13
A principio pensou que estava sonhando.
Só que vampiros não sonham.
Mas era o único jeito de poder ouvir seu primo Emil e a esposa dele, Mary Lou, tendo a seguinte conversa sobre de, aparentemente sem saber que Lucien era perfeitamente capaz de ouvi-los... embora não pudesse vê-los, por algum motivo.
— Mas o que há de errado com ele? — perguntou Mary Lou. — Por que não abre os olhos?
— Não é nada, Mary Lou — dizia Emil. — Ele está perfeitamente bem. Só está descansando.
—Mas por que não acorda? Está com aparência terrível, para ser franca. Acho que tem alguma coisa errada com ele. Acha que anda se alimentando? E por que está morando aqui, quando poderia estar no W Hotel, onde tem mais de quinhentos canais e serviço de quarto? Se é aquela baboseira de proteger Meena Harper, ele poderia protegê-la do mesmo jeito se estivesse no W. Não faz sentido algum.
—Mary Lou. — Emil parecia frustrado. — Estou com fome, com ressaca por causa de todos os martínis que tomei no voo e não estou com humor para explicar de novo, O príncipe, assim como nós, é procurado pela Palatina. Não há unidade da Palatina em Cingapura, onde moramos. Mas há uma aqui em Manhattan. Mesmo com um novo nome e identidade, Sua Alteza corre um alto risco de ser descob...
— Emil. Não sou burra. — Lucien podia perceber pelo modo como o sotaque sulista de Mary Lou tornava mais evidente que ela estava ficando sem paciência. — Nada disso explica por que ele está morando em uma caverna.
Com o que pareceu ser um tremendo esforço, Lucien ergueu as pálpebras. Não ficou surpreso ao ver o primo e a mulher inclinados sobre ele, que estava deitado no sofá de couro escuro que conseguiu contrabandear, junto com outros itens essenciais, para o túnel escavado pelo Mannette, graças a alguns entregadores de mente fraca (e, portanto, fáceis de enganar).
Ao mesmo tempo que recompensou amplamente os homens por seus esforços, ele se certificou de que não conseguiriam se lembrar depois de onde o dinheiro tinha vindo, nem onde fora parar a mobília que deveriam entregar.
Deixar de matá-los para ter o sangue deles provavelmente foi seu primeiro erro.
Permitir que outras criaturas da noite o vissem vagando pelo túnel evidentemente foi o segundo.
— Olá — disse Lucien, se sentando. — Eu não estava esperando vocês.
Mary Lou, que estava usando botas de camurça roxas de salto agulha que iam até as coxas e uma espécie de poncho forrado de pele, soltou um grito sufocado. Emil deu um salto para trás como se alguém tivesse jogado água benta nele.
— Lamentamos ter perturbado seu descanso, meu senhor — disse ele. Emil parecia arrependido e com medo por sua própria vida. — Você... você parecia...
— Achamos que estivesse morto — admitiu Mary Lou, sendo direta.
— Mas, na verdade, você está mesmo. Então não sabíamos o que havia de errado. Você está com uma aparência péssima. Por que está morando em uma caverna?
Lucien olhou para Mary Lou e depois para Emil, cujo rosto, na luz dos castiçais das paredes, parecia apoplético de constrangimento. Pensou que seu primo Emil nunca teria pelo menos um tipo de preocupação marital: jamais precisaria se preocupar com o que a mulher falava dele pelas costas. Podia contar com o fato de Mary Lou sempre dizer o que estava pensando na cara dele.
— Deixe isso pra lá agora, Mary Lou — falou Emil rapidamente, olhando com fúria para a mulher. Para Lucien, ele disse: — Senhor, você sabe que eu jamais invadiria sua privacidade se um assunto urgente não tivesse aparecido,
uma coisa que julguei não poder esperar até nossa ligação semanal. Espero que não se importe...
— Nem um pouco — mentiu Lucien, graciosamente. Mas por dentro, sua ira fervia. — Estou feliz em vê-los. Querem alguma coisa para beber? O bom de morar em uma caverna — disse ele para Mary Lou enquanto se levantava do sofá e ia até a adega de vinhos — é que ela tem a temperatura perfeita para armazenar minha coleção.
— Peço desculpas, meu senhor — disse o marido dela, envergonhado. O olhar que lançou a Mary Lou podia tê-la perfurado se ela estivesse prestando atenção. Mas ela só tinha olhos para Lucien. — Não sei o que você pode ter ouvido, mas Mary Lou só estava... Bem, ela está preocupada com você. Nós dois estamos. E, é claro, ela ainda é muito jovem. Tem algumas coisas no nosso modo de vida que ela ainda não entende direito...
—Tenho mais de 150 anos — interrompeu Mary Lou. — Sei que pode parecer fichinha pra vocês, mas já sou o que sou há...
— Acredito que o que ela quer dizer, senhor, é que... — disse Emil, nervosamente.
— Não coloque palavras na minha boca, Emil — falou Mary Lou. — Vou simplesmente dizer. Porque alguém precisa fazer isso. Príncipe, eu entendo direitinho. Às vezes fico me culpando por tudo que aconteceu. Se eu não tivesse convidado Meena Harper para o jantar daquela noite, vocês dois nunca teriam se conhecido e essa confusão horrenda nunca teria acontecido...
Ela fez uma pausa dramática, como se quisesse que alguém dissesse: Ah, não, Mary Lou. Nada disso foi culpa sua.
Mas Lucien só ergueu uma sobrancelha e Emil ficou olhando, parecendo querer colocar as mãos ao redor do pescoço dela para tirar a vida que havia ali dentro.
