Capítulo Dezenove
02:00 da tarde EST, quarta-feira 14 de abril
Edifício ABN
Avenida Madison, 520
New York, New York
"Eu já sei." O lábio inferior de Cheryl começou a tremer. Só um
pouco. "Shoshona me disse ontem à noite."
"Não chore", disse Meena, mergulhando a mão em uma caixa de
lenços e, em seguida, passando um maço deles para a atriz principal
de Insatiable. "Sério. Você sabe o que acontece com a sua
maquiagem quando você chora. E agora nós estamos em alta
definição."
"Tudo bem", disse Cheryl. Mas ela pegou os lenços e esfregou os
olhos do mesmo jeito. “Eles podem passar de novo. Eu simplesmente
não posso acreditar que após todos esses anos, eles estão
comercializando um vampiro. Para Taylor."
"Isso veio da emissora", disse Meena. Embora ela não soubesse por
que estava defendendo Shoshona. "O CDI quer. Eu tenho certeza que
há algum tipo de novo produto relacionado que eles querem para o
mercado...".
"Isso só piora as coisas", disse Cheryl com um soluço.
"Olha, não conte para ninguém", disse Meena, tentando soar
encorajadora. "Mas eu acho que pensei em algo para você. Algo
fantástico."
Ela simplesmente não estava disposta a dizer isso em voz alta. Ainda
não. Ela não sabia o porquê, exatamente.
Bem, tudo bem, ela sabia o porquê: a emissora iria odiar.
E bem... talvez a reação de Leisha no telefone quando Meena ligou no
início do dia para dizer-lhe o que tinha acontecido lá fora na Catedral
de St. George tivesse abalado um pouco sua confiança.
"Morcegos?" Leisha ecoou.
"Sim", disse Meena enfaticamente. "Morcegos".
"Na frente da Catedral de St. George", Leisha disse, como se
estivesse confirmando. "E esse cara sem sentido apenas se jogou em
cima de você para protegê-la deles?"
"E para proteger Jack Bauer também", disse Meena, lembrando-a.
Leisha ignorou-a. "E ele não teve nem um arranhão, apesar de todos
esses morcegos atacarem seu rosto?"
"Sim", disse Meena. "E então ele me levou de volta ao meu prédio.
Mesmo que eu nunca tenha lhe dito onde eu morava. Era como se ele
soubesse."
"Ok, olha" Leisha disse. O som de secadores de cabelos soprando ao
fundo era alto, como de costume. "Há uma explicação totalmente
racional para a coisa toda: Você tomou uma pílula para dormir,
mesmo pensando que não tomou. E então você levou o cão para um
passeio. E você teve um pesadelo."
"Exceto por eu não ter tomado a pílula para dormir." Meena insistiu.
"Leisha, eu tomei quando eu cheguei em casa. Eu tive que tomar, eu
tremia tanto depois de tudo o que aconteceu. De que outra forma
você acha que eu consegui dormi depois de algo assim? Eu estava
um desastre."
"Bem", Leisha disse, "não há outra explicação. Porque nada do que
você está descrevendo poderia ter acontecido. Grandes bandos de
morcegos — ou seja lá como isso é chamado, já que morcegos não
são aves — não se jogam do nada, atacando as pessoas em
Manhattan. E como ele poderia saber onde você morava e seu nome
— que você também disse que ele sabia — mesmo que você não
tenha dito? Não existem coisas como leitores de mente, Meena.
Exceto Sookie Stackhouse (protagonista da série True Blood que pode
ler a mente dos humanos), e ela é fictícia. Tudo que você pode fazer
é dizer como as pessoas vão morrer, o que não é tão útil ou legal.
Você tomou a pílula antes de sair de casa, só não se lembra, e depois
sonhou a coisa toda. Você está trabalhando em uma história sobre
vampiros, lembra? É natural você sonhar com morcegos. Vampiros,
morcegos. Estou surpresa que o cara que você sonhou não estivesse
usando uma capa preta grande, espumando, ou algo assim."
"Ele estava usando Burberry (marca de roupas)", disse Meena,
franzindo sua testa. "Mas ele definitivamente não brilhava. Ele foi
muito educado, no entanto. E forte. Ele manteve o braço em volta
dos meus ombros o caminho inteiro até em casa. Foi à única razão
por eu não cair. Ele estava no controle."
Pensando sobre o quão forte e controlado Lucien havia sido trouxera
de volta os sentimentos de calor, mesmo quando Meena se lembrava
durante o dia. Exceto por uma coisa.
"Mas Jack Bauer o odiava. Por que eu sonharia isso?"
"Deus, apenas estou contente que esteja tudo bem", Leisha disse,
soando preocupada. "Independente do que tenha acontecido ontem à
noite. Você não deve sair tão tarde, mesmo com Jack Bauer. E se o
cara não tivesse sido tão educado ou tão cavalheiro? Você contou isso
ao Jon?"
Meena franziu a testa quando tomou um gole de seu refrigerante
matinal. "Não. Quer dizer... mais ou menos. Eu disse que vi alguns
morcegos fora da igreja. Isso foi tudo."
"Você não disse a ele porque o cara era um gato." Foi uma
declaração.
"Não! Leisha, por favor. Eu mal falei com ele." Ela não mencionou os
sentimentos quentes que ela tinha quando pensava sobre o quão
forte e controlado ele estava.
"O quê? Você está balbuciando! Sobre um cara que você encontrou
em um sonho! Eu não posso acreditar. Você gosta dele."
"Se era um sonho", Meena disse defensivamente, "havia partes que
foram realmente vividas. E por que não gostaria dele? Ele salvou
minha vida. E a de Jack Bauer", ela acrescentou apressadamente.
Leisha disse, "Eu sabia que tudo o que você escreve nessa novela
louca iria pegar você um dia, e agora pegou. Meena, você está
apaixonada por um cara que o seu subconsciente fez para você. Um
super-homem que te salva de ataques de morcegos. Deus, é tão
óbvio. Ele a salvou de ter que escrever sobre vampiros, que você
odeia! Especialmente agora, com Shoshona sendo a sua nova chefe."
