terça-feira, 23 de julho de 2013

insac - mg - 54-55-56

Capítulo Cinqüenta e Quatro
22h15 EST, sábado, 17 de abril
Trem 6
Nova York, NY
O metrô. É claro que tinha que ser de metrô.
Bem, de que outra forma ele poderia chegar lá? Era noite de sábado
e ela estava no centro. Não havia táxis.
E Meena tinha que chegar do outro lado da cidade o mais rápido
possível.
O que mais ela deveria fazer? Ficar sentada quieta em uma sala sem
janelas no convento, como queriam que fizesse, e deixar a irmã
Gertrude e "os homens" irem para o outro lado da cidade com Stefan
Dominic para morrerem tentando salvar Leisha?
Ficar sentada quieta em uma sala sem janelas podia ser bom para
Yalena, que estava traumatizada física e emocionalmente. Mas não
era bom para Meena, que era o motivo de todas aquelas pessoas,
inclusive Leisha, estarem correndo tanto perigo.
Meena se sentou no trem 6, tentando não fazer contato visual com
nenhuma das outras pessoas no vagão. A última coisa de que
precisava naquele momento era se envolver com os problemas de
outra pessoa.
Ela já tinha problemas demais.
Depois de ouvir Jon e ela tentando explicar freneticamente o que
tinham ouvido ao telefone após descerem correndo do teto para
encontrá-la, o culto Abraham Holtzman assentiu seriamente e disse:
- Sim. Sim, é claro. Faz sentido. A catedral de St. George está em
obras, você disse?
Jon assentiu.
- Está. Está fechada para o público durante a reforma.
- Quando eu estava passando por lá na noite em que conheci... -
Meena interrompeu o que dizia. - Bem, quando o grupo de morcegos
me atacou, achei que uma das torres estivesse caindo. Está em
péssimo estado.
O padre Bernard, a irmã Gertrude e Abraham Holtzman trocaram
olhares de desconforto quando ouviram isso.
- O quê? - gritou Meena. - Que diferença isso faz? - Ela já tinha
começado a se arrepender de ter contado para eles. Devia ter saído
correndo da paróquia e ido para a estação de metrô mais próxima...
- Uma igreja que fica muito tempo sem ser usada ou reformada cai
no perigo de se tornar desconsagrada - explicou Abraham
lentamente. - Perfeita para ritos demoníacos.
- Ritos demoníacos? - Essas duas palavras fizeram os pelos da nuca
de Meena se arrepiarem. - Como... a coroação do novo príncipe das
trevas?
Ninguém respondeu. Já tinham começado a correr, juntando armas
para o que obviamente achavam que seria uma batalha apocalíptica
na catedral de St. George contra os Dracul - que haviam
desaparecido misteriosamente dos arredores da igreja de St. Clare.
Nenhum deles, nem Abraham Holtzman, nem o padre Bernard, nem a
irmã Gertrude, nem os freis e as outras freiras... nem mesmo as
noviças e nem seu irmão, Jon, mostrava o menor sinal de medo ou
hesitação. Todos estavam perfeitamente preparados para lutar.
E talvez morrer.
Mas o que eles não sabiam, e ela sim, era que eles iam morrer. Todos
eles. Cada um deles. A verdade do que o futuro preparava para eles a
tinha atingido com clareza perfeita, quase surpreendente, naqueles
poucos momentos em que ela ficou parada no corredor da paróquia.
Dimitri estava mantendo a amiga dela - a melhor amiga grávida dela
- como refém na catedral de St. George e não ia soltá-la a não ser
que Meena aparecesse para fazer a troca.
A vida dela pela vida da amiga.
Depois, quando isso acontecesse, haveria uma segunda troca. A vida
de Meena pela de Lucien.
Em seguida, Dimitri Antonesco, o meio-irmão demônio de Lucien
Antonesco, filho de Drácula, o príncipe das trevas, seria coroado o
novo príncipe na catedral profanada...
... e um reinado de terror e vampiresco e morte se abateria sobre
Manhattan, se não sobre o mundo.
Enquanto isso o irmão de Meena , Abraham, a irmã Gertrude... todas
essas boas pessoas que corriam ao redor dela iam morrer lutando
para tentar impedir o que Meena via acontecer com os olhos da
mente. Na verdade, ela viu para eles exatamente a mesma morte
que tinha visto para Alaric Wulf quando olhou para o futuro no
momento em que amarrava o lenço no pulso dele.
Trevas. Fogo. Muito, muito fogo. E então...
Nada. Só... nada.
Era o que Meena tinha tentando explicar para Lucien naquela
primeira noite que passara com ele. Como estar morto nunca era um
final feliz.
Porque quando Meena olhava para o futuro das pessoas que iam
morre, tudo o que ela via era um vasto abismo de nada, abrindo-se
abaixo dela como uma fenda gigantesca. Ela ficava de pé com as
pontas dos sapatos na beirada dessa fenda, tão grande que ela nem
conseguia ver o fundo.
Esperava que houvesse alguma espécie de vida após a morte além
desse poço de nada. Mas talvez fosse melhor que ela não pudesse ver
caso houvesse.
Porque era o nada que fazia com que Meena avisasse as pessoas para
terem cuidado, embora elas frequentemente não ouvissem. Foi o
nada que ela viu no futuro dos amigos naquela noite. As vidas deles
marchavam diretamente para isso.
E foi por esse motivo que, naquele momento, parada na paróquia, ela
decidiu agir. Pegou a caneta e uma folha de papel e escreveu um
bilhete rapido; pegou moedas suficientes para uma passagem de
metrô de um jarro perto da porta, pois Alaric há muito tinha pegado a
carteira dela; e saiu, certificando-se de que o bilhete seria facilmente
encontrado.
Sabia que ficariam aborrecidos. Na verdade, as ordens explícitas de
Alaric Wulf quando Jon falou com ele ao telefone tinham sido o exato
oposto do que ela estava fazendo: manter Meena tão longe da
catedral de St. George quanto possível.
Ah, e ele também tinha dito que o cachorro dela estava bem e que o
deixaria aos cuidados de Pradip, o porteiro, pelo menos naquele
momento.
