Capítulo Quatro
9:45 da manhã. EST, Terça-Feira, 13 de Abril
Lado de fora do Edifício ABN
Quinquagésima terceira Leste e Avenida Madison
Nova York, Nova York
"Bom dia, Senhorita Meena. O de sempre?" Abdullah, o cara do café
do stand envidraçado de fora do seu prédio, perguntou-lhe quando foi
finalmente sua vez na fila.
"Bom dia, Abdullah," Meena disse. "É melhor fazer bem grande. Eu
tenho uma grande entrevista. E não se incomode em tostar o bagel
hoje, eu estou correndo porque estou realmente, realmente
atrasada."
Abdullah assentiu com a cabeça e passou a trabalhar enquanto
Meena estreitava seu olhar para ele. Ela poderia dizer que ele ainda
não tinha ido à um médico para falar sobre a sua pressão arterial fora
de controle, apesar da conversa que tinha tido com ele na semana
passada.
Sério, ela era a única que estaria fora do caminho um dia se as
pessoas não começassem a ouvi-la. Ela sabia que pegar o tempo do
trabalho para ir ao médico doía.
Mas quando a alternativa era morrer?
Premonição.
Percepção Extra-Sensorial.
Bruxaria.
Não importa como chamassem: Na opinião de Meena, como uma
habilidade, era totalmente inútil.
Havia sido particulamente útil quando ela finalmente conseguiu
convencer seu namorado de longa data, David, sobre o tumor que ela
podia sentir crescendo em seu cérebro?
Claro, ela salvou a vida de David (se tivessem encontrado o tumor
um pouco mais tarde, seria inoperável, disseram os médicos).
Mas David deixou Meena imediatamente depois de sua recuperação
por uma das atrevidas enfermeiras de radiologia. Brianna curava
pessoas que estavam doentes, ele disse. Ela não era uma "louca" que
havia dito à ele que ia morrer.
O que Meena ganhou salvando David? Nada, a não ser muita mágoa.
E ela perdeu metade do pagamento no apartamento que eles
compraram juntos. Que ela ainda devia à ele. E ele estava sendo um
idiota total sobre seu pagamento na sua miséria de salário.
David e Brianna estavam comprando a primeira casa deles juntos. E
esperando o seu primeiro bebê.
É claro.
Meena aprendeu com essa experiência - e todas as outras antes
desta - que ninguém estava interessado em descobrir como iria
morrer.
Exceto sua melhor amiga, Leisha, é claro, que sempre ouvia Meena...
desde aquela vez no nono ano, quando Rob Pace convidou-a para um
encontro ao show do Aerosmith, e Meena disse à ela para não ir, e
Rob levou Angie Harwood ao invés dela.
E foi assim que Angie Harwood, e não Leisha, morreu decapitada
quando a roda de uma carreta saiu girando e pousou no topo do
Camaro de Rob enquanto ele cruzava a rota I-95 indo de casa para o
show.
Meena, que ficou sabendo do acidente na manhã depois do ocorrido
(Rob havia escapado miraculosamente com somenete uma clavícula
quebrada), imediatamente vomitou seu almoço.
Porque ela não percebeu que salvando a sua melhor amiga da morte
certa, ela não havia feito nada mais do que garantir a de outra
garota? Ela devia ter avisado Angie também, e feito qualquer coisa -
tudo mesmo - para parar Rob de sair àquela noite.
Ela prometeu que nunca permitiria que, o aconteceu com Angie
Harwood, acontecesse com outro ser humano. Não se ela pudesse
ajudar.
Não era de se admirar que o então Ensino Médio, torturante para
muitos, fosse ainda pior para Meena.
Que foi como ela começou a escrever para a televisão
profissionalmente. Crianças reais poderiam não ter gostado tanto da
empresa de "You're Gonna Die Girl" ("Você Vai Morrer, Garota").
Mas as pessoas que Meena descobriu nas novelas que sua mãe
gostava de assistir - Insatiable tinha sido a favorita - estavam sempre
dispostos a vê-la.
E quando a história das novelas que ela gostava acabavam por não
acontecer do jeito que ela achava que deveriam, Meena começou a
escrever suas próprias.
Surpreendentemente, esse hobby era recompensante.
