quinta-feira, 25 de julho de 2013

mord - mg - parte 2 - 7-8-9

parte 2
7

Meena acordou com a estridente vibração do celular e olhou para o relógio digital na mesa de cabeceira. Eram apenas 6 horas da manhã, duas horas antes de seu horário habitual de acordar, porque ela morava muito perto do trabalho. Ninguém ligaria tão cedo, a não ser que alguma coisa estivesse errada.
Só que uma coisa estava muito errada. Ela soube assim que pegou o aparelho e viu o código de área de Nova Jersey.
Meena não conhecia mais ninguém que morasse em Nova Jersey.
Não depois que os pais se mudaram para a Flórida.
Seu batimento cardíaco desacelerou até quase parar.
— Quem diabos está ligando? — perguntou seu irmão, cambaleando em camisa do quarto dele até o dela, piscando com olhar sonolento. Jack Bauer também saíra da cesta no canto do quarto e agora pulava com ansiedade ao lado da cama, achando que era hora de acordar.
— É trabalho — mentiu ela. — Pode sair com Jack?
—Mas que saco — disse Jonathan, — Venha, Jack — chamou ele, e foi procurar seus sapatos e a coleira.
Meena atendeu ao telefone.
— Alô — disse uma voz de mulher, familiar, porém mais velha e mais trêmula do que Meena esperava. —Aqui é Olivia Delmonico. Com quem estou falando?
Meena achou que talvez a mulher da vida de David fizesse contato.
Mas não essa.
— Hum — disse ela. Não estava pronta. Ela...
— Alô? — disse a Sra. Delmonico. — Tem alguém na linha?
— Sim — respondeu Meena. — Sim, Sra. Delmonico. Sou eu, Meena Harper.
— Meena Harper?
A Sra. Delmonico pronunciou as palavras com desagrado evidente. Os pais de David jamais gostaram de Meena. Embora nem eles nem David tenham dito isso diretamente, Meena sempre tivera a sensação de que não aprovaram o fato de o filho ter ido morar com ela depois da faculdade, e não só por não acreditarem em casais que moram juntos sem o privilégio do casamento, mas porque...
Bem, eles não gostaram de Meena. Talvez achassem que uma aspirante a escritora não era boa o bastante para seu filho ambicioso...
Ou talvez tenha algo a ver com o que Meena mencionou durante seu primeiro jantar com eles, uma comemoração pela formatura de David na faculdade de odontologia. Ela disse que o Sr. Delmonico não precisava pedir vinho por causa dela, principalmente levando em consideração seus “interesses com a saúde”.
A luta permanente do Sr. Delmonico contra o alcoolismo era um segredo que os pais tinham conseguido esconder de David durante a vida toda. Até aquela noite, ao menos, quando ela estragou tudo.
— Bem — disse a Sra. Delmonico. — Isso é... Não sei o que dizer. Encontrei seu número em um bloco ao lado do telefone que fica na cozinha da casa de David. Eu não sabia que você dois ainda... mantinham contato.
— Ah— falou Meena. Ela pensou rápido. — Isso. Bem, eu saí do nosso antigo apartamento faz pouco tempo e descobri que ainda tinha algumas caixas dele lá, então entrei em contato para que ele fosse buscar...
— Ah, sim — disse friamente a Sra. Delmonico. — É claro. Bem, peço desculpas por ligar tão cedo. Mas estou na casa de David e Brianna agora. Estou ligando para todos os números que encontro, tentando ver se consigo descobrir alguém que tenha falado com David. Ele não veio para casa ontem à noite.
— Não foi? — Meena tentou parecer genuinamente surpresa — Que estranho.
— É muito estranho. Não é a cara dele. — Depois, com a voz transbordando de antipatia mal-disfarçada, ela perguntou: — Imagino que você não saiba onde ele está, não é, Meena?
Uma imagem da Sra. Delmonico, sentada com seu colar de pérolas e terninho Chanel na casa moderna de quatro quartos de David e Brianna — com cozinha aberta e salão, garagem para três carros e piscina aquecida —, surgiu na mente de Meena. Realmente nunca tinha ido à casa de David em Freewell, uma área chique a uma hora de carro da cidade.
Mas visualizou a Sra. Delmonico lá, de qualquer jeito.
Podia perceber pelo tom de voz que ela suspeitava que o filho estivesse bem ali na cama ao seu lado e que Meena estava mentindo.
Talvez em um universo alternativo, no qual vampiros (e, portanto, Lucien Antonesco) não existissem, isso pudesse ser verdade. Pois David nunca teria sido mordido e Meena poderia realmente ter tido a autoestima tão baixa a ponto de levá-lo para casa consigo. Porque ela não saberia que havia coisa melhor no mundo.
Mas neste universo?
Nunca
— Não — disse Meena. — Não sei onde David está.
Não era mentira. Não sabia onde ele estava. Esperava que fosse no céu, mas não estava disposta a apostar.