Ao que tudo indicava, a ida de Meena para a catedral de St. George
só ia apressar e não impedir a chegada do apocalipse demoníaco.
Mas nada disso mudava o fato de que Meena sabia que tinha sido a
causadora de tudo aquilo.
E que tinha visto o que tinha visto, e sabia o que sabia.
E era mais do que Alaric Wulf, com toda a experência dele, e do que
Abraham Holtzman, com seu Manual de Recursos Humanos da
Guarda Palatina, sabiam.
Era ela que tinha visto o futuro cheio de fogo, trevas e, por fim, a
morte agonizante de todos eles.
Depois, o nada.
Não. Não hoje.
Porque se sabia de alguma coisam, era que aquela era apenas uma
versão do futuro.
O futuro podia mudar. Ela podia mudá-lo. Já tinha feito isso antes,
muitas vezes. Tinha impedido que pessoas saltassem pela beirada
daquele precipício mais vezes do que podia se lembrar.
Ia fazer isso de novo naquela noite.
E ninguém, nem Alaric, nem Lucien, nem mesmo um grupo
enlouquecido de vampiros ia impedi-la.
O metro entrou na estação da rua 77, a estação de Meena.
Ela se levantou... depois fez uma pausa antes de passar pelas portas
automáticas quando elas se abriram. Havia um casala que estava se
beijando nos bancos em frente ao dela. Eles tinham se levantado na
mesma hora que ela. Meena olhou para eles.
E, com os olhos da mente, ela viu os dois sendo atingidos na cabeça
por um pedaço gigantesco de andaime azul e morrendo.
Parecia muito com o andaime azul que cercava a catedral de St.
George.
O casal estava enlaçado e ainda se acariciava quando seguiram em
direção à porta do vagão. Meena, parada em frente à porta aberta di
metrô, ergueu as duas mãos como garras, abriu a boca e sibilou para
eles.
- Voltem! - gritou ela. - Não desçam nessa estação!
- Merda! - gritou o rapaz, cambaleando para trás.
A garota parecia dividida entre o medo e a vergonha. Ela riu com
nervosismo.
- Cara - disse ela para o namorado. - Qual é o problema dela?
- Sou uma vampira! - gritou Meena, saindo do trem mas ainda
bloqueando a passagem e fazendo gestos ameaçadores com as mãos.
- Sou uma vampira! - gritou Meena, saindo do trem mas ainda
bloqueando a passagem e fazendo gestos ameaçadores com as mãos.
- Uma vampira! Fiquem no trem!
- Afastem-se das portas automáticas - anunciou a voz pelo altofalante.
As portas do vagão se fecharam, prendendo o casal em segurança lá
dentro. Meena imediatamente baixou as mãos, reassumindo a
postura normal, se virou e começou a andar. Viu o rapaz fazer um
gesto obsceno quando o vagão passou por ela, saindo da estação.
Ela acenou para ele.
Meena correu pela estação, que estava vazia num sábado à noite,
inalando o cheiro familiar de urina seca, e depois subiu correndo os
degraus para a rua 77.
Não demoraria agora. O que faria quando chegasse lá?
Não sabia exatamente. Ainda tinha no bolso de trás da calça a estaca
que Alaric lhe dera. Talvez enfiasse a estaca em alguém. Como em
Dimitri.
Tinha exigido que Jon devolvesse o celular dela depois que ele ligou
para Alaric. E então mandou uma mensagem de texto para Lucien
contando o que havia acontecido com Leisha.
Com sorte, ele já estaria na catedral de St. George quando ela
chegasse lá e teria resolvido tudo. Ela entraria e veria Leisha livre e
bem, e Dimitri e o resto dos Dracul transformados em pó, com
estacas no coração. Lucien a tomaria nos braços carinhosamente e
eles iriam embora para a Tailândia para começar a nova vida juntos
como marido e mulher... depois de pegar Jack Bauer com Pradip, é
claro. Jon poderia ser padrinho no casamento deles.
Ah tá, pensou Meena cinicamente enquanto se aproximava da igreja,
as torres iluminadas contra o céu escuro. Isso não iria acontecer
mesmo.
A igreja parecia abandonada... morta. O andaime azul que a cercava
estava intacto, com arames farpado no alto, trancado com cadeados.
Ninguém que Meena pudesse ver estava por perto, nem humano nem
vampiro.
Teria sido uma espécie de brincadeira doentia de vampiros? Eles a
teriam feito ir até lá para nada?
E se fosse assim... onde estava Leisha? Como Meena ia encontrá-la?
Assustada, Meena se virou. Uma voz familiar gritava seu nome.
Ela se virou para o outro lado, a principio não conseguindo ver
ninguém. Depois viu um homem sentado nos degraus de uma
varanda do outro lado da rua. Ela o reconheceu sob a iluminação da
rua.
— Adam? — gritou ela — O que você está fazendo aí?
Mas quando Meena corria para atravessar a rua até o outro lado em
que ele estava, logo viu a resposta à sua pergunta.
Adam, com uma bandagem branca ao redor do pescoço, tinha sido
algemado ao corrimão de metal ao lado dos degraus do prédio.
— Aquele maluco me prendeu aqui! — gritou Adam, puxando as
algemas num esforço para se soltar — Ele me mandou ficar com
Pradip depois que fez meu curativo, mas eu o segui. Então ele me
algemou para que eu não pudesse ir atrás dele na igreja. Ele disse
que era perigoso demais. O que devo fazer agora, Meena? Eles estão
com a minha esposa lá dentro! E estou preso aqui fora. Você tem que
me ajudar a me soltar, Meena. Tem um grampo de cabelo ou algo
parecido? Você sabe arrombar cadeados, certo?
Meena olhou para Adam. Ele estava péssimo. A parte toda da frente
da camisa estava coberta do que parecia ser o sangue dele mesmo
da mordida que tinha sofrido no pescoço.
Mas ele não parecia mais estar em choque. As pupilas dele estavam
de tamanho normal.
E a raiva dele era típica de Adam.
— Quem o deixou aí, Adam? — perguntou Meena. Mas já tinha uma
boa ideia de quem tinha sido. Só queria ter certeza. — De quem são
essas algemas?
— Daquele seu amigo caçador de vampiros maluco. — gritou Adam.