Bem, se você chamar a escritora dos diálogos da segunda-novelamais-
bem-avaliada na América uma recompensa.
E foi Meena que conseguiu. Mais ou menos. Ela sabia que possuia o
que milhões de pessoas matariam por ter... o emprego dos sonhos.
E considerando seu "dom", ela sabia que sua vida poderia ser mil
vezes pior. Olhe o que aconteceu com Joana d'Arc.
Depois o que houve com Cassandra, filha do rei troiano Príamo. À ela
também havia sido dado o dom da profecia. Porque ela não tinha
correspondido ao amor de Deus, o dom foi transformado por Deus em
uma maldição, de modo que as profecias de Cassandra, embora
verdadeiras, nunca eram acreditadas.
Dificilmente alguém acreditou em Meena. Mas isso não queria dizer
que ela pararia de tentar. Não como garotas como a que ela
conheceu no metrô, e como Abdullah. Ela levaria-o para o médico, no
fim das contas.
Era muito ruim, realmente, que a única pessoa cujo futuro Meena
nunca tinha sido capaz de ver era o seu próprio.
Até agora, de qualquer forma.
Se ela ficasse muito atrasada para o trabalho, perderia qualquer
chance que tinha de convencer Sy a levá-la para algo sério.
E esquecer sobre essa promoção de escritor principal.
Ela não precisava ser vidente para descobrir isso.
Capítulo Cinco
7:00 da tarde. EET, Terça-Feira, 13 de Abril
Os morros da parte de fora de Sighi, ?oara
País de Mures, Romênia
Lucien Antonescu estava furioso, e quando ficava furioso, algumas
vezes perdia o controle.
Ele havia aterrorizado a garota em seu escritório quase até a morte,
e ele não queria ter feito isso. Ele sentiu o medo dela... tinha sido tão
nítido e sufocante como um garrote. Ela era uma boa pessoa, ele
lembrou, como a maioria das garotas da sua idade, apenas por amor.
E ele a aterrorizou.
Mas ele não tinha tempo para se preocupar com isso agora. Agora ele
tinha uma situação muito grave que iria exigir toda a sua atenção
para o futuro imediato.
E assim ele fazia o que podia tentando de se acalmar. Sua peça
clássica favorita - de Tchaikovsky - tocava nos alto-falantes do Hall
(que ele havia comprado e transportado dos EUA com um enorme
gasto; a qualidade do som era importante).
E ele abriu uma das garrafas verdadeiramente excelentes de
Bordeaux (tipo de vinho) da sua coleção e estava deixando-a respirar
no aparador. Ele podia sentir o cheiro de tannis (componente químico
do vinho bordeaux) até mesmo do outro lado da sala. O cheiro era
tranquilizante...
Ainda assim, ele não conseguia parar de andar nervosamente pela
extensão do grande salão, um enorme rugido de fogo na lareira de
pedra em uma extremidade da sala e as cabeças empalhadas de
vários animais que seus ancestrais haviam matado olhavam
atravessado para ele de cima das paredes.
"Três," ele murmurou para o laptop sentado na mesa longa e
elaboradamente entalhada em madeira no centro da sala. "Três
garotas mortas? Tudo dentro das últimas semanas? Por que não fui
eu que disse isso antes?"
"Eu não sabia que havia uma conexão entre elas, milorde," a voz
levemente ansiosa, vinda dos alto-falantes do computador, disse, em
inglês.
"Três corpos ensanguentados, todas deixadas nuas em diversos
parques da cidade?" Lucien não se esforçou em manter o tom
sarcástico. "Coberto com marcas de mordidas? E você não percebeu
que havia uma conexão. Estou vendo."
"Obviamente as autoridades não querem iniciar pânico geral na
cidade," a voz disse aflita. "Minhas fontes não sabiam de nada sobre
marcas de mordidas até essa manhã..."
"E que medidas," Lucien perguntou, ignorando esta última
observação, "foram tomadas para descobrir quem está cometendo
essas atrocidades?"
"Todos com que falei negam qualquer conhecimento que assim-"
Lucien o cortou. "Então você obviamente não está falando com as
pessoas apropriadas. Ou alguém está mentindo."
