quinta-feira, 25 de julho de 2013

mord - mg - parte 2 - 10-11-12

10
- bem nao foi tao ruim quanto achei que seria — disse Abraham Holtzman ao sentar ao volante e ligar
—Não tenho como saber. — Alaric abriu a janela do carona para poder colocar o cotovelo para fora. Meena já tinha reparado que ele não gosta de ficar em espaços pequenos, uma característica que só havia piorado desde que os dois ficaram presos debaixo de uma parede que despencou na catedral St. George. — Afinal, ninguém vai me contar o que está acontecendo.
—Wulf... — Abraham lançou um olhar frustrado para Alaric. Lembra-se da conversa que tivemos ontem na minha sala sobre suas habilidades interpessoais? Há uma boa razão para você não ter sido informado sobre certos assuntos.
— Então por que você me trouxe?
— Achei que isso seria óbvio. Preciso que você acompanhe Meena de volta até a cidade. Está claro que ela voltou a ser popular com nossos amigos dentuços. — Ele sorriu para Meena pelo retrovisor. — Não se preocupe, minha querida. Alaric vai cuidar de você. Tenho certeza de que se lembra de como ele fez isso muito bem da última vez.
Escondendo as mãos trêmulas entre os joelhos, Meena sentiu um peso no coração. Ia ter Alaric por perto 24 horas por dia, 7 dias por semana? Ah, perfeito.
— Lembro—disse ela, com entusiasmo fingido. — Ótimo. E lamento não ter feito as coisas como manda o manual. Mas acho que não é necessário retirar Alaric de suas obrigações habituais. Tenho certeza de que David vir atrás de mim daquele jeito foi um fato isolado e incomum...
— David? — Alaric se virou o máximo que conseguiu no assento da
frente para observar Meena com olhos arregalados. — Foi David quem mordeu você?
— Foi. É claro que foi David quem me mordeu, O que você pensou? Mas ela conhecia perfeitamente essa resposta.
— Que era muita coincidência uma pessoa ter dois namorados que por acaso eram vampiros.
— Olha quem fala — disse ela, empinando o queixo. — Não pense que Carolina não me contou da vez em que você foi levado a ir para cama com aquela súcubo em Praga. Ouvi que praticamente tiveram que arrancar você de cima dela...
— O relato daquela situação foi completamente exagerado — disse Alaric com raiva.
— Hum, acho que não. Carolina me mostrou o vídeo... Alaric parecia furioso.
— Isso foi há quase uma década. E aquela súcubo não era a encarnação do mal, a líder de tudo que é...
— Não ouse trazer Lucien para o meio disso — disse Meena.
— Crianças, por favor — repreendeu-os Abraham enquanto dirigia. — Alaric, você não deve ser tão duro com Meena. Sim, poupado muita confusão se ela tivesse ligado para o quartel-general ontem à noite, quando tudo aconteceu. Eu esperava que a essa altura ela já considerasse a Palatina sua família e, como tal, aquela a quem pode recorrer em momentos de dificuldade. Mas também entendo por que deve ter se sentido vulnerável e até traumatizada, considerando a... hum, natureza pessoal do incidente. Assim como você, Alaric, quando passou por isso. Matar alguém de quem um dia foi íntimo... bem, é um pesadelo que poucos de nós tiveram que enfrentar e ao qual todos nós podemos reagir de forma diferente...
Alaric se virou para Meena. O olhar azul era tão penetrante quanto um raio X.
— Você enfiou uma estaca nele? — perguntou ele, atônito.
Meena apertou os olhos.
— Sim — disse ela, aguardando o momento em que ele perguntaria o que aconteceu à teoria de o leão ter que matar o jumento para sobrevive e que isso
não significava que alguém tinha o direito de matar todos os leões.
Mas ele não perguntou. Só ergueu as sobrancelhas e disse:
— Legal.
Ele parecia impressionado. Em seguida, se virou para a frente e ficou olhando pela janela.
Mas ela reparou que ele estava sorrindo.
E seu coração pesou ainda mais.
— Tenho certeza de que deve ter sido apavorante pra você, Meena — disse Abraham, reconfortando-a. — Não deve se culpar pelo que aconteceu e nem pela sua falha em seguir o protocolo da Palatina logo depois. Tenho certeza deque você não estava pensando direito. Imagino que tenha se trancado dentro do carro para se afastar dele, não foi? E ele arrancou a porta para chegar até você? Foi assim que aconteceu?