Infelizmente, isso seria inútil, pois Mary Lou havia morrido logo depois da Guerra Civil, quando conheceu e, por mais improvável que parecesse, se apaixonou por Emil. Lucien sempre desconfiou que ele acelerou a morte dela. Mas Mary Lou nunca pareceu se ressentir por isso.
— Mas — prosseguiu ela, com um pouco menos de confiança —, se eu não a tivesse convidado, você, Lucien, passaria o resto da eternidade sem
saber como é o amor verdadeiro. E como teria se sentido então?
— Consideravelmente melhor do que tenho me sentido nos últimos seis meses, imagino — respondeu ele.
— Ah. — Mary Lou parecia desapontada.
— Mary Lou — disse Emil, parecendo mais furioso do que nunca.
— Há uma coisa de importância vital que Sua Alteza e eu precisamos discutir e creio que você não vai achar nada interessante. Você não disse que tinha compras a fazer? — Ele olhou para Lucien. — Peço desculpas, meu senhor. Eu implorei que ela não viesse comigo.
O queixo de Mary Lou caiu.
— Isso não é verdade — disse ela. — Você me implorou para vir. Você sabe que odeia cavernas. — Ela olhou de novo para Lucien. — Independentemente de qualquer coisa, sinto muito mesmo. Eu poderia matar aquela Meena, de verdade. Sei que fiz tudo errado e agora você está pagando por isso. Não consigo entender por que ela escolheria trabalhar para a Palatina em vez de ter a imortalidade e, é claro, ficar com o homem que ama.
— Mary Lou — advertiu Emil entredentes. Ele inclinou a cabeça na direção do caminho por onde tinham entrado.
— Bem, sinto muito — disse ela, e lançou um olhar ao marido. — Emil diz que falo demais. Mas eu só queria que soubesse que farei o que puder para ajudar. Porque você certamente parece precisar. — Ela se inclinou para pegar a bolsa Birkin. — Acho que é melhor eu ir fazer compras agora.
— Acho que seria melhor — concordou o marido.
Mary Lou saiu andando da caverna e os saltos altos estalaram sobre a superfície de pedra depois de saírem da área sobre a qual Lucien espalhara tapetes antigos, onde não havia água pingando. O som acabou sumindo ao longe. Lucien tirou a rolha de uma garrafa de vinho tinto que tinha na mão.
— O que tinha para discutir comigo que fez você viajar por metade do mundo, Emil? — perguntou ele enquanto se servia.
— Bem... — disse Emil. De repente, pareceu ficar reticente, mas continuou mesmo assim, compelido pelo dever, como acontecia há tantos séculos. — Isto, obviamente, meu senhor. — Ele fez um gesto com a mão, indicando a caverna.
Um dos cantos da boca de Lucien se ergueu.
— Você concorda com sua mulher, então, que não é adequado para um homem de berço nobre fazer de um leito de rio subterrâneo seu lar?
—Não é só que não seja adequado, Lucien. É loucura.
— É mesmo? — Agora os dois cantos da boca de Lucien se ergueram. — Mas sou o príncipe das trevas. E você sabe tão bem quanto eu, Emil, que nunca fui muito bom no meu cargo. Sob meu governo, não fiz nada além de criar decretos como o que permite que meu clã beba todo o sangue humano que quiser, mas que o impede de matar suas vítimas. Nunca cheguei a saber o que os outros dás por aí faziam, porque sempre estava ocupado demais dando aula de história do leste europeu para universitários no turno da noite e nem me importava. Que tipo de filho de Satanás isso me torna? Tudo que sua mulher estava falando antes, “a confusão horrenda” da última primavera, na qual todos nós e tantos inocentes quase morreram, nada daquilo foi culpa dela. Foi minha culpa, Emil. Minha. E nada disso teria acontecido se eu tivesse aceitado o destino que meu pai me deixou ao morrer, em vez de lutar contra ele, como faço há tanto tempo.
Os olhos de Emil se arregalaram. Ele pareceu mais surpreso do que horrorizado.
— Você quer dizer...
— Sem dúvida — confirmou Lucien. — Por isso estou aqui. O riacho é minha única esperança. Não tenho força de vontade para fazer sozinho. Mas com o Mannette...
— Mas parece óbvio que ele está matando você — falou Emil. — Comemoro sua decisão de finalmente aceitar seu destino de braços abertos, pois sei que sua relutância em fazer isso lhe deu inimigos que tentaram nos ferir e ferir você. Isso vai torná-lo um líder mais forte. Mas esse riacho... Não sei. Mesmo você sendo o filho de Satã na terra e esse riacho sendo uma fonte direta do poder dele, não posso dizer com certeza que esteja obtendo qualquer benefício dele. Minha esposa talvez tenha sido direta demais no modo como falou, mas você parece mesmo muito doente, meu senhor. Tem se alimentado?
Lucien apontou para uma geladeira de aço inoxidável escondida nas
sombras.
— É claro.
— Então não consigo entender. Talvez por estar a poucas quadras do quartel-general da Palatina? E Meena Harper? Me perdoe por dizer isso, senhor, mas ela parece ter um efeito debilitante sobre você...
— Também tenho um plano quanto a isso — disse Lucien obscura- mente, servindo um pouco de vinho em uma taça. — Não se preocupe. Posso perguntar como me descobriu?
— Ah. — Emil pareceu infeliz ao pegar a taça de vinho encorpado vermelho-escuro que o príncipe ofereceu a ele. — Imagino que ninguém lhe contou. É claro que não. Quem faria isso?
— Me contou o quê? — Lucien se sentou no sofá. — Por que parece estar com tanto medo? Estou furioso com você, mas não vou matá-lo. Não hoje. Você teve sorte de chegar em uma boa hora. Embora eu esteja um tanto incomodado por uma coisa.