Meena tinha se levantado para jogar longe a lata de refrigerante. Ela
fez uma pausa enquanto estava prestes a atirá-la para a lata de lixo
reciclável.
"Bem", ela disse: "Acho que nunca pensei nisso dessa forma. Mas...
agora que você mencionou, os morcegos podem representar a minha
repugnância profunda e duradoura pelos vampiros."
"Certo", Leisha disse. "Claro que sim. Não faz muito mais sentido do
que pensar que foi algo que realmente tenha acontecido?"
"Talvez", disse Meena. "Mas então como você explica os joelhos do
meu pijama? Eles estavam imundos quando me levantei esta manhã.
Obviamente, eu estava no chão em algum lugar..."
"Você realmente saiu para caminhar com Jack Bauer e ajoelhou-se
para recolher alguns de seus cocos?" Leisha sugeriu. "E não se
lembra?"
Meena fez uma careta. "Você realmente sabe como matar o romance
em uma história, não é? "ela disse.
"É para isso que servem as melhores amigas, querida", Leisha disse.
"É um trabalho sujo, mas alguém tem de fazê-lo."
Mas agora, sentada no camarim de Cheryl, Meena se perguntava...
Havia tudo aquilo sido apenas um sonho? Seu subconsciente
extravasando sua frustração por ter de escrever sobre algo que ela
odiava, como Leisha disse?
E se fosse... bem, por que não deixá-lo trabalhar a seu favor?
"Olhe", disse Meena. Ela olhou ao redor do camarim de luxo da atriz
veterana como se estivesse preocupada que alguém pudesse escutar.
Mas só havia a vasta coleção de bonecas de Cheryl — todas as
bonecas da Coleção Victoria Worthington Stone de Madame Alexander
— vendo. "Não diga nada para Shoshona, porque eu não tenho nada
escrito ainda, mas estava pensando em Victoria encontrar... bem, um
príncipe, na verdade."
"Um príncipe?" Cheryl estava tão atônita, que ela realmente parou de
chorar. "Que tipo de príncipe?"
"Um romeno...", disse Meena.
A verdade é que desde que tinha levantado de manhã — ainda fraca
pela difícil experiência na noite passada, apesar de Leisha
provavelmente estar certa e havia sido tudo um sonho causado pela
frustração por ter perdido o trabalho como roteirista chefe e ter
tomado medicação antes, e não depois, de caminhar com Jack
Bauer— não tinha sido capaz de tirar Lucien, e seu sotaque
levemente europeu da sua cabeça.
E ok, então era possível que ele fosse uma invenção de sua
imaginação fértil, uma manifestação da forma como ela imaginava
seu “eu criativo” (estranho que o seu eu criativo era um cara gostoso
em um casaco preto, mas tanto faz), que correu para salvá-la de
morcegos, também conhecidos nos roteiros vampirescos pensado por
Shoshona (que usava uma meia arrastão hoje e elas provavelmente
nem sequer eram da control-top [marca famosa de meia-calça]).
Mas Meena havia se sentido muito segura e protegida em seus
braços. Ela não se sentia dessa maneira há muito tempo.
Ultimamente parecia que os lobos — ou morcegos — estavam caindo
sobre ela. Se não fossem as contas vencendo no final do mês era
Shoshona, obtendo todas as promoções, mas sem fazer nada do
trabalho no escritório. Meena suspeitava que Cheryl provavelmente
sentisse o mesmo pois, de repente, ela suspirou, olhou para seu
reflexo no espelho do camarim e, em seguida, puxou o seu decote.
"Eu não sei, jovem." Cheryl olhou cética. "Sem ofensas. Mas ir contra
a emissora? Acho que não. Eles deixaram Gregory Bane matar
Beverly Rivington em Lust outro dia. Vinte e cinco anos que ela
estava naquele show e eles deixaram um garoto magricela com um
corte de cabelo engraçado sugar todo o sangue dela. Se isso não é
uma analogia para o caminho que minha carreira está tomando, não
sei o que é."
"Eu sei", disse Meena. Ela esperava Cheryl não tinha ouvido falar de
Beverly. Mas isso era ridículo em um negócio como este, onde todas
as pessoas transportavam um iPhone que estava ligado a E! twentyfour/
seven (documentário da MTV) Online. "Mas eu não vou deixar
que isso aconteça com você."
"Oh, sério?" Cheryl levantou uma sobrancelha. "Como?"
"Eu vou fazer um príncipe romeno matador de vampiros que Victoria
irá contratar para matar o namorado vampiro da filha", disse Meena
dramaticamente.
Meena sabia que ela estava pisando em gelo fino. Apresentando um
novo personagem apenas para matar o personagem de Shoshona? O
vampiro que supostamente era para salvar Insatiable da surra que
tomaram de Lust nas avaliações? O vampiro que a emissora queria?
Ela estava louca?
Só que ela nunca se sentiu mais saudável em toda sua vida.
Cheryl, evidentemente, não concordava.
"Será o seu funeral, querida", disse ela em dúvida.
"Na hora dedique o Emmy para mim", disse Meena.
Cheryl olhou modestamente. "Oh, querida. Que vá de seus lábios até
os ouvidos dos eleitores do Emmy. Bem." Ela deu um tapinha no
cabelo altamente estilizado. "Eu acho que é melhor eu ir lá e
enfrentar a cara desse padre."
Meena seguiu Cheryl até o corredor. Mas, em vez de ir rumo ao
estúdio, virou-se voltando para subir para o seu próprio escritório. Ela
precisava começar a escrever sobre Lucien, o príncipe romeno que ia
matar o vampiro de Shoshona, imediatamente. Quem iria saber que
quase ser morta por um monte de morcegos poderia ser tão
criativamente inspirador?
