domingo, 28 de julho de 2013

mord - mg - parte 3 - 27-28-29-30

27
Considerando a direção para a qual sua vida estava sendo conduzida ultimamente, Meena não devia ter se surpreendido quando saiu pela porta dos fundos do Beanery e foi atacada por um vampiro.
Claro, era plena luz do dia. Mas o beco não era banhado pelo sol naquela hora, graças aos prédios que o cercavam dos dois lados. Ela só virou as costas um segundo para observar o irmão trancar a porta atrás de si.
Fazia menos de 12 horas que fora demitida da Palatina e já tinha esquecido a regra número um da luta contra demônios: nunca vire as costas.
Foi Jack Bauer quem salvou sua vida. Ele começou a rosnar e puxar a coleira.
Quando Meena se virou para ver o que havia de errado com o cachorro, reparou em um movimento com o canto do olho. Pareceu vir da direção de um latão de lixo a alguns metros dali.
Jamais poderia explicar depois o que a fez se abaixar, seu dom ou simplesmente instinto. Mas ela se abaixou e soltou um grito de aviso para Jon.
E assim, Brianna Delmonico, que pulou em cima dela com a boca já aberta, se chocou contra a porta dos fundos do Beanery, sem encostar em Meena, o alvo, mas derrubou Jon com a força do movimento.
— Meu Deus — gritou Jon, deixando cair as chaves.
Brianna não parecia ter passado as últimas 48 horas em um encontro de clube do livro para mamãe e bebês na livraria local e nem nada do gênero. Usava um conjunto de moletom aveludado que talvez tenha sido rosa em algum momento, mas estava manchado de vermelho-vivo — pelo menos na frente — de sangue.
O sangue não parecia ser de Brianna. Ela ergueu a cabeça e a virou para
encarar Meena, ignorando completamente Jon, e soltou um assobio que revelou um par de presas encharcadas de sangue. A higiene dental claramente não era prioridade no lar dos Delmonico.
— Saia daqui — gritou Meena para o irmão que estava no chão do beco, onde ela havia se agachado. — Vá!
Jon não hesitou. Ele passou por Brianna e correu pelo beco, mexendo no bolso do avental.
— Ah, meu Deus — Meena o ouviu dizer alguns segundos depois.
— Ah, meu Deus... acho que vou vomitar.
Meena não tinha tempo para os problemas do irmão. Estava ocupada com Brianna, que havia partido para cima dela de novo.
E desta vez Meena não conseguiu se abaixar, porque já estava no chão. Não tinha para onde ir. Resfolegou quando o corpo de Brianna, que era maior do que o seu, se chocou contra ela e tirou seu fôlego. Vampiros eram naturalmente fortes, mas em vida Brianna devia passar muito tempo malhando, porque seus músculos eram sólidos como pedra. Meena se arrependeu das tantas noites em que optou pela biblioteca de pesquisa da Palatina em vez de ir para a academia.
Felizmente, insatisfeito por ter sido deixado de fora da briga, Jack Bauer se lançou contra Brjanna Delmonico, mordendo com força as canelas acima dos tênis Nike.
Brianna emitiu um som gutural de dor. Mas mesmo os dentinhos afiados de Jack Bauer afundando na pele dela não a impediram de tentar enfiar os dela mesma em Meena.
— Jon — gritou Meena, colocando as mãos no pescoço da mulher com quem tinha tido um namorado em comum. —Uma ajudinha, por favor,
— Espere aí... — disse Jon. E então, fez um som de engasgo.
Estava vomitando?
Em seguida, quando aqueles incisivos enormes estavam prestes a se afundar nos mesmos buracos que o marido daquela mulher havia feito no pescoço de Meena, Brianna afastou o rosto com uma expressão de total repugnância.
Só quando reparou em que direção Brianna estava olhando é que se deu
conta do motivo: a cruz de Alaric.
Por um momento, as duas ficaram ali deitadas, Meena respirando com força, Brianna... bem, Brianna sem respirar, só sibilando de raiva e nojo.
Foi o tempo que Jon precisou para se recuperar do que quer que houvesse de errado com ele, esticar a mão, pegar um punhado do cabelo louro de Brianna e puxá-la de cima de Meena, jogando-a no chão, de costas.
Antes que a vampira tivesse tempo de saber o que a puxou, Jon estava de pé acima dela, com um pé sobre o peito e a SuperEstaca apontada para o rosto dela.