Meena, que nunca pensou em como ia explicar o que tinha acontecido com a porta do carro, baixou a cabeça para que ele não pudesse ver sua expressão pelo retrovisor e disse:
— Foi. — Tinha certeza de que não conseguiria mentir olhando no rosto de Abraham.
— Acho impressionante você ter conseguido sair da cama hoje de manhã — disse Abraham com admiração. — Vamos marcar algumas sessões para tratar de estresse pós-traumático com o Dr. Fiske.
Alaric emitiu um som que parecia uma risada de escárnio. Ela sabia que o Dr. Fiske era o terapeuta de quem ele não gostava. Mas não conhecia bem certo o motivo. Alaric nunca falava sobre suas sessões de terapia.
Com a voz trêmula, ela disse:
— Eu nem percebi que ele estava morto até ele vir para cima de mim. E depois que enfiei a estaca nele, pensei... bem, que havia terminado. Eu tinha a intenção de comunicar o ocorrido. Mas achei que podia esperar.
Só soube que a mulher dele estava desaparecida hoje de manhã, quando a mãe dele me ligou para perguntar onde ele estava. Agora sei que deve ter sido a morte da mulher que eu estava pressentindo, não a de David...
— Não se preocupe — confortou-a Abraham. — A maior parte dos vampiros recém-infectados volta ao lar nas primeiras 24 horas depois de
transformados, se não receberem alimento imediatamente. Pedi que uma equipe de extermínio fosse montada e enviada para a casa de David assim que você telefonou, Meena. Vamos nos encontrar com eles agora, enquanto os Delmonico estão ocupados na delegacia. Com sorte, vamos ter resolvido o problema da esposa até esta tarde.
Resolvido. Sabia o que isso queria dizer. Lágrimas escorreram pelo nariz de Meena. Não sabia o que havia de errado com ela. Esse choro todo não fazia sentido. Ela ergueu os punhos para secar os olhos.
— Vamos para a casa de David? — perguntou ela.
Abraham olhou para ela pelo retrovisor.
— Não tem problema, tem?
— Ah, tudo bem — respondeu ela rapidamente.
Não estava tudo bem. Ela não queria ver quando o problema de Brianna Delmonico fosse resolvido. E não queria ver onde David Delmonico tinha morado e presumivelmente sido feliz antes de ela enfiar uma estaca nele. Só queria ir para casa, voltar para a cama e dormir.
Só que não podia nem fazer isso, porque sonharia com Lucien.
— Que bom — disse Abraham com um sorriso. — Vocês dois sabem o que isso significa, não sabem?
— Significa que os Dracul estão de volta e que ainda querem o sangue de Meena — disse Alaric sombriamente.
Meena inspirou fundo para protestar dizendo que não era nada disso, mas Abraham falou primeiro.
— Ao contrário — disse ele. . — Esse ataque demonstra um amadorismo que os Dracul considerariam humilhante, caso ainda estivessem por perto. E não acredito nisso.
— Exatamente — concordou Meena. — E embora eu saiba que você nunca acreditou em mim quanto a isso, os Dracul foram proibidos de assassinar a presa a não ser que tivessem intenção de transformá-la em um ser como eles. E David definitivamente queria me matar.
— Não sei — disse Alaric com ceticismo. Fazer a vítima ter uma falsa sensação de segurança ao transformar um ex-namorado em um deles parece exatamente o tipo de coisa que um Dracul faria, se quer saber minha opinião.
— Mas atacar Meena? — Abraham sacudiu a cabeça. — Não, não. Pense na raiva, na retribuição que o príncipe deu ao seu próprio clã por ferir Meena da última vez. Aquilo foi uma amostra apavorante de agressividade. Só um clã que não testemunhou e não ouviu falar sobre aquilo ousaria arriscar a ira de Lucien Antonesco dessa maneira de novo... não depois do que ele fez com os próprios súditos.
— Verdade — disse Alaric, Meena reparou que ele, que mantinha o cotovelo apoiado na janela, como sempre, tinha virado o retrovisor lateral na direção dela. Viu que ele estava olhando para seu pescoço. Ela olhou para o outro lado. — Mas o príncipe não parece estar por perto — falou Alaric. — Então é meio difícil ele reagir contra qualquer pessoa agora.