Emil engoliu um pouco de vinho.
— O quê?
— Alguém transformou um dos amigos de Meena. E o amigo dela a atacou ontem à noite. Depois, fomos seguidos. Precisamos descobrir quem era.
Emil engasgou.
— Não foi um de nós. Posso garantir — disse ele, depois de se recuperar. — Não há mais nós.
— É, eu sei. — Lucien entregou-lhe um guardanapo. — Então resta quem?
Emil sacudiu a cabeça enquanto limpava os cantos da boca com o guardanapo.
— Não sei. Há muitos canalhas por aí. Foi assim que eu soube sobre isso. — Ele fez um gesto que apontava para a caverna. — Alguém viu você nos túneis. Pelo menos o boato é esse. Não achei que pudesse ser verdade. Eu sabia que você estava na cidade, é claro... Onde, talvez se lembre, aconselhei que não ficasse. Mas então lembrei como você gostava de ficar perto desse riacho, para ver como estava indo o progresso de canalização, e pensei: “Não,
ele não faria isso.” Mas você fez. Meu senhor. — Ele balançou a cabeça. — Entendo suas motivações. Entendo mesmo. E as respeito. Mas deve haver outro meio. Outro lugar, não tão perto da Palatina, perto dela, para que você...
Lucien balançou a cabeça.
— Não. É este o lugar. Eu sinto, Emil. Admito que tive um leve contratempo. Ontem à noite, quando Meena foi atacada, tive uma... altercação. Exigiu mais de mim do que eu esperaria. Não voltei a ter a força de sempre desde o incidente na St. George. Mas estou me recuperando gradualmente, e em breve espero...
— Não.— Emil enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um folheto, que entregou a Lucien. — Você precisa sair daqui. Agora.
Lucien olhou para o folheto roxo e dourado, que estava anunciando uma nova exposição no Metropolitan Museum of Art.
— Tesouros do Vaticano: uma jornada pela fé e pela arte. O que isso poderia ter a ver comigo?
— A exposição exibe objetos de arte raros e documentos históricos relacionados à evolução das Igrejas e do papado — explicou Emil. — É uma das maiores coleções que o Vaticano permitiu viajar pelo mundo. Inclui mais de quinhentos objetos, muitos dos quais jamais/oram vistos pelo público. Sua primeira parada é o Metropolitan.
— Não é uma exposição que eu esteja ansioso para ir visitar — disse Lucien secamente. — Mas ainda não consigo enxergar como isso me coloca em perigo.
— Lucien, já vi o catálogo. Um dos objetos em exibição é da época do seu pai, de antes de ele morrer. De antes da morte original dele. É um certo manuscrito iluminado.
Lucien pareceu intrigado.
—E daí?
— É um livro de horas do século XV. Dizem que vem da região perto do castelo Poenari... e, pela descrição, parece ter sido presente para uma jovem princesa quando foi prometida ao apaixonado futuro marido.
Lucien o encarou por um minuto inteiro. Não tinha certeza de ter ouvido corretamente. Havia passado muito tempo nos subterrâneos, vivendo na
escuridão... absorvendo as trevas, tentando se unir à elas.
Mas as trevas conseguiam mexer com a mente de um homem.
— O livro de horas da minha mãe? — gemeu ele, por fim. — Como é possível? Ele sumiu quando fui capturado pelos otomanos, antes de meu pai... — A voz dele sumiu. A lembrança do que o pai havia feito, não só a ele, mas a Emil, era dolorosa demais para qualquer um dos dois mencionar. O pai de Lucien os transformara no que eram.
Depois, matou o que os acadêmicos avaliavam ser dezenas de milhares de seres humanos. Mas qualquer um que estivesse vivo na época sabia que o número era bem maior.
Lucien tinha passado quinhentos anos jurando que jamais seria remotamente parecido com o pai.
Mas recentemente percebera que a única forma de ter o que desejava era se tornando um pouco mais como ele.
Emil tossiu.
— Sim — disse ele. — Bem, só menciono isso porque me parece que...
— O Vaticano está com ele? — Lucien ainda estava perplexo. — Esse tempo todo?
— Era uma época confusa — disse Emil, em tom consolador. — Principalmente depois que seu pai... bem. — Ele ficou em silêncio, diplomaticamente.
Lucien ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro sobre os tapetes.
— Esse livro — disse ele. — Ontem à noite, Meena falou sobre ele.
— Mas isso significa... — Emil parecia estupefato. — Meu senhor, você sabe o que isso significa. Se está na coleção, só pode querer dizer que ela teve algo a ver com o fato de ele estar lá.
— Não. Tenho certeza de que não. Ela disse que o viu em um sonho.
Lucien fechou e abriu os punhos, sem nem perceber o gesto. As únicas lembranças felizes que tinha da infância eram relacionadas àquele livro. Sua mãe o ensinou a ler com ele.
Por isso havia achado o sonho de Meena tão perturbador. A cena que ela descreveu, da mulher de cabelo escuro sentada ao lado da janela, virando as
páginas de um manuscrito iluminado com um garotinho, parecia quase ter sido tirada da cabeça dele.
Era uma das imagens que ele esperava desesperadamente que o Mannette roubasse para sempre, por que achava que ela, assim como saber que Meena Harper existia mas não queria ficar com ele, não fazia nada além de atormentá-lo.
Como isso podia estar acontecendo agora, quando estava tão perto? E por quê? Seria algum tipo de tentação final, um teste, para ver se ele merecia a coroa negra?
Ou seria outra coisa? Uma liberação sem precedentes de documentos históricos e obras de arte por parte do Vaticano? Uma exposição desses objetos na cidade em que se dizia que ele estava se escondendo? E então...
