4
Meena olhou para o espaço onde David estava um segundo antes. Depois olhou para a estaca de madeira que segurava em uma das mãos e para o celular na outra. Não tinha apertado o botão LIGAR.
Olhou para Lucien. Ele estava de pé a alguns metros de distância, com uma expressão no rosto que ela não reconheceu... ou pelo menos que não se lembrava de ter visto nele, O que era? Alarme, com certeza. Preocupação com ela, também.
Mas havia outra coisa. O que era? Seria.., dor?
Não podia ser. Porque ele era o príncipe das trevas. Não era capaz de sentir dor.
Pelo menos era isso que todo mundo da Palatina, principalmente Alaric Wulf, vivia dizendo a ela.
— Você está bem? — perguntou ele. — Me desculpe, ele me pegou de surpresa. Não sou... Eu não devia ter permitido que isso acontecesse.
Ela abriu a boca para responder...
Mas antes de ter chance de falar, ouviu sons, passos se aproximando rapidamente, vindos detrás deles.
Pessoas estavam vindo. Mas quem? Ela não tinha telefonado.
E David não fez som algum ao explodir.
Ela apertou os olhos na escuridão, tentando ver. Mas algumas das lâmpadas nos postes acima estavam queimadas, deixando grande parte do quarteirão na total escuridão, Ela não sabia disso quando escolheu o endereço para o encontro, nem percebeu quando chegou.
Agora ela se perguntou se alguém ou alguma coisa tinha quebrado as lâmpadas de propósito, por saber que ela estava indo para lá.
— Meena — disse Lucien, em um tom ansioso. Ele também ouvira os
passos.
Ela não costumava precisar tomar decisões rápidas em seu novo emprego na Palatina. Era sua primeira vez em campo, pois era considerada valiosa demais para chegar perto de qualquer atividade demoníaca de verdade. Sempre ficava confinada ao quartel-general durante o horário de trabalho, onde se dedicava a determinar quem entre seus colegas tinha maior chance de encontrar um perigo fatal durante sua missão.
E quando a atividade demoníaca estava em baixa nos Estados Unidos, Meena passava os dias no Skype com as unidades de outros países... ou pesquisando as seções on-line da incrivelmente grande Biblioteca Apostólica Vaticana, à qual tinha acesso ilimitado como funcionária da Palatina, o ramo militar do Vaticano. Isso significava que também tinha permissão para entrar nos arquivos secretos da Biblioteca do Vaticano, que eram restritos ao público. Ela devia procurar qualquer coisa que pudesse ajudar na batalha da Palatina contra seres paranormais.
Mas é claro que estava procurando uma coisa muito mais pessoal. Recentemente, ela pensou ter encontrado.
Agora, como coração disparado no peito, ela percebeu que tinha que agir rápido, ou tudo pelo qual vinha trabalhando tanto nos últimos seis meses (e principalmente nos últimos dois) seria arruinado.
Assim, colocou o celular de volta no bolso do cardigã, onde antes havia enfiado as chaves de David. Depois, instintivamente, soltou a estaca...
Mas antes que caísse na calçada, Lucien a pegou no ar e enfiou no bolso do paletó.
— Vamos — disse ele, colocando um braço ao redor dos ombros dela e puxando-a em direção à rua movimentada mais próxima.
— Por que...? — De repente, ela entendeu. — Ah, é claro — disse ela. Já tinha matado vampiros antes, mas não assim. — Evidência. Minhas digitais estão nela toda. — Mas não havia corpo. Jamais se acostumaria a nada disso.
Ela continuou andando, com o pânico aumentando conforme os passos atrás deles pareciam ficar mais rápidos. Quem poderia ser? Certamente não a Palatina, pois não havia ligado... embora o celular tivesse = GPS embutido. Mas quem poderia tê-los alertado? Não podia ser a policia, senão haveria
sirenes...
— Está tudo bem — dizia Lucien. Ele também parecia preocupado m os passos. Ela o viu olhar para trás várias vezes.
Ele tinha força e poderes considerados pela Palatina como sendo superiores aos de qualquer outra entidade paranormal. Ela mesma testemunhara Lucien fazendo coisas que nenhum ser vivo conseguiria fazer, inclusive se transformar em uma criatura 12 vezes maior do que um homem normal. Que cuspia fogo. Apenas 15 minutos atrás, ele arrancara uma porta trancada de uma perua Volvo e lançara um homem ao ar, que demorou vários segundos para cair no chão.
Mas talvez essas coisas, junto com o golpe inesperado de David, o tivessem esgotado mais do que ele mesmo percebia, porque, por algum motivo, Lucien não a agarrou e saiu voando, nem sumiu no ar, coisas que ela sabia que ele era perfeitamente capaz de fazer. Ele nem apertou o passo, embora desse pra ver que ele estava tão ansioso quanto ela para sair dali.
O que havia de errado com ele? Lucien quase parecia...
— Você está bem? — perguntou ela, passando um braço ao redor dele. — Aqui, apoie-se em mim.
— Meena — murmurou ele. — Estou ótimo.
— É claro que está — disse ela. — Nós dois estamos.
Ela não soou convincente nem para si mesma.
Eles viraram em uma rua mais iluminada e com muito mais tráfego. Havia casais passeando com cachorros e famílias paradas em todas as esquinas, esperando o sinal fechar para poderem atravessar, para chegar à festa de San Gennaro, que tinha começado recentemente em Little Italy, a alguns quarteirões de distância. Todo mundo estava rindo e aproveitando a atmosfera de fim de verão.
Ninguém prestou a mínima atenção ao homem com o braço ao redor dos ombros da garota com um lenço branco no pescoço. Ninguém pareceu reparar que o braço dela estava ao redor da cintura dele por dentro do paletó e nem que talvez estivessem sendo seguidos.
— Ainda estão atrás de nós? — perguntou ele.
Ela olhou por cima do ombro.
— Não dá pra dizer. Não vi direito
Ele balançou a cabeça.
— Devia ser quem transformou seu amigo e depois o mandou atrás de você.
— Então... — disse ela, olhando ao redor para todas as pessoas sorridentes, curtindo a primeira noite do fim de semana. — Vampiros.
Pareceu difícil de acreditar que, em uma noite tão quente e bonita, algo tão cruel pudesse existir.
Mas ela havia acabado de matar um vampiro. E estava com o braço ao redor da cintura de outro.
— Não é ninguém do meu clã, disso eu tenho certeza. Seus amigos no seu novo emprego fizeram um excelente trabalho aniquilando quase todos.
— Você falou para David que lidera todas as formas demoníacas de vida deste lado do inferno — disse Meena, ignorando o sarcasmo dele
Os olhos escuros de Lucien brilharam de forma ameaçadora.
— Eu não tenho estado muito... disponível ultimamente — respondeu
Ela não tinha certeza se essa resposta concisa havia sido por ela ter tocado em um assunto delicado ou por terem chegado a um cruzamento onde o sinal os mandava esperar. Um ônibus passou roncando, seguido por uma dúzia de táxis, impossibilitando que atravessassem.
Meena podia sentir a tensão no corpo de Lucien e viu o modo como ele estava examinando a multidão ao redor, entusiasmada pelo fim de semana.
Também reparou, pela primeira vez, nas suaves sombras roxas debaixo dos olhos escuros dele, agora facilmente detectáveis com a iluminação bem mais intensa da rua onde estavam.