— Ah. Tudo bem, — A voz da Sra. Delmonico de repente pareceu derrotada. — Não sei o que fazer. Já liguei para todos os números que achamos no caderno de telefones, mas ninguém falou com ele. Este bem, era minha última esperança. O celular dele vai direto para a caixa postal, assim como o de Brianna. David Junior passou a noite chorando. Ele nunca ficou uma noite sequer sem a mãe e o pai, então está histérico...
Meena se sentou na cama. Sua pulsação, que antes estava rápida, agora parecia ter parado.
— Espere — disse ela. — Está dizendo que não sabe o paradeiro da mulher de David também?
— Estou — respondeu a Sra. Delmonico. Estava chorando sem disfarçar agora. A imagem dela sentada usando um colar de pérolas e o terninho Chanel desapareceu da mente de Meena. Agora ela só ouvia a voz de uma avó desesperada. — Ninguém sabe dela desde que saiu para comprar leite. E isso foi às 18 horas de ontem. Liguei para todos os hospitais, mas não havia
ninguém que se encaixasse na descrição de David e nem na de Brianna...
Meena botou as pernas para fora da cama. Não era possível. Ela tinha matado David. Ela o tinha matado. Não havia como Brianna ter sumido também. Meena havia salvado Brianna. Na noite de ontem, ela a tinha salvado.
— Não sei o que fazer — dizia a Sra. Delmonico com voz trêmula.
— Ainda há pouco, um policial de Nova York ligou. O carro de David foi encontrado, com os documentos dentro, perto de Little ltaly. Por que David iria até lá? Ele nunca vai para a cidade. Será que ele e Brianna decidiram no último minuto ir à festa de San Gennaro? Mas por que não ligaram?
— Sra. Delmonico — disse Meena com a garganta muito seca. — Quero que a senhora me ouça. É muito importante. Está na casa de David agora?
— É claro. Alguém tem que ficar com David Junior. Meu marido também está aqui. Está na outra linha com o pessoal do departamento de trânsito, tentando ver como podemos pegar o carro de David de volta...
— Sra. Delmonico. Tem algum outro lugar para onde a senhora possa levar o bebê? Só por um tempo?
— Bem, acho que podemos levá-lo para a casa da minha filha. — A Sra. Delmonico parecia confusa. — A irmã de David mora a alguns quilômetros daqui. Mas o que Naomi tem a ver com isso? Já falei com ela e ela não falou com David nem Brianna...
— Só acho que seria melhor se a senhora e seu marido arrumassem algumas coisas do bebê e o levassem para a casa de Naomi. Imediatamente.
— Mas quando falamos com o policial de Nova York, ele disse que o melhor a fazer era ficar sentada ao lado do telefone esperando que David ligasse. Ou, se quiséssemos fazer um registro formal de desaparecimento de Brianna e David, podíamos ir até a delegacia de polícia aqui de Freewell, mas achei isso um pouco rude, pois eu estava ao telefone com ele e era de se imaginar que ele poderia ter anotado as informações. Mas ele disse que temos que fazer na jurisdição em que eles moram.
Meena respirou profundamente para se acalmar. Ela se dava conta de que, assim como Cassandra, era realmente amaldiçoada. Porque Cassandra, a pobre clarividente Cassandra, que tinha recusado o amor de um deus, havia se envolvido com Agamemnon, mas acabou amaldiçoada pela mulher vingativa
de Clitemnestra.
— Sra. Delmonico — disse ela, com a boca tão seca quanto ateia — senhora fez o registro de desaparecimento?
— Na verdade, não. O policial disse que temos que fazer pessoalmente, e não podemos deixar o bebê aqui sozinho...
— Exatamente — disse Meena. -— Deixem o bebê na casa da irmã de David e vão para a delegacia de polícia de Freewell assim que puderem. Esta me ouvindo, Sra. Delmonico? É muito importante que a senhora faça o registro de desaparecimento de David e Brianna imediatamente.
A Sra. Delmonico pareceu ainda mais surpresa.
— Ah. Bem, o policial não disse isso. Não sei o que Naomi vai achar se deixarmos David Junior com ela. Ela tem trigêmeos agora, sabe. Mas acho que, considerando as circunstâncias, não haveria problema. Só sei o que vamos fazer quanto ao carro de David. Pelo que percebi, o pessoal do departamento de trânsito está complicando. A polícia está investigando o carro, ou algo assim...
—Veja bem —disse Meena, desesperada. —Por que não nos encontramos? Na delegacia de polícia de Freewell. Eu talvez possa ajudar.
Agora a Sra. Delmonico pareceu mais do que apenas surpresa. Paceu perplexa.
—Ajudar? Como?
— Eu talvez tenha informações sobre David. Informações que a polícia talvez ache útil. Vou demorar um pouco para chegar lá porque vou ter que tomar um banho e pegar o trem. Mas chegarei no máximo às 9horas. Vocês me encontram lá, certo? A senhora e o Sr. Delmonico? E vão deixar o bebê na casa da irmã de David?
— Bem — disse a Sra. Delmonico, evidentemente surpresa. — Eu... sim. Obrigada, Meena. É muita... gentileza.
Meena disse que não era nada e desligou, se sentindo culpada.
Pois não estava agindo com gentileza. Não tinha escolha. Tinha sido a última pessoa a ver David Delmonico vivo.