Mas que ajuda ele deu! Estou sentado aqui sem fazer nada enquanto
minha esposa, Leisha, deve estar sendo comida viva…
— Leisha está bem — disse Meena de forma reconfortante, colocando
uma mão tranqüilizadora no ombro dele. — Eu juro. Eu saberia se
alguma coisa tivesse acontecido a ela. — Meena esperava que isso
fosse verdade. — Você disse que Alaric já está dentro da igreja?
— É, ele está dentro da igreja. Já falei, ele me deixou aqui fora e
entrou com aquela espada enorme! Ela até tem nome. Señor Stinky
ou algo do tipo. Meena, você tem que abrir essas algemas. Preciso
entrar lá e encontrar minha esposa. Quem sabe o que estão fazendo
com ela?
— Você devia estar em um hospital. — murmurou Meena, dando
tapinhas no ombro dele.
— Dane-se o hospital. — disse Adam — Preciso encontrar minha
esposa! É por minha culpa que ela está lá.
— Não — disse Meena com firmeza — É minha culpa.
Ela foi se afastando dele, atravessando a rua, em direção à igreja. Se
Alaric tinha entrado, ela também poderia.
— Ei.— gritou Adam — Besteira! Volte aqui, Meena! Dê meia volta e
venha aqui agora!
Mas em vez de dar meia-volta, Meena continuou andando até o
andaime que cercava a igreja. Tinha que haver um meio de entrar,
ela disse a si mesma. Se Alaric tinha encontrado um meio de entrar,
ela também poderia encontrar.
Hesitante, ela pousou uma das mãos sobre a madeira fria e azul.
Assim que ela fez isso, o andaime explodiu.
Capítulo Cinqüenta e Cinco
22h30 EST, sábado, 17 de abril
Catedral de St. George
Nova York, NY
A força da explosão fez Meena voar e cair na calçada onde Lucien a
tinha protegido. Também fez com que pedaços de arame farpado e
compensado saíssem voando. Meena ergueu os braços para protege
os olhos. Em torno dela, alarmes de carros dispararam.
E então, de repente, foram silenciados.
Ela abaixou os braços e abriu os olhos bem na hora em que um
pedaço grande de compensado pintado de azul caiu exatamente onde
o jovem casal do metrô estaria... se ela não os tivesse assustado e
feito ficar no trem.
Em vez de atingi-los, a madeira caiu na calçada com um baque
sólido.
— Que diabos foi isso? — ela ouviu Adam perguntar do outro lado da
rua.
Meena se levantou com dificuldade e limpou as mãos e os joelhos.
Estava de frente para as portas da catedral, que tinham sido abertas.
Um homem alto não muito diferente de Lucien, apesar de ser um
pouco mais baixo e mais forte e que usava um terno cinza claro com
camisa e gravata pretas (coisa que Meena não imaginava que Lucien
fizesse), passou pela nuvem de poeira da explosão e olhou para ela,
com uma expressão satisfeita no rosto.
— Meena Harper, presumo — disse ele. Ao contrário do irmão, não
havia um traço sequer de algo europeu no sotaque dele.
Meena assentiu.
— Sou eu — disse ela, tossindo um pouco por causa da poeira. —
Você é Dimitri?
— Sou — disse ele. ele ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar.
Meena, o coração em disparada, aceitou, pois o que mais podia fazer?
Tinha ido lá por um motivo, e esse motivo era libertar sua amiga e
acabar com isso.
Tinha chegado a hora de fazer as duas coisas.
— Me desculpe por isso — disse ele. — Ah, olhe só seu pobre casaco.
Deixe-me ajudá-la. — Ele limpou o pó e pedaços de compensado da
jaqueta de camurça. — Sabe, você não é nada como eu esperava.
— Ouço muito isso — disse ela, ainda tossindo. — Mais baixa?
— Mais jovem — disse ele. o olhar dele em seu rosto era tão intenso
quanto o do irmão dele. Mas ao contrário de Lucien, os olhos
castanhos de dimitri não eram tristes. Não, eles eram profundos
assim. Eram tão superficiais quanto os enredos de Insaciável. — Mas
é bonita! — acrescentou ele de forma galante. — Bem, isso eu
esperava, para ser honesto. Meu irmão nunca conseguiu resistir a um
rosto bonito.
— Obrigada — disse Meena com sarcasmo enquanto atravessava os
escombros.
Ela percebeu que não estavam sozinhos. Olhares brilhantes e
vermelhos os perscrutavam das sombras… olhares que pertenciam,
ela sabia, aos Dracul, os fieis seguidores do pai de Dimitri. Ela os viu
furtivamente. Esperava ver homens magros de jaqueta de couro que
pareciam Gregory Bane e garotas que pareciam Taylor Mackenzie, de
jeans de cintura baixa e frente única.
E viu Gregory Bane, observando-a ao lado de Dimitri.
Mas a maioria das criaturas que ela viu pareciam pessoas comuns,
nada deferentes das que ela veria andando de metrô ou na fila de
quiosque de café do Abdullah de manhã, ninguém particularmente
magro ou gordo, jovem ou velho, na moda ou fora de moda.
E talvez isso, pensou Meena, o coração batendo com ainda mais
força, tenha sido o que mais a assustou.
A única coisa que todos tinham em comum era que pareciam… com
fome.
Mas com fome de quê, exatamente?
Dimitri a guiava para dentro da igreja. Meena nunca tinha entrado na
catedral de St. George. Ela sabia que era bem grande e sempre tinha
ouvido falar que era bonita. De fora, já havia visto que tinha muitos
vitrais. O maior de todos ficava acima das portas da frente e deveria
mostrar São Jorge montado em seu cavalo, matando dragões em
formato de serpente.
Mas nunca tinha conseguido perceber que era um vitral porque os
vidros precisavam urgentemente ser limpos. Era apenas uma
superfície preta. Quase nenhuma luz entrava na igreja, mesmo das
lâmpadas de segurança presas nas torres. A única luz à vista era a
emitida por centenas de velas que tinham sido acesas pelos Dracul…
e nem eram velas votivas. Eram velas grossas e pretas que tinham
sido colocas, com a cera escorrendo, por todas as superfícies planas
disponíveis da igreja, inclusive os bancos, que pareciam terem sido
chutados para todos os lados.