Meena não sabia ao certo o que significava um vampiro com marcas sob os olhos. Esse assunto não tinha sido mencionado em nenhum momento durante o treinamento da Palatina.
Mas estava começando a suspeitar que, apesar do terno impecável e do cabelo brilhoso, Lucien não tinha passado os meses desde a última vez em que se viram em algum tipo de resort vampiresco, relaxando em uma espreguiçadeira à sombra. Obviamente ele estava sofrendo de alguma maneira.
— Lucien, você está bem? Quero dizer... você está doente, ou algo do
tipo?
Ele olhou para baixo, para ela, claramente ofendido com a pergunta.
— Eu falei que estou bem.
— Bem, é só que você não parece o Lucien que conheci... mas não de uma forma negativa — acrescentou ela, rapidamente.
— Que pena. Eu me esforço tanto para ser mau.
Ele sorriu para ela nesse momento. E Meena instantaneamente desejou que ele não tivesse feito isso.
Pois o sorriso de Lucien Antonesco provocava coisas nela, coisas que
o sorriso de um vampiro não devia fazer com uma garota que tinha se juntado a uma organização dedicada a erradicar a sua espécie.
Mas ainda havia uma parte dele que era humana. Ou talvez, ela recentemente começava a tentar provar, até melhor do que humana.
— Você não devia brincar com isso — censurou ela, tirando, nervosa, uma mecha de cabelo de cima dos olhos. — Eu estava falando sério quando disse antes que acho...
Foi nessa hora que alguém, um jovem andando ao lado de um grupo de amigos da faculdade, se chocou diretamente contra Meena, como se não a tivesse visto.
— Ai — disse ela, enquanto Lucien a puxava protetoramente contra si.
O garoto girou e depois caiu na calçada.
— Que merda! — reclamou ele com bom humor enquanto os amigos riam. Ficou claro que ele não tinha se machucado, só estava um pouco bêbado e confuso.
— Me desculpe — disse Meena, embora tecnicamente fosse ele que tivesse esbarrado nela.
O jovem não falou nada, só continuou rindo enquanto os amigos o ajudavam a ficar de pé, chamando-o de nomes grosseiros. Enquanto isso, Lucien já tinha afastado Meena do grupo, guiando-a rapidamente pela calçada cheia de gente.
—Isso foi estranho ——disse Meena. — Foi como se ele não conseguisse me ver.
— Ele não conseguiu.
— Não conseguiu me ver? —— Meena olhou para ele, chocada. — O que você quer dizer? Como ele podia não conseguir me ver?
— Ninguém consegue nos ver agora — respondeu Lucien, com o rosto sem expressão alguma. — Chama-se glamour. Infelizmente, não posso sustentar por muito tempo. Mas deve durar até eu conseguir levar você de volta ao seu apartamento. Vai estar em segurança lá, desde que tenha tomado as precauções habituais contra invasões demoníacas indesejadas.
Ela ficou olhando para ele, sentindo uma repentina profusão de emoções. Principalmente quando se deu conta deque estavam entrando na rua em que morava.
— Lucien — disse ela, parando de repente. — Como você sabe onde eu moro?
Ela tomara muito cuidado quando saiu da paróquia de St. Clare, onde ela morava depois de os súditos dele terem destruído seu apartamento, assim que descobriu que Lucien sabia que ela estava lá. Havia mandado a correspondência ser entregue em uma caixa postal, cancelara o antigo celular, a matrícula na academia, até o cartão da biblioteca. Vendeu seu apartamento e agora morava com o irmão em um apartamento sublocado, no qual até a conta da TV a cabo vinha no nome do proprietário.
Como ele podia saber?
Por outro lado... como podia não saber?
Ela não estava necessariamente com medo. Não com o medo que ira minutos antes. E certamente não temia pela própria vida. Só precisava apertar um botão no celular e toda a unidade da Palatina em Manhattan chegaria em poucos minutos.
É verdade que, até chegarem, ela podia facilmente estar morta. Mas morrer não era o que ela mais temia. Não mais.
— Meena — disse ele. O sorriso já tinha desaparecido. — O que você estava dizendo sobre eu não parecer mais o antigo Lucien...
O esforço que ele tinha que fazer para juntar as palavras ficou óbvio. E agora ela reconheceu o que não tinha conseguido identificar antes no rosto dele. Era dor. Estava profundamente entalhada nas marcas debaixo dos olhos dele.
— Acho que isso é parte do meu problema — disse ele.
Ela inclinou a cabeça, confusa.
— O quê? — perguntou ela.
Ele deu outro passo, mas desta vez foi mais um tropeço do que um passo. Só que não um tropeço embriagado, como o jovem que encontra-a antes. Ela começou a sentir o peso do corpo dele caindo sobre o seu.
— Que, apesar da sua escolha na primavera passada — disse ele, com a voz como um sussurro rouco —, meus sentimentos por você não mudaram. Continuo apaixonado por você como sempre.
5
Tudo estava um desastre.
Agora, em uma noite, Meena não só tinha matado um ex-namorado que na verdade era vampiro como estava com outro em sua cama.
Não conseguia imaginar como as coisas poderiam piorar, a não ser que seu irmão entrasse no apartamento, encontrasse Lucien Antonesco lá e ligasse para Alaric Wulf, que sem dúvida deflagraria um ataque militar completo, com direito a granadas de fumaça e possivelmente gás lacrimogêneo.
Mas já havia ligado para Jon e sabia que ele cumpriria o turno da noite de sexta-feira no Beanery, onde tinha conseguido emprego como barista. Ele não planejava chegar em casa antes das 23 horas.
Isso dava a Meena exatamente uma hora para tirar Lucien do apartamento.
A pergunta era, como faria isso?
Não tinha ideia do que havia de errado com Lucien. Mas a confissão de que ainda estava apaixonado por ela não melhorou a situação. Na verdade, pareceu só deixá-lo mais fraco. Ela teve que apoiá-lo enquanto ele cambaleava o resto do caminho até o prédio.
Não queria levá-lo para dentro de casa, Mas ele pareceu tão doente que ela não soube o que fazer. Não podia deixá-lo do lado de fora, apesar de ter sido isso o que ele pediu.
Mas era absurdo. Ele já tinha admitido que estava tão fraco que não conseguia sustentar o glamour, ou fosse lá o que fosse, por muito mais tempo. Ela não ia abandoná-lo nessa condição, indefeso. Não estava apenas preocupada com quem (ou o quê) os seguia, mas com qualquer que pudesse dar de cara com ele. Alaric Wulf, por exemplo. Era verdade que Alaric morava em Outro bairro, mas Meena não ia arriscar.
Felizmente, seu prédio tinha elevador, embora fosse antigo, mal tivesse espaço para duas pessoas com uma cesta de roupas e fosse tão lento que normalmente era mais fácil subir de escada. Mas conseguiu empurrar Lucien para dentro e levá-lo até seu andar em segurança.
A partir daí, as coisas ficaram mais complicadas. Tinha se acostumado tanto a elas que se esquecera das medidas radicais que ela e a Palatina E tomado para tornar o apartamento à prova de vampiros. Havia um crucifixo pendurado em cima de todas as portas e janelas. Tranças de alho estavam penduradas acima da cama. O padre Bernard, que cuia paróquia da Capela de St. Clare, tinha benzido o apartamento qu ela se mudou, molhando todos os cantos com água benta. A irmã Gertrude recentemente adquirira o hábito de passar lá com velas votivas de santos.