Também era a pessoa que havia tentado salvar a vida da mulher de David.
E, ao que tudo indicava, tinha falhado. Não conseguia entender como...
exceto pela parte em que havia beijado o cara que lhe dera a arma com a qual ela matou o marido de Brianna.
Agora tinha as vidas dos pais de David e do bebê com as quais se preocupar. Quem poderia saber onde Brianna Delmonico estava?
Mas Meena não ia correr o risco de Brianna ir atrás do café da manhã em sua própria casa. Precisava se certificar de que os Delmonico sairiam de lá, por via das dúvidas.
Podia ver que tinha muito trabalho a fazer se pretendia consertar os erros que cometera na noite anterior.
Mas quando chegou à delegacia onde tinha prometido se encontrar com a Sra. Delmonico, pôde ver que sua punição cármica ia ser bem pior do que tinha imaginado.
Isso porque a última pessoa que queria ver no mundo estava esperando por ela nos degraus da delegacia.
Alaric Wulf.

8
- Por que voce esta aqui?- perguntou ela.
Ele lhe entregou um copo de café.
— Achei que precisaria disto.
A verdade, no entanto, era que ele precisava. Principalmente agora que tinha visto o lenço.
—Liguei pra Abraham, não pra você disse ela com grosseria.
—Eu percebi. Quer o café ou não?
Ela olhou para o copo.
— Com leite desnatado?
Ela estava de óculos escuros, então ele não podia ver seus olhos. Mas achava, pelo som rouco da voz, que ela tinha chorado.
— Acho que, a essa altura, já sei como você gostado seu café — disse com severidade.
Ela pegou o copo.
— Obrigada — resmungou.
Eles ficaram de pé em silêncio do lado de fora da delegacia, bebendo e observando os bons cidadãos de Freewell passarem de carro, indo para o trabalho... ou para onde estivessem indo em um sábado de manhã.
A delegacia era um prédio relativamente novo, em uma área coberta de grama e rodeada de árvores jovens. Pássaros cantavam docemente nos galhos, sem saber do mal que estava para acontecer. Alaric pensou que, se estivessem em frente a uma delegacia em Nova York, os policiais estariam arrastando travestis que trabalhavam como prostitutas. Mas ali, um esquilo passou saltitando, carregando uma noz para armazenar para o inverno.
— Vai me contar o que está acontecendo ou vou ter que adivinhar? — perguntou Alaric.
— Não é o que você pensa — disse Meena.
— Achei que você só conseguia saber quando as pessoas vão morrer, não o que estão pensando.
— Você não é nada difícil de ler, Alaric.
Isso o feriu. Ele disse:
— Bem, na verdade, você também não. Na última vez em que você estava usando um lenço ao redor do pescoço, quase perdi uma perna. Então, eu apreciaria um aviso desta vez, pois gosto de poder andar sem ajuda de ninguém.
As bochechas dela ficaram quase do mesmo tom de cor-de-rosa do lenço.
— Tudo bem — disse ela, levantando a mão para retirar os óculos. Por baixo deles, os olhos escuros, cuidadosamente maquiados, estavam vermelhos de tanto chorar. — Sim. Fui mordida na noite de ontem. Mas não foi por Lucien, Alaric. Não desta vez, eu juro.
Ele sentiu o chão balançar embaixo de si. Não entendeu o motivo, pois, apesar dos protestos de que deveriam chegar a Freewell o mais rápido possível, Abraham tinha parado em um drive-through no caminho com o Prius (Alaric nunca aceitaria a indignidade de ter sido forçado a andar naquele carro), insistindo que o café da manhã era a refeição mais importante do dia e que precisavam de proteína.
Agora Alaric estava feliz de terem feito isso, mesmo que o suposto “McMuffin” que comeu pesasse como uma pedra em seu estômago.
— Impossível — disse ele para ela. —Não fomos comunicados da presença de vampiros na cidade, ou melhor, nos Estados Unidos, durante os últimos seis meses. Matamos todos os Dracul. Você sabe. Você estava lá.
— Esse não era um Dracul.
Alaric sacudiu a cabeça, confuso.
—Mas nunca houve registro de outro clã em...
— Bem, então alguém precisa alertar a Segurança Nacional. Porque ontem à noite eu tive um contato imediato com um imigrante ilegal do tipo que tem dentes bem afiados.
— Por que só avisou hoje de manhã? — perguntou Alaric. — O que exatamente está acontecendo, Meena? Abraham não quis me contar nada. Ele
disse que você me contaria. Se quisesse. —Não mencionou o quanto essa informação o tinha irritado. O que Holtzman queria dizer com “se Meena quisesse contar”?
E por que Meena tinha preferido contar uma coisa para Holtzman e não para ele? Foi ele quem salvou a vida dela em St. George, não Holtzman. Será que era porque ele se recusava a acreditar na teoria dela sobre Antonesco?
Mas quem podia acreditar? Era loucura. Demônios eram maus por natureza. Não eram capazes de livre arbítrio. Ele não se importava com o que São Tomás de Aquino tinha escrito oitocentos anos atrás.