As paredes da igreja não estavam em melhores condições. Tinham
sido agredidas por algumas dúzias de tinta spray. Havia símbolos de
dragões pintados em todas as partes, inclusive sobre os vitrais.
Meena, olhando para o teto de dez metros de altura da igreja, viu
que a área do coral tinha sido igualmente destruída e também estava
coberta de pichações.
— Uau — disse ela. Vocês fizeram maravilhas com esse lugar. Quem
é o decorador?
Ela ouviu uma risada fina e depois uma voz feminina bastante
familiar atrás dela disse:
— Eu. Sou eu.
Meena se virou, o coração explodindo no peito.
— Oi — disse Shoshana com um sorriso enorme. — Surpresa!
Meena se sentiu como se tivesse sido atropelada por um rolo
compressor.
Mas então ela se perguntou por que estava tão surpresa. Sempre
soubera que alguma coisa ia matar Shoshana na academia.
Por que não podia ter sido um vampiro? Especificamente, o filho de
Dimitri Antonesco, Stefan, que naquela manhã tinha enfiado uma
arma nas costa de Meena.
Ainda assim, Meena não conseguiu parar de olhar. Shoshana estava
lindíssima. O cabelo nunca tinha brilhado tanto… nem nunca esteve
tão liso.
Acho que não se precisa de chapinha quando se está morta, pensou
Meena.
— É — disse Shoshana, andando até ela. — Sou eu. Ei…obrigada pela
bolsa.
Meena baixou o olhar e viu que Shoshana estava segurando uma
bolsa da Marc Jacobs com pedras em formato de dragão.
Vermelha.
A bolsa vermelha da Marc Jacobs com pedras em formato de dragão
de Meena , para ser precisa. A que Lucien tinha dado a ela.
Meena não sabia o que dizer. Mil respostas diferentes surgiram na
mente dela.
Mas ela estava estupefata demais para dizer qualquer uma delas em
voz alta.
— A propósito — Shoshana disse, chegando mais perto para colocar
uma unha longa e bem-feita na abertura da blusa de colarinho branco
de Meena, bem onde a pulsação dela se destacava no pescoço. —
Adivinhe quem são os novos codiretores de entretenimento da
Affiliated Broadcast Networks?
Shoshana apontou por cima do ombro para uma casal de meia-idade
de roupas executivas, que acenou com entusiasmo na direção de
Meena.
O tio e a tia de Shoshana.
O coração de Meena se afundou no peito. Não Fran e Stan também.
Todo mundo que Meena conhecia era mesmo vampiro.
Mas codiretores de entretenimento da ABN? Como isso era possível?
A única coisa que eles fizeram foi criar uma novela.
— Ah — disse Shoshana, jogando para o lado o longo e sedoso cabelo
preto. — E adivinhe quem eles nomearam presidente da programação
da emissora? — Ela apontou com orgulho para si mesma. — E como
meu primeiro ato oficial nesse cargo, você está despedida, Meena.
Lamento muito.
— O quê? — gritou Meena. Sabia que tinha algumas coisas mais
importantes na vida com que se preocupar além do trabalho.
Mas o trabalho dela era, de certa forma, sua vida.
— O que posso dizer? — perguntou Shoshana, dando de ombros. —
Não apreciamos pessoas que têm preconceito com a nossa espécie.
Nem precisamos que elas façam comentários depreciativos sobre
nossas supostas tendências misóginas.
— Sua espécie? — Meena sentiu uma onda de raiva quente tomando
conta de si — Sua espécie? deixe-me dizer uma coisa sobre sua
espécie e o que vi fazerem com as mulheres…
— Já chega Shoshana — disse Dimitri num tom de pai reprovador ao
mesmo tempo em que esticou o braço e pousou uma das mãos no
ombro de Meena para guiá-la para longe da outra mulher. — Tenho
usos melhores para o tempo da Srta, Harper agora. Por exemplo…
Foi quando Meena finalmente viu o pórtico para o altar, na frente da
igreja. O presbitério, degradado com pichações. O altar, no alto,
quebrado em pedaços. Uma estátua de São Jorge caída no chão e
sem a cabeça.
E Leisha, sentada no último banco de igreja que não estava virado,
com as mãos amarradas na frente, sobre o colo.
— Leish — gritou Meena, o alívio tomando conta dela. Ela puxou o
ombro da mão de Dimitri e correu até o lado da amiga. — Eles
machucaram você?
Leisha sacudiu a cabeça. As bochechas estavam úmidas e a
maquiagem do olho, borrada. Mas fora isso, ela parecia bem.
— Eu só quero sair daqui — sussurrou ela para Meena. — Odeio essas
pessoas. São uns loucos. Aquela garota, Shoshana, do seu trabalho?
Você sempre me falou que ela era uma vaca, mas nunca soube o
quanto até hoje. E ainda preciso fazer xixi.
Meena engoliu um soluço. Leisha. Oh Leisha.
— Tudo bem — disse Meena. Ela esticou a mão para as cordas que
prendiam os pulsos de Leisha e começou a desamarrá-la. — Vamos
tirar você daqui.
— O que eles são? — perguntou Leisha, olhando desconfiada para
Dimitri por cima da cabeça de Meena. — Viciados em metanfetamina
ou o quê? Você sabe que aquele Gregory Bane de Luxúria mordeu
Adam, não sabe? Ele o mordeu.
Leisha, com o habitual bom senso, tinha escolhido ignorar a
explicação de Meena ao telefone sobre o que estava acontecendo e
arrumou uma própria, uma que conseguiu processar e entender.
— Sim — disse Meena —, são viciados. — Ela levou a cabeça até o nó
que prendia as mãos da amiga, tentando rompê-lo com os dentes.
Não tinha conseguido soltá-lo de outra forma.
— Ei — disse ela por fim, erguendo a cabeça, percebendo a
inutilidade do que estava fazendo. — Alguém pode me dar uma mão
aqui para desamarrá-la? Cumpri minha parte do acordo. Estou aqui.
Vocês disseram que iam soltá-la se eu viesse. Então será que alguém
pode me ajudar?