— Ontem à noite — murmurou ele, perplexo. — Era uma armação. Tinha que ser. Para me fazer sair do meu esconderijo, se eu ainda estivesse nas redondezas. E ela foi a isca.
— Não tenho certeza de estar acompanhando, senhor — disse Emil.
— Está falando da Srta. Harper?
Lucien o ignorou.
— Ela só não sabia. Eu juraria que ela não sabia. Aqueles malditos canalhas desalmados.
— Senhor—disse Emil. — Não sei de quem você está falando. Quem é um maldito canalha desalmado?
— Não somos nós desta vez, Emil. — Lucien balançou a cabeça. Acredite se quiser. Não é um de nós.
— Sempre soubemos que não, senhor. Por isso, vim assim que soube. Eu tinha certeza de que você precisaria de mim. Sugiro que me deixe levá-lo daqui o mais rápido possível. É óbvio que, por mais fortes que os poderes deste lugar possam ter sido, não estão fortes o bastante para se equiparar ao poder do que está acontecendo dentro da Palatina. Mary Lou e eu encontraremos outro lugar para você...
— Não — disse Lucien, negando com a cabeça. — Não precisa. Eu vou. Sempre planejei ir, em algum momento. Mas só quando estiver pronto. —. Ele lançou um olhar gelado em direção a Emil. — E não vou embora sem
aquilo que me pertence por direito.
Emil colocou a taça de vinho sobre uma mesa com um suspiro.
— Meu senhor, recuperar o livro é exatamente o que esperam que faça. Sem dúvida, foi por isso que o colocaram no acervo. É o Vaticano. Esta noite há a recepção que comemora a grande inauguração da exposição nos Estados Unidos. Todo mundo da arquidiocese vai estar lá. E suspeito que todo mundo da Palatina. Estarão esperando.
— Estou contando com isso — disse Lucien, com um brilho vermelho nos olhos.
— Então — falou Emil, parecendo desconfortável —, quando você disse que não vai embora sem o que lhe pertence por direito, não estava se referindo apenas ao livro de sua mãe.
— Não estava — disse Lucien.
Emil pegou a taça de vinho e bebeu tudo.
— Era o que eu temia — revelou ele.
14
Jon levantou os óculos escuros e apertou os olhos para enxergar o objeto preso na beirada do telhado.
— Consegue ver alguma diferença? — perguntou ele.
— Acho que ele está olhando para você com raiva — disse o melhor amigo dele, Adam.
— Não ligo para a expressão dele — afirmou Jon. — Está morto?
— Bem. Considerando que nunca esteve vivo, é meio difícil saber.
Jon olhou com uma expressão de raiva. Adam estava certo. O gnomo de jardim equilibrado entre o telhado do seu prédio e o do prédio ao lado não só não mostrava sinais de ter levado um tiro, como aparentava uma leve expressão de deboche.
Jon passou a mão sobre a parte do rosto onde as costeletas estavam crescendo, mas não tão rápido quanto ele esperava. Tinha muito tempo para pensar durante o turno de trabalho, atrás do balcão do Beanery — exceto quando Yalena ia lá antes do turno de trabalho no brechó ao lado, o que sempre o distraía —, e decidiu que talvez tivesse mais chance de ser contratado pela Guarda Palatina se aparentasse ser um deles. Alaric Wulf, por exemplo, tinha aquela coisa loura meio Capitão América a seu favor.
Sabia que nunca chegaria àquele nível de excelência, mas provavelmente poderia incorporar um pouco de Wolverine em seu estilo pessoal.
Ele olhou para o amigo. Adam, por outro lado, nunca ia ser mais do que o ajudante nerd. Não era culpa dele, na verdade. Era apenas o papel para o qual havia nascido. Jon estava um pouco aliviado por não ser o papel ao qual ele mesmo foi relegado. Isso seria muito ruim.
— Talvez funcione e gnomos sejam imunes a raios UV — teorizou
Adam.
Definitivamente o ajudante nerd.
— Gnomos são imunes a raios UV — disse Jon. — Principalmente os de gesso. Já expliquei que isso era apenas hipotético.
— Então acho que não entendi por que você está atirando em um. — Adam se sentou na cadeira dobrável mais próxima, depois se abaixou para pegar Joanie no bebê conforto e colocá-la no colo.
Infelizmente, Joanie não gostou disso. Ela soltou um grito alto o bastante para assustar os pombos que estavam em um cabo de energia próximo. Eles saíram voando de repente.
Adam rapidamente tirou as mãos e disse:
— Me desculpe. Esqueci.
Jack Bauer, que estava deitado na sombra ao lado do bebê conforto, ergueu a cabeça e olhou para os dois com irritação. Assim que Adam se reclinou na cadeira, o cachorro deitou a cabeça e relaxou. Joanie parou de chorar e começou a fazer barulhinhos alegres de bebê.
— O que foi isso? — perguntou Jon.
— Cachorros — explicou Adam com um suspiro. — A criança é doida por cachorros. Principalmente por aquele. Não sei por quê.
— Ah — disse Jon. — Provavelmente porque ela se sente em segurança perto dele, pois sabe que é um cachorro que fareja demônios. Aposto que ela herdou um pouco do desconforto da mãe perto de vampiros, desde o útero.
Adam suspirou de novo.
— Que ótimo. Como se eu não tivesse problemas suficientes. Agora tenho um bebê que adora cachorros caçadores de vampiros, uma esposa que vive com tanto medo de demônios que reprimiu todas as lembranças de que eles existam e um melhor amigo que não fala de outra coisa. Será que podemos, por favor, mudar de assunto?
— Tudo bem — respondeu Jon.