Mas não haviam sido, ela sabia, os morcego que tinham feito a sua
criatividade começar a fluir; tinham sido os quentes olhos castanhos
de Lucien....
Talvez, enquanto ela estava na mesma, pensou, devesse escrever um
anúncio no “Amizades Perdidas” do Craigslist. Quem iria dizer que ela
nunca mais iria ver Lucien?
Foi quando ela estava tentando descobrir como descreveria aqueles
quentes olhos castanhos em seu anúncio que ela quase trombou com
Taylor, saindo do elevador, vestida para uma cena que ela estava
filmando no estábulo com seu par romântico atual, Romero, seu
instrutor de equitação.
"Oh meu Deus, Meena!" Taylor gritou, atirando os braços em volta de
Meena. "Muito obrigada!"
Meena, sentindo-se um pouco sufocada, abraçou Taylor de volta.
"Claro. Quando precisar." Obrigada pelo quê?
"Você simplesmente não sabe", disse Taylor, finalmente se libertando
dela e olhando para ela com lágrimas transbordando de seus grandes
olhos azuis "o quanto significa para mim esse enredo fantástico. Eu
tinha tanta inveja de Mallory Piers em Lust por conseguir toda a
imprensa por causa daquelas cenas que ela vem fazendo com
Gregory Bane. E agora consegui o meu próprio vampiro!"
"Ah", disse Meena. "Isso. Yeah". Meena passou a mão distraidamente
pelos cabelos curtos. Ela não podia ajudar, mas sentia-se um pouco
culpada sobre o fato de que estava subindo com a intenção de matar
o novo interesse amoroso de Taylor. "Bem, isso foi mais ideia da
emissora. CDI, na verdade..."
"Eu sei", disse Taylor. "Shoshona já parou e me disse."
Aposto que disse, Meena pensou. Shoshona parecia ter saído por
todo o edifício, fofocando.
"Eu acho que é tão maravilhoso que vocês duas estejam trabalhando
juntas para colocar um pouco de sangue jovem de volta em
Insatiable", disse Taylor, chegando a apertar as mãos de Meena.
"Tudo bem", disse a Taylor. Ela achou que agora não seria um bom
momento para apontar que ela estava pensando em escrever um par
romântico de Cheryl, quem estava indo colocar uma estaca no
coração do novo “namorado de tela” de Taylor.
"Obrigado novamente", disse Taylor. "E obrigada, também, por todos
os sanduíches que você deixa abandonado no meu camarim. Mas
você sabe que eles realmente não fazem parte da minha nova dieta.
Deixe sashimi um dia desses!"
Ela saiu correndo, suas coxas eram tão magras que pareciam
pertencer a uma gazela. Meena entrou no elevador com uma
pequena carranca no rosto, só para encontrar Shoshona, já no
elevador.
Ótimo.
"Olá, Meena", Shoshona disse com um sorriso brincalhão.
"Olá, Shoshona." Meena não podia deixar de notar que ela estava
carregando a bolsa de dragão de rubi. De perto, Meena podia ver que
tinha um perfeito bolso com enchimento na alça também, por isso
não importava o quanto de porcaria Shoshona colocasse nela, não
machucaria seu ombro.
"Subindo?"
"É claro", disse Shoshona. "Ansiosa para a reunião com o novo
Maximillian Cabrera na sexta-feira?"
"Quem é Maximillian Cabrera?" Meena perguntou confusa.
"O namorado vampiro da Taylor," Shoshona disse, revirando os olhos
como se Meena fosse estúpida por não saber. Só que Meena não
tinha visto as continuações para o enredo da história de vampiro.
Como ela poderia, já que, de forma usual, Shoshona ainda não tinha
dado a ideia para Paulo escrever?
"Stefan está vindo para ler o papel na sexta-feira. Você estava lá
quando eu disse a Sy sobre ele. Lembra-se?".
Meena, irritada, manteve o seu olhar sobre os números acima de
suas cabeças enquanto eles se iluminavam. "Oh," disse ela. "Certo".
"E Stefan me disse que Gregory mesmo pode vir com ele", Shoshona
acrescentou.
"Oh, ótimo", disse Meena. Talvez ela trouxesse Jon para trabalhar
com ela na sexta-feira. Ele não poderia se sair pior no teste do que o
amigo de Gregory Bane.
E Deus sabia que Jon era mais bonito. Não que Meena jamais tivesse
admitido isso na frente de Jon.
"Estou muito feliz que você tenha se tornado mais uma jogadora na
nossa equipe, Meena", Shoshona disse. "Você coça minhas costas e
talvez um dia eu coce as suas".
Aposto que você vai, Meena pensou cinicamente.
Capítulo Vinte
1:oo da manhã, EST, Quinta-Feira, 15 de Abril
A boate da Concubina
Rua East Eleventh, 125
Nova York, Nova York
O bar estava escuro e a música Techno bombando, mais alta até do
que na maioria das danceterias em Bucareste.
Não que Lucien fequentasse tais lugares... se ele pudesse evitar. Eles
eram enfumaçados demais para o seu gosto e tinham a tendência de
atrair uma multidão violenta, atraídos pela promessa de quantidades
copiosas de licor barato e mulheres escassamente vestidas. Esses
tipos de bares eram mais para estudantes. Fazia Lucien se sentir
constrangido ser visto nos mesmos lugares que seus estudantes. Não
era, ele achava, apropriado.
Principalmente quando suas alunas do sexo feminino jogavam suas
pernas em cima da dele e começavam a esfregar sua virilha nele, um
passo de dança popularmente conhecido como “esfregação”.
Lucien tinha visto vários estilos de dança irem e virem, normalmente
com mais divertimento do que alarme. Mas de todos eles, ele
esperava que “esfregação” seria o de menor duração. Realmente não
tinha nada de atraente ou de sexualmente sedutor nisso.