Meena ficou parada no chão do beco, inspirando o máximo de ar que conseguia, grata por ter o peso do corpo de Brianna retirado de cima do seu. Ela olhou para a fina tira de céu azul que conseguia ver entre os prédios altos, no qual duas nuvens brancas e fofas deslizavam.
As nuvens pareciam exatamente com as que tinham passado do lado de fora da janela do castelo em seu sonho com Lucien e a mãe dele, tão tranquilas e serenas. Meena desejava poder ficar ali deitada para sempre apreciando a vista.
Mas então Jack Bauer caminhou até seu rosto, deu uma [ambida bochecha e voltou a rosnar mais um pouco para Brianna.
— Muito bem — disse Jon para Brianna. — Vi o que você fez com aquele cara ali. Se acha que vou deixar você fazer isso com minha irmã...
Brianna saltou para cima dele, abrindo e fechando a boca. Jon apertou o gatilho do secador de cabelo. Um ponto azul de luz apareceu na cabeça de Brianna.
Ela começou a gritar de dor instantaneamente e caiu no chão, se contorcendo e segurando a cabeça. Um filete de fumaça subia dos cabelos queimados.
—Jon! — gritou Meena, ofegando ao se sentar.
— Puta merda — disse Jon com uma voz perplexa, olhando para a SuperEstaca. — Funciona. Funciona mesmo.
— Jon — gritou Meena de novo, desta vez porque Brianna saltou mais uma vez. Só que agora ela foi em direção à mão que estava segurando a SuperEstaca.
Jon apertou o gatilho novamente, acertando Brianna no peito com a luz azul. Ela começou a se contorcer e depois rastejou de costas até se encostar na parede do lado oposto, parecendo não saber o que a atingiu.
— Jon — repetiu Meena, ficando de pé. — O que é essa coisa?
— É uma arma que dispara raios ultravioleta. Eu inventei. Bem, fiz um ajuste em uma arma de design similar que a polícia já usa na análise de cenas de crime...
Ao reparar que Jon estava distraído, Brianna tentou escapar. Mas Jon foi rápido demais para ela. Ele apontou a luz azul para o pescoço da vampira, fazendo com que ela gritasse e se encostasse de novo na parede, olhando para um lado e para o outro freneticamente em busca de um meio de escapar.
Não havia nenhum. Ela estava encurralada.
— Como você pode ver — prosseguiu Jon — , é bastante eficiente.
Impressionada, Meena disse:
— Pergunte a ela de onde veio todo o sangue que ela tem no casaco. Meena ainda sentia que Alaric, Abraham e Carolina estavam bem... mas a visão de tanto sangue a estava deixando nervosa. Esta mulher tinha ferido alguém que Meena conhecia. Ela podia sentir.
— Se você fez alguma coisa com qualquer um dos meus amigos — ameaçou Meena, com as entranhas contraídas — , vou mandar meu irmão botar fogo em você com essa coisa.
Brianna olhou com raiva mortal para Meena.
— Eu sempre odiei você — declarou ela. — Fiquei feliz quando me mandaram para matar você.
— Atire nela — disse Meena para o irmão. — E seja rápido. Não temos muito tempo. Aqueles policiais pareciam furiosos.
— Sei de onde veio parte desse sangue — falou Jon. — Vá olhar atrás do latão de lixo.
Hesitante, Meena andou até o latão de lixo e olhou atrás...
... e imediatamente entendeu por que Jon tinha vomitado.
Encontraram um dos turistas desaparecidos de Alaric.
Ou, pelo menos, o que havia sobrado dele.
Estava sem um pedaço grande do pescoço. Ficou claro agora de onde
viera o sangue na roupa de Brianna. A julgar pela expressão do cadáver, a morte havia sido uma surpresa... pela qual Meena supunha que ele só podia ficar agradecido. Ela se lembrou da mordida de David e de como nem sabia que estava lá até que Lucien apontou para seu pescoço e disse que estava sangrando.
Devia haver algum tipo de anestésico nos dentes deles. Ela se perguntou se o homem estava a caminho de provar algumas comidas típicas da festa de San Gennaro. Ele provavelmente só estava querendo explorar o bairro e digerir o que já tinha comido — que acabou sendo sua última refeição — quando Brianna o atacou.