Lucien gemeu quando entrou.
— Não é tão ruim — disse Meena na defensiva.
— É o que você acha — respondeu ele.
E havia também seu cachorro. Mesmo antes de saber que existiam, Meena tinha uma arma secreta na luta contra vampiros. Já que, sabe-se lá por que, ela conseguira escolher o único mestiço de lulu-da-pomerânia em todos os abrigos de animais de Manhattan que era particularmente sensível e ficava enfurecido pelo cheiro dos mortos-vivos. Ou talvez tenha sido o cachorro que a escolheu. Um deles tinha escolhido o Outro, talvez om alguma ideia do que o futuro guardava para eles.
Jack Bauer (batizado com esse nome por causa do seu nível de ansiedade que só era superado por sua determinação de salvar o mundo de todo mal) pulou da cesta no minuto em que Lucien entrou no apartamento, mostrou os dentes e começou a rosnar como se o apocalipse estivesse se desenrolando na sala de estar, bem na frente dele.
E foi por isso que Meena teve que pegá-lo no colo e trancá-lo no banheiro, com uma tigela de água e seu brinquedo favorito. Ele imediatamente começou a chorar, triste por estar perdendo toda a diversão.
Quando voltou ao quarto, para onde Lucien fora para fugir do cruel miniataque, ela viu que ele tinha caído em cima do edredom azul-claro. Estava com um braço cobrindo os olhos para protegê-los do alho pendurado acima
da cama. O resto das paredes, também azuis, estava vazio, porque Meena andava ocupada demais. Ainda não conseguira decorar, havendo apenas o que a irmã Gertrude deixara por lá e o que o dono do apartamento tinha escolhido, que era um mínimo de mobília.
Ela respirou fundo e afundou na cama ao lado dele. A saia vermelha rodada do vestido, agora um pouco mais desgastada depois da luta com David, rodopiou e se espalhou sobre os dois.
— Lucien, você tem que me contar. O que há de errado? Está ferido? Tem alguma coisa que eu possa trazer pra você?
Era uma pergunta idiota. Não tinha sangue no apartamento e ela não ia oferecer o próprio pescoço.
Mas não fazia a menor ideia do que mais poderia dizer.
— Acho que não — disse ele, e depois baixou o braço. O olhar escuro se prendeu ao dela e ele conseguiu dar outro daqueles sorrisos que derretem o coração. — Ficar assim, perto de você de novo, é o bastante. Por enquanto. Embora eu admita que, nos meus momentos de fraqueza, eu questione o fato de estar apaixonado por uma mulher que escolheu trabalhar para uma organização dedicada a exterminar o meu povo. Acredite, se eu pudesse, preferia não estar.
Ela sentiu como se não pudesse respirar. Tinha esquecido como era ouvir um homem dizer que a amava.
Ah, claro, havia caras que de vez em quando davam a entender que queriam dormir com ela. E, às vezes, como tinha sido com David, até parecia que o relacionamento pudesse dar em alguma coisa.
Só que nunca dava. Veja o relacionamento com Alaric Wulf. Ele tinha beijado, com bastante paixão, uma vez.
Mas estava semiconsciente, devido à perda de sangue naquele episódio. Desde então, não tentara beijá-la de novo. Tinha na verdade mantido bem afastado, exceto pelo convite para jantar uma vez, apartamento dele.
Isso obviamente, tinha sido um convite para um sexo casual. Meena ficara insultada. Achava que significava um pouco mais do que isso para Alaric. Ele podia ter isso com qualquer garota idiota que conhecesse em uma boate de Manhattan. Se ele não ia dar nenhum sinal que indicasse que significava mais
do que isso, então Meena não se incomodaria com ele.
Por outro lado, Alaric Wulf havia crescido praticamente sozinho. Então era possível que não soubesse agir. Em vez de mandá-lo para o inferno, ela educadamente recusou o convite.
Mas com Lucien, tudo era diferente. Porque Lucien sempre lidara o amor de forma perfeita.
Era verdade que ele não tinha alma. Era verdade que tratava-se do filho de 500 anos de um dos mais prolíficos serial killers da história, que tinha feito um pacto profano com Satanás para obter a imortalidade, precisando então consumir sangue humano para sobreviver.
E era verdade que o relacionamento deles tinha ido de incrível a desastre absoluto em tempo recorde, porque ele continuou a mordê-la. E então os familiares dele tentaram fazer o mesmo. E agora, os vampiros do mundo todo pareciam achar que o sangue de Meena era um tremendo revigorante, como o refrigerante Dr. Pepper.
Mesmo assim, ele nunca deixou de amá-la.
— Eu realmente acho — disse Meena, ciente de que a luz no quarto estava fraca demais, quase romântica, porque não tinha luz no teto, só um abajur na mesa de cabeceira — que agora não é a hora nem o local rara falarmos disso. — Embora, na verdade, jamais quisesse parar de falar disso. — Está claro que há alguma coisa muito errada com você. Acho que deveria me contar o que é para que eu possa tentar ajudar.
Mas Lucien só balançou a cabeça.
— Eu falei que amaria você até o fim dos tempos — disse ele, com os cantos daquela boca irresistível levantados. Mas não como se ele achasse que a situação fosse engraçada. Parecia que estava triste... mas de uma forma um tanto divertida. — Vindo de alguém que muito provavelmente vai viver até lá então, essas não são palavras levianas. Estou apaixonado por você desde aquele jantar horrível no apartamento do meu primo, quando fomos para o Metropolitan depois e você me mostrou a pintura que ama, a de Joana D’Arc. Você se parece ainda mais com ela agora, com o cabelo assim. Embora eu não tenha certeza de que cor é essa...
Ela esticou a mão instintivamente para prender uma mecha de cabelo
atrás da orelha. Sua melhor amiga, Leisha, a cabeleireira mais cara do salão BAO (By Appointment Only), tinha lhe dado permissão para deixar o cabelo crescer, com a condição de que pudesse fazer experimentos com a cor. Meena agora usava uma cor diferente de cabelo a cada mês.
Mas, por debaixo daquilo, ainda era exatamente a mesma pessoa do dia em que conheceu Lucien.
Sabia que mais ninguém acreditava que ele pudesse mudar tão facilmente quanto ela tinha mudado a cor do cabelo.
Ninguém além dela. Porque Meena sempre conseguira ver como ele era de verdade.
— Você é diferente de todas as mulheres que conheci — disse ele, com o olhar preso ao dela. — Eu não achava que você estava falando sério, mas você realmente pareceu falar o que pensava quando disse que ia salvar a humanidade de criaturas como eu. Nada ia obstruir seu caminho. E nada tem obstruído mesmo. Você é incrível. Sabe disso, não sabe? Incrível? Ela era incrível? Ninguém jamais a tinha chamado de incrível. De estranha, sim. De bizarra, muitas vezes. De louca, inúmeras vezes.
Mas nunca de incrível. Não conseguia acreditar que Lucien se lembrava da conversa no museu, em frente ao quadro de Joana D’Arc... seu quadro favorito, porque Joana D’Arc, como ela, fazia previsões nas quais ninguém acreditava a princípio. Mas ela logo convenceu pessoas suficientes de que estava falando a verdade e obteve uma audiência com o rei e, mais tarde, seu próprio exército.