Ela olhou para Dimitri, mas o viu sorrindo para ela com uma
expressão no rosto da qual ela não gostou nem um pouco.
— Ah — disse ele. — Vejo porque meu irmão gosta de você. Você é
tão… confiante.
Ao pronunciar a palavra confiante, ele esticou a mão, a pegou pelo
braço e a puxou para que ficasse de pé de novo, tudo de uma vez. O
gesto foi tão violento e brusco que Meena viu estrelas por um
segundo ou dois.
— Mas acho que vamos manter sua amiguinha aqui por mais um
tempinho. — disse ele. — Porque tê-la por perto vai deixar você
condescendente às minhas necessidades. E ainda preciso de algumas
coisinhas de você, algumas das quais eu gostaria de obter logo antes
que meu irmão chegue e tente estragar tudo, coisa que ele sempre
teve a infeliz tendência e fazer.
Dimitri a arrastou, nada gentilmente, até o presbitério e depois
degraus acima, até a lateral do altar. Meena não estava gostando do
jeito que os Dracul — incluindo Shoshana e seu tio e tia — tinham se
reunido em volta, como se ansiosos por um show prestes a começar.
E ela também não gostava do que de repente reconheceu pousada na
parte alta do altar.
Era uma vasilha do apartamento de Meena. Uma peça de antiguidade
feita de peldre, que a tia-avó Wilhermina havia deixado para ela e
que Meena nunca usava porque tinha medo de envenenamento por
ingestão de chumbo.
Primeiro a bolsa que Lucien tinha dado a ela. Depois o emprego.
Agora a vasilha de sua tia-avó. O que mais os Dracul iam tirar dela?
— Soube que você possui o poder de prever o futuro, Meena Harper
— disse Dimitri com sua voz grave.
De repente, Meena teve uma sensação ruim sobre o que estava
prestes a acontecer.
Principalmente por causa do modo como todos os Dracul olhavam
para os buracos que Lucien já havia feito no pescoço dela — que
estavam óbvios para todo mundo porque Meena tinha dado a Alaric o
lenço que usava para cobri-los — e depois olhavam com expectativa
para a vasilha prateada. A expressão faminta nos olhos deles pareceu
aumentar cem vezes.
Dimitri estava certo sobre uma coisa: Meena sempre tinha sido boa
em prever o futuro das pessoas. Das outras pessoas.
Nunca o dela.
Até aquele momento.
Meena olhou para Dimitri. Ele olhava para ela com aqueles olhos
castanhos e sem emoção, nos quais ela viu mais do eu apenas um
brilho vermelho-sangue.
Depois ela olhou para o enorme símbolo de dragão que alguém tinha
pintado com spray atrás do altar.
Desde que nos separamos hoje de manhã,Lucien tinha dito para ela
na noite anterior, no quarto dela, tenho a estranha sensação de que
sei como quase todo humano com quem me encontrei vai… vai
morrer… eu nunca, nunca vivi nada assim. Não até… bem, estar com
você.
Agora, Meena sabia exatamente para que serviria a vasilha… e
porque Dimitri estava tão determinado a levá-la para a catedral de
St. George. Não era só porque ele queria atrair o irmão até lá, para
pegá-lo numa armadilha e matá-lo.
Embora aquilo certamente fosse um bônus adicional.
Não, Dimitri a queria para outra coisa.
Ele queria o sangue dela, para um pequeno coquetel de premonição
pré-coroação.
Meena levou a mão à boca para evitar soltar um grito semi-histérico.
E então, antes que ela tivesse a chance de pensar duas vezes sobre o
que estava fazendo, enfiou uma das mãos no bolso de trás para
pegar a estaca de Alaric, depois usou a outra para se estabilizar no
altar enquanto lançou o pé direito, com o máximo de força que
conseguiu, no rosto de Dimitri.
Pena que estava usando sapato baixo e não as botas de plataforma.
Ainda assim, ela conseguiu pegá-lo um tanto desprevenido, pois ele
se curvou e gritou de dor, com a mão no rosto.
Houve uma arfada coletiva dos Dracul.
Sim! Ela havia conseguido! Tinha pegado um vampiro desprevenido!
Ela foi para cima de Dimitri com a estaca enquanto ainda estava em
vantagem, determinada a enfiá-la no coração dele e acabar com
aquilo tudo, de uma vez por todas, para sempre. E salvar a si
própria, o irmão e os amigos.
Isso foi por Yalena e por Leisha e pelo que tinham feito ao
apartamento dela e por qualquer coisa que pretendessem fazer a
Cheryl e Taylor e a todo mundo de Insaciável…
Só que Dimitri, ainda curvado de dor, esticou uma mão com rapidez
de um raio e pegou o pulso dela — o que segurava a estaca — com
um aperto que parecia de ferro.
E então começou a apertar o pulso dela com tanta força que Meena,
por mais que tentasse continuar segurando, acabou tendo que soltar.
A estaca de Alaric caiu com um baque sobre o piso de mármore do
altar e rolou para longe, até sair do campo de visão dela.
Mas ainda assim ele não parou de apertar, mesmo quando Meena
gritou de dor, caindo de joelhos na frente dele e dos Dracul e do altar
e de todo mundo, convencida de que ele ia esmigalhar todos os ossos
do pulso dela…
— Você acha que, só porque consegue ver a morte antes dela chegar,
pode ser mais esperta que eu, Meena Harper? — perguntou ele,
olhando para ela com os olhos brilhavam num tom vermelho, como
carvão de churrasqueira. Os dentes dele tinham virado presas, e
estavam de repente perto demais do pescoço de Meena para ela ficar
tranqüila. — Ou os boatos são verdade e você consegue ler os
pensamentos dos mortos também? Foi assim que conseguiu cativar
tanto o meu irmão?
Ler os pensamentos dos mortos? Não era de surpreender que
estivessem tão desesperados pelo sangue dela.
— Não — disse ela, ofegante. — Não consigo ler o pensamento de
ninguém, nem vivo nem morto. Só consigo saber como alguém vai
morrer…
Dimitri sorriu, as presas brilhando ameaçadoramente à luz das velas.
— Oh, minha querida. Acho que você se superestima. Porque se isso
fosse verdade, por que diabos teria vindo aqui esta noite?