Meena pensou que fosse vomitar.
— Que tipo de vampiro você é? — perguntou Jon a Brianna, ameaçando-a com a SuperEstaca. — Você deveria beber o sangue das pessoas, não arrancar pedaços delas. Está fazendo tudo errado.
Meena virou de costas para o cadáver, havia algo lhe incomodando. Um vampiro que comia a carne da vítima... Onde tinha ouvido falar daquilo?
— Quem mandou você aqui? — perguntou Jon a Brianna. — Quem transformou você?
Brianna continuou a rosnar para ele, quase com a mesma ferocidade com que Jack Bauer rosnava para ela.
Mas estava encolhida em um canto e não tinha para onde ir.
— Deixe-me tentar — disse Meena, ajoelhando ao lado do irmão.
Jon esticou o braço à frente dela, de maneira protetora.
— Não chegue perto demais — avisou ele, erguendo a SuperEstaca.
— Está tudo bem — garantiu Meena, e olhou nos olhos da vampira. — Brianna, sinto muito que isso tenha acontecido a você. É culpa minha. Sei disso. E sinto muito mesmo.
Jon olhou para ela como se ela fosse louca.
— Sente muito? — gritou ele. — Sente muito o quê? O marido dela tentou matar você. Ela também. Ela matou aquele cara ali atrás!
— Eu sei — disse Meena. — Mas nada disso teria acontecido se não fosse por minha causa. E...
— Ah, meu Deus — interrompeu Jon. - — Você não fez nada disso. E,
de qualquer modo, ela roubou seu namorado, lembra?
Meena olhou para ele com raiva.
— Ela não o roubou. Ele foi embora. E quer me deixar terminar? Só porque ela foi transformada em vampiro não quer dizer que perdeu toda a humanidade. Ainda pode ter uma parte da velha Brianna aí, lutando para sair. Acho que é isso que meu sonho está tentando me dizer sobre Lucien. — Ela olhou para Brianna. — Pode ser verdade quanto a ela também.
Brianna olhou direto para ela, mostrou os dentes e rosnou.
— É — disse Jon. — Nunca vi Lucien fazer isso. Exceto naquela vez em que tentou nos fritar vivos. — Ele apontou a SuperEstaca para a cabeça de Brianna. — Conte-nos quem transformou você, ou juro que vou fazer um buraco do tamanho de uma moeda na sua cabeça...
Mas antes que tivesse chance de terminar a ameaça, a porta dos fundos do brechó St. Clare se abriu e Yalena saiu.
— Jon — chamou ela, olhando ao redor. — Jon, você está aí? Tem uns policiais que...
E então, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Yalena viu o corpo atrás do latão de lixo e gritou.
Jon viu Yalena e se distraiu, e acabou relaxando a mão que segurava a SuperEstaca.
E Brianna viu que Jon tinha relaxado a mão que segurava a SuperEstaca. Então pulou em cima de Jon e afundou as presas em seu ombro.

28
Alaric Wulf não estava em Roma.
Não tinha certeza de onde estava quando ergueu a cabeça depois de recobrar a consciência. Mas, aos poucos, começava a se localizar. Já estivera naquele aposento antes, mas só uma vez, quando fez sua primeira visita ao prédio.
O que não conseguia entender era por que estava lá... e pendurado pelos pulsos em um cano grosso que passava pelo meio do teto. Não tinha como saber há quanto tempo estava naquele lugar, pois tiraram todos os seus objetos pessoais, inclusive o relógio, o celular, o cinto, a espada, os sapatos, as meias e, por algum motivo, a camisa, coisas que achavam que ele podia usar como arma mortal.
Alaric achou isso interessante, porque seus pés — e suas mãos, se conseguisse soltá-las — seriam mais do que suficientes como armas mortais.
Evidentemente, alguém tinha medo dele.
E esse alguém estava certo.
Alaric não sabia por que fora atingido na cabeça e amarrado na sala do boiler de St. Bernadette. Imaginava que ninguém na Palatina estivesse feliz por ele ter falado sobre os turistas desaparecidos com Genevieve Fox.
Esperava uma carta disciplinar, no máximo. Possivelmente, supervisão. Mas isso parecia estar indo longe demais.