Ainda assim, não era o tipo de conversa que se esperaria que uma pessoa que está viva há meio milênio lembrasse.
Mas ele se lembrava.
Lucien pareceu perceber que Meena tinha ficado sem palavras pela revelação e colocou uma das mãos sobre a dela.
— Você tem todos os motivos para me desprezar — disse ele. Ainda sorrindo com melancolia. — Como salientou, eu não só coloquei sua vida em perigo, assim como a vida de todas as pessoas que você ama quando entrei nela. Eu a arruinei. Não há um momento da minha vida que eu não esteja plenamente ciente disso. Mais do que qualquer coisa no mundo, eu queria
poder voltar atrás, mais até do que desejaria devolver as vidas que meu pai e meu meio-irmão destruíram antes de serem detidos. Mas não posso. E a última coisa que quero fazer agora é trazer algum risco para você. Mas sinto que já fiz isso. Então a única coisa que posso fazer é aproveitar a oportunidade para ter certeza de que saiba o que sinto... — A mão forte apertou a dela. — O que sempre sentirei. Não que eu espere que você sinta o mesmo ou que eu tenha qualquer esperança de que vá fazer diferença.
— Lucien...
Se pudesse se jogar nos braços dele e começar a beijá-lo loucamente naquele exato momento, teria feito isso.
Se pudesse dizer “eu amo você também”, esquecer tudo sobre a questão dos vampiros (o fato de que ele estava morto e ela viva, que a família e amigos e, claro, que uma espécie inteira dependia dela), teria feito isso.
Mas não podia.
Porque, considerando a fraqueza dele e os sonhos que ela vinha tendo, parecia mais crucial do que nunca que um deles, pelo menos, mantivesse a cabeça no lugar.
— Lucien —— disse ela de novo. — Lembra-se da noite em que estávamos no museu e você me mostrou a imagem do castelo onde cresceu e me contou sobre sua mãe
O aperto da mão dele sobre a dela afrouxou levemente.
— Lembro — respondeu ele, se encolhendo um pouco. — Mas não é uma boa ideia falar sobre a mãe de um homem em um momento como este. Meena...
— Me desculpe. Mas não posso evitar. Você me contou que ela foi primeira mulher do seu pai, que era muito bonita e inocente e que ele a amava muito. Você disse que, depois da morte dela, as pessoas costumavam falar que ela talvez fosse um anjo...
Nessa hora, ele retirou completamente a mão de cima da dela.
— E agora, definitivamente — disse ele, se sentando — não é a hora para falar de anjos. — Ele lançou um olhar especulativo para a janela, que estava fechada e trancada e tinha o maior crucifixo de todos em cima. — Embora eu consiga entender como pode ser difícil para você não fazer isso aqui.
— Lucien, você precisa ouvir isso — insistiu Meena. — Tenho repetidamente o mesmo sonho. É o mesmo todas as noites. E acho que é com você e sua mãe. Não sei com quem mais poderia ser. Acontece no castelo da imagem do museu. Entrei na internet e pesquisei o local onde você cresceu, o castelo Poenari, e parece com esse lugar. No sonho, há uma mulher sentada em um banco ao lado de uma janela, lendo um livro com um garotinho. Ele se parece muito com você, a mulher com a sua mãe. Ela tem cabelo preto longo e grandes olhos escuros e está usando um vestido azul...
— Não entendo por que está me contando isso. — A voz de Lucien
— Você tem sempre o mesmo sonho. E daí? Achei que seu dom de ver o futuro, não o passado.
— E é — disse Meena, um tanto magoada pelo tom rude. — Quero dizer, era. Sempre foi. Mas ultimamente, não sei. Acho que está mudando. Ficando mais forte, sei lá. Porque, Lucien, nesse sonho, a parte do livro que a mulher está lendo para o garotinho, que acho que é você, é sobre o bem e o mal. Não sei como consigo entender o que ela está dizendo, porque ela fala em uma língua que nunca ouvi antes. Mas, de alguma forma, consigo. Ela está explicando que nenhum de nós é completamente bom ou completamente mau e que todas as criaturas de Deus, e ela enfatiza esta parte, todas, têm a capacidade de escolher. Que o mal não pode existir sem o bem e que mesmo alguns dos anjos de Deus...
Lucien começou a se levantar da cama, claramente ansioso para se afastar dela.
Mas não podia, porque fosse lá o que estivesse errado com ele, pareceu derrubá-lo sobre a cama. Ele afundou no colchão de novo, franzindo a testa e murmurando um xingamento.
— Lucien. — Meena foi até ele e colocou as mãos em seus ombros. Qual? Qual é? Qual é o seu problema?
— Nenhum. — Ele falou a palavra com uma selvageria tão surpreendente que ela baixou as mãos.
Agora, finalmente, ela sentia medo.
Dele.
O que tinha feito? O que tinha dito? Achou que ele ficaria feliz em ouvir
sobre o sonho. Não era um sonho triste. Para ela, a um sonho esperançoso... mesmo sem ninguém na Palatina concordar que independentemente significasse que os demônios tinham dentro de si a capacidade de serem bons.
Ela discutira, particularmente com Alaric Wulf— que detestava tanto que ela mencionasse isso que quase sempre saía do cômodo quando Meena tocava no assunto —, que no mínimo o sonho significava que, dependentemente do que o pai pudesse ter feito, Lucien Antonesco tinha uma mãe que o amara e o ensinara o certo e o errado... pelo menos até se matar, se jogando no rio que passava debaixo do castelo Poenari... O rio que depois veio a ser conhecido como rio da Princesa.
Talvez tenha sido a dolorosa lembrança da mãe que fez Lucien se lançar repentinamente em sua direção, segurá-la pelos dois ombros e puxá-la com firmeza em sua direção.
Não havia sinal de fraqueza nele agora. Seja lá o que Meena tivesse dito que o aborreceu, pareceu ter tirado isso dele, pelo menos.
— O quê? — gritou ela, com o coração disparado. — O que foi?
Ele não falou palavra alguma. Apenas olhou para ela, com o olhar escuro parecendo revirá-la com uma necessidade que ela não conseguia entender. Por um momento, a luz do abajur permitiu que ela visse um músculo ou nervo latejando no rosto dele, logo acima do maxilar. Era quase como se ele estivesse tentando manter alguma coisa sob controle, sem muito sucesso. Ela olhou temerosa para o tal músculo, observou-o tremer e se perguntou o que seria que ele tanto desejava fazer ou dizer. Ou se precisaria correr atrás do celular, que havia deixado na sala.
Mas antes que tivesse oportunidade, ele levou a boca até a dela.
E então, nada mais era relevante. Tudo que importava era a aspereza da leve barba por fazer e o modo como os braços dele a envolveram, aninhando-a com delicadeza, como se tivesse medo de que ela quebrasse se a abraçasse com a intensidade que gostaria... e depois, o desespero crescente com o qual aprofundou o beijo, a ferocidade com que a apertou contra seu coração há muito tempo morto quando percebeu que ela não se quebraria sob seu toque.