Ele se sentou na cadeira ao lado da de Adam, depois pegou uma gelada no coo ler que havia entre eles. Não dava para ficar muito melhor do que isso, pensou ele. Seu cachorro, seu melhor amigo, uma Bud e o bebê do seu melhor amigo, relaxando no telhado, com os sons da cidade bem abaixo. Podia ouvir
aquele som não tão distante da festa de San Gennaro, que estava acontecendo no final da rua, a música da roda-gigante, os caras das barracas de comida gritando para vender suas mercadorias. Quando o vento soprava na direção certa, podia sentir o cheiro de palitos de mozarela frita e carne de porco assada.
A vida era boa.
Deu um tapinha no objeto que tinha no colo, que parecia um secador de cabelo, só que mais corpulento e bem menos aerodinâmico.
— Estou dizendo, cara, se eu conseguir fazer essa coisa funcionar, Leisha não vai mais precisar se preocupar. E nem você, porque ajudou no design. O futuro dessa garotinha vai estar feito.
— Já falei. Leisha não se lembra do que aconteceu naquela noite na catedral de St. George — disse Adam. — E eu prefiro assim. Você realmente acha que vai conseguir ser contratado pela maior força de elite exterminadora de demônios do planeta só por inventar uma arma que usa raios UV para matar vampiros?
— Por que não? — perguntou Jon. — Você não preferiria atirar em um vampiro de uma distância de 30 metros em vez de enfiar uma estaca no coração dele a 30 centímetros de distância, tão perto daqueles caninos?
— Acho que sim — disse Adam, dando de ombros.
— Exatamente. As forças policiais já usam tecnologia espectroscópica para detectar evidências, como sangue e resíduos deixados por produtos químicos usados em laboratórios de metanfetamina. Só estou aplicando isso de uma maneira diferente. E dobrei a quantidade de filamentos UV na câmara espelhada, para intensificar o foco do raio. Deve funcionar.
— Ele olhou para a arma que tinha no colo. — Tem que funcionar.
— Isso é luz ultravioleta — disse Adam. — Não é luz do sol. Como sabe se os raios UV fazem alguma coisa aos vampiros?
— É o que faz as plantas crescerem, não é? — perguntou Jon. — Onde acha que consegui os filamentos?
— Ah — disse Adam. O bebê tinha se inclinado para a frente e estava pegando punhados do pelo de Jack Bauer. O cachorro olhou para cima, viu que era apenas Joanie, bocejou e voltou a dormir. — Me desculpe, esqueci.
Aqueles seus amigos maconheiros?
— São horticultores, Adam. Não maconheiros. Estão prestando um serviço para as pessoas necessitadas. Como pacientes com câncer.
— Entendi — disse Adam.
— E não se esqueça dos vizinhos de porta de Meena. Lembra?
—Ah, certo. Os que vocês descobriram serem vampiros.
—Isso mesmo. Eles ficavam bem desde que não fossem atingidos diretamente pela luz do sol. Tinham proteção contra raios UV em todas as janelas. Estou falando, a SuperEstaca vai vender muito.
— Imagino que sim — falou Adam evasivamente.
— Acho que devíamos falar com Meena sobre encontrar um vampiro de verdade em quem testar a arma antes de marcarmos uma reunião com o Wulf Man. Você sabe. Pra ter certeza de que realmente transforma vampiros em pó antes de sairmos falando que funciona. Não íamos querer fazer papel de bobos.
— Não seria a primeira vez — disse Adam.
—Verdade. Tem uns caras que vão ao Beanery todos os domingos... Juro que podem ser viciados em sangue. Compram cafés americanos e ficam sentados por horas, olhando para os laptops. Nem olham para Yalena quando ela entra. Como pode isso? Não é normal. Até gays olham pra Yalena.
Adam olhou para o relógio.
— É agora que você começa a falar sobre Yalena? Porque Joanie e eu temos que ir buscar Leisha no trabalho e podíamos sair mais cedo se é isso que você vai fazer agora.
Ofendido, Jon disse:
— Não faço isso. Falo muito sobre Yalena? Eu falo mesmo?
— Fala — respondeu Adam.
Jon suspirou.
— Se eu conseguir que a Palatina leve esta arma a sério e depois conseguir um emprego de verdade e começar a ganhar dinheiro, posso ter meu próprio apartamento e vou parar de explorar minha irmã. E aí, Yalena talvez saia comigo.
—Jonathan. Quer meu conselho?
— Eu devia atirar naqueles caras, não é? Na próxima vez em que entrarem no Beanery? Se forem vampiros de verdade, vão explodir. E se não forem, não vai causar nada a eles, como com o gnomo. Não vai ter problema algum.
— Não — disse Adam. — Acho que devia chamar Yalena para sair. Acho que ela não liga para você não ter um emprego de verdade e nem por você morar com sua irmã. É uma boa moça. Não sei por que você está esperando. A vida é curta. Olhe para mim e para Leisha. Estou sem trabalho há... quase dois anos?
Jon pensou no assunto.
— É. Acho que é isso mesmo.
— E nesse tempo, nós dois quase fomos mortos por vampiros assassinos, graças à sua irmã.
— Verdade — concordou Jon.
— Mas temos este lindo bebê. — Adam indicou Joanie com a cabeça, que estava sorrindo e dando a mamadeira para Jack Bauer lamber, o que ele estava fazendo com entusiasmo. — E não estou dizendo que no temos problemas — disse Adam. — Nós temos. Como o tato de que nosso bebê prefere a companhia do seu cachorro a seres humanos. Mas esse não é o pior problema que se pode ter. E para chegar a ele, precisei dar o primeiro passo e convidar Leisha pra sair. Então pare de ser medroso e convide-a.