— O que torna isso um acontecimento empolgante — disse Abraham. Em seguida, com um olhar nervoso na direção de Meena, ele acrescentou: — Hum, sem contar a tragédia de uma jovem mãe ter desaparecido e de talvez ter se tornado um demônio, e mais a morte do amigo de Meena. Mas significa que um clã completamente novo e diferente pode estar se mudando para o antigo território dos Dracul nos Estados Unidos. Nós imaginamos que era provável que isso acontecesse, porque a erradicação dos Dracul aqui e na Europa deixou amplos campos alimentares prontos para serem tomados... particularmente porque Lucien Antonesco parece mesmo ter sumido. Era só uma questão de tempo e de qual clã. Eu acho que os Aswang, das Filipinas, seriam os mais prováveis de vir para cá...
Alaric balançou a cabeça.
— Improvável. Você sabe que eles não gostam do frio.
— Mas ainda é verão — argumentou Abraham. — E não podemos descartar a atração de Pine Barrens... Pine Barrens, no sul de Nova Jersey — explicou ele, olhando para Meena pelo retrovisor —, há tempos é considerado uma porta do inferno, pelo fato de ter sido para lá que o Demônio de Nova Jersey fugiu logo depois que nasceu.
— Espera. — Meena, que tinha nascido em Nova Jersey, não conseguiu acreditar no que estava ouvindo. — O Demônio de Nova Jersey não é apenas a mascote de um time de hóquei? É real?
— Infelizmente — murmurou Alaric.
— Bastante real — disse Abraham. — Seres malevolentes gastam uma quantidade enorme de energia cada vez que executam um de seus feitos abomináveis e depois precisam absorver mais energia de certos lugares suspeitos de serem ligados diretamente a Satanás. O Demônio de Nova Jersey é uma dessas criaturas, criptídeo, bípede e com asas que, de acordo com as lendas mais populares, embora nunca tenhamos conseguido provar, foi o décimo terceiro filho de uma tal Sra. Leeds, que estava compreensivelmente aborrecida com o Sr. Leeds por tê-la engravidado outras 12 vezes. Em seu nascimento, em 1735, dizem que ela gritou para a parteira que aquele bebê podia “ir para o demônio”. Ele não foi. Acabou se tornando um e voou pela chaminé até Pine Barrens, onde mora desde então, transformando esse bosque e Nova Jersey em um local bastante atraente para a reunião das forças do mal...
— Acho que devíamos mudar de assunto — interrompeu Alaric. ver o rosto de Meena.
— disse Abraham. — Sim, peço desculpas...
Mas era tarde demais. A mente de Meena estava girando. Seres malevolentes absorviam energia de lugares que se supunha serem ligados diretamente ao demônio? Em tudo que leu sobre demônios, Meena nunca encontrou nada sobre isso.
Porém achava que fazia sentido. Por que outro motivo a Palatina havia pedido ao padre Bernard — ou aos rabinos e outros líderes religiosos com os quais trabalhava — para dar bênçãos nas casas nas quais encontravam entidades paranormais?
Mas se lugares de puro mal — portas do inferno, como o lar do Demônio de Nova Jersey — existiam, isso não significaria, pela lógica, que o oposto também existia? Lugares de puro bem?
Ela abriu a boca para perguntar, mas percebeu que Abraham não tinha parado de falar.
— Quando Brianna Delmonico for detida e colocada em quarentena, vamos obter qualquer informação que ela possa ter sobre quem infectou David e, é claro, coletar o DNA que conseguirmos, pois encontrar o parasita do hospedeiro é sempre essencial para impedir qualquer disseminação de uma
epidemia vampiresca...
Detida? Colocada em quarentena? É isso que vai acontecer à mulher de David?
Meena nunca gostara de Brianna — afinal, tinha sido por ela que David a havia abandonado. Como Meena podia gostar dela?
Mas não desejaria coisas tão horríveis a ninguém, muito menos à dona do rosto em formato de coração que vira sorrindo no centro daqueles cabelos louros cacheados, na foto tirada em estádio.
Quando o carro parou e uma voz feminina sensual anunciou no painel “Você acabou de chegar ao seu destino”, Meena olhou para a frente e viu a casa na qual David Delmonico tinha vivido.
Por um momento, não conseguiu respirar.
Com o gramado verde, a garagem para três carros e degraus imponentes levando às portas duplas de entrada, a casa de David e Brianna parecia uma mansão. Ou um country clube. Só faltava um manobrista.
Mas embora o apartamento de dois quartos no qual morava com o irmão — o segundo quarto era quase um cubículo — fosse um pouco apertado e a única coisa que tivessem que se assemelhava ligeiramente a um gramado fosse o telhado do prédio, estava feliz por morar lá, e não ali.