Ela ergueu os braços para passá-los ao redor do pescoço dele, ao mesmo tempo em que ele a puxava contra si, fazendo-a sentir coisas apenas com o
toque dos lábios e da língua que ela não sentia desde... bem, desde a última vez em que ele a tivera nos braços daquela forma.
Não podia durar, é claro.
Pois um segundo depois ele interrompeu o beijo (tirou o rosto de perto do dela na mesma hora em que certas partes do corpo dela pareciam amolecer) e a soltou, tão repentinamente que as pálpebras dela se abriram e ela precisou esticar a mão para se equilibrar e não cair sobre o colchão. Porque, de repente, ele desapareceu.
Ela ficou tão perplexa pelo término abrupto do beijo que queria perguntar o que ele achava que estava fazendo e depois puxar os lábios dele para junto dos dela de novo.
Mas então viu que ele se lançou a metros de distância e estava em um canto escuro do quarto, olhando para ela das sombras, e seus olhos já não eram mais profundas piscinas de ébano, mas pontos vermelhos idênticos...
O mesmo tom de vermelho que adquiriam quando ele estava em seu momento mais zangado.
Ou com mais fome.
Ai, Deus.
Meena ficou olhando para ele. Não tinha pensado em momento algum em perguntar de que ele alimentava ultimamente.
Agora, ao observar os olhos vermelho-sangue, era só o que conseguia pensar.
— A Palatina congelou suas movimentações financeiras — disse ela baixinho.
— As que conseguiram ligar ao nome que eu usava — respondeu ele, a voz fraca, vinda das sombras e se enrolando nela como braços em chamas.
—Mesmo assim — disse Meena, tremendo. Ela se sentia como se estivesse em meio a uma neblina fria e densa. — Deve ser difícil encontrar sangue humano para comprar com recursos tão limitados. — Ela segurou o edredom com força e esperou pela resposta.
— Tem medo de eu não estar me alimentando bem o bastante, Meena ?— Ela ouviu uma pontada de deboche no tom dele. — Ou com medo de eu estar recorrendo a assassinatos para conseguir fazer minhas refeições? Deixe-
me tranquilizar você em ambos os sentidos. — Ela ouviu um movimento de tecido. Ele estava enfiando a mão no bolso do paletó.
— Aqui. — Ele jogou uma coisa em cima da cama. Ela instintivamente esticou a mão para pegar.
Era a estaca improvisada que ele tinha lhe dado e que ela usara para matar David.
— Tem a minha permissão para me matar se eu tentar te morder de novo. Ao menos se for contra a sua vontade. Mas espero que ainda haja homem o bastante em mim para me impedir de machucar você. No entanto, se houver uma situação que prove o contrário... bem, mais do que provou esta noite que sabe o que fazer com isso.
Meena olhou para a perna da cadeira. Teve que engolir em seco antes de conseguir falar.
— Lucien. Eu falei seis meses atrás. Não quero nunca te machucar. Sempre farei tudo ao meu alcance para tentar ajudá-lo... mesmo que você não queira. Foi por isso que contei sobre o sonho. Acho que posso provar...
Ele saiu das sombras naquela hora. Os olhos tinham voltado para a cor normal, mas um milhão de emoções diferentes surgiam em seu rosto.
— Sabe o que quero de você, Meena — disse ele com voz rouca.
— Assim que estiver pronta para me dar e admitir que é isso que quer também, me procura. Você não vai precisar procurar muito. Estarei por perto. Sempre estou.
Em seguida, ele abriu a porta do quarto e saiu. Um segundo depois, ela ouviu a porta do apartamento bater.
6
Alaric Wulf não estava tendo um bom dia. Pra ser exato, não estava tendo uma boa semana.
A onda de azar havia começado quando seu supervisor, Abraham Holtzman, o chamou até sua sala, dizendo que queria discutir uma coisa em particular
— Já sei — anunciou Alaric assim que entrou.
— Sabe? — Holtzman tirou os olhos da tela do computador, surpreso. — Como?
Alaric deu de ombros.
— Está brincando, né? Ela me contou. Conta pra quem quiser escutar. Você deveria ouvi-la no restaurante durante o almoço. “E se houver o bem em Lucien Antonesco e em todos os demônios? E nosso trabalho não seja destruí-los, mas restaurar o bem que há neles?”
Ele achava sua imitação de Meena Harper perfeita. Às vezes se via imitando-a quando estava sozinho. Não de propósito, o que era um tanto desanimador. Parecia não conseguir tirar a voz dela da cabeça.
— Ah. — Holtzman baixou as sobrancelhas irregulares. — Isso.
— É, isso — disse Alaric, irritado. — O que mais? Eu realmente espero que você tenha anulado aquele pedido que ela fez aos Arquivos Secretos.
Agora as sobrancelhas de Holtzman se ergueram.
— Não fiz nada disso—-falou, parecendo ofendido. — Se qualquer um dos meus funcionários quer pedir material que a Biblioteca do Vaticano pode ter arquivado, até mesmo material dos Arquivos Secretos, que pode ajudar em nossos esforços para entender melhor nossos inimigos, por que eu atrapalharia?
— Você só pode estar brincando. — Alaric mal podia acreditar no que
estava ouvindo. — Você não acredita que esse sonho que ela vem tendo merece algum crédito, acredita?
— Não vejo por que não. E não vejo por que você acha que não tem. De qualquer modo, Meena Harper não foi o motivo de eu ter te chamado aqui hoje.
Alaric franziu ainda mais a testa.
— Está dizendo que acredita que haja uma chance de que Lucien Antonesco, o herdeiro, listado no Guia Falatino de Criaturas do Outro Mundo como o ser que executa o serviço do diabo na Terra, possa escolher se faz o bem ou o mal?
— Estou dizendo — disse Holtzman — que eu gostaria de me manter aberto a todas as possibilidades. — Quando Alaric hesitou, Holtzman ergueu uma das mãos e disse: — Entendo que existem certos preconceitos contra Antonesco e que eles procedem. Às vezes as lembranças antigas são difíceis de esquecer, e o fato de que muitos de nós, inclusive você mesmo, ainda estão se recuperando dos ferimentos sofridos na luta contra ele e os Dracul na primavera passada certamente não ajuda a alimentar um espírito de boa vontade quanto à teoria de Meena. Mas estou disposto a dar uma chance... se ela puder provar, o que é um grande talvez. Agora, se posso chegar ao motivo do meu pedido para você vir aqui hoje que, como eu disse, não tem nada a ver com Meena Harper... Sei que você não vai gostar disso, mas não há como escapar. Tenho certeza de que está ciente dos esforços da Igreja para...
Alaric imediatamente desviou a atenção e se virou para olhar por uma das janelas do escritório de Holtzman, que antes era uma sala d diretoria e dava para a Mulberry Street. Assim que ouviu as palavra Igreja e esforços, soube que o assunto, fosse qual fosse, era chato. Pode ter a ver com a confusão em que ele se meteu por matar alguma coisa de uma forma muito violenta ou em público.
Mas isso também era chato.
Em vez disso, pensou em Meena Harper e na teoria dela.
— São Tomás dizia isso — insistia ela quase diariamente no restaurante Não eu. Ele acreditava que não há fonte de maldade, nem mesmo seres malignos, mas sim a ausência do bem em alguns seres.
— E é por isso que temos nossos empregos e vamos continuar a ter por muitos anos — respondeu Alaric.
Isso sempre gerava muitos risos em seus colegas da Guarda Palatina.