— Olha só, agradeço pelo café, mas será que podemos entrar? — disse Meena, repentinamente parecendo menos obstinada e mais cansada. — Levei uma eternidade pra pegar um táxi na estação de trem e agora estou atrasada, e tenho certeza de que todo mundo quer saber onde estou.
— Abraham já está lá dentro — disse Alaric. — Ele falou para todo mundo que é seu advogado.
Meena revirou os olhos e jogou o copo vazio em uma lata de lixo.
— Que ótimo. Meu advogado. Agora parece que fiz alguma coisa errada.
Alaric a segurou pelo pulso quando ela passou por ele para entrar no prédio. Os ossos dela pareciam pequenos e frágeis como os de um pássaro.
— Você fez alguma coisa errada? — perguntou ele, com o olhar intenso preso ao dela. Ele não queria perguntar. Sabia que era errado e que não devia.
Mas não pôde evitar.
Ela usou a mão livre para tirar uma mecha de cabelo cor de cobre de cima dos olhos. Olhos que, ele via, estavam repentinamente brilhando de lágrimas.
— Acho que isso depende do ponto de vista. Do seu? Não. Do meu? Sim. Sim, fiz uma coisa errada.
Ele sentiu uma onda repentina de carinho por ela tão grande que, se fosse por qualquer outra pessoa, teria ignorado. Ele tentou ignorar. Ela violava todas as regras do manual.
Por outro lado, ele também, em diversas ocasiões.
Mas isso era diferente. Ela também tinha se colocado em perigo. Além disso, não havia ligado para ele. Isso feriu seus sentimentos... embora preferisse morrer do que admitir tal fato.
Mas agora, ela estava abalada e aborrecida com alguma coisa. E tinha ligado para Holtzman. Ele queria ser a pessoa para quem ela corria quando estava abalada e aborrecida. Não Holtzman.
Como podia ter deixado tudo dar tão errado? E como podia consertar?
Ela olhou com intensidade para o pulso que Alaric estava segurando. Ele imediatamente o soltou. Ela se virou e começou a passar por ele, para entrar na delegacia.
Ele devia ter deixado terminar ali. Mas não podia.
Em vez disso, passou o braço ao redor dos ombros dela e a puxou contra si, em um abraço que foi desajeitado tanto por ela não estar esperando quanto por Alaric Wulf não estar acostumado a abraçar pessoas e, portanto, não ser muito bom nisso.
— Está tudo bem — disse ele, num tom que esperava ser tranquiliza- dor. Acariciou o cabelo dela. Os fios finos, um pouco mais encorpados por toda a tinta que a amiga dela, Leisha, vinha passando neles ultimamente, estavam aquecidos pelo sol. — Seja o que for. Vai ficar tudo bem.
Ela acabou se dando conta do que estava fazendo e parou de tentar se afastar. Para sua surpresa, ele a sentiu relaxar em seus braços. Sentiu uma coisa quente e úmida em seu pescoço e percebeu, com um certo choque, que eram as lágrimas dela.
— Acho que não, Alaric — sussurrou ela. — Não mesmo. Não desta vez.
Ele não sabia o que fazer. Tinha se acostumado tanto com o tratamento indiferente de Meena que vê-la baixar a guarda completamente e relaxar apoiando-se contra ele dessa forma era um pouco enervante.
Ele quase preferia os olhares hostis e o sarcasmo. Era bem melhor do que lágrimas. Centenas de mulheres já tinham chorado na frente dele e isso nunca o incomodou.
Mas aquilo era horrível.
Ele apertou o abraço e disse, sem jeito:
— Não pode ser tão ruim. — Depois quis dar um chute em si mesmo. Na verdade, podia sim ser tão ruim. Ele não sabia de nada.
Uma viatura parou na frente deles. Um policial de Freewell saiu de trás do volante, depois deu a volta e tirou do banco de trás uma drag queen
surpreendentemente alta e com uma roupa colorida demais, ao menos para o subúrbio de Nova Jersey.
— Querida — disse a drag queen para Meena quando o policial passou com ela a caminho do prédio —, guarde um pedaço do bumbum desse rapaz pra mim. Volto logo pra buscar.
Alaric olhou para o céu, feliz por ter seguido o conselho de Holtzman de não levar a sua espada.
— Acho que devíamos ir lá dentro procurar Abraham — disse Meena baixinho, se afastando dele.
— Acho uma excelente ideia — concordou Alaric, e se apressou para abrir a porta para ela. Ele não entendeu o olhar que Meena lhe lançou diante do gesto dele, que parecia uma mistura de choque, gratidão e uma outra coisa que não conseguiu identificar.
Mas que não o fez se sentir nem um pouco melhor.

9
Meena entrou na Delegacia de Polícia de Freewell, um lugar impecavelmente limpo e high-tech, com Alaric logo atrás. Ela se perguntou por que todas as pessoas na sala não se viraram para olhá-la nesse momento. Isso porque, dentro da sua cabeça, o som do coração batendo parecia alto demais. A ela, parecia que todas as pessoas do mundo deviam conseguir ouvir.
Mas, pelo que tudo indicava, só ela conseguia.