Os olhos de Meena se encheram de lágrimas, a doar em seu pulso
era cada vez maior e aquelas presas estavam cada vez mais perto do
seu pescoço.
Acabou, pensou Meena, fechando os olhos. Finalmente chegou min há
vez de descobrir se existe alguma coisa além daquele nada…
Foi quando ela ouviu alguém gritar o nome de Dimitri, em
advertência.
E ela abriu os olhos para ver uma coisa enorme e pesada e preta vir
pendurada numa corda do mezanino do coral, bater em Dimitri
Antonesco bem no peito e lançá-lo sobre o dragão pintado atrás do
altar.
Dimitri ficou tão surpreso que soltou o pulso de Meena… mas só a
tempo de não arrastá-la pelo altar com ele.
Alaric Wulf, soltando a corda e caindo de pé a alguns metros de onde
Meena estava ofegante sobre o frio mármore banco, examinou a
lâmina da espada.
— Droga — disse ele. — Errei.
Meena, mas aliviada do que era capaz de expressar, se sentou.
— Como assim, errou? — perguntou ela. — Você quase cortou a
minha cabeça.
Alaric apontou para onde Dimitri estava, se levantando do meio do
escombro, tendo acabado de dar um grito furioso e sem palavras.
— Eu quis dizer que errei quanto a ele — disse Alaric. Depois ele
olhou para trás. — E eles não parecem felizes em ver também.
Os Dracul, furiosos pelo ataque ao seu líder, se moviam em direção a
Alaric, sibilando em protesto. Ele ergueu a espada de forma
defensiva. Meena engatinhou pelo chão do presbitério em direção a
ele, sem forçar o pulso machucado.
Ela sabia que era inútil, é claro. Estavam ambos mortos. Havia
provavelmente uns cem Dracul contra eles dois.
Mas ela não ia deixá-lo lutar sozinho. Tinha que haver alguma coisa
que ela pudesse fazer.
Mas o quê? Tinha perdido a estaca que ele tinha dado a ela, a única
arma que possuía.
Alaric pareceu estar pensando quase nas mesmas coisas.
— Você tinha algum tipo de plano quanto veio escondida para cá? —
perguntou Alaric enquanto brandia a espada em direção aos vampiros
que se aproximavam.
— Não — disse Meena quando chegou aos pés dele. — E você?
— Não tive tempo — disse ele. Enfie a mão no meu bolso. Talvez
ainda haja água
benta ou algumas estacas aí.
Ela ficou de joelhos e procurou nos bolsos do sobretudo de couro
enquanto ele sacudia a espada no ar.
— Não — disse ela, a decepção tomando conta de seu rosto. — Não
tem nada aqui.
— Falei para você não me seguir. — disse Alaric. — Não falei?
— Falou — admitiu Meena — Mas eu não podia ficar lá sentada e
deixar que todo mundo morresse.
— E então.
Os dois olharam para Dimitri, que estava de pé a alguns metros
deles, com uma expressão muito insatisfeita no tosto. Ele obviamente
não tinha gostado de ter sido chutado em uma parede por um guarda
palatino.
— Como acho que vocês podem ver, estamos em número maior. —
Dimitri ergueu uma sobrancelha escura. — Parecido com quando você
e seu parceiro foram até aquele armazém nos arredores de Berlim,
hã, Sr. Wulf?
— Foi você? — Alaric parecia furioso. — Juro que vou arrancar cada
um de seus membros, seu…
— Não seja tão infantil — disse Dimitri com uma gargalhada. —
Vocês, palatinos, são todos iguais. Arrogantes. Sempre achando que
estão um passo a frente de nós. Mas mesmo com todos os seus
equipamentos modernos de computação para rastrear nossos
movimentos e nosso dinheiro, sempre encontramos meios de passar
por entre seus dedos e vencer… por causa da sua arrogância. E da
sua burrice. É por causa da sua burrice que vamos matar a grávida
agora.
O coração de Meena subiu para a garganta. As hordas de Dracul que
se reuniam em torno dela e de Alaric aos pés do altar se separaram
um pouco e ela viu que Leisha tinha sido colocada de pé. Ela estava
com um braço esticado de cada lado, segurados por Gregory Bane e
Shoshana. Os dois sorriam de forma um tanto maníaca, mas Leisha
não parecia muito feliz.
Talvez porque Gregory Bane estivesse sibilando para ela, mostrando
as presas.
— Pare com isso — disse Meena, ficando de pé com pernas bambas.
O pulso dela latejava e a cabeça doía um pouco. — Vou lhe dar o que
você quer.
Ela mancou até o altar e ergueu a vasilha de peltre, que brilhava à
luz das velas.
— Meena — disse Alaric. Os olhos azuis brilhantes dele davam-lhe um
aviso. Ele balançou a cabeça.
Não. Não faça isso.
Mas Meena sabia que não adiantava. Ela tinha falhado. Alaric tinha
falhado. Lucien obviamente não ia aparecer, fosse porque razão
fosse, senão já estaria la.
Era o fim. Não tinha sentido.
Estava feito.
Os dedos dos pés dela estavam na beira do precipício.
— Pegue — disse ela, oferecendo a vasilha a Dimitri. — Pegue tudo.
Não ligo mais. Apenas solte Leisha.
— Obrigado. — Dimitri ergueu a vasilha das mãos dela e fez uma
reverência com cortesia. — Você não é uma criatura condescendente?
Depois ele tirou uma adaga com um punho de ouro e pedras do bolso
interno. apertou-a contra o pescoço de Meena. Ela engoliu em seco, o
coração disparando.
Mas tudo que Dimitri fez depois foi olhar par Gregory Bane e
Shoshana e assentir.
— Podem matar a mulher agora. — disse para eles.
— O quê? — Meena se virou na hora em que Dimitri, ainda segurando
a adaga na direção do pescoço dela, segurou-a pelo braço e começou
a arrastá-la em direção ao altar. —Não!
Mas era tarde demais. Os Dracul deram um salto para a frente,
caindo com gana sobre o lugar onde Meena tinha visto Leisha pela
última vez, na mesma hora em que Alaric pulou na direção deles,
com a intenção de salvar a amiga dela.