Entretanto, enquanto examinava a pista de dança lotada da
Concubina, ele viu que a esfregação era tão popular nos Estados
Unidos como era em Bucareste. Era um pouco difícil dizer por culpa
de toda a fumaça das máquinas de gelo seco. Mas certamente
parecia que sim, vendo todos aqueles corpos contorcendo-se uns
contra os outros.
Quando um corpo, vestido somente com calças de couro preto e um
biquíni de metal, afastou-se dos outros e começou a se mexer contra
ele, Lucien perguntou, “Onde está Dimitri?”
A garota passou uma mão com unhas pretas pelo seu abdômen liso,
puxando sua camisa branca do cinto de sua calça. Ela olhou debaixo
para ele através de sua espetada franja loira enquanto começava a se
esfregar nele no ritmo da música e disse flertando, “Não precisamos
dele. A não ser que você goste assim.”
Lucien agarrou seu pulso em um aperto de ferro antes que ela
pudesse mergulhar seus dedos para dentro de sua calça.
“Onde,” ele perguntou novamente, seus olhos faiscando vermelho,
“está Dimitri?”
A garota parou de se esfregar e disse, sua voz elevando-se a um
choramingo medroso, “Ele está ali. Meu Deus! Eu só estava tentando
ser simpática.”
Lucien soltou seu pulso e andou em direção a área VIP, para onde ela
tinha apontado com um dedo trêmulo. Ele não teve a intenção de
assustá-la.
Por outro lado, ela estava drogada e esperava que ele tivesse drogas
para deixar ela ainda mais drogada. Tirando isso, sua mente estava
tão vazia quanto o Saara. Lucien não pôde evitar de se lembrar da
passeadora de cachorro (em inglês, dog walker, que leva cães para
passear) da noite anterior, cuja mente tinha sido exatamente o
oposto – impenetrável como uma selva.
Ele se perguntou por que ele aparentemente não conseguia parar de
pensar nela. Ele disse a si mesmo que era só por causa do fato que
ela e a garota dançarina tinham quase a mesma idade e eram ambas
atraentes.
Entretanto, a semelhança terminava aí. Ele tinha desistido de sentir
pena por viciados como a garota dançarina. Tinham muitos deles
atualmente.
A área VIP onde Dimitri estava sentado era separada da pista de
dança por cordas pretas de veludo e apresentava uma série de
elegantes cabines altas que formavam um refúgio da música alta e
dos corpos giratórios na pista de dança. Nos macios assentos de
couro preto descansava uma meia dúzia de homens de meia-idade –
de muita meia-idade, e pançudos demais, para as mulheres
extremamente jovens e esguias que estavam por cima deles, seus
olhares inocentes tão inexpressivos quanto o da garota que tinha
tentado se esfregar em Lucien.
Em uma cabine vizinha estavam sentados alguns homens muito mais
novos. Um deles olhou pra cima e sorriu enquanto Lucien se
aproximava...
...ao mesmo tempo que dois guarda-costas corpulentos tentaram
bloquear o caminho de Lucien.
“Desculpa, senhor,” disse um dos homens, que pesava cerca de 150
quilos e usava uma corrente de ouro ao redor de seu grosso pescoço
com o nome Reginald estampado nela. “Essa área é somente para
VIPs.”
“Eu estou vendo isso, Reginald,” Lucien disse. “Eu estou aqui para ver
o Sr. Dimitri. E você vai me deixar passar.”
“É claro que eu vou,” Reginald disse, e ele saiu da frente. “Eu sinto
muito, senhor.”
O parceiro de Reginald, que pesava quase o mesmo que Reginald,
tudo em músculo, ficou horrorizado.
“Reggie!” ele gritou. “O que você está fazendo?”
Reginald explicou, enquanto desenganchava a corda de veludo para
Lucien passar, “Você ouviu o homem. Ele está aqui para ver o Sr.
Dimitri.”
Dimitri tinha levantado de sua cabine e vindo ao encontro de Lucien.
Um homem alto, de cabelo escuro em um terno de negócios que
servia tão perfeitamente quanto os do Lucien, ele usava uma camisa
branca que estava aberta na garganta, deixando à mostra um cordão
de couro no qual estava pendurado um pequeno símbolo de dragão
de ferro.
“Irmão,” Dimitri disse, estendendo uma mão para tomar a mão de
Lucien na sua. “Isso é uma surpresa. Faz tempo demais. Quando
você chegou?”
“Dimitri,” Lucien respondeu friamente. Ele apertou a mão de seu
meio irmão, propositadamente ignorando a pergunta. “Você está indo
bem, pelo que eu vejo.”
“Ah, isso?” O gesto amplo de Dimitri com sua mão esquerda (na qual
ele segurava um caro charuto cubano; ele sempre, Lucien lembrava,
teve uma predileção em fumar, uma que combinava com a própria
predileção de Lucien por vinhos excelentes) incluía o Reginald e seu
parceiro, a área VIP, o clube inteiro. “Isso não é nada. Eu tenho mais
quatro em rede nacional, e estou abrindo mais um no Rio de Janeiro
mês que vem.”
“Rio,” Lucien disse, levantando suas sobrancelhas. “Ainda tomando
passos perigosos.”
“Que perigo? É um clube noturno,” Dimitri disse, enfatizando a
palavra noturno. “Só que nós os chamamos de boates agora. Você
adoraria o Rio. A umidade! Muito boa para a pele. Vem, você tem que
conhecer meus novos amigos da TransCarta. Você deve ter ouvido
falar nela, a firma de patrimônio líquido particular?Eles estão
intermediando um acordo um tanto grande no momento e estão
precisando aliviar um pouco o estresse. Então é claro que eles vieram
para cá. Todo mundo que trabalha com finanças tem uma reputação
tão ruim hoje em dia. Publicidade negativa. Isso é algo sobre o qual
nós dois sabemos um pouco, não é, irmão?”