Jon parecia em dúvida.
— Não sei, cara.
Adam colocou a garrafa de cerveja no chão e ficou de pé.
— Pense no assunto. Enquanto isso, Joanie e eu vamos para o salão buscar Leisha. Vemos você depois. Ah, você talvez queira tapar os ouvidos.
Ele ergueu o bebê conforto, O efeito imediato foi Joanie começar a gritar tão alto que os pombos que haviam voltado para o cabo de energia voaram de novo. Jack Bauer baixou as orelhas e soltou um choramingo.
— Até mais — gritou Adam, acenando, com a voz quase inaudível por causa do protesto da filha por ter sido afastada do cachorro que amava.
— Até mais — disse Jon, ficando de pé para retribuir o aceno.
Adam e Joanie desapareceram pela porta do telhado. Jon ainda ouviu o
choro do bebê vários minutos depois, até que sumiu.
— Pare de ser medroso e convide-a — repetiu ele. Em seguida, se virou com a SuperEstaca na mão e fez uma pose de atirador. — Hasta la vista, vampiro — disse ele para o gnomo.
E apertou o gatilho.
15
Meena respirou fundo e destravou todas as três trancas do apartamento que dividia como irmão e abriu a porta. Foi recepcionada pelo latido entusiasmado de Jack Bauer e pelo cheiro de pizza.
— Onde você estava? — perguntou Jonathan, deitado no sofá na frente da TV e de um laptop, que estava na mesa de centro ao lado de um prato com uma fatia de pizza pela metade.
— Nova Jersey — disse Meena, fechando a porta e trancando-a atrás de si. Ela respirou fundo de novo antes de se virar, se inclinar e cumprimentar o cachorro, coçando com afeição as duas orelhas dele.
— Ah, Deus — gemeu Jon. Tomou um gole da lata de refrigerante que estava segurando, sem tirar os olhos da TV à sua frente. Estava passando um jogo de futebol americano. — Nova Jersey? Por quê?
— Pois é — disse Meena, se endireitando. Tentou manter a voz firme.
— Porque matei David Delmonico ontem à noite.
Jonathan engasgou com o refrigerante que tinha na boca. Vários pingos se espalharam pela tela do computador e até mesmo na tela da TV widescreen. Mas ele não pareceu perceber. Só ficou olhando para Meena, horrorizado.
—Você o quê?
— Alguém o transformou em vampiro — disse Meena, e andou até o sofá para pegar o controle remoto e baixar o volume da televisão. — Ele me atacou. Eu enfiei uma estaca nele. Foi a mãe dele quem ligou hoje de manhã. Tive que ir a Nova Jersey pra falar com uma detetive de polícia. Sobrou pizza? Estou morrendo de fome.
Jonathan continuou a olhar para ela fixamente. Meena esperava que não fosse por ele poder ver que ela havia chorado. Tentara limpar todas as
evidências de lágrimas checando seu rosto no espelho do carro, antes de Alaric deixá-la em casa.
Não que ela não quisesse que o irmão soubesse o quanto estava perturbada com os eventos das últimas 24 horas. Queria protegê-lo e impedir que também ficasse perturbado. Os dois eram unidos... Haviam sobrevivido à criação dos pais afinal, um casal que se mostrara peculiarmente desqualificado para ter filhos.
Desgostosos e constrangidos pela filha que dizia a todos que descobria como seria a morte de cada um, o Sr. e a Sra. Harper preferiram acreditar em um psiquiatra que disse que o problema sumiria se não o encorajassem.
Mas como Meena estava informando às pessoas amigas e queridas sobre o fim iminente por um desejo genuíno de impedir que eles morressem, e não por querer a atenção deles, o afastamento dos pais produziu uma adolescente neurótica e isolada que depois se tornou, como acontecia muito, uma escritora neurótica e isolada.
A dedicação de toda a atenção positiva dos pais para o filho atlético e popular, Jonathan, o tornou um jovem ajustado e extrovertido...
... até que ele perdeu o emprego de analista financeiro bem-sucedido.
O Sr. e a Sra. Harper decidiram que isso também era um comportamento de quem quer atenção, que podia ser resolvido com uma liçãozinha, e viraram as costas, achando que o filho se reergueria mais rápido se soubesse que não tinha os pais em quem se apoiar.
Essa atitude poderia ter sido a certa se Jonathan tivesse perdido o emprego como resultado de um problema de drogas ou de desempenho.
Mas ele sofrera com um corte de pessoal, como tantos milhões de outros, durante a recessão.
Então foi Meena que acabou acolhendo o irmão mais velho, Jonathan, quando ele foi despejado do apartamento, e foi Jonathan quem tentou resgatar Meena dos Dracul quando eles tentaram tirar cada mililitro de sangue dela para que também pudessem prever o futuro.
Meena amava o irmão e faria qualquer coisa por ele, e sabia que ele sentia a mesma coisa. Não tinham mais ninguém, só um ao outro.
Mas também sabia que havia coisas com as quais ele não conseguia lidar.
Por esse motivo, a Palatina tinha escolhido empregá-la, e não a ele, embora fosse Jonathan quem quisesse tanto um emprego lá. Precisamente porque ele dizia coisas como a que falou quando ela entrou pela porta naquela tarde, depois de voltar de Nova Jersey.
— Sabe, não estou surpreso por David Delmonico ter sido vampirizado e ter tentado matar você. — Jonathan esticou a mão até o chão e pegou uma caixa de pizza, que entregou a Meena sem tirar os olhos da tela da TV. — Aquele cara era um cretino. Não sei o que você viu nele. O que era aquela mania de querer botar coroas de cerâmica em todo mundo?