Só que Leisha não estava mais lá. Meena piscou, pensando que os
olhos deviam estar pregando peças nela por causa da luz de velas.
Mas era verdade. Os Dracul famintos — Fran, Stan, Shoshana, todos
eles — estavam olhando para o lugar vazio onde Leisha tinha estado.
Meena, se contorcendo nas mãos de Dimitri ao lado do altar, viu de
rabo de olho um movimento rápido na extremidade da igreja.
Foi assim que ela viu que Leisha já estava na parte de trás da igreja,
sendo levada pelas portas para os braços ansiosos do marido, Adam,
por mais ninguém que…
Mary Lou Antonesco?
Meena teria pensado que imaginou a coisa toda em uma espécie de
alucinação introduzida por estresse pór-traumático se Dimitri não
tivesse apontado a adaga para Mary Lou e gritado:
—Traidora!
Os Dracul se viraram, quase como uma entidade única, e se lançaram
em direção a Mary Lou, como se pretendessem parti-la ao meio,
como estavam prestes a fazer com Leisha.
Foi aí que uma rajada de vento surgiu do nada e percorreu a igreja.
Tão forte que apagou as chamas de todas as velas e fez com que
todo mundo lançasse um braço sobre os olhos para portegê-los da
poeira da obra.
Então o vento mudou de direção e percorreu a igreja de novo, dessa
vez na direção oposta.
Agora todas as velas se reacendenram magicamente, as chamas
queimando com alegria.
Depois que a última rajada de vento morreu e Meena baixou com
autela o braço que Dimitri não segurava, abalada pelo que rinha
acabado de acoantecer, ela — e todo mundo na igreja St. George —
vu que havia outra pessoa de pé no altar ao lado de Dimitri
Antonesco. Alguém que nção estava lá antes do vento esquisito
açoitar com tanta violência a igreja, apagando e depois reacendendo
todas as velas.
Era o irmão de Dimitri, Lucien.
O príncipe das trevas.
Capítulo Cinqüenta e Seis
23h EST, sábado, 17 de abril
Catedral de St. George
Rua 78 East, 180
Nova York, NY
Lucien nem olhou na direção de Meena. Todos os poderes de
concentração dele pareciam focados no irmão.
— Dimitri — disse. A voz dele, como sempre, era como veludo. —
Soube que você queria falar comigo sobre alguma coisa.
Dimitri ainda estava segurando o braço de Meena. Era o braço
dolorido, cujo pulso ele tinha quase quebrado. Talvez tivesse até
quebrado; Meena não tinha certeza.
Ainda segurava a adaga também.
— Isso mesmo, Lucien — disse ele. a voz dele ronronava como um
gatinho. — Que prazer ver você hoje. E que entrada. Mas você
sempre souber fazer isso, não é?
— Solte-a — disse Lucien. Agora o veludo tinha se transformado em
gelo.
— Mas a Srta. Harper e eu tínhamos acabado de nos conhecer —
disse Dimitri, passando casualmente a ponta da adaga pelo pescoço
dela. — E também quero conseguir ler a mente de todo mundo e
saber o futuro. Não acho justo que só você se divirta.
— Acho que você já se divertiu o bastante — disse Lucien friamente.
— Fui ao Concubine e vi o que você guardava no porão.
Dimitri pareceu surpreso. Estava segurando Meena bem perto de si, e
ela sentiu-o ficar completamente imóvel. Todo mundo na igreja — os
Dracul, até mesmo Alaric, ao pé do altar — pareceu observar com
atenção a conversa tensa entre irmãos.
— Foi? — perguntou Dimitri. Depois ele sorriu de modo que as presas
apareceram de novo. — Então você deu de cara com meu ultimo
empreendimento financeiro…
— A TransCarta — gritou uma voz masculina de algum lugar perto do
fundo da igreja.
Meena, reconhecendo a voz, ficou paralisada.
Não. Oh não.
Todas as cabeças lá dentro se viraram para seguir o som daquela
voz.
E foi assim que todo mundo conseguiu dar uma boa olhada no irmão
de Meena, Jon, de pé na entrada da igreja, com a irmã Gertrude de
um lado e Abraham Holtzman do outro, este com uma estaca
apontada para o peito de Stefan Dominic. Atrás deles estava cada
frei, freira e noviça da capela de St. Clare.
Meena ergueu o olhar para o teto. Como se as coisas já não
estivessem ruins o suficiente. O quão ruim essa noite ia ficar?
— Ah, oi — falou Abraham com alegria, acenando para eles. — Não
queríamos interromper. Prossigam. Desde que ninguém tente nos
atacar, deixarei esse sujeito aqui viver.
— Deixe-o me matar, pai! — gritou Stefan Dominic, lutando nos
braços do guarda. — Por favor! Prefiro morrer a desonrar você desse
jeito!
Nem Dimitri nem Lucien pareceram particularmente impressionados
por esse discurso inflamado. Mas pelo menos ficou claro que as
ambições teatrais de Stefan não foram mal direcionadas.
— Stefan! — Shoshana parecia preocupada. Ela lançou um olhar de
pânico para Lucien e Dimitri. — Por favor, não deixem que ele o
matem, meus senhores!! Vocês não podem!
Mas Dimitri não tinha tirado o olhar de Lucien, que prosseguiu:
— Sim. TransCarta é o banco onde todos os homens mortos que
encontrei em seu porão trabalhavam.
— A TransCarta comprou a emissora de tevê que é dona da novela
para a qual trabalho — disse Meena com surpresa.
Mas ela se deu conta depois que deveria ter dito para a qual
trabalhava.
— Na verdade, é a empresa suíça de private equity que Dimitri
Antonesco fundou ano passado. — disse Jon.
— Trans de Transilvânia, é claro — disse Alaric, pensativo. — Não sei
o que Carta representa.
Lucien olhou pra o meio-irmão com uma sobrancelha erguida.
— Deve ser por causa de Carta Abbey, presumo — disse ele. — Onde
você tentou me matar pela… que vez foi? Terceira?
Dimitri deu de ombros.
— Achei que soava bem. Uma empresa de private equity permite que
sejam feitos negócios sem o escrutínio usual por parte do governo
federal e de olhos curiosos de outras entidades. — Ele deu uma
piscadela para Alaric.