Dimitri riu de sua própria piada enquanto pegava o braço de Lucien,
tentando guiá-lo em direção à cabine onde os homens de meia-idade
estavam sendo acariciados pelas garotas jovens e magras que nem
graveto.
“Talvez depois, Dimitri,” Lucien disse. “Eu gostaria de falar em
particular com você por um momento primeiro. Nós temos muitos
negócios para discutir, eu acho, eu e você.”
“Bobagem,” Dimitri disse. “Prazer antes de negócios! Eu sei do que
você está falando... e porque você está aqui.” Ele colocou um braço
ao redor dos ombros de Lucien e começou a guiá-lo em direção à
cabine que ele tinha acabado de desocupar. “Uma coisa infeliz, essas
jovens garotas mortas. E eu perguntei por aí – acredite em mim, não
é bom para o clube ter um maníaco como esse à solta – e eu posso te
garantir, ninguém sabe nada sobre isso. Se eles soubessem, você
não acha que eu já teria dado um jeito? Você me conhece, Lucien.
Qualquer coisa para melhorar o lucro!”
Lucien inclinou a cabeça para a garota que tinha se aproximado dele
enquanto ele entrava, a do biquíni de metal. Ela agora estava girando
sozinha na pista de dança, brisando em seu próprio estupor induzido
por drogas.
"E ela? Você não está tendo muito sucesso no trabalho de manter
drogas pesadas fora daqui," ele observou. "Com certeza não pode
estar ajudando a melhorar o lucro."
Dimitri seguiu o olhar de seu meio-irmão.
"Oh, drogas," ele disse, e rolou os olhos. "Bem, o que você pode
fazer? Elas estão por toda parte. O governo deveria legalizá-las e
então colocar impostos nelas, e usar o dinheiro para pagar as dívidas
e dar aos viciados a ajuda que eles precisam. Mas porque estamos
falando de um assunto tão depressivo? Vem, você não vê Stefan há
eras. E você tem que conhecer meu mais novo projeto."
"Seu mais novo projeto?" Lucien levantou uma sobrancelha. "Não é
essa... boate?"
"Não mesmo!" Dimitri foi em direção à uma mesa onde estava
sentado um homem jovem de aparência decadente e seu
companheiro ainda mais miserável, ambos vestiam calças
extremamente apertadas e camisas abertas até o meio do peito,
embaixo de jaquetas de motoqueiro de couro. Foram flanqueados em
ambos os lados por mulheres jovens, tão magras quanto lápis, que
pareciam estar bem vestidas, analisando as suas roupas como um
todo, mas eram excepcionalmente vulgares no tórax e tinham um
cabelo muito liso.
"Um novo empreendimento," Dimitri anunciou entusiasticamente.
"Gregory Bane, conheça meu irmão, vindo da Romênia, Lucien
Antonescu."
"Olá, senhor." O mais magro dos dois homens jovens levantou-se
para apertar a mão de Lucien. Lucien sabia porque ele estava sendo
tão agradável antes mesmo de sentir a pele de Gregory Bane... ou
ver a fina tatuagem de dragão que decorava o interior de seu pulso
pálido.
"É um prazer," Lucien disse sem sorrir.
"O prazer é todo meu," Gregory Bane disse, suas pálpebras
tremulando nervosamente.
Lucien adoraria saber há quanto tempo o garoto havia sido
transformado e quem o transformara. Não havia sido Dimitri, com
certeza. Seu irmão era muitas coisas... mas não isso. Era mais do
que provável que ele havia visto uma oportunidade e teve uma de
suas muitas amantes para fazê-lo. O garoto fora, Lucien supunha,
bonito pelo padrão estabelecido pelo seu atual grupo de estudantes
do sexo feminino, que tendia a ser magro e sujo.
O outro rapaz, que exibia um dragão igual ao de Dimitri em forma de
um símbolo de ferro em uma pulseira de couro, se levantou e
estendeu a mão direita...
"Tio Lucien," Stefan disse, um pouco timidamente.
Mas novamente, o garoto nunca estivera ali antes, Lucien pensou
enquanto apertava a mão de seu sobrinho.
Se isso era porque ele tinha visto o seu pai assassinar sua mãe diante
de seus olhos - isso acontecera em um tempo e espaço diferentes,
quando o uxoricídio (assassinato de esposa) não era tão incomum,
mas ainda assim, Lucien não aprovara - ou porque ele tinha sido
transformado muito jovem, Lucien nunca tinha certeza.
O jovem era definitivamente uma decepção. Dimitri estava sempre
formulando um esquema algum esquema ou algo assim para dar a
ele um rumo. Mas ele nunca deixou o menino usar seu sobrenome.
Como ele poderia esperar que Stefan fosse exercer qualquer tipo de
coisa em sua carreira?
Que jogo Dimitri estava jogando agora? Lucien adoraria saber. E o
que os analistas financeiros barrigudos da TransCarta tinham a ver
com isso, se eles tinham alguma coisa a ver? Isso era tudo realmente
parte do novo "empreendimento" de seu meio-irmão?
Ou de algo mais traiçoeiro?
Ah, Dimitri cumpriu sua parte em dar as boas vindas à família, de
braços abertos... Ele até pediu garrafas de Veuve (marca de
champanhe), embora champanhe nunca tenha sido uma das bebidas
favoritas de Lucien. Ele nunca foi fã das bolhas, que desapareciam
imediatamente na língua. Ele preferia vinhos mais pesados e
encorpados, que derretiam na boca como... bem, como uma refeição.
Mas tudo isso parecia um pouco como o champanhe, ou as jovens
mulheres que tinham se enrolado com Gregory Bane e o infeliz Stefan
- sem mencionar os administradores no limite, na cabine ao lado -
que nada disseram mas desapareciam com freqüência para o
banheiro, e então voltavam limpando o nariz, as mentes tão vazias
quanto a da garota que tentou fazê-lo dançar com ela.