Podia ver Abraham Holtzman sentado na sala de reuniões para a qual a recepcionista da polícia os estava levando, conversando com uma mulher de aparência sonolenta de terno bege e com os pais de David, que pareciam décadas mais velhos do que na última vez em que Meena os vira.
É claro que pareciam. O filho deles estava morto. Embora ainda não soubessem.
Meena engoliu em seco e tentou estampar um sorriso caloroso no rosto.
Mas foi difícil, pois estava ciente demais de Alaric Wulf atrás de si. Jamais esqueceria o olhar dele quando viu o lenço que ela havia amarrado no pescoço para esconder o hematoma horroroso que a mordida de David deixara. Chegou a pensar que ele jogaria o café que estava segurando na cara dela.
O fato de ele só estar parcialmente errado sobre o modo como a mordida havia sido adquirida — pois ela vira Lucien na noite anterior — fez com que suas bochechas ficassem vermelhas. Ela se perguntou se ele tinha reparado.
— Ah, aqui está a Srta. Harper, com um dos meus sócios, o Sr. Wulf.
— Aquele olhar de Abraham era como um par de lasers se projetando sob as sobrancelhas desgrenhadas, tão desarrumadas que passavam a ideia de uma mente completamente desorganizada.
Mas Meena sabia melhor do que todo mundo que a mente do Dr.
Holtzman era muito organizada.
E isso significava que estava tremendamente encrencada. Porque, embora tivesse cumprido seu dever ao fazer o registro do “incidente relacionado a vampiros” da noite anterior, só havia registrado um deles. Estava determinada a manter o nome de Lucien fora disso tudo por mais tempo que pudesse.
Mas entre Abraham Holtzman e Alaric Wulf, os dois homens mais teimosos (de maneiras diferentes) que já conhecera, ela não tinha certeza de por quanto tempo conseguiria preservar o segredo.
— Desculpem o atraso — disse Meena com nervosismo, olhando ao redor. Parecia um cenário de série de TV criminal em que interrogavam suspeitos de assassinato.
Mas não havia um espelho falso na sala de reuniões da Delegacia de Polícia de Freewell, só várias janelas com vista para o gramado bem- cuidado na frente do prédio. Havia também algumas fotos espalhadas sobre a mesa... fotos de David e Brianna, que Meena presumiu terem sido levadas pelos Delmonico.
Eram retratos recentes de estúdio nos quais o bebê tinha apenas poucos meses de idade. O belo casal parecia incrivelmente feliz, sorrindo para a câmera sem nem um fio de cabelo (ou dente) fora do lugar.
A especialidade de David era em coroas de cerâmica. Ele sempre quisera colocar coroas sobre os dentes da frente meio tortos de Meena, mas quando ele explicou que, para fazer isso, teria que fazer um corte nas gengivas, ela recusou.
— Ainda não entendi direito — dizia a Sra. Delmonico com uma voz rabugenta — por que ela trouxe tantos advogados quando tudo que disse foi que queria nos encontrar aqui para...
— Só estamos aqui para ajudar, Sra. Delmonico — interrompeu Abraham Holtzman, com voz tranquilizadora. — Srta. Harper, esta é a detetive Rogerson... — Abraham gesticulou para a mulher com aparência de cansada, que dava a impressão de desejar estar em qualquer lugar que não fosse com eles todos. Meena não a culpava. — E é claro que você se lembra dos Delmonico.
Quando os olhos dos pais de David pousaram nela, ferida e confusa,
Meena perdeu toda a habilidade de controlar a boca. Seu sorriso sumiu e ela só conseguiu murmurar um “oi” baixinho enquanto se sentava na cadeira dura de plástico que Abraham lhe ofereceu. Quase não conseguiu conter um murmúrio de Lamento pela sua perda.
Pois obviamente os Delmonico não sabiam ainda que tinham uma perda... talvez duas.
E certamente não seria ela quem ia contar.
— Bom dia, Srta. Harper — disse a detetive em um tom profissional. Ela lançou um olhar para Alaric, que, em vez de se sentar em uma cadeira da mesa de reuniões, se encostou no peitoril da janela, de onde podia observar melhor. Em seguida, ele pegou o celular para checar suas mensagens de texto, parecendo nem um pouco interessado nos acontecimentos.
A detetive afastou o olhar e abriu um bloco.
— A Sra. Delmonico diz que você talvez tenha informações sobre o filho dela, que não voltou para casa na noite de ontem. O que pode nos contar sobre isso?
Meena olhou rapidamente para Abraham.
— Hum — disse ela. — Eu pensei... Na TV, sempre entrevistam os suspeitos em salas separadas.
A detetive Rogerson a encarou fixamente sem sorrir, com a caneta pousada sobre o bloco.
— Não estamos na TV e você não é suspeita de nada, Srta. Harper, porque até agora, nenhum crime foi cometido. A não ser que tenha sido você quem depredou o carro do Sr. Delmonico na cidade ontem à noite.
— Isso é bem improvável — disse Abraham —, considerando a estatura limitada da minha cliente e a extrema força necessária para conseguir causar o tipo de dano...
A detetive Rogers lançou um olhar na direção de Abraham. Ele sorriu para ela com simpatia.
— Isso é verdade — disse Meena rapidamente. — Não tive nada a ver com o que aconteceu ao carro de David.
Meena percebeu que havia cometido um erro de estratégia e, assim, teve o cuidado de olhar nos olhos da detetive Rogerson durante todo o tempo em
que falou, para não poder ser acusada de mentir. Tinha lido que essa era uma das formas pelas quais a polícia podia detectar se você estava falando a verdade.
Depois, explicou que marcou de se encontrar com David na noite anterior para que pudesse devolver os “pertences” dele que havia encontrado e que depois tinham ficado sentados no carro estacionado por alguns momentos, “conversando”. Naquela hora, reparou que David estava um pouco embriagado. Achou melhor que David não dirigisse para casa e ele concordou.
A Sra. Delmonico inspirou profundamente nesse momento, embora Meena tivesse evitado mencionar, o que David fizera a ela no carro. De modo algum falaria nisso... jamais. Principalmente na frente da Sra. Delmonico, que estava mesmo usando um colar de pérolas, exatamente como havia visualizado. Ela o estava enrolando com tanta força enquanto ouvia Meena falar que as pontas dos dedos ficaram roxas. Meena esperava que o fio arrebentasse a qualquer momento.
Havia também o pai de David, que parecia à beira das lágrimas, com o nariz mais avermelhado pelos capilares rompidos (de tanto beber, Meena suspeitava) do que nunca. O casal pareceu muito perturbado quando ela mencionou a bebedeira de David, embora tenha minimizado signif3cativamente a situação.
Não ia mesmo piorar as coisas dizendo que ele a tinha atacado. Primeiro, porque nunca acreditariam.
E segundo porque, agora que era funcionária da Palatina (um departamento secreto do Vaticano que caça demônios), não podia. Era proibida pelo empregador de sequer admitir a existência de vampiros na frente de civis.
Então, mesmo se quisesse, não podia dizer que David não só estava bêbado, mas que havia sido transformado em um morto-vivo e a tinha atacado.
Mas, obviamente, não queria dizer isso.
Pois o que Meena queria acima de tudo era evitar arrastar Lucien para essa confusão. Além de nada disso ser culpa dele (ela tinha pisado na bola,
afinal), Lucien arriscara o próprio pescoço ao sair do esconderijo depois de tantos meses só para salvá-la de David, quando ele, ao que tudo indicava, por razões que não quis revelar para ela (mas que pareceram óbvias o bastante), não estava nada bem.
E agora Alaric Wulf estava envolvido. Ele era um dos melhores guardas da Palatina e, como tal, ouvira muitas histórias de vítimas, várias das quais tão apaixonadas por vampiros que as usavam como alimentos humanos quanto ela estava por Lucien, e que não hesitariam em mentir para protegê-los.
Mas isso era diferente. Lucien não a atacara na noite anterior. E não quis se alimentar dela. Ele a amava.
Por esse motivo, tinha que manter o nome dele fora disso. Embora tivesse sido ele quem a salvou, ninguém da Palatina — particularmente Alaric — entenderia. Nada do que havia acontecido foi por culpa de Lucien.
Mas acabariam culpando Lucien de qualquer jeito. A Palatina, assim como qualquer burocracia, tinha seus pontos cegos.
Meena alimentara esperança de que, ao ligar diretamente para Abraham depois da ligação da Sra. Delmonico, e não para a linha de emergência da Palatina, poderia manter as coisas sob certo controle. Ela explicou que só estava relatando um incidente infeliz que havia ocorrido na noite anterior, com o qual talvez não tivesse lidado tão bem quanto poderia, embora provavelmente não houvesse nada com que se preocupar. Nada mesmo.
Bem, talvez uma pequena coisinha...
Devia ter percebido, pela preocupação na voz de Abraham quando a interrogou com ansiedade ao telefone, que ele levaria Alaric consigo. O mesmo Alaric que, quando ela se viu incapaz de controlar as lágrimas lá fora, pareceu ficar sem saber o que fazer, mas que mesmo assim manteve os braços firmes ao redor dela, robusto, alto e forte como uma árvore que nada conseguiria fazer oscilar, derrubar ou dobrar.
Ele até tinha um cheiro meio fresco e caloroso, de certa forma. Ah, Deus. Por que ligara para a Palatina? Não sabia.
Mas descobririam de qualquer jeito. Sempre descobriam.
Quando Meena terminou a hesitante narrativa, olhou nervosamente para o bloco da detetive Rogerson. Estava sentada em um ângulo do qual podia ver
exatamente o que havia nele, embora tivesse certeza de que a detetive não sabia disso.
Foi assim que conseguiu perceber, com alguma surpresa, que a detetive estava desenhando um retrato bem detalhado de uma joaninha. A joaninha estava de cartola e smoking.
— Então, na última vez em que você viu David, ele estava um tanto embriagado e saiu andando em direção à rua Hudson para pegar um táxi para a estação Penn? — perguntou a detetive Rogerson com voz entediada. — disse Meena. Tentou parecer nervosa, mas não nervosa de-
— Tenho que dizer que estou um pouco preocupada com Brianna. Minha melhor amiga, Leisha, teve um bebê seis meses atrás e jamais passaria uma noite fora de casa, principalmente sem ligar. Admito que não conheço Brianna bem, mas acho muito estranho...
Mas a detetive Rogerson já tinha baixado o olhar. Estava começando a desenhar outra joaninha.
— E você não sabe nada sobre como o veículo dele foi depredado?
— Depredado? — O Sr. Delmonico parecia indignado. — O policial ao telefone disse que a porta do motorista foi literalmente arrancada e jogada na calçada e que o para-brisa foi quebrado. Eu não chamo isso de depredado. É um Volvo V50 novinho. Isso me parece mais um ataque.
A detetive Rogerson deu uma olhada na direção dele.
— Sim. Mas o som do carro e os documentos e até a cadeirinha do bebê ainda estavam dentro. De acordo com sua conversa com a polícia de Nova York esta manhã, não parecia faltar nada.
— Exceto o dono do carro — gritou a Sra. Delmonico. O marido se inclinou para apertar-lhe a mão. — E a mulher dele! Ela também está desaparecida. — Ela pegou uma das fotos e a ergueu. — E quanto a ela? Ninguém se importa com ela?
— Nós nos importamos, Sra. Delmonico — disse a detetive Rogerson. Meena viu que a detetive estava acrescentando um véu e grinalda à segunda joaninha. — É por isso que estamos aqui. Enquanto isso, a melhor coisa que vocês podem fazer é ficar perto do telefone.
— Do telefone deles — disse Meena.
A detetive Rogerson olhou para ela.
— Como?
— Bem, eles estavam sentados ao lado do telefone do filho, na casa dele — disse Meena.
— Para ser exata — acrescentou Abraham rapidamente. — Não é provável que David ligue para si mesmo, é? Então o Sr. e a Sra. Delmonico devem ir para a casa deles, para ficar perto do próprio telefone.
A detetive Rogerson olhou de Meena para Abraham e depois para ela de novo. Meena estava ciente de que Alaric finalmente havia tirado os olhos do celular e estava olhando para ela. Será que tinha descoberto? Achava que sim. Bem, ele ia acabar sabendo.
A detetive Rogerson deu de ombros e voltou para o desenho do casamento de joaninhas.
— Sim — disse ela, com voz entediada. — É claro. Ninguém que desaparece liga para si mesmo.
A Sra. Delmonico parecia escandalizada.
— Mas todas as coisas de David Junior estão na casa dele!
— Ficaríamos felizes em ir com vocês até a casa de David agora para ajudar a levar as coisas do bebê para a sua casa. Só por um tempo — disse Meena.
Os Delmonico pareceram completamente estupefatos com a sugestão. Assim como Alaric, que não voltara mais o olhar para a tela do celular.
— Hum — disse o Sr. Delmonico. — Não há necessidade. Tenho certeza de que conseguimos sozinhos...
— Não, não — ressaltou Abraham com firmeza.-— Nós adoraríamos.
— Sua firma certamente está cheia de serviço — disse o Sr. Delmonico, parecendo impressionado.
— Ah, vocês não veem o que estão fazendo? — A voz da Sra. Delmonico soou ferina, como um chicote. — Estão tentando nos fazer esquecer o fato de que Meena deixou nosso filho, bêbado e indefeso, sozinho no meio da cidade de Nova York, para ser atacado por hooligans!
O Sr. Delmonico lançou um olhar assustado para Meena.
— Eu não diria que é isso que estamos fazendo — murmurou Mcc-
Quero ajudar...
— Ele deve estar caído em um beco qualquer — gritou a Sra. Delmonico.
— Sangrando, porque ela o embebedou e o deixou na rua, à mercê de ladrões. E é tudo culpa dela.
— Considerando que foi seu filho que apareceu bêbado para o encontro que a Srta. Harper tinha marcado com ele — disse Abraham, num tom de voz pragmático —, e depois fez avanços sexuais indesejados para cima dela, acho que você deveria reconsiderar essa acusação, senhora.
O Sr. e a Sra. Delmonico imediatamente começaram uma torrente de insultos. A caneta da detetive Rogerson parou sobre a superfície do bloco, enquanto Alaric ergueu as sobrancelhas. Mas Abraham Holtzman só olhou para o teto.
Meena queria esconder a cabeça nas mãos e desaparecer, mas infelizmente não podia. Essa era uma informação que tinha compartilhado com Abraham confidencialmente. Não esperava que ele fosse falar na frente dos pais de David assim.
Mas achava que, como seu “advogado”, ele não tinha escolha.
— Isso... isso é ultrajante! — gritou a Sra. Delmonico, parecendo à beira das lágrimas. — Meu filho nunca faria uma coisa...
— Meena — interrompeu Abraham. — Sei que você não quer dizer nada negativo sobre David na frente dos pais dele por medo de aborrecêlos. Mas é importante que conte a verdade para que a detetive entenda tudo que aconteceu.
— Eu contei — disse Meena rapidamente. — Eu contei a verdade. — Ela lhe lançou um olhar gélido.