A última coisa de que se lembrava era ser arrastado para fora da van que o tirara do Met. Estava compreensivelmente, ao menos em sua opinião, aborrecido com o resultado dos acontecimentos. De onde tinha saído aquele esquadrão de idiotas uniformizados liderados por Henrique Maurício?
Aquela rede que tentaram usar para capturar Lucien Antonesco quando
Alaric estava prestes a cortar fora a cabeça dele havia sido ideia do Caliente? Provavelmente. A coisa toda tinha sido feita de forma bastante desajeitada.
E Alaric tinha toda intenção de dizer isso para quem ele conseguisse chamar a atenção... embora sua primeira prioridade fosse tentar avisá-los da ligação que recebera de Abraham. Eles precisavam saber que a equipe estava viva e em perigo. Alguém precisava fazer contato com Johanna e ver como estava indo o rastreamento via satélite, depois enviar uma equipe de reconhecimento para onde Holtzman e os outros estivessem...
Assim que as palavras saíram de sua boca, o golpe atingiu sua nuca.
Depois disso, ficou imerso em escuridão. E acordou nesse estado lamentável.
Ao que parecia, pisara no calo de alguém que — e ele tinha uma ideia de quem — não queria que ele falasse sobre a ligação que havia recebido de Holtzman. Era uma ligação que ele não deveria ter recebido e que podia ser a causa de ele estar na situação atual.
Interessante. Mas também irritante.
Pois como poderia ajudar Holtzman do jeito que estava agora?
A gravidade já tirara o sangue de suas mãos e braços havia tempo e ele tinha perdido toda a sensibilidade nesses membros. Estava com sede e a cabeça doía no lugar do golpe.
Já havia ficado pendurado assim antes, é claro, mas nunca pelo próprio empregador... e sabia que fora seu empregador quem tinha feito aquilo porque as cordas ao redor dos pulsos eram de couro macio, que usavam em humanos rebeldes que não confessavam a localização dos amantes vampiros. Não deixavam marcas na pele, independentemente do quanto o prisioneiro se contorcesse, mas eram incrivelmente seguras e impossíveis de se romper...
A não ser, é claro, que você tivesse trabalhado com elas com tanta frequência quanto Alaric e soubesse qual era o ponto fraco dessas cordas.
Precisava sair dali o mais rápido possível. Não era só a situação com Holtzman e o resto da equipe em Nova Jersey que o estava preocupando. Também estava preocupado com Meena. Ele ouviu o modo como o Caliente estava falando com ela do lado de fora do museu. Se colocaram Alaric pendurado pelos braços na sala do boiler, e só porque não confiavam e nem
gostavam dele, o que estavam fazendo com ela para obrigá-la a revelar o paradeiro de Lucien Antonesco?
Alaric sabia. Sabia perfeitamente. Também sabia que tinha que impedir o que estava acontecendo, porque ontem à noite, no museu, ele olhou nos olhos de Antonesco e, apesar das afirmações contrárias de Meena, não viu nada lá além de um demônio.
É claro que era possível que Meena estivesse certa e em algum momento Lucien Antonesco não tivesse sido um completo monstro.
Alaric não acreditava que isso ainda fosse verdade. Meena só o estava vendo como queria ver.
Enquanto isso, Alaric ia concentrar seus esforços em salvar as pessoas que valiam a pena serem salvas: Meena e seus outros amigos.
Então começou a trabalhar.

29
Meena pegou a arma assim que Jon a derrubou, o que aconteceu quando o peso do corpo de Brianna o atingiu. Ela mirou e apertou o gatilho.
Por não saber como a arma funcionava, Meena não tinha ideia do que esperar. Certamente não o que aconteceu, que foi uma chama no centro do peito de Brianna. O motivo disso foi Meena apertar o gatilho continuamente. Brianna imediatamente saiu de cima de Jon e gritou. Yalena saiu correndo dos degraus dos fundos do brechó em direção a Jon e também gritou. Jack Bauer latia loucamente.
E então Brianna disparou pelo beco em direção a uma janela de porão de um prédio em frente ao brechó. A janela estava quebrada e tinha sido coberta por tábuas no passado, mas estava claro que alguém já havia chutado ou arrancado os pedaços de madeira.
Brianna mergulhou pela abertura e desapareceu na escuridão, escapando do brilho intenso da SuperEstaca.
— Jon — Yalena se agachou ao lado do irmão de Meena. — Você está bem? Ah, não!