Muito vazio. Sem muita substância. Somente um monte de ar.
Após algum tempo, Lucien sentiu que já tinha visto o suficiente. Se
havia alguma resposta no clube de seu meio-irmão, ele não as
conseguiria dessa forma.
Ele se desculpou, dizendo que tinha que ir.
Dimistre lhe mostrou a saída dos fundos, já que a frente agora estava
lotada demais com festeiros drogados para que ele conseguisse sair
sem ter que sair empurrando as pessoas.
"Onde você está ficando enquanto está aqui?" Dimitri perguntou -
casualmente até demais - soprando fumaça do seu cigarro em
direção ao céu estrelado da noite, que estava visível do beco escuro
em que eles estavam."
"Emil me arrumou um lugar," Lucien disse. Quanto menos ele
dissesse, Lucien percebeu, melhor seria. Ele confiava em seu irmão...
Mas só até certo ponto.
Dimitri deu uma risada. "Emil," ele disse. "Ele ainda está com aquela
esposa idiota dele?"
"Está," Lucien disse.
"Casamento," Dimitri disse. "Agora essa é a única coisa que nós dois
temos em comum. Não querer ficar preso nisso. Bem. Não de novo."
"Nunca me pareceu prudente," Lucien concordou cuidadosamente.
Dimitri o encarou por um segundo ou dois antes de estourar em uma
gargalhada de surpresa.
"Prudente," ele disse. "Ouça o que você está falando! Você não
mudou, não é? Em todo esse tempo."
Lucien deu a ele um olhar crítico.
"Não," ele disse. "Acho que nenhum de nós dois mudou."
Dimitri parou de rir na hora e apontou para Lucien.
"Não gosto de como isso soa," ele disse em uma voz profunda. "Acho
que você não veio aqui procurando problema, Lucien. Porque nós
temos vivido perfeitamente bem deste lado do Atlântico sem uma
gota de problema dos Palatinos... e sem nenhuma interferência sua."
Seus olhos, normalmente tão negros quanto os de seu meio irmão,
brilharam tão vermelhos quanto seu cigarro quando ele disse a
palavra interferência.
Um segundo depois, uma camada de lixo, poeira, pedras e vidro
quebrado, que estava no chão do beco em frente a Lucien começou a
subir, se espiralando violentamente em um tornado indo em direção
a ele.
Lucien levantou um braço para proteger o rosto dos estilhaços.
Então Dimitri se viu sendo jogado contra uma lixeira, como se um
vento invisível o tivesse levantado e carregado até lá. Sua queda foi
amparada por caixas de papelão vazias que alguém tinha empilhado
na lixeira para reciclagem. Se nao fosse isso, ele teria batido direto
na lata de aço com tanta força quanto se tivesse sido atirado por uma
arma de pregos (isso).
Enquanto ele jazia lá, surpreso, o vórtex que Dimitri tinha criado
morreu tão de repente quanto ele tinha sigo jogado, todos os
pedaços de vidro e lixo de volta ao chão do beco.
Lucien deslizou até onde seu irmão estava, fazendo uma pausa em
seu caminho para cuidadosamente pisar no cigarro que Dimitri tinha
derrubado, então o pegou e jogou na lixeira atrás dele.
Lucien estava furioso... mas mesmo estando furioso, ele ainda era
consciente em relação ao lixo.
"Eu não faço idéia de que tipo de jogo você está jogando aqui,
Dimitri," Lucien disse, apoiando um cotovelo em um lado da lixeira e
se abaixando até seu irmão com uma voz que era quase apavorante
em sua calma após a violência que havia acontecido há apenas
alguns segundos. "Clubes noturnos cheios de investidores bancários e
jovens mulheres viciadas em droga. Isso é da sua conta, e eu
concordei há muito tempo em ficar fora das coisas dos Dracul,
contanto que não houvesse mortes de humanos por perda de sangue.
Mas agora... não são os Palatinos que você tem de temer... sou eu."
Dimitri, grudado em um lado da lixeira como um saco de lixo
esperando por ser pego olhou para seu irmão.
"Eu sei disso," ele disse, esfregandosua nuca. "Eu sempre soube
disso. Você não precisava ter me atacado com tanta força, sabe."
"Essas garotas mortas," Lucien disse, ignorando seu irmão. "O que
você sabe sobre elas?"
"Eu lhe disse," Dimitri falou. "Não sei nada sobre elas."
Uma placa de aço que estava abandonada em um lado da lixeira de
repente se ergueu há vários centímetros do chão e começou a oscilar
ameaçadoramente sobre a cabeça de Dimitri.
"Espere," Dimitri gritou, erguendo um braço por sobre seu rosto para
proteger seus belos traços da destruição. "Está bem, está bem. Sim,
eu ouvi falar--"
Lucien deixou a placa de aço cair para o lado. O barulho que fez era
ensurdecedor, e os dois homens podiam ouvir ratos esguichando e
correndo para longe. Dimitri, ainda sentado no lixo no chão do beco,
fez uma careta.
"Mas você não pode achar que eu sei quem está fazendo isso,
Lucien," ele disse. "Obviamente se eu soubesse, pararia isso. Eu nem
sei porque você acharia que é um de nós. É claramente algum doente
pervertido."
"Que bebe sangue humano," Lucien disse calmamente.
"Bem, muita gente o faz," Dimitri disse. "É bem estiloso ser um
vampiro nos dias de hoje. Ou agir como um, de qualquer modo."
Lucien estudou seu irmão mais novo. Ele gostaria de poder acreditar
que Dimitri era tão inocente quanto dizia ser.
Mas Lucien já tinha caído no erro de acreditar na inocência de seu
irmão outras vezes no passado.
E isso quase custou sua vida.
Ele não faria o mesmo erro novamente, especialmente quando aora
poderia envolver vidas de humanos.