Mas então Meena faria alguma citação de São Tomás, como:
— “O fogo não poderia existir sem a corrupção do que ele consome; o leão deve matar o jumento para viver. E, se não houvesse delito, haveria espaço para a paciência e para a justiça.” É verdade que, o mal, nós ficaríamos sem emprego prosseguiria ela. — Mas talvez nosso trabalho seja proporcionar melhor proteção para os jumentos, em vez de matar todos os leões.
Nada disso fazia Alaric se sentir melhor quanto ao livro que Meena tinha requisitado aos Arquivos Secretos do Vaticano, que ela jurava (se é que era mesmo o livro do tal sonho, e qual era a chance disso?) que ia provar sua teoria como correta. As cicatrizes ainda não completamente curadas que ele e muitos dos colegas da Palatina obtiveram na batalha da primavera contra Lucien Antonesco e seu clã eram toda a prova de que Alaric precisava sobre o quanto ela estava errada..
... assim como o sentimento que ele e muitos dos colegas tinham desde o incêndio que consumiu e destruiu a catedral de St. George, o local da batalha.
Era uma crença que todos os palatinos tinham, principalmente um que havia dedicado tantos anos ao trabalho quanto Alaric, ainda mais intensificada pela experiência.
O mal verdadeiro existia, sim, e estava lá fora, esperando.
Como a calmaria antes de uma tempestade, eles podiam senti-lo. Deixava os cabelos da nuca de todos eles em pé. Talvez não pudessem ver as nuvens se aproximando e talvez não pudessem ouvir o trovão...
Mas isso não significava que não tinha alguma coisa a caminho.
Talvez essa coisa não fosse Lucien Antonesco. Meena jurava que não tinha Contato com ele havia meses.
E não havia motivo para não acreditar nela. Embora tenham recebido muitos relatos de outros fenômenos paranormais (súcubos, lobisomens e mais fantasmas do que conseguiam contar), não houve relato algum em Nova York, Nova Jersey e Connecticut de ataques de membros do clã Antonesco, os Dracul. Na verdade, não houve relato algum de ataques que pudessem ser
atribuídos a vampiros.
Isso era frustrante, porque a razão da criação da unidade de Manhattan tinha sido encontrar e destruir o príncipe das trevas. A teoria era que, se o matassem, os seres demoníacos que ele governava ficariam enfraquecidos. Desmoralizados e desorganizados sem seu líder, seriam bem mais fáceis de destruir.
Alaric não sabia o quanto acreditava nessa teoria. Mas sabia que Antonesco tinha que estar por perto. Pois que tipo de homem — mesmo um que era meio homem e meio besta, como aquele filho sugador de sangue de tudo que era maligno, Antonesco — simplesmente desapareceria na escuridão com uma garota como Meena por perto? Toda vez que Alaric olhava para ela, sentia uma força quase magnética puxando-o em sua direção.
E não tinha arriscado meio milênio de anonimato para estar com ela, como Antonesco fizera.
Não fazia sentido acreditar que o vampiro iria desistir agora, mesmo após ter sido rejeitado. Ele só estava dando um tempo, Alaric sabia.
Dando tempo até demais, infelizmente.
Porque tudo entre Alaric e Meena também dera errado. Não tão espetacularmente errado como tinha sido entre ela e o vampiro porque, primeiro, ele não era vampiro. Além disso, ele e Meena nunca chegaram a sair juntos.
Mas ele pelo menos achava que eram amigos. Agora, nem tinha mais certeza de que eram.
Pareceu ter começado pouco depois de ele ter saído do hospital, depois do ferimento que sofreu ao protegê-la do que teria sido morte certa na catedral de St. George, quando perguntou a Meena se queria jantar com ele.
Quando ela o olhou com aqueles olhos enormes e escuros e perguntou Onde você gostaria de ir comer?”, ele respondeu “No meu apartamento é claro.
E por que deveriam ir a um restaurante esnobe de Manhattan, onde algum cliente era capaz de fazer alguma coisa que ia irritá-lo (tal como falar alto demais ao celular, a coisa que mais irritava Alaric), obrigando-o a entrar numa briga, quando podia preparar algo tão bom quanto comida de
restaurante no próprio apartamento, onde ninguém o irritaria?
Ela ficou imediatamente cautelosa. Ele não fazia ideia do motivo.
— Acha mesmo que é uma boa ideia? — perguntou ela.
— Por que seria um problema? — replicou ele, genuinamente confuso.
—Talvez devêssemos manter nossa relação estritamente no plano profissional — disse Meena, dando-lhe um tapinha no ombro, que ele achava que condizia com a opinião dela de “profissional”.
Isso acontecera muitas semanas antes e ela ainda o tratava como se tivesse peste e lepra ao mesmo tempo, Ele não conseguia entender. O que fizera de tão errado? Havia perguntado a Carolina de Silva, uma cara palatina com quem Meena fizera amizade, e ela só sorriu e disse q ele devia ter escolhido o restaurante, no fim das contas.
Essa informação só o deixou mais confuso.
Agora Meena não parava de falar no maldito sonho.
Por que ele tinha ouvido “talvez devêssemos manter nossa relação estritamente no plano profissional” enquanto aquela criatura desalmada da noite participava dos sonhos dela?
— Wulf! — Holtzman berrou seu nome. O grito ecoou pela sala de pé-direito alto. O novo quartel-general da unidade de Manhattan da Guarda Palatina era, até seis meses atrás, uma escola católica de ensino fundamental.
Um declínio terrível nas matrículas — ninguém com dinheiro para morar em um bairro tão moderno de Manhattan tinha filhos.., ou, se vesse, não escolhia colocá-los em uma escola católica — e o estado geral de decadência do prédio fizeram com que a Igreja fechasse St. Bernardette sem nenhum protesto da comunidade, exatamente ao mesmo tempo em que a Palatina procurava um local com o mesmo espaço em Nova York.
Abraham Holtzman ficara satisfeito... até entrar e ver o estado terrível e as carteiras de estudantes ainda entulhadas nos corredores. Levaram semanas para arrumar tudo. O chafariz no jardim, de Santa Bernadete ajoelhada em frente à Nossa Senhora de Lourdes, ainda não funcionava. Pelo que sabiam, estava sem água havia quase cem anos.
— O quê? — gritou Alaric, puxado subitamente dos pensamentos sobre sua vida particular.
— Eu estava dizendo que — falou Holtzman bruscamente —, como estou ciente dos seus negócios anteriores com o padre Henrique Mauricio, da arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, achei que devia mencionar, antes que você ouvisse de alguma outra pessoa, que o Vaticano está muito impressionado com ele e com o modo como se comportou durante o ataque dos Lamir nas favelas, e ele está sendo transferido para os Estados Unidos...
Alaric afundou na cadeira mais perto da mesa de Holtzman. Infelizmente, era uma cadeira da época da Segunda Guerra Mundial. Ela gemeu com um som que parecia de pavor e protesto como peso dos músculos de Alaric. Pelo visto, era usada por freiras bem mais leves do que ele.
— Me diga que está brincando. — Alaric tentou manter o tom de voz neutro, mas falhou.
— Honestamente, Alaric. Nunca entendi qual é seu problema com o sujeito. Ele executou, afinal, quase cem mortes. E, considerando a idade dele, apenas um pouco mais jovem do que você, com uns 33 ou 34 anos, e a profissão, um padre e não um caçador de demônios treinado pelo Vaticano, isso é muito impressionante.
Alaric olhou fixamente para o chefe.
— É ? — perguntou ele impassível.
— É — gritou Holtzman. — É sim! Você sabe que os Lamir são o clã de vampiros mais misterioso do mundo. Sabemos muito pouco sobre eles porque são relativamente novos e vêm do coração da Amazônia. Francamente, Alaric, sei que ele pode não ser sua pessoa favorita no o, mas você não pode dar uma segunda chance ao padre Henrique? a vou entender o que aconteceu entre vocês dois durante aquele exorcismo no Vidigal alguns anos atrás.
— Não — retrucou Alaric, reclinando a cadeira. Ao fazer isso, casualmente pegou algumas pastas que estavam em cima de uma caixa fechada, perto da mesa do chefe. As pastas tinham um carimbo de Pessoas Desaparecidas. — Acho que não posso, na verdade.
— Bem — disse Holtzman secamente — , é melhor você tentar. Há um baile de gala no Metropolitan Museum of Art amanhã à noite para a inauguração da nova exposição de tesouros do Vaticano e todos os chefões da
arquidiocese devem ir, o que significa que temos que fazer a segurança. Como ele foi indicado como novo padre da catedral de St. George, o padre Henrique será convidado de honra, então não quero que você...
Alaric levou um susto tão grande que teria caído da cadeira se não colocado os pés no chão antes para recuperar o equilíbrio. A pilha de pastas caiu.
— O quê?— gritou ele. -—O Padre Caliente? Aqui?
—Já pedi outras vezes para você não o chamar assim — disse Holtzman, exasperado. ——Ele é um clérigo que fez voto de castidade para toda a vida. É impróprio e desrespeitoso referir-se a ele como Padre Caliente. E isso nem é em português, aliás. Perguntei a Carolina, que você talvez se lembre que é de São Paulo. Isso só mostra sua ignorância. E pegue o aí do chão.
— Não precisamos dele aqui. Para que está vindo para cá?
— Se você tivesse ouvido uma palavra do que falei, saberia que o padre Henrique não foi designado para trabalhar aqui, na nossa unidade. É o novo pároco da St. George, agora que a reconstrução está quase no fim...
— Certo — disse Alaric, com sarcasmo. — Acha mesmo que sou tão burro ? — Ele estava reempilhando as pastas de qualquer jeito. — Esta cidade não tem padres suficientes? O que há de errado com o antigo padre da St. George?
— Levando em consideração que teve um enfarte do miocárdio, depois que soube que sua paróquia fora queimada quase completamente pelo príncipe das trevas, e morreu, há muita coisa de errado. — Holtzman olhou para Alaric com impaciência. — Você estava no hospital naquela época, então acho que é natural que não tenha ouvido, mas precisa ser tão insensível? É a perna que o está incomodando? Pelo que sei, você passou pela fisioterapia com louvor e está novo em folha. São as sessões com o psiquiatra indicado pela Palatina que não estão completas, porque você vive saindo no meio...
Alaric se sentou ereto e olhou para ele com raiva.
— Fiske está me dispensando por não ter passado na avaliação psicológica?
— Não seja ridículo, Alaric. O Dr. Fiske parece impressionado com seu progresso... quando você aparece. Você só precisa ir lá mais vezes. — Ele
esticou a mão para pegar as pastas que Alaric estava segurando. — Uma coisa que talvez deva considerar conversar com ele é a hostilidade que sente em relação ao padre Henrique. Já pensou que pode ser derivada de inveja?
Alaric revirou os olhos e entregou as pastas.
— É, Abraham. É exatamente isso. Sinto inveja de um convencido pretensioso que está tão apaixonado por si mesmo que não se incomoda em nada que um dos requisitos para seu trabalho seja não fazer sexo.
— A Igreja espera a ida de muita gente da imprensa e algumas doações de peso nesse evento no museu — disse Holtzman, ignorando a grosseria de Alaric enquanto arrumava as pastas. — Foi por isso que se esforçou tanto para que coincidisse com a festa da San Gennaro, que é um dos maiores, mais antigos e mais reverenciados eventos ao ar livre nos Estados Unidos. A inauguração de amanhã à noite no Met deve ser um dos principais eventos sociais na cidade. A transferência do Padre Cali... quero dizer, do padre Henrique para cá a tempo de participar da ocasião foi um gesto deliberado de nossos superiores...
— Tenho certeza de que foi — murmurou Alaric. — O padre certamente não tem vergonha das câmeras.
— Você pode considerá-lo uma prima-dona presunçosa —prosseguiu Holtzman —,mas eu garanto que nós todos temos uma admiração e um respeito enormes por ele. E espero que você o trate assim. Não vou mais tolerar sua completa falta de consideração pelos procedimentos corretos. Se tiver algum problema com ele, vai ter que procurar os canais legais. Você não vai debochar dele nem humilhá-lo. E isso inclui pegadinhas e demonstrações físicas de violência. Entendeu?
Alaric o ignorou.
— Por que temos tantos arquivos de pessoas desaparecidas? Ninguém falou deles pra mim.
Holtzman deu de ombros e colocou as pastas de lado. — Sempre há muitas pessoas desaparecidas, principalmente na área de Manhattan, durante o outono. Foi o que me disseram.
Visto que Alaric continuou a olhar para ele, Holtzman desenvolveu o raciocínio.
— O outono é o começo de um novo ano escolar e é comum que alunos que começam a estudar na cidade larguem os estudos e não contem a os pais porque ficam com vergonha das notas baixas ou de terem experimentado drogas ou de sua orientação sexual ou de qualquer outra coisa. Não há nada de nefasto por trás disso. Nosso contato na polícia de Nova York nos mandou as pastas porque este ano há um número de registros maior do que o habitual, mas não consegui encontrar nada de incomum, então os estou devolvendo...
Alaric se inclinou para a frente para pegar a pilha de pastas e começou a mexer nelas.
— Eu falei — repetiu Holtzman com irritação — que não reparei em nada fora do comum.
Alaric só resmungou ao abrir a primeira e depois outra pasta da pilha depois as jogou de volta sobre a mesa de Holtzman.
— Não tem nada aí, Wulf —— disse seu supervisor com cansaço. Sabe, o Dr. Fiske está bem otimista quanto a vários aspectos da sua recuperação. Você é um dos nossos melhores guardas, com um número impressionante de mortes, um recorde esplêndido nos interrogatórios e tudo mais. No entanto há uma área na qual o médico diz não ver diferença alguma, e tenho que dizer que concordo. Sua capacidade de comunicação sempre foi bastante deficiente. — Outra pasta caiu sobre o tampo da mesa de Holtzman. —Você ainda não superou o que aconteceu ao seu parceiro em Berlim, mesmo ele estando perfeitamente bem agora...
— Exceto pela falta de rosto — ressaltou Alaric com um resmungo. Outra pasta caiu sobre a mesa de Holtzman.
— Esse ressentimento que você sente pelo padre Henrique é outro exemplo. O que o homem fez a você? Nada. E daí que ele estragou aquele exorcismo? Foi o primeiro dele. Era jovem. Sabe qual foi minha atitude em meu primeiro exorcismo?
— Correr — disse Alaric, ao mesmo tempo em que o chefe.
— Exatamente — prosseguiu Holtzman. — É extremamente apavorante olhar na cara do mal pela primeira vez.
— Não tão apavorante quanto olhar no rosto de um homem que escolheu fazer um voto de castidade.
— Esse é um mau hábito seu — comentou Holtzman. — Esperar que todo mundo se ajuste aos seus padrões de comportamento.
Alaric ficou olhando para ele. O homem estava claramente ficando senil... ou tinha sido atingido na cabeça tantas vezes pelo yeti que fugiu que não sabia o que estava dizendo.
— Não espero que Henrique Mauricio se ajuste aos meus padrões de comportamento — disse Alaric. — Espero que ele não faça coisas que me deixem querendo socar a cara dele até virar purê. Infelizmente, todas as vezes que nos encontramos, ele não consegue cumprir a minha expectativa.
— Eu entendo — disse Holtzman com gentileza. — E dadas as circunstâncias da sua criação, às vezes me surpreende que você não bata tanto nas pessoas de que não gosta até que elas virem purês. Levei bastante tempo para dissuadir você de perpetuar tal comportamento depois que o tirei das ruas quando adolescente, você talvez lembre. Mas ainda há uma parte sua que se irrita quando os outros não se ajustam às suas crenças. Acredito que seja por isso que você tem tanta raiva de Meena Harper.
A cabeça de Alaric se ergueu de repente.
— Não tenho raiva de Meena Harper.
— Isso é mentira —— disse Holtzman.
— Por que outro motivo você ultrajado pela teoria dela que, até onde sabemos, pode ser completamente válida? Sabe o que eu estava pensando outro dia?
— Que esse prédio ainda fede a vômito e cola escolar? Porque é verdade.
— Se você gosta tanto de Meena, devia chamá-la pra sair.
Alaric abaixou a cabeça em direção à pasta.
— Não marco encontros. Além do mais, eu a convidei pra jantar uma Ela disse não, que não seria pro...
— O que você quer dizer com não marca encontros? — Holtzman parecia irritado. — Todas as pessoas solteiras marcam encontros. E é claro que ela disse não a um jantar no seu apartamento. Eu não jantaria no seu apartamento se fosse mulher. É como a aranha convidando a mosca para entrar em sua teia. Você é um verdadeiro imbe... — Outra pasta caiu sobre a mesa do superior. Ele a pegou e disse: — Quer parar? Já falei, olhei todas
elas. Não tem nada aí. Nada em comum entre elas.
— Tem sim — disse Alaric, colocando duas outras pastas na mesa. —Todos são de fora da cidade.
— Como assim? — Holtzman parecia mais irritado do que nunca.
— Cada pessoa dessas pastas era um turista de férias nesta cidade ando desapareceu. Todos os registros foram feitos no estado onde a soa morava, embora a vítima tenha desaparecido aqui em Manhattan s últimos meses. Você disse que estava procurando por algum ponto n comum. Encontrei pra você.
— Me desculpe — disse Holtzman, com o olhar em direção a todas s pastas espalhadas em cima da mesa. — Mas está mesmo sugerindo que tem alguém por aí matando turistas?
— É o que parece —— sugeriu Alaric. Ele mexeu em uma das pastas. — Aqui tem uma família inteira. Os O’Brien, de Illinois, família de cinco pessoas, foram vistos pela última vez pelo concierge do hotel do centro quando pediram informações para chegar ao M&M World. Não fizeram check-out. Ninguém parece ter percebido nada até o Sr. O’Brien não voltar para o trabalho e as crianças não terem voltado para a escola. Foi quando a avó chamou a polícia de Illinois e ela fez contato com o hotel, que supôs que a família tivesse ido embora sem pagar...
— Me dê isso. — Holtzman arrancou a pasta da mão dele. —Isso não pode ser possível. Estaria na mídia. Alguém sumindo com turistas em Manhattan? Com a festa de San Gennaro começando?
— Não alguém — disse Alaric. — Alguma coisa. — Ele colocou o resto das pastas em cima da mesa com um baque surdo. — Onde estão todos esses corpos? Era de se esperar que, a essa altura, já estivessem no ponto.
Holtzman pareceu um tanto enjoado, mas Alaric só estava pensativo. Depois, pareceu se animar.
—Já sei. Vamos perguntar ao Padre Caliente amanhã à noite, no evento do Vaticano. Ele vai saber o que fazer. Ele sabe tudo.
Holtzman já tinha pegado o telefone. Ele apontou para a porta.
— Fora. Saia da minha sala. Agora.
Alaric mal tinha saído do prédio quando começou a refletir sobre a novidade que o supervisor havia contado sobre Henrique Maurício e suas
implicações para si e para a unidade. Nenhuma delas era boa, concluiu ele.
O terapeuta indicado pela Palatina, Dr. Fiske, sempre encorajava Alaric a imaginar o pior cenário. Era saudável, disse o doutor. Diziam que os pessimistas viviam mais tempo do que os otimistas.
— Porque a realidade nunca é tão ruim quanto o que imaginamos que pode acontecer. — Era isso que o doutor gostava de falar.
— Não sei, doutor — dissera a Alaric na última vez em que se vi-
— Você consegue imaginar qualquer coisa pior do que demônios podendo escolher entre o bem e o mal?
— Ah, sim — respondeu o Dr. Fiske com alegria. — Há muitas coisas piores do que isso. Afinal, eles podiam escolher o bem.
Foi nesse ponto da consulta que Alaric ficou de pé e foi embora. Se não tivesse feito isso, achava que teria enfiado o punho na parede do consultório. Ou na cara do médico.
Alaric passou a noite depois da reunião com Abraham Holtzman tentando imaginar todos os piores cenários que podiam derivar da transferência do padre Henrique para Manhattan.
Foi assim que se viu socando o saco de areia que tinha no apartamento até depois da meia-noite. Exausto, ele tomou um banho e foi para a cama, mas se viu torturado por sonhos em que Lucien Antonesco tinha escolhido o bem. Em um dos sonhos, ele estava deitado sob sol intenso na grama do Central Park, com a cabeça no colo de Meena Harper... o que era impossível, é claro, porque o príncipe das trevas viraria cinzas se saísse à luz do sol.
Meena estava rindo. Lucien Antonesco ficava beijando o cabelo dela, que estava longo e escuro e, por algum motivo, caía no rosto de Lucien. Foi um grande alívio quando o celular de Alaric o acordou na manhã seguinte.
Pelo menos até ele atender e ouvir a voz do chefe dizendo:
— Meena Harper está com algum tipo de problema.
Uma coisa pareceu comprimir em seu peito. Ele sabia que não era um músculo estirado do exercício da noite anterior.
Era difícil pensar que as coisas podiam ficar piores até ouvir as palavras Nova Jersey e eu dirijo saídas da boca de Holtzman.
Mas quando viu Meena Harper sair de um táxi na frente da delegacia de
polícia de Freewell, Nova Jersey, usando um daqueles vestidos apertados demais no peito — este, preto com estampa de pequenas rosas — dos quais ela parecia gostar, o sol da manhã iluminou seu cabelo recém-pintado de castanho e ele se deu conta de que todos os piores cenários que vinha imaginando não chegavam nem perto do horror atual.
Havia um lenço rosa amarrado no pescoço dela.
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