— Porque elas não são comercializadas publicamente na bolsa de
valores e não estão sujeitas a nenhum outro tipo de registro ou
divulgação — disse Alaric por entre dentes cerrados. Ele parecia não
conseguir acreditar que não tinha pensado nisso antes.
— Exatamente. — Dimitri sorriu. — São um ótimo modo para um
individuo como eu, que valoriza sua privacidade, expandir sua, hum,
marca… por meio de, digamos, uma emissora de tevê.
Lucien franziu a testa.
— Dimitri — disse ele, num tom de advertência —, não temos uma
marca.
— Na verdade, os integrantes tanto da m]comunidade financeira
quanto da do entretenimento estão bastante impressionados com o
nome Drácula e ansiosos para experimentar a imortalidade. E os
consumidores… bem, o medo da morte é o que faz ir atrás da
industria da beleza. Até o ano 2013, vão ter gastos pelo menos
quarenta bilhões de dólares só em serviços de cirurgia cosmética.
Bem, quem não ia querer viver para sempre, se pudesse? Você sabe
muito sobre isso, não é, Srta Harper, na sua área de trabalho?
Meena sentiu como se uma sombra gélida tivesse passado por cima
de sua alma.
Creme para rugas Revenant.
É claro. Revenant significava cadáver animado.
— É você — gritou ela com asco, tentando se soltar da mão dele. — É
você por trás dos novos produtos que querem que mostremos em
Insaciável.
— É claro — disse ele com um sorriso, facilmente controlando as
tentativas dela de se soltar. — Mas você não precisa ficar assim,
minha querida. Não somos diferentes do seu patrocinador anterior.
Nós também só queremos ajudar seus telespectadores a encontrar
produtos que ajudem a melhoras as vidas deles.
— Como o Spa Regenerativo para o Despertar Juvenil? — perguntou
Meena.
— Visitei um desses — disse Lucien com uma voz fria como o
inverno. — No porão do Concubine.
— Bobagem — disse Dimitri. — Aquilo era apenas um protótipo. Você
nunca deveria ter visto aquilo naquele estado, Lucien. temos planos
de melhorar e expandir nossos spas no mundo todo…
— Não — disse Lucien, interrompendo-o. — Porque isso vai acabar.
Agora.
Dimitri deu de ombros.
— Pode não ser como você imaginou os negócios da família, Lucien,
mas posso garantir que vi o planejamento financeiro, e o potencial
para crescimento é astronô…
— Não existe negócio da família — disse Lucien, dando um passo na
direção de Dimitri. — E acredito que o potencial para crescimento da
sua empresa vai despencar significativamente se você continuar a dar
garotas indefesas para alimentar seus recém-transformados. Embora
eles talvez gostem da ideia de ficarem jovens para sempre, uma
coisa que você parece nunca ter aprendido sobre os humanos ao
longo dos anos, Dimitri, é que eles tendem a não gostar de
assassinato.
Meena, olhando do rosto de um irmão para o outro, estava atordoada
demais para conseguir acompanhar a conversa.
Não por ela estar em uma igreja profanada com uma adaga no
pescoço, em frente de uma multidão de vampiros famintos.
Mas porque ela tinha se dado conta de que Dimitri estava certo:
Ela sabia sim tudo sobre querer viver para sempre.
Não só tinha passado mais da metade da vida protegendo todo
mundo que encontrava de uma morte fora de hora, mas era sobre
isso que ela escrevia: a insaciável sede pela vida (e pelo amor) de
Victoria Worthington Stone e da filha dela, Tabby.
Mas será que Victoria e Tabby eram mesmo tão insaciáveis? Elas só
queriam alguém que as amasse e cuidasse delas.
Não era dessa necessidade muito humana que empresas como a de
Dimitri se aproveitava quando insinuavam que as mulheres jamais
encontrariam aquela pessoa especial a não ser que comprassem os
produtos deles para que ficassem com uma determinada aparência?
Eles se alimentavam da insegurança humana do modo como os
Dracul se alimentavam da vida humana.
De repente, Meena se deu conta do quanto o irmão de Lucien era
cruel.
E quem tinham sido os verdadeiros insaciáveis o tempo todo.
— Se você está tão ansioso para expandir a marca Dracul, mas ainda
tem tanto medo da Palatina que se dá ao trabalho de formar uma
empresa suíça só para que eles não possam se apoderar dos seus
fundos, por que pelo menos não esconder os corpos das garotas
mortas, Dimitri? — Lucien perguntava sem entender, sacudindo a
cabeça.
— É isso que não consigo entender. Expor os corpos foi expor tudo.
Isca.
Era isso que Alaric quis dizer.
— Porque ele queria atrair você para cá, Lucien — disse Meena. Tudo
estava tão claro para ela agora. — Ele nunca se preocupou com a
Palatina. As garotas mortas só serviram para trazer você a Nova
York, para que ele pudesse atrair você até aqui e fazer isso.
A coroação era apenas a fase final do grande plano de Dimitri para
transformar todos os Estados Unidos — e logo depois o mundo — em
um buffet vampiresco. A única coisa que o atrapalhava era…
O olhar de Lucien se moveu do irmão até ela.
E quando seus olhares se encontraram, Meena sentiu uma onda
explosiva dentro da cabeça.
Ela podia ver nos olhos dele o quanto ele a amava.
E o quanto era difícil para ele não matar o irmão naquele lugar,
naquela hora, com as próprias mãos, pelo que Dimitri tinha feito a
ela.
Mas ele não podia.
Não com Dimitri tão perto de Meena, com um braço ainda em torno
dela, uma adaga no pescoço e as presas tão próximas para dar uma
mordida.
Meena assentiu. Ela entendeu. Estava tudo bem. O importante era
que ela precisava impedir Dimitri e os Dracul de fazer o que tinham
ido ali fazer.
Matar o único empecilho para a realização do grande plano. Lucien.
Foi naquela hora que uma estaca saiu zunindo de uma besta em
algum lugar perto das portas e penetrou diretamente no meio das
costas de Lucien.
— Sim! — Meena ouviu o irmão gritar. — Vocês viram isso? Eu o
acertei!

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