"Se eu descobrir que você sabe uma única coisa sobre esses
assassinatos," Lucien disse, "e que você não me disse nem fez algo
para pará-los - ou que por um acaso você está por trás dessas
mortes - eu vou te destruir, e a tudo e a todos que você se importa,
Dimitri. Você entendeu?"
Dimitri, tentando lutar para ficar de fé e sair do lixo, disse, "Irmão!
Nós obviamente começamos com o pé errado mais uma vez. Peço
desculpas pela pequena confusão que houve. Não podemos-"
Mas Lucien não tinha terminado. Ele colocou uma mão no ombro de
seu irmão e o derrubou novamente no lixo do chão de onde ele
estava tentando sair.
Então Lucien se inclinou para ele e sussurrou em seu ouvido, "Não.
Não podemos. Você conhece o acordo. Todos podem beber. Mas
ninguém pode-"
"Pelo amor de Deus, Lucien!" Dimitri gemeu. "Você acha que eu não
sei, depois de todos esses anos? Ninguém pde matar um humano,
não importa quanta sede esteja sentindo. Fazer isso trará retribuição
rápida e absoluta do príncipe. Os Dracul têm vivido sob suas ordens
por mais de um século. Você acha que nós iríamos de alguma forma
ter esquecido disso?"
"Sim," Lucien disse com um sorriso. "Porque vocês já esqueceram
antes. E o farão novamente."
Foi nessa hora que a porta dos fundos do clube abriu e Reginald e
seu parceiro apareceram.
"Sr. Dimitri?" Reginald perguntou, alarmado, vendo seu chefe jogado
no chão do beco.
Lucien se endireitou.
"Dê-lhe uma mãozinha, por favor, Reginald?" Lucien pediu por cima
de seus ombros quando virou para deslizar por ele em direção à
noite. "O Sr. Dimitri irá precisar de toda ajuda que puder ter."
Capítulo Vinte e Um
Quinta-Feira, 15 de abril 19hs
Catedral de São Jorge
Rua 78 Leste, 180
Nova York, Nova York
Meena encarou a catedral. Na luz fraca do fim de tarde, parecia linda,
com suas torres gêmeas se elevando para o céu da primavera e os
elegantes vitrais, mesmo que algumas das janelas estivessem
quebradas em alguns lugares. Quem jogaria pedras na janela de uma
igreja?
Claro, estava cercado com o familiar compensado azul que circundava
todo prédio em Manhattan que estivesse em construção.
Mas o compensado não era nem de longe alto o suficiente para
esconder a gigantesca e amável catedral atrás dele.
Uma catedral que, apenas duas noites atrás, tinha sido a cena de um
ataque inexplicável e brutal.
Tinha mesmo?
Meena ficou parada com Kack Bauer na coleira, no pé da escadaria da
catedral, exatamente onde eles estavam na noite antes de ontem,
quando os morcegos tinham vindo de rasante, do nada.
Ela estava preocupada a princípio, que Jack não iria querer chegar
nem perto da igreja pelo que aconteceu da última vez que eles
tiveram lá.
Mas ele não mostrou nenhum sinal de relutância, saltitando até lá, e
levantando uma pata em um carro estacionado logo em frente.
Obviamente ele não guardava memórias ruins do incidente.
Mas embora a princípio ela própria tenha estado um pouco confusa,
ela lembrava de tudo agora, tão claro como se tivesse acontecido há
apenas alguns minutos, e não quase quarenta e oito horas atrás. Lá
estava o lugar na calçada em que ela tinha se ajoelhado e se
encolhido, com o coração na garganta, por tanto tempo, enquanto os
morcegos se tacavam uma e outra vez contra o corpo e rosto de
Lucien, tentando - ela tinha certeza, no momento - rasgá-lo vivo.
Só que ele tinha ficado bem, seu rosto sem nenhuma marca.
E tudo bem, não tinha nenhuma gota de sangue mesmo, nem nada
do tipo, no chão, para mostrar que tinha tido qualquer tipo de ataque
que fosse.
Mas ela reconheceu a rachadura no pavimento; como ela poderia
esquecer? Seu rosto tinha ficado quase grudado contra ela quando
Lucien tinha se jogado em cima dela, mantendo-a segura.
Era estranho, Meena pensou enquanto encarava as torres da igreja,
se perguntando se os morcegos estavam lá agora e quando iriam
acordar - e atacar - novamente. Ela não sentiu nada demoníaco na
catedral, mesmo que o ponto exato em que ela se encontrava tenha
sido a cena de um ataque selvagem.
Meena não se gabava de, como uma escritora de diálogos para um
programa da qualidade de Insatiable (Insaciável, o nome da novela
que ela escreve, que é o nome do livro tb), ter particularmente o dom
de escrever. Ela não saía por aí dizendo que era um gênio criativo.
Nem pensava nela mesma como mais criativa do que qualquer um
dos artistas que ela via às vezes do lado de fora do Museu
Metropolitano de Arte, aqueles que pintavam Alvoradas amadoras e
jardins e vendiam aos turistas que por um acaso passavam por lá.
Meena sentia que seus roteiros para Insatiable eram basicamente o
mesmo de sempre: uma reflexão do que estava acontecendo
diariamente na vida dos Americanos comuns, assim como
alvoradas... só que um pouco mais dramáticos, para manter o povo
interessado.
Mas ela sempre soube que era um pouquinho mais sensível a
humores do que as outras pessoas, possivelmente por causa de sua
habilidade de dizer quando algo horrível iria acontecer com alguém.
Talves simplesmente não houvesse nada de horrível a ser sentido em
São Jorge. Porque a tragédia em São Jorge tinha sido evitada...
graças ao Lucien, quem quer que ele fosse. Ele tinha salvo sua vida.
Ela não sabia como ou porquê, mas ele o tinha feito.
Meena se perguntava, será que Lucien chegava a pensar sobre o que
tinha acontecido na calçada da igreja, e o quão estranho tinha sido?