— Que adorável — disse Abraham do banco da frente, — Gosto de sair da cidade de vez em quando. Até esquecemos como é a grama, não é?
Meena engoliu em seco. Como podiam não ver? Ela era mesmo a única?
Porque não tinha vida dentro da casa. Havia bastante tempo.
Também não tinha nada do bem.
Só o mal.

11
-nos nao vamos entrar ai- disse Meena com firmeza.
— Não — concordou Alaric. — Nós não vamos. Você e eu vamos voltar pra cidade. Só viemos deixar Abraham.
— O quê? — Meena segurou o apoio de cabeça de Abraham enquanto ele soltava o cinto de segurança. — Você não vai entrar lá. Vai?
— É claro que vou — respondeu Abraham, rindo um pouco.— O temperamento de Alaric, como sabemos, não é apropriado para missões que requerem que a pessoa seja capturada viva. Por quê? — Abraham sorriu para Meena. — Tem algum problema?
— Tem — disse Meena. Só que não conseguia dizer o que estava fazendo seu coração disparar mais: a ideia de deixar um homem idoso para caçar um vampiro em uma casa de aparência tão sinistra ou ter que passar algum tempo sozinha em um carro com Alaric Wulf. — Mais ou menos. Só acho que faria mais sentido, considerando que Alaric tem muito mais experiência em campo, se ele...
— Srta. Harper — interrompeu Abraham com gentileza. — Faço isso há muito mais anos do que Alaric. Apesar da aparência, sei lidar com uma infestação demoníaca. Mas fico sensibilizado com sua preocupação. Agora diga a verdade. Esse foi um jeito que você encontrou de me dizer que teve uma de suas visões?
Meena ficou ruborizada e disse:
— Mais ou menos isso. É só que... bem, sei que Brianna parecia muito delicada nas fotos. Mas você acabou de dizer que Nova Jersey é uma porta do inferno. Na noite de ontem, David parecia alguém que eu não conhecia...
— É claro que parecia — disse Abraham, consolando-a. — Ele tinha
perdido a humanidade. Era uma criatura das trevas, sem alma, incapaz de compaixão ou pena. Você fez bem em acabar com o sofrimento dele. Quando descobrirmos de que clã ele era, depois que interrogarmos a esposa, vamos entender melhor o comportamento dele, eu espero.
Meena mordeu a unha com preocupação. Sabia que a Palatina considerava todos os vampiros exatamente isso: criaturas sem alma.
E David estava assim. Sem dúvida alguma.
Mas, obviamente, ela nunca tinha tido essa sensação com Lucien, que também diziam não ter alma. Os antigos vizinhos dela, primos dele, os Antonesco, também não eram assim. Eles salvaram o cachorro dela de ser assassinado pelo mesmo grupo enlouquecido dos Dracul que havia destruído o apartamento dela.
Alaric sabia disso também.
Mas ele não falou nada em defesa deles. Naquele momento, soltou o cinto de segurança e saiu do carro. Agora que ia ter a chance de ficar atrás do volante, ele parecia relaxado e feliz, apesar do fato de o carro ser híbrido e não o tipo de carro esporte bebedor de gasolina que ele preferia.
— Agradeço seu nervosismo por minha causa, Meena — prosseguiu Abraham. Ele esticou o braço até a parte de trás do carro, pegou a pasta do chão e a abriu, revelando um compartimento secreto do qual pegou uma pistola, várias estacas com aparência extremamente letal, um frasco de água benta e um crucifixo grande, e saiu enfiando todos esses obietos em vários bolsos do terno.
— Mas apesar de eu poder parecer aos seus olhos um velho que passou tempo demais atrás de uma escrivaninha, garanto que sei me cuidar quando me deparo com o mal. Você talvez lembre que acabei com vários membros do clã do seu ex-namorado naquela noite na St. George. Essa missão não é desafio algum em comparação áquilo.
— Não sei — murmurou Meena. Ela olhou para a casa com ansiedade. — Tenho uma sensação ruim quanto a isso.
— Eu também. — Alaric se inclinou pela janela para falar. — Abraham está prestes a lutar com uma dona de casa de Nova Jersey e não há nenhuma equipe de TV ao vivo aqui para filmar.
— Não é engraçado — disse Meena. — Acho que devíamos ficar para ajudar. E se os Delmonico aparecerem? Eu podia...
Abraham abriu a porta do carro.
— Alaric vai comparecer à inauguração da exposição dos Tesouros do Vaticano, no Metropolