, eles estavam inchados e vermelhos. Ele não achava que fosse por falta de sono. — Deixa pra lá. Tenho uma coisa mais importante que precisamos resolver agora...
— Não. Sabe de uma coisa, Meena? Eu já deixei muito pra lá. Cansei de deixar pra lá. — Para os três idiotas, ele gritou: — Ei, vocês. O que é tão engraçado?
— Você — disse o Gola Rosa Levantada com um sorrisinho de deboche.
— É mesmo? —Jon sentiu o peso da SuperEstaca no bolso do avental. Isso e o fato de Yalena ter dito sim deram confiança a ele. — Como assim?
— Jon — chamou. — Falando sério. Uma coisa ruim aconteceu. Ruim mesmo. Não temos tempo para...
— Você acha que tem chance com ela? — disse o Gola Rosa Levantada. Ele inclinou a cabeça em direção à porta. Estava falando de Yalena.
O Gola Verde-Limão Levantada pareceu pensativo.
—Talvez tenha — disse ele—, se faturar hoje muito mais gorjetas do que a que demos a ele.
Isso fez com que os outros dois rissem tanto que tiveram que se segurar na mesa à frente para não caírem.
Jon olhou para Meena sem acreditar.
— Ouviu o que eles disseram? — perguntou ele.
— Ouvi — disse ela. Seus olhos tinham ido para a TV de tela plana acima das cabeças dos sujeitos. — Você pode aumentar o volume?
— Eles acabaram de insinuar que Yalena só sairia comigo se eu pagasse a ela — disse Jon, sem ter certeza de que ela havia entendido.! que significa que pensam que Yalena é uma prostituta.
— Jon — falou Meena, com o olhar ainda grudado na TV. — É sério. Você não tem ideia do que está acontecendo. Aumente o volume.
— Em um minuto. Primeiro preciso cuidar de uma coisa.
Ele tirou a SuperEstaca do bolso do avental e saiu detrás do balcão, andou até a mesa onde estavam os três cretinos e disse:
— O que você acabou de dizer sobre minha namorada?
— Hã? — disse o Gola Rosa Levantada, tirando os olhos da tela do computador. — Isso é um secador de cabelo?
— Não é um secador de cabelo. Diga oi para a SuperEstaca. Agora sinta a queimadura.
Ele puxou o gatilho. O diodo emissor de luz azul que ele aperfeiçoa-
— porque sentiu que a demonstração na frente de Adam não tinha sido impressionante o bastante — acendeu e disparou um raio sólido no peito do Gola Rosa Levantada.
Mas nada aconteceu ao Gola Rosa Levantada, a não ser um olhar irritado que cruzou seu rosto.
— Cara — disse ele. — Deixe de ser um pé no saco e vá buscar um refil, tá? — Ele esticou o copo. — E estou falando sério sobre sua namorada, cara. Você não quer levá-la à festa de San Gennaro agora. Tem um assassino psicótico à solta que mata turistas. Uma garota com um sotaque daqueles devia ficar protegida até que peguem o cara. Embora ele provavelmente estivesse lhe fazendo um favor... Ela só está atrás de você por causa do Green Card.
Isso inspirou uma nova onda de risadas dos companheiros do Gola Rosa Levantada.
Jon baixou a SuperEstaca e chutou a mesa deles.
26
Meena certificou de que a porta do café estivesse trancada e a placa de “Bem-vindo! Entre!” estivesse virada, mostrando a palavra FECHADO.
Não achava uma boa ideia que seu irmão atendesse pessoas do jeito que estava.
Ela mal conseguira convencer os homens cuja mesa ele havia chutado a não chamarem a polícia. Teve que dizer para eles que Jon estava sofrendo efeitos colaterais de um remédio de alergia que estava tomando. Um dos homens, cujo laptop sofreu mais danos — só um pequeno amassado; ainda funcionava perfeitamente — estava ameaçando ligar para o gerente.
Meena quase desejava que fossem vampiros. Tudo seria bem mais simples se pudesse ter enfiado uma estaca neles.
Infelizmente, eles não eram.
— Demitiram você — disse Jon do sofá no qual tinha se sentado com o café que Meena serviu para ele.
— Isso mesmo — concordou Meena. Ela se sentou à mesa, depois tirou a tampa do café e tomou um gole. É claro que estava apenas morno àquela altura.
Mas não se importava. Jack Bauer se sentou debaixo da cadeira e olhava para ela, na esperança de pegar qualquer migalha do muffin que sua dona deixasse cair, embora Meena já o tivesse alimentado em casa.
— E transferiram Alaric — continuou Jon. — Para Roma.
— Foi o que me disseram — disse Meena. O muffin estava caindo como uma pedra no fundo do seu estômago
Pelo menos, era comida. Ela precisava de comida. Precisava de normalidade.
Mas isso não era uma coisa que esperava ter no futuro próximo.
— Mas não entendo. Vocês são os mocinhos — disse Jon.
— Sinceramente, acho que não sei mais quem são os mocinhos. — Meena enfiou a mão no bolso de trás do jeans, pegou uma carta amassada e jogou-a no colo de Jon.
— Espere — falou Jon de novo depois de ter desdobrado e lido o papel. —Aqui diz que é um aviso final de que, a não ser que haja melhora imediata e constante em sua performance de trabalho, seu cargo será cancelado. Mas não houve primeiro aviso. E você disse que a demitiram de qualquer modo.
— Eu sei. — Seus olhos arderam quando ela olhou pela vitrine para as pessoas felizes e livres que andavam em direção ao festival de rua. Ela se perguntou quantas pessoas se sentiam como ela... como se suas vidas tivessem terminado e fossem basicamente zumbis.
Nenhum deles, pelo que podia perceber. Todos sorriam, animados pela aventura que estavam prestes a encontrar.
Obviamente, poucos tinham visto a reportagem de Genevieve Fox sobre a onda repentina de pessoas desaparecidas na cidade... todas turistas. Ainda assim, enfatizou Genevieve, por alguma razão não foram emitidos alertas para a mídia sobre essas pessoas. Será que era porque o prefeito não queria divulgar para o público avisos de que um serial killer estava solto durante uma época em que o turismo na cidade estava a todo vapor?
O escritório do prefeito já divulgara uma declaração garantindo ao público que não havia motivo para alarme. Nenhuma mudança fora feita no procedimento para a divulgação de relatórios de pessoas desaparecidas para a imprensa... Apenas havia uma preocupação de que o potencial lado ruim de divulgar isso seria que o público poderia ficar “dessensibilizado” ao longo do tempo. O escritório do prefeito e a polícia estavam cientes e trabalhando ativamente em cada caso que Genevieve mencionou.
Mas isso não estava exatamente em harmonia com as entrevistas que os colegas de Genevieve conseguiram fazer com familiares dos desaparecidos.
E embora o nome de Alaric jamais tenha sido mencionado, “uma fonte que trabalha junto ao Departamento de Polícia de Nova York” foi citada como tendo grandes dúvidas de que estivessem levando os casos a sério.
— E onde isso deixa Kaileigh Anderson, de 10 anos — perguntou Genevieve, olhando para a tela—, que só quer saber por que seu irmão de 19 anos, Jeff, não voltou para casa em Fairfield, Connecticut, depois do que deveria ter sido uma noitada com os amigos em Manhattan no sábado passado?
— Por favor — disse Kaileigh, olhando para a câmera e chorando enquanto segurava uma foto de um jovem com aparência gótica. — Encontrem meu irmão.
— Meu Deus, Meena — falou Jon, baixando o volume da TV enquanto lia a carta de demissão. — O que exatamente está acontecendo?
— Não sei — admitiu ela, e colocou a bolsa sobre as pernas. — É por isso que preciso de sua ajuda. Sei como você é bom com computadores. — De dentro da espaçosa bolsa, onde ela guardava a carteira, produtos para o cabelo, gel antibactericida e vários itens de maquiagem, cadernos, canetas, estacas de madeira e vidros de água benta, ela tirou o laptop de Jon. — Quero que você invada o computador principal da Palatina e encontre Alaric.
— O quê? — Jon parecia chocado. — Você acabou de dizer que o transferiram para Roma!
— Isso é o que alguém quer que eu acredite — disse Meena. — E posso ver como vão tentar justificar. Sabe todas as coisas que Genevieve
Fox está dizendo no noticiário sobre as pessoas desaparecidas? Vi Alaric conversando com ela ontem à noite. Essa é a teoria dele, de que tem alguma coisa comendo esses turistas e que estão encobrindo a verdade...
Meena mal conseguia dizer as palavras. Na noite anterior, uma pequena parte dela achou que Alaric estava dando em cima de Genevieve Fox e vice-versa.