Talvez ele também tenha vindo até o lado de fora de São Jorge e se
perguntado a mesma coisa. Talvez ele tenha colocado um anúncio
procurando por ela (ela era muito tímida para colocar um procurando
por ele). Era bom que ela se lembrasse de checar...
"Meena?"
O coração de Meena quase saiu pela boca. Ela girou, meio que
esperando encontrar o próprio Lucien a encarando.
Mas era apenas Jon, parecendo extremamente surpreso por
encontrá-la parada em frente à Catedral de São Jorge em uma noite
de quinta-feira, encarando o nada.
"O que você está fazendo aqui?" Jon perguntou. "Eu achei que você
estava levando Jack Bauer para dar uma volta."
"Eu estava," Meena disse, mostrando a coleira de Jack. Jack Bauer
estava na verdade deitado na calçada, lambendo sua pata, e a
ignorando. "Quero dizer, eu estou. Eu estava só... pensando em uma
coisa."
"Percebi." Jon parou junto a ela e olhou para cima, para as torres da
igreja. Ele estava usando calça de linho e blusa social, e estava, por
alguma razão, usando uma gravata. Em sua mão direita estava uma
sacola de papel marrom. "Você ainda está surtando por causa do
bando de morcegos?"
"Era uma colônia," Meena o corrigiu. "Eu olhei na Wikipedia.
Morcegos vivem em colônias. E eu descobri que não é normal eles
atacarem algo - ou alguém - em grupo da maneira que fizeram na
outra noite. Eles deviam estar totalmente pirados. Eles são na
verdade caçadores solitários. Sabe, porque usam um sonar de alta
freqüência."
Jon olhou para ela como se ela fosse louca. "Tudo bem," ele disse.
Bom saber. Você vai para casa se arrumar? Porque temos o jantar
dos Antonescu em meia hora."
Ela piscou. "O quê?"
"O jantar da condessa," ele disse. "Lembra? Para seu primo, o
príncipe. É quinta-feira de noite. Você disse que nós iríamos."
Meena rolou os olhos. "Ah," ela disse. "Aquilo. Pois é. Nós não
podemos ir. Eu não confirmei presença."
"Meena," Jon disse, sacudindo a cabeça. "Nós já falamos sobre isso.
Nós decidimos que iríamos."
"Bem," Meena disse. "Eu nunca disse a ela que nós iríamos. Então, eu
acho que não podemos. Que pena. Vamos assistir a maratona de The
Office (seriado) no lugar.
"Não," Jon disse. "Comida grátis. Lembra? Além disso, eu já encontrei
Mary Lou no elevador hoje e ela perguntou se nós iríamos e eu disse
que sim. Então nós temos de ir. Olha, eu comprei para eles uma
garrafa de vinho." Ele levantou a sacola de papel que estava
segurando. "Me custou seis pratas. Não vou desperdiçar."
Os ombros de Meena caíram. "Ah, meu Deus," ela disse. "Eu acho
que não consigo aguentar uma festa na casa da condessa essa noite.
Essa tem sido uma semana realmente ruim."
"Eu sei," Jon disse, segurando-a pelo cotovelo e conduzindo-a para
longe da igreja. "Mas você quer conhecer esse tal príncipe, certo?
Não é ele o cara que você quer usar como modelo para o caçador de
vampiros do seu roteiro? O cara para Cheryl?"
"Na verdade," Menna adimitiu, quando eles começaram a andar em
direção à rua Park, 910. "Eu acho que conheci alguém que seria um
modelo melhor para meu príncipe."
"Sério?" Jon disse. "Quem?"
"Ah, só um cara," Meena disse, sabendo o que Jon teria dito sobre
sua aventura com Lucien fora da catedral na noite de anteontem.
E se ela lhe contasse, ele só lhe passaria um sermão de irmão-maisvelho
sobre ela ela sair do apartamento tarde da noite, algo que ela
sabia que não devera ter feito. Em sua sociedade, com a
desigualdade de gêneros, ainda não era completamente seguro para
mulheres americanas vagarem pelas ruas de Nova York sem
companhia tarde da noite. (Embora para ser justa, não era seguro
para ninguém fazer isso, sério. Havia colônias rasantes de morcegos
se escondendo em todos os lugares.)
"Bem, o cara que nós encontraremos essa noite é supostamente um
príncipe," Jon disse. "Aonde mais você vai encontrar um desses?"
"Em lugar nenhum," Meena adimitiu, percebendo que Jon na verdade
estava ansioso para ir a este jantar. Ele não tinha a chance de sair
com muita freqüência, já que estava... bem, falido e desempregado.
Assim como a maioria de seus amigos. Entretenimento era a última
coisa na qual ele podia gastar dinheiro. Ela deveria saber que, para
seu irmão, qualquer chance de deixar o apartamento seria
benvinda... mesmo que fosse simplesmente para ir à casa dos
vizinhos, do outro lado do corredor.
Ela olhou por cima dos ombros para as torres da igreja subindo em
direção ao céu lilás do fim-de-tarde, as nuvens rosas do pôr-do-sol,
enquanto Jon a arrastava para longe. Igrejas, ela pensou. Para que
elas servem?
Para adoração, obviamente. Mas para adorar o quê, exatamente? Um
deus que lhe deu um dom pelo qual você nunca pediu, que era
basicamente uma maldição?
Por outro lado, o que mais as pessoas tinham, exatamente?
Nada.
Nada além da esperança de que as coisas poderiam melhorar algum
dia.
O tipo de esperança que Meena, em seu programa de TV, e os padres
na igreja de São Jorge, tentavam dar para as pessoas.
"Você está certa," Meena disse com um suspiro, virando.
"Nós não temos de ficar a noite toda," Jon disse enquanto eles
viravam a esquina. "Se estiver um saco, a gente vai embora."
"Tá," Meena disse. "E quem sabe? Pode até ser divertido."
Mesmo que, claro, ela não acreditasse nisso nem por um segundo
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