Meena se virou de costas para a janela pela qual Brianna tinha desaparecido e olhou para baixo. Jon já estava se sentando, com uma mão no ombro.
— Estou bem — garantiu ele. — Estou bem. Olhe, foi só um arranhão. Jon não fazia ideia porque não podia ver. O sangue já tinha começado a manchar o avental branco do Beanery de vermelho.
— Vamos lá — disse ele, se levantado. — Vamos. Não podemos deixá-la escapar.
— Não, Jon — gritou Yalena, e o puxou para o chão. — Você está
ferido!
— Estou bem — repetiu Jon. Ele obviamente não sentia a dor do ferimento por causa do anestésico nos dentes de Brianna. — Estou legal, de verdade.
Meena se lembrou do casaco de moletom que tinha amarrado na cintura. Ela o puxou e o entregou a Yalena.
— Tome — disse ela. — Use isto.
Yalena pegou o casaco e apertou o tecido de algodão contra a ferida de Jon, em uma tentativa de estancar o sangramento.
Naquele exato momento, os dois policiais saíram pela porta dos fundos do brechó. Por um ou dois segundos, eles ficaram ali de pé, olhando, tentando entender.
E então Yalena olhou para eles e gritou:
— Chamem uma ambulância!
Um dos policiais pareceu despertar, pegou o rádio e murmurou com urgência nele, O segundo correu para ajudar Yalena a pressionar o ferimento.
— O que aconteceu? — perguntou ele. Seu olhar foi em direção ao cadáver ao lado do latão de lixo e voltou para o ferimento de Jon. — O que é aquilo ali?
— Nós saímos e o encontramos daquele jeito — disse Meena. Ela havia enfiado a SuperEstaca na bolsa. — O assassino, o que estão falando nos noticiários. Só pode ser ele. Devemos tê-lo interrompido. Então ele atacou meu irmão. Ele o mordeu.
— Jesus, Maria, José — disse o policial, parecendo abalado. Ele pegou o rádio. — Você viu para que lado ele foi?
— Vi — falou Meena, assentindo. — Para aquele lado. — Ela apontou na direção oposta à que Brianna tinha tomado.
O policial começou a falar rapidamente no rádio. Meena olhou por cima do corpo do irmão para Yalena. Os olhos da jovem estavam arregalados e assustados.
— Me escute, Yalena — disse Meena em um tom de voz baixo e sério. — Quero que vá com Jon para o hospital. Não saia do lado dele. Se alguém perguntar, você é da família. Diga que é irmã dele ou o que tiver que dizer.
Yalena assentiu.
— Pode deixar.
— Ela não é minha irmã — falou Jon, rindo. — Isso seria nojento.
Ele estava ficando desorientado pela perda de sangue.
— Cale a boca, Jon — disse Meena. Para Yalena, ela explicou: — Ligue para a irmã Gertrude e para o padre Bernard. Para mais ninguém.
São os únicos em quem podemos confiar.
Os olhos de Yalena se arregalaram ainda mais, e ela assentiu.
— Eu os vi hoje de manhã. Estavam falando sobre como as coisas pareceram... estranhas ontem à noite no museu.
— Isso é um bom sinal — disse Meena. — Diga a eles que não estou encontrando Alaric.
— Conte a Alaric sobre a SuperEstaca — pediu Jon. — Ela vai dar uma nova dimensão à tarefa de matar vampiros.
Meena colocou um dedo sobre os lábios de Jon.
— Ligue para Adam Weinberg também — disse ela para Yalena, entregando a coleira de Jack Bauer. — Ele é amigo de Jon. Você vai encontrar o número dele no celular do meu irmão. Ele vai pegar Jack. Yalena pareceu estar com medo antes.
Agora, estava apavorada.
— Espere — disse ela. — Jack? Jack Bauer? Você não vai levá-lo? Mas... você o leva para todos os lugares.
— Não para o lugar aonde vou — respondeu Meena. — É perigoso demais para ele.
— Meena. — Yalena esticou a mão e segurou o pulso de Meena quando ela estava se levantando. — Aonde você vai?
Meena olhou em direção à janela pela qual Brianna tinha desaparecido.
— Fazer meu trabalho — disse ela.