"Eu... Eu não consigo imaginar ninguém que ousaria," a voz disse
hesitante. "Eles sabem que eu estou falando na sua autoridade,
senhor. Eu sinto... se me permite, senhor... que não é... bem, um de
nós. Alguém que conhecemos."
Lucien parou o seu circuito em volta da sala.
"Isso é impossível," ele disse sem rodeios. "Não há ninguém que não
conhecemos."
Virou-se e aproximou-se da garrafa de vinho, que estava preenchida
com um líquido ricamente rubi. Ele podia ver o reflexo da luz do fogo
contra um lado do globo de cristal perfeito.
"É um de nós," Lucien disse, inalando a fragrância da terra do
Bordeaux. "Alguém que se esqueceu de si mesmo. E de seus
juramentos."
"Certamente não," disse a voz, nervosamente. "Ninguém ousaria.
Todos sabem a repercussão de cometer um crime que quebre sua
regra. Que seu castigo será rápido... e severo."
"Apesar disso." Lucien pegou a jarra e viu como o líquido no interior
deixou uma membrana vermelho profunda contra o lado mais
distante da lâmpada de cristal. "Alguém está matando selvagemente
mulheres humanas e deixando seus corpos em lugares abertos para
serem descobertos."
"Ele está colocando todos nós em risco," a voz do laptop concordou
com hesitação.
"Sim," disse Lucien. "Tão desnecessariamente. Ele deve ser
descoberto, punido e detido. Permanentemente."
"Sim, milorde," disse a voz. "Mas... como? Como podemos descobrilo?
A polícia... meus informantes me disseram que a polícia não tem
sequer um líder."
Os lábios perfeitamente formados de Lucien se curvaram em um
sorriso amargo. "A polícia," ele disse. "Ah, sim. A polícia." Ele desviou
o olhar da garrafa que segurava na direção do rosto na tela do
computador, a poucos metros de distância. "Emil, me ache um lugar
para ficar. Estou indo para a cidade."
"Senhor?" Emil olhou assustado. "Você? Você tem certeza?
Certamente que não será-"
"Eu tenho certeza. Vou encontrar o nosso amigo assassino. E
então..."
Lucien abriu seus dedos e deixou a garrafa cair para os ladrilhos
debaixo de seus pés. O sino de cristal quebrou em mil pedaços, o
vinho que continha fazendo uma mancha vermelho escuro ao longo
do chão, onde, séculos antes, Lucien tinha visto seu pai arrancar os
cérebros de muitos dos seus servos.
"Eu lhe mostrarei por mim mesmo o que acontece quando alguém se
atreve a quebrar um juramento para mim."
Capítulo Seis
10:30 da manhã. EST, Terça-Feira, 13 de Abril.
Edifício ABN
Avenida Madison, 520
Nova York, Nova York
Meena estava devorando seu bagel enquanto Paul, um dos escritores
transtornados, enfiou sua cabeça careca dentro do seu escritório.
"Eu não tenho tempo para ajudá-lo a atualizar sua página no
Facebook agora, Paul," Meena disse. "Eu só tenho um minuto antes
de ir à uma reunião com Sy."
"Acho que você não ouviu, então," Paul disse melancolicamente.
"Ouvi o quê?" Meena perguntou de boca cheia.
"Sobre Shoshona."
O sangue de Meena congelou.
Então isso finalmente aconteceu. E era tudo sua culpa por não ter
dito nada.
Mas como você vai avisar alguém que o seu estágio avançado de
compulsão por academia iria acabar matando-a? A esteira não era
amplamente conhecia por ser fatal, e Shoshona estava tão orgulhosa
de ter chegado ao tamanho 00.
A verdade era, Shoshona nunca foi uma das pessoas mais favoritas
de Meena.
"Ela... morreu?"
"Não." Paul olhou para Meena estranhamente. "Ela conseguiu o cargo
de escritora principal. Eu acho que isso aconteceu na noite passada."
Meena se chocou.
"O... o quê?" Ela piscou para conter as lágrimas. Ela disse para si
mesma que eram lágrimas de um pedaço de cenoura que desceu pelo
lado errado.
Mas não era.
"Você não viu o e-mail?" Paul perguntou. "Eles mandaram esta
manhã."
"Não," Meena resmungou. "Eu estava no metrô."