Agora que vira a notícia, a principal em todos os canais locais, como Jon tinha verificado a pedido dela, sabia o que estavam conversando.
Passou o dedo no colar que Alaric tinha dado a ela e que não tirava, mesmo quando tomava banho, seguindo as ordens dele. Achava que, onde quer que estivesse, Alaric devia estar arrependido de ter lhe dado o colar. Ela estaria, se fosse ele.
Havia sido uma idiota.
— Espere — disse Jon. — Por que acha que ele não está realmente lá? Ela olhou para ele com desdém.
— Ah, claro, Jon. Alaric acabou de voltar para Roma. Sem se despedir de nós. Com Abraham ainda desaparecido. Com algum tipo de assassino insano vagando pela cidade, matando turistas. Com Lucien foragido. Isso é a cara de Alaric Wulf.
Jon concordou com a cabeça.
— Certo. É, você tem razão. Alaric não está em Roma. Mas, Meena, por mais capaz que eu seja, e sou muito capaz, não consigo invadir o computador principal de uma força militar secreta caçadora de demônios do Vaticano e... o que você quer que eu faça?
—Nós todos temos celulares com rastreadores GPS ——disse Meena, mostrando o seu. — Liguei dezenas de vezes e sempre cai na caixa postal. Ele não retornou nenhum dos meus recados. Mudaram todas as minhas senhas, então não consigo mais fazer login no sistema, e quando ligo para qualquer pessoa no quartel-general, aqui ou em Roma, consigo completar a ligação. Acho que estão me bloqueando. Jon, sei que Alaric não saiu da cidade. Ele está em algum lugar aqui e está encrencado. Preciso que você descubra onde ele está para que possamos ir resgatá-lo. — Ela empurrou o laptop sobre a mesa em direção a ele. — Você tem que me ajudar.
— Ah, claro — concordou Jon com sarcasmo. — Sem problema. Agora mesmo. — Ele se reclinou sobre a mesa para pegar o celular, o laptop, e o examinou. — Meena, isso é um equipamento caro. Se eles se deram ao trabalho de mudar suas senhas para manter você fora do sistema de computadores, por que deixaram que ficasse com o celular?
— Não é óbvio? — respondeu ela, dando de ombros. — Estão usando para me rastrear.
— Você? — Ele sacudiu a cabeça. — Pra quê? Aonde eles acham que
— Não importa aonde eu vou. E sim quem eles acham que vai vir me encontrar.
Jon olhou para ela.
— Ah, meu Deus. Estão usando você para encontrar Lucien. Eles realmente não se importam com o que pode acontecer a você, não é?
—Não — disse ela, tirando o celular da mão dele e enfiando-o em seu copo de café, cheio até a metade. — Vai me ajudar ou não?
Jon arregalou os olhos.
— Mas Meena... você se dá conta do que está dizendo? Quem está enfrentando?
— Você tem alguma sugestão melhor? — perguntou ela.
— Rum. Sair correndo? — Ele pegou o laptop e ficou de pé. —Vamos alugar um carro e sair daqui. Se sairmos agora e ignorarmos os limites de velocidade, podemos chegar a Georgia antes do anoitecer.
— Jon, tenho certeza de que Lucien e a Palatina conseguem nos encontrar mesmo na Georgia. Além do mais, e Alaric?
— Ele pareceu desapontado.
Os dois deram um pulo quando ouviram alguém batendo na porta de vidro do Beanery. Jack Bauer, que tinha desistido de pegar as migalhas que caíssem do muffin de Meena, deu um salto debaixo da cadeira e começou a latir.
— Meu Deus! — gritou Jon, alarmado.
Mas eram apenas os três homens de golas levantadas cuja mesa Jon havia derrubado.
Meena relaxou... até ver que dois policiais os acompanhavam. Um dos policiais apontou para a maçaneta e gritou:
—Abra. Agora.
Meena olhou para os policiais e para o irmão.
— Este lugar tem saída dos fundos? — perguntou ela.
— Hã, tem. Mas dá em um beco. É onde as lojas daqui colocam o lixo até o dia da coleta. É bem nojento.
— Dá pra chegar lá se você for pela frente da loja? — perguntou ela.
— Não. Só por aqui. Espere... Está realmente sugerindo o que acho que está? Quero dizer, não podemos apenas...
— Você pode ficar aqui se quiser — disse ela, pegando a bolsa e a coleira de Jack Bauer. — Eu vou procurar Alaric.
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