30
Uma vez quando Meena estava pesquisando um enredo que queria propor para os produtores de Insaciável, a novela para a qual escrevia, ela tinha lido que existia sob Nova York muitas cavernas, túneis e porões subterrâneos, construídos há tanto tempo que ninguém lembrava que estavam lá. Era surpreendente que a cidade inteira não tivesse afundado.
E, levando em consideração que ela ficava acima de uma falha geológica ativa, era bem possível que isso acontecesse algum dia.
Quando entrou pela janela que Brianna usara para escapar minutos antes — os policiais estavam ocupados com os três homens que Jon tinha irritado no café, que haviam saído pela porta dos fundos do brechó para ver o porque da demora e ficaram. enojados ao verem os ferimentos dele e o morto atrás do latão de lixo —, ela se deu conta de que estava em um desses porões subterrâneos. Ele parecia tomar quase o quarteirão inteiro, entrecortado apenas por colunas e grades de metal contendo os pertences de alguns moradores do edifício.
Era o lugar perfeito para um vampiro se abrigar, pois a única luz solar era um ocasional raio que entrava por uma janela quase toda coberta de tábuas, no nível da rua.
Embora estivesse escuro, não foi difícil seguir o rastro que Brianna deixou. A SuperEstaca a tinha chamuscado o suficiente para que ela deixasse para trás um leve odor de queimado.
Mas Meena logo se perdeu enquanto percorria o enorme labirinto escuro de porões. Podia ouvir e até sentir o metrô fazendo barulho ali perto, mas não tinha ideia de que rua havia acima dela e nem de que prédio. Sua pele estava arrepiada, mas não podia fazer nada quanto a isso, porque deixara o casaco
com Jon.
Com o coração disparado, ela pegou a SuperEstaca e começou a questionar a sanidade de sua atitude. O que ia fazer se encontrasse Brianna, interrogá-la? Mesmo se ela tivesse as respostas às perguntas de Meena sobre quem a havia transformado e a David e por que, Mcc- na provavelmente ia ter que torturá-la para obtê-las. E, no final, ainda teria que matá-la.
E Meena não sabia se teria estômago para torturar e depois matar outro Delmonico este fim de semana, mesmo um tão feroz quanto Brianna.
Não era assim que tinha imaginado que as coisas aconteceriam quando aceitou trabalhar para a Palatina. Achou que salvaria vidas e tornaria o mundo um lugar melhor. Em vez disso, as pessoas que havia julgado como amigas estavam revelando serem o inimigo, e as pessoas que amava estavam se ferindo ou desaparecendo.
E nada que fizesse ou dissesse parecia fazer diferença. Era quase o oposto do que a mulher do sonho tentara dizer para o garotinho. Todas as criaturas de Deus podem sim ter a capacidade de escolher entre o bem e o mal, mas até agora Meena havia encontrado muito poucas que escolhiam ser boas...
Às vezes, ela queria poder ter a vida normal e chata que os pais sempre desejaram para ela, como as das pessoas que podia ouvir andando lá em cima, sobre sua cabeça, se divertindo no festival de rua.
Elas não tinham sonhos proféticos (que acabavam não sendo tão proféticos, ao que parecia).
Elas não adotavam cachorros que na verdade eram capazes de farejar vampiros.
Elas não eram demitidas (duas vezes) porque o cara que começaram a namorar acabou sendo o príncipe das trevas.
Elas não tiveram seus apartamentos depredados, os amigos e familiares aterrorizados e as vidas destruídas e depois precisaram se esconder por causa de escolhas românticas ruins.
Mas, por outro lado, elas não tinham a capacidade de prever como todo mundo que encontravam ia morrer... o que, na verdade, podia ser uma capacidade mais útil se valesse para ela mesma.
Pois, ao dobrar uma esquina particularmente escura, ela de repente teve
certeza de que estava entrando em algum tipo de armadilha. Podia quase sentir o olhar de alguém... e com uma intensidade que era bastante familiar.
O que só podia significar uma coisa.
Quando sentiu uma lufada de ar contra sua lateral direita, mais fria do que qualquer vento, nem precisou virar a cabeça para olhar. Sabia quem era.
— Lucien — começou a dizer. — Nem...
Devia ter olhado.
A última coisa que viu antes de alguma coisa a atingir com força, primeiro no peito e depois na cabeça, quando tudo ficou preto, foi o rosto coberto de sangue de Brianna Delmonico, correndo para ela, com os dentes à mostra

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