"Oh," disse Paul. "Bem, eu estou atualizando meu currículo. Calculo
que ela vai me demitir tão logo de qualquer maneira para contratar
um de seus amigos do "club-hopping" (clube de violentos, na
tradução literal). Você se importaria de dar uma olhada mais tarde?"
"Certo," Meena disse de forma entorpecida.
Mas ela só estava meio ouvindo-o. Eles a passaram para trás por
Shoshona? Depois de todo o trabalho duro que ela havia feito esse
ano? Muito mais do que o trabalho de Shoshona, porque Shoshona
estava sempre deixando o escritório mais cedo para ir trabalhar fora?
Não. Simplesmente não.
Meena estava parada na porta do escritório de Sy exatamente dois
minutos antes da hora marcada da reunião, a raiva borbulhando.
"Sy," ela disse. "Eu queria falar com você sobre-"
Foi quando ela notou que Shoshona já estava sentada em uma das
cadeiras na frente da mesa dele, usando, como de costume, algo de
Crewcuts, a seção infantil de J. Crew; ela estava muito magra.
"Oh, Meena," Shoshona Metzenbaum disse, jogando um pouco do seu
longo e sedoso cabelo preto. "Aí está você. Eu estava dizendo para
Sy como eu amo o pequeno tratamento que dá para ele. Aquilo de
Tabby estar apaixonada por aquele bad boy do lado errado do
caminho? Tão doce."
Doce? Até hoje, a única responsabilidade de Shoshona em Insaciável
tem sido, como a de Meena, escrever os diálogos para a história,
especialmente aqueles com a maior e mais duradoura estrela, Cheryl
Trent, que interpretava Victoria Worthington Stone, e agora sua filha
adolescente no espetáculo, Tabitha.
Só que Shoshona raramente tinha sido capaz de lidar com isso,
sempre saindo mais cedo para ir à academia ou ligando para dizer
que estaria atrasada porque seu conversível havia quebrado no
caminho de volta para a cidade do final de semana na casa da família
Metzenbaum Hamptons.
Ou que o decorador que estava refazendo seu loft no centro da
cidade não havia aparecido pontualmente.
Ou que ela havia perdido o último vôo de St. Croix e teria que ficar
mais uma noite.
Nunca ninguém ficou chateado com essas coisas, considerando quem
os tios de Shoshona eram: Fran e Stan Metzenbaum, produtores
executivos e co-criadores de Insaciável.
Isso teria sido diferente, Meena pensou, se Shoshona realmente
merecesse essa promoção. Se tivesse sido Paul ou qualquer outro
escritor que realmente aparecesse no escritório de vez em quando,
Meena não se importaria.
Mas Shoshona? Meena já havia ouvido ela se gabando no telefone
com um amigo que nunca havia visto o show, até que seus tios a
tinham contratado-a para vir trabalhar para eles... ao contrário de
Meena, que nunca perdera um único episódio - não desde que
completara doze anos.
Shoshona não sabia os nomes de cada único ex-marido de Victoria,
de maneira que Meena sabia, ou porque eles tinham terminado
(Victoria era insaciável, é verdade, mas não era muito sortuda no
amor). Ou que a filha adolescente amada de Victoria, Tabitha, estava
seguindo os passos da mãe. (Até agora eles conseguiram matar cada
interesse amoroso de Tabby. O último havia sido explodido em um
acidente de Jet Ski planejado para Tabby por um admirador
rejeitado.)
"Estou feliz que gosta," Meena disse com uma paciência forçada. "Eu
pensei em lançar um bad boy para Tabby talvez atrair um público
mais jovem-"
"Isso é exatamente o que estamos ouvindo das empresas," Shoshona
disse, lançando um olhar impressionado para Sy. "Nós estavamos
sentados aqui discutindo isso. Não estávamos, Sy?"
"Nós estávamos," Sy disse, sorrindo para Meena. "Venha aqui,
garota, e tome uma cadeira. Você ouviu a grande notícia sobre
Shoshona?"
Meena não conseguia levar seu olhar à Shoshona, ela estava muito
furiosa. Ela manteve seu olhar em Sy enquando se afundava na outra
cadeira Aeron em frente à sua mesa.
"Eu ouvi," ela disse. "E eu estava realmente querendo ter uma
conversa com você em particular essa manhã, Sy."