Meena pegou uma fatia de pizza de dentro da caixa. Torcia para que o irmão não percebesse o quanto suas mãos estavam tremendo. Quando ia se acalmar?
Provavelmente não em breve, depois das coisas que Alaric contou para ela no carro sobre os turistas desaparecidos.
— Não sei — disse ela. — Ele era um amor quando o conheci, você sabe.
— Se com um amor “você quiser dizer que” tinha data de validade carimbada na testa — disse Jonathan. — Não consigo acreditar que foi você quem acabou com ele. David não se casou com uma enfermeira?
Meena fez uma careta no meio da mordida na pizza.
—Casou. Brianna. Ela está desaparecida.
— Desaparecida? — Jonathan pareceu empolgado. — Não acredito! Será que David a matou?
Ela colocou a borda da pizza de volta na caixa.
— Sabe de uma coisa? — Era difícil manter a voz firme. — Foi um dia longo e não estou com vontade de conversar agora. Só quero tomar um banho quente antes de ter que trocar de roupa e sair de novo...
— Olha — disse Jonathan, tirando a caixa de pizza do colo dela. — Se você quiser que eu ligue para Adam e Leisha e peça para virem para cá um pouco mais tarde, tudo bem. Não tem problema. Mas eles vão ter um troço quando souberem da morte de David...
Meena ficou olhando para ele.
— Adam e Leisha vêm aqui? Do que você está falado?
— A festa de San Gennaro — disse ele, retribuindo o olhar. — Lembra? Leisha e Adam estão vindo com o bebê. Adam foi buscá-la no trabalho agora e eles vêm pra cá. Estamos planejando esse passeio há cerca de oito semanas. Não me diga que esqueceu.
Meena esticou a mão trêmula para acariciar a barriga de Jack Bauer, pois o cachorro tinha pulado em seu colo.
— Esqueci — disse ela baixinho.
— Meena. Se vai dizer que quer cancelar, deixe-me dizer uma coisa — avisou Jonathan. — Adam passou o dia aqui, falando sobre o quanto está ansioso pra fazer isso. Eles não saem juntos de casa há meses. Literalmente. Meses.
Meena se encolheu. Sabia que era verdade. Mas também sabia que agora era a pior época do mundo para seus amigos decidirem recomeçar a ter vida social.
—Jonathan. Você tem que ligar pra Adam e dizer que houve uma mudança de planos. Mande-os voltar pra casa, pedir comida chinesa e ver um filme no pay-per-view.
— Que droga, Meena — disse Jon, se levantando do sofá. — Devo ligar pra eles e dizer que você não pode ir porque... Por quê? Porque está muito chateada de ter matado seu ex-namorado
— Não é esse o motivo — disse Meena, olhando para ele irritada. Não posso ir porque alguém está transformando pessoas que conheço em vampiros e soltando-as pela cidade, e na noite de ontem uma dessas pessoas tentou me matar. Atualmente, a mulher dele está desaparecida. Você acha que vou botar em risco as vidas de Adam e Leisha ao convidá-los pra ir comigo a uma feira de rua? Ainda mais uma que vai ter um milhão de pessoas neste fim de semana? Levando o bebê? Isso é loucura. Qualquer coisa pode acontecer. Eles nem deveriam estar na rua agora.
Jonathan parecia envergonhado.
— Ah. Bem, se você coloca as coisas desse jeito... é, eles provavelmente vão ficar mais seguros em casa. O que há com todos os caras mortos-vivos querendo matar você, afinal?
— Não sei — disse Meena com tristeza enquanto acariciava Jack Bauer.
— Tenho um dom especial.
— Fala sério. — Depois Jonathan se alegrou. — Ei, isso quer dizer que vão mandar alguém para tomar conta de você? Alguém da Palatina? Alaric, talvez?
Meena suspirou. Parecia ter sido poucas semanas antes que ela e o irmão haviam sido informados — sob a mira de uma espada, praticamente que existiam forças das trevas, forças paranormais, e que o novo namorado de Meena, Lucien Antonesco, estava por trás delas. Alaric WuIf, o indivíduo enviado para informá-los, declarou que não ia sair do apartamento até que ela revelasse o paradeiro de Lucien.
Foi quando Jonathan desenvolveu sua fascinação pela Palatina... e a paixonite por Alaric Wulf. Meena queria que o irmão encontrasse logo uma namorada para deixar isso para trás e ter com que se distrair.
Mas ela sabia que era difícil arrumar uma namorada quando você trabalhava como barista e dormia em um quarto do tamanho de um armário no apartamento da sua irmã em Little Italy. Mesmo quando o objeto de sua afeição era uma aspirante a atriz do leste europeu que, apenas seis meses antes, tinha sido escrava em um círculo sexual vampiresco e que agora trabalhava como costureira no brechó da igreja.
E Meena não podia culpar completamente o irmão pela paixonite por Alaric. Por mais frustrante que Alaric pudesse ser às vezes, — como na entrada da delegacia de Freewell naquela manhã, por exemplo, quando a abraçou, foi muito gentil, forte e reconfortante e a fez se sentir segura — , ele podia ser... bem, incrível.
Mas sabia que não era esse o motivo pelo qual Jonathan esperava ansiosamente a chegada dele.
— Você acha que ele vai olhar minha SuperEstaca? — perguntou Jonathan
Meena viu que o irmão estava segurando um objeto curioso na mão. Era o secador de cabelo dela.
Mas, ao mesmo tempo, não era. O secador de cabelo era amarelo. Aquilo era preto.
— Está quase funcionando, sabe — disse Jonathan. Ele apertou o gatilho.