— Aconteceu alguma coisa entre você e David que não está nos contando, Srta. Harper? — perguntou com curiosidade a detetive Rogerson.
— Não. Não tem nada que eu não tenha contado.
— Bem, deve haver alguma coisa — disse a detetive. — Porque você está ficando muito vermelha.
Meena percebeu que julgara errado a detetive Rogerson. Desenhar aquelas joaninhas não era sinal de que não estava prestando atenção à entrevista.
Estava desenhando porque isso a ajudava a se concentrar melhor.
— Bem, eu não chamaria o que aconteceu de alguma coisa. — Meena manteve o olharem uma das fotos que estava no meio da mesa, do rosto intenso e sorridente de Brianna. — David estava meio bêbado, como falei, e sim, é verdade, ele tentou me beijar, mas... se ajustar a uma vida depois do nascimento de um filho pode ser difícil para alguns casais. — Ela disse essa última parte rapidamente. — Minha amiga Leisha, a que mencionei antes, a que teve um bebê, diz que as coisas não são bem as mesmas entre ela e o marido, Adam, desde que Jeanie nasceu, ainda que ele seja um cara ótimo, um pai verdadeiramente dedicado que cuida da criança. Quero dizer, ela diz que eles não saíram para jantar nenhuma vez desde que o bebê nasceu...
Quando reparou que todo mundo olhava fixamente para ela, a voz de Meena foi sumindo. Podia se sentir corando de novo.
— Não que David tenha dito qualquer coisa assim sobre Brianna — acrescentou ela.
— Então devo entender que você não quer fazer uma denúncia de ataque sexual contra David Delmonico? — perguntou a detetive Rogerson.
— Ah, meu Deus. — A Sra. Delmonico colocou uma das mãos sobre a boca. O marido passou um braço consolador ao redor dos ombros dela e a puxou para perto.
Embora todo mundo só falasse nos noticiários sobre as temperaturas altíssimas dos últimos dias, o ar-condicionado da delegacia de Freewell, Nova Jersey, parecia ter sido desligado. Estava quente na sala de reuniões. Todo mundo tinha uma fina camada de suor sobre a testa.
Ainda assim, Meena sentia frio, apesar do cardigã que colocara sobre vestido sem alças.
— N-não —gaguejou ela. — De jeito nenhum. E lamento, mas não sei de mais nada que possa ajudar vocês a encontrarem David além do que já contei.
— É claro que ela não sabe — disse Abraham com sua voz de advogado austero. Ele realmente tinha diploma em direito. Agora estava juntando os vários blocos que havia levado consigo e os colocando na pasta. — Está claro que é um assunto pessoal entre o filho do Sr. e da Sra. Delmonico e a mulher. É uma infelicidade, é claro, mas tenho certeza de que os dois estarão em casa
assim que resolverem. Enquanto isso, como disse a Srta. Harper, ficaríamos felizes em ajudá-los a levar as coisas do bebê...
— Não! — gritou a Sra. Delmonico. — Vocês já fizeram o bastante!
O marido dela falou com voz mais calma:
— Obrigado, mas acho que minha mulher quer dizer que temos muitos familiares por perto que podem nos ajudar agora.
— Certo — disse Abraham. — Bem, detetive Rogerson, se houver mais alguma coisa que minha cliente possa fazer para ajudar em sua investigação, faça contato comigo e ela ficará feliz em...
A voz dele sumiu quando a mãe de David se virou para encarar Meena, com os olhos azuis como uma planta carnívora
— Se você sabe o que aconteceu com meu filho, Meena Harper — sibilou ela —,tem que falar. Sei que você sabe de coisas. David me contou, depois que o tumor dele foi removido, que você sabia que estava lá antes de ser diagnosticado. E todos sabemos que você sabia sobre o pai dele. Então, fale. Conte o que aconteceu com meu filho.
Meena ficou paralisada. Não culpava aquela mulher por odiá-la. Não tinha feito nada além de tentar ajudar David... Que, no final, não havia merecido sua ajuda.
Mas ele não merecia morrer. Não como aconteceu. E a pobre mulher...
Foi impossível para Meena não olhar para as fotos ampliadas feitas em estúdio que estavam sobre a mesa. Brianna estava tão bonita, feliz e esperançosa.
— Lamento — disse ela, erguendo o olhar para a Sra. Delmonico. Lágrimas lhe surgiram nos olhos. — Lamento muito, muito mesmo...
De repente, duas mãos fortes a agarraram pelo ombro. Alguém a estava forçando a ficar de pé. Alaric.
— Espero que seu filho apareça em breve — disse Alaric com sua voz grave para os Delmonico enquanto guiava Meena para a porta da sala de reuniões. — Sua nora também. Adeus.
Meena se deu conta de que estava tremendo.
Ela tentou disfarçar. Ficou com os braços cruzados enquanto prédio com Alaric e Abraham.
Mas não conseguiu esconder a respiração repentinamente entrecortada.
David não ia aparecer em breve, nem nunca.
Mas Brianna. Onde estava Brianna? Ela podia aparecer em breve...
E, quando aparecesse, estaria com fome.


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