"Não há nada que você pode dizer para mim que não possa dizer na
frente de Shoshona," Sy disse jovialmente, acenando com a mão.
"Francamente, eu acho que isso é simplesmente fantástico. Nós
temos realmente um poder do estrogênio acontecendo aqui!"
Meena olhou para ele. Sy realmente dissera as palavras poder do
estrogênio?
E como ele poderia não saber que Meena estava sendo a única a
fazer todo o trabalho de Shoshona nos últimos doze meses?
"Certo," Shoshona disse. "Então eu acho que Meena deve ser uma
das primeiras a saber sobre a nova direção que a emissora espera
ver-nos começando."
"A emissora?" Meena ecoou de maneira perplexa.
"Bom, nossos patrocinadores, na verdade," Shoshona disse,
corrigindo-se. Para o conhecimento de Meena, o patrocinador da
Consumer Dynamics Inc. Insatiable, - a multinacional de tecnologia e
serviços conglomerados, que também acontecia de ser a própria
Affiliated Broadcast Network - nunca havia ao menos uma vez se
rebaixado para se preocupar com o show.
Até agora, aparentemente.
"Em uma palavra," Shoshona disse, "eles querem que nós partamos
para vampiros. Todos vampiros, todo o tempo."
Meena imediatamente sentiu o bagel e o café que ela havia comido
no café da manhã subindo.
"Não," ela disse depois de engolir rápido. "Nós não podemos fazer
isso."
Sy piscou confusamente para Meena. "Porque diabos não?"
Ela deveria saber. Seu dia, que já começara tão mal, só poderia
piorar. Ultimamente toda a sua vida havia sido conduzida em uma
firme trajetória que só piorava.
"Bem, por um lado, porque já há uma novela em uma rede rival, com
uma história de vampiros, que está nos matando nas críticas," disse
Meena. "Um pequeno show chamado Lust. Lembra-se? Quero dizer,
nós temos que ter algum orgulho. Não podemos simplesmente copiar
Lust abertamente."
Shoshona fingia estar ocupada endireitando sua manga padronizada
enquanto Meena falava. Sy, epiando por cima de sua mesa, não
podia tirar os olhos de suas pernas longas e cheias de energia.
Meena desejava que tivesse um mini-Butterfinger (doce fabricado
pela Nestlé) para seu sustento. Ou dar uma pancada nos cabelos lisochapinha
de Shoshona.
Liso-chapinha! Quem se incomodaria mais?
Certamente não Meena, que havia cortado a maioria do seu cabelo
escuro a mando de Leisha - o "dom" de Leisha era que ela conseguia
olhar para qualquer pessoa e imediatamente dizer à ela exatamente a
forma mais lisonjeiro que seu cabelo deveria ser gasto - e que tinha
vários problemas em chegar na hora para o trabalho sem ter que se
preocupar com chapinha, mesmo quando ela não estava ocupada
tentando salvar garotinhas no metrô da morte certa pela escravidão
branca.
"Nós vamos parecer totais idiotas," Meena disse.
"Eu não acho," Shoshona disse friamente. "Lust está obviamente
fazendo algo certo. É um dos poucos shows agora que não tenha sido
cancelado ou forçado a se mudar para L.A. para filmar para guardar
dinheiro. Está na verdade subindo no nível de audiência. E como você
disse, se nós sobrevivermos, precisamos começar a atrair um público
mais jovem. Crianças não se preocupam com shows. É tudo sobre um
reality shows para eles.
"E o que há de tão real," Meena exigiu, "em vampiros?
"Oh, eu lhe garanto, eles são reais", Shoshona disse com um sorriso
felino. "Você já leu sobre aquelas garotas que continuam sendo
encontradas, esvaziadas de todo seu sangue, nos parques de toda
Nova York, não leu?"
"Oh, pelo amor de Deus," Meena disse com cara azeda. "Elas não
foram esvaziadas de todo o seu sangue. Elas foram apenas
estranguladas."
"Hum, me desculpe," Shoshona disse. "Mas eu tenho uma fonte
interna que diz que essas três garotas foram mordidas por toda a
parte e foi drenada cada gota de seu sangue. Há um vampiro na vida
real, aqui em Manhattan, e ele está se alimentando de meninas
inocentes."
Meena rolou os olhos. Okay. Era verdade que algumas garotas
tivessem aparecido recentemente mortas em alguns parques da
cidade.
Mas drenadas de seu sangue? Shoshona estava contraindo a febre de
vampiro - que, sim, agarrara o país, não havia como negar isso; era
bastante óbvio que mesmo a Consymer Dynamics Inc. tinha
conhecimento dela, e eles estavam tão obviamente alheios às
tendências que eles ainda pensavam que ter uma página no MySpace
estava na moda - muito longe.
"Então vamos dar ao show um sentimento de colocado-nasmanchetes,"
Shoshona continuou, "e ter uma alimentação de
vampiros nas meninas em Insaciável. Amigos de Tabby. E vamos
deixá-lo fazer uma lavagem cerebral em Tabby, e deixar Tabby ser
sua noiva vampira."
Sy apontou para Shoshona. "Noiva vampira," ele gritou. "Eu amei
isso. Melhor ainda, CDI amou isso!"
Meena pensou em se levantar, andar até a janela do escritório de Sy,
abri-la e se jogar dela.
"E você não ouviu a pièce de résistance (peça de resistência),"
Shoshona disse. "Eu posso conseguir Gregory Bane-"
Sy engasgou e se inclinou para a frente. "Sim?"
Meena gemeu e abaixou sua cabeça entre as mãos. Gregory Bane
interpretara o vampiro em Lust. Não havia nenhuma pessoa na terra
que se sentia mais enjoada por Gregory Bane do que Meena.
E ela nunca sequer o conhecera.
" - para conseguir que Stefan Dominic leia a parte de vampiro,"
Shoshona continuou.
Sy, olhando desapontado, afundou em sua cadeira. "Quem diabos é
Stefan Dominic?" ele escoriou.
Shoshona sorriu.
"Só o melhor amigo de Gregory Bane," disse ela. "Quero dizer, eles
vão ao clube noturno juntos praticamente todo fim de semana. Eu sei
que você já viu uma foto dele com Gregory na Us Weekly, Sy. A
publicidade que teremos por tê-lo contratado será enorme. Eu não
posso acreditar que ninguém o tenha agarrado antes. E a melhor
coisa? Ele tem um cartão SAG (Associação de Atores
Cinematográficos, uma espécie de sindicato dos atores) e já pode vir
nessa sexta-feira para ler com Taylor." Shoshona parecia o gato que
engolira o canário. "Eu já conversei com ele sobre isso. Ele frequenta
a minha academia.
E de repente, Meena sabia exatamente porquê Shoshona gastava
tanto tempo em uma esteira. E não tinha nada a ver com caber
naqueles Crewcuts.
"Não há nenhuma maneira," disse Meena, lutando pela paciência
interior, "de Taylor" - Taylor Mackenzie era a atriz que interpretava
Tabby - "concordar em interpretar uma noiva vampira."
Taylor havia saído recentemente de uma dieta macrobiótica e
contratado um personal trainer, encolhendo-se para o tamanho de
Shoshona. Embora Taylor estivesse muito satisfeita com isso - e o
cuidado dos tablóides estavam pagando para ela por causa disso - ela
precisava analisar se realmente também não queria acabar em um
caixão... algo que Meena estava tentando avisá-la sobre, deixando
grandes sanduíches em seu camarim. Isso não é exatamente sutil,
mas era o melhor que Meena poderia fazer.
"Tabby vai gostar disso se a emissora disser para ela fazer,"
Shoshona disse. "Isso é o que a ABN quer."
Meena estava tentando seriamente não cerrar os dentes. Seu
dentista já a havia punido por fazer isso durante o sono e
prescrevera-lhe um protetor bucal. Meena temia ter de usar isso,
porque não era exatamente a coisa mais romântica para vestir ao ir
pra cama. Ela parecia um goleiro de hóquei.
Mas era isso, o dentista havia dito, ou um novo e menos estressante
emprego.
E não havia um emprego desses fácilmente encontráveis. Pelo menos
não para uma escritora de televisão.
E desde que Meena estava atualmente dormindo sozinha, ela achava
que não importava o que ela parecia, de qualquer forma.
"Cheryl não vai gostar disso," Meena avisou-os. Cheryl era a atriz
veterana que interpretava Victoria Worthington Stone durante os
últimos trinta anos. "Vocês sabem que ela está esperando que este
seja o ano que ela finalmente vai conseguir esse Emmy."
Trinta anos, dez casamentos, quatro abortos naturais, um aborto
induzido, dois assassinatos, seis sequestros, e uma gêmea do mal
mais tarde, e Cheryl Trent ainda nunca ganhara um único Daytime
Emmy.
Era um crime, na opinião de Meena. Não somente porque Meena era
uma das maiores fãs de Cheryl e começar a escrever para ela era a
emoção de sua vida, mas porque Cheryl era uma das senhoras mais
legais que Meena já havia conhecido.
E parte do plano de Meena, no roteiro que ela apresentara para Sy -
mas que ele apenas passou para trás pelo enredo de vampiro de
Shoshona - tinha sido que Victoria Worthington Stone iria se
apaixonar pelo pai do novo namorado de Tabby, um amargo chefe de
polícia que Victoria iria ajudá-lo a se reunir com seu filho rebelde...
dando a Cheryl um tiro certo em direção à estatueta dourada que ela
tanto desejava.
Mas um roteiro sobre vampiros? Ninguém ia ficar distribuindo Emmies
para isso.
"Sim, bem," Shoshona disse, estreitando os olhos para Meena,
"Cheryl pode me implorar." (no sentido de ser despedida. A
expressão em inglês está como "cry me a river")
A mandíbula de Meena caiu. Este era o agradecimento que ela
recebia por ter salvado a bunda de Shoshona tantas vezes com seus
scripts atrasados?
Por que ela sequer se incomodara?
"Eu amei isso," Sy disse, estalando os dedos. "Passe isso para seu tio
e sua tia. Eu tenho que ir, tenho uma reunião." Ele se levantou.
"Sy," Meena disse. Sua boca ficou seca.
"O quê?" Ele olhou aborrecido.
"Não..."
Haviam tantas coisas que ela queria falar. Ela sentia como se
precisasse falar. Para o bem da sua alma. Para o bem do show. Para
o bem do país como um todo.
Ao invés disso, ela somente disse, "Não pegue a Quinta. Está
congestionada. Eu ouvi isso na 1010 Wins. Peça para o taxista pegar
a Park."
A face de Sy relaxou. "Obrigado, Harper," ele disse. "Finalmente, algo
útil vindo de você." Então ele se virou e saiu da sala.
Meena girou a cabeça e olhou fixamente, os olhos como adagas, para
Shoshona.
E não era porque ela estava irritada porque tinha acabado de salvar a
vida de Sy - se ele pegasse a Quinta, seu táxi iria, na verdade,
reunir-se com com o congestionamento que iria irritá-lo tanto que ele
sairia e iria caminhando, levando-o a atravessar a rua sem ver o sinal
na Quinta com a Sétima e ser atropelado por um caminho da Fresh
Direct - e ele não estivesse nem um pouco grato, mas porque ela
sabia o que "Passe isso para sua tia e seu tio" significava.
Significava que Shoshona ganhara.
"Vampiros," Meena disse. "Realmente original, Metzenbaum."
Shoshona levantou-se, jogando sua bolsa sobre o ombro. "Supere
isso, Harper. Eles estão em toda parte. Você não pode escapar
deles."
E pela primeira vez, Meena percebeu o dragão de pedras preciosas
incrustrado na bolsa de Shoshona.
Não. Não podia ser.
Mas era.
A bolsa Marc Jacobs que Meena havia secretamente cobiçado durante
um semestre, mas negando para si mesma porque custava 5.000
dólares.
E não havia como Meena pagar tanto dinheiro por uma bolsa - ou
justificar o gasto.
E, tudo bem, Shoshona tinha a de "aquamarine" (um tipo de pedra
preciosa), não a do rubi vermelho que seria perfeita para o guardaroupa
de Meena.
Mas ainda assim.
Meena olhou fixamente para ela, rangendo os dentes.
Agora ela não tinha escolha senão fazer uma corrida de emergência
na hora do almoço para a CVS, a fim de reabastecer sua gaveta
secreta de doces.
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