Só que, quando fez isso, não se ouviu som algum. Nem ar. — Bem, quase. Ainda tem alguns problemas. E ainda não consegui testar de verdade. Uma pena que você não estivesse com ela quando David apareceu. Ele teria sido uma cobaia perfeita.
Meena não tinha a menor ideia do que ele estava falando. Mas amava o irmão.
— Tenho certeza de que Alaric vai dar uma olhada nela quando chegar — disse ela hesitante. — Ele foi em casa pra pegar umas coisas. Depois vem para deixar as tais coisas aqui e me buscar. Temos uma festa esta noite. Então ouça bem, enquanto estivermos fora, é importante que você não saia e nem convide ninguém pra vir aqui. Ninguém. Tem suas estacas, certo? E água benta? Mantenha as janelas fechadas e não abra a porta até voltarmos.
Jonathan parecia chocado.
— Você vai sair? Mas se a cidade está sob algum tipo de ataque vampiresco, não seria mais seguro você...
— A trabalho — disse Meena, enfatizando a palavra. — É uma festa de trabalho. Coisa da Palatina.
Concordara em ir à inauguração não porque Alaric a tivesse intimidado (embora tenha tentado), mas porque Abraham havia enfatizado a importância da presença dela.
E depois de ouvir a teoria de Alaric sobre o que achava estar acontecendo com os turistas desaparecidos, ela pensou que provavelmente seria prudente fazer uma aparição, ao menos para ter certeza de que ele não diria aquilo para mais ninguém.
Lucien podia ser parcialmente monstro. Mas isso não o tornava um animal.
É claro que havia uma parte bem pequena dela que não podia deixar de se lembrar dos olhos de Lucien na noite anterior, quando ele a beijara no quarto. Não estavam com uma aparência muito humana.
Mas isso não reforçava o argumento dela de que Lucien não podia ser a pessoa responsável, se os turistas estavam mesmo sendo devorados por alguma Criatura demoníaca? Porque então ele não pareceria tão faminto?
E se alguém — ou alguma coisa —- realmente estava andando por
Manhattan e se alimentando dos turistas da cidade, certamente o príncipe das trevas saberia. Ele era o governante dos demônios.
Mas Meena não tinha certeza, considerando a condição em que Lucien estava na note de ontem, do quanto de andava governando ultimamente. Será que ele saberia — e sequer se importaria -— com quem ou o que era responsável pelo fato de que seres humanos estavam desaparecendo em uma velocidade um tanto alarmante em Manhattan? Ele não sabia quem tinha transformado David.
Meena estava mais preocupada do que nunca com Lucien, principalmente porque ele se recusara a ouvir a teoria dela sobre o sonho. Pareceu quase causar-lhe dor física quando ela tocou no assunto.
E agora que já o tinha convidado para o quarto, não podia desconvidá-lo Alguma coisa lhe dizia que ele ia aparecer esta noite, procurando por ela.
E não seria para conversar sobre o sonho.
É claro que essa não era a única razão para ela ter dado de ombros e dito que não precisava, mas que tudo bem, quando Alaric declarou no carro que ficaria na casa dela nos próximos dias.
Não queria que ele desconfiasse da verdade... de que Lucien não só á sabia onde ela morava, mas que na noite de Ontem ela o havia convidado para entrar. Os espíritos do mal não podiam entrar em uma casa a não ser que fossem convidados. Agora Lucien tinha trânsito livre no apartamento e podia ir lá sempre que quisesse, desde que evitasse os crucifixos e o alho.
Mas o que a assustava ainda mais era que, depois do modo como Lucien tinha se comportado — o modo como os olhos dele brilharam, como se houvesse algum tipo de fogo ardendo dentro dele —-, a ideia de Alaric estar perto no caso de Lucien aparecer de novo parecia mesmo um pouco tranquilizadora...
O que estava acontecendo com ela? Sempre tinha confiado em Lucien e acreditado que ele jamais faria qualquer coisa que a ferisse. Ontem à noite, ele jurou que ainda a amava e houve um desespero em seus beijos, o que a convenceu de que ele falava a verdade.
Então por que acharia a ideia de ter Alaric por perto tranquilizadora? Logo Alaric, que sempre quisera apenas uma coisa: a morte de Lucien.
Não sabia. Havia uma parte dela que tinha certeza de que não queria saber.
E deve ter sido por isso que, algumas horas depois, quando reconheceu a batida na porta que ela e Alaric haviam combinado, o coração de Meena deu um pequeno salto. Tinha começado a se sentir quase humana de novo depois de tomar banho e colocar um vestido colado preto e sapatos de salto novos que havia comprado (embora tenha sido na liquidação).
Ela não entendeu o coração sobressaltado. Não estava ansiosa para ver Alaric.
— Eu abro — disse ela.
Assim que abriu a porta e viu o rosto dele, ela soube.
Não era a roupa que Alaric estava usando. Ele estava bonito com o smoking e com o cabelo louro-escuro ainda úmido do banho. Alaric era exigente com suas roupas e aparência.
Não. Eram os olhos dele. Não havia sinal daquela malandragem juvenil que costumava ver neles. Também não estavam brilhando com a habitual determinação mortal. Ela não reconheceu o olhar que viu ali.
— O que foi? -—perguntou ela, sentindo o coração saltar de novo, bem mais forte desta vez. O que tinha acontecido? Lucien. Será que alguma coisa acontecera a Lucien? Já? Mas Alaric acabara de chegar. Será que Lucien estava no corredor...? Meena tentou olhar atrás dos ombros largos de Alaric.
— Ligue a televisão —— disse ele sombriamente.
Naquele momento, ela reconheceu o olhar. Só tinha visto esse olhar no rosto dele uma vez: na catedral de St. George, quando Lucien Antonesco quase os matou.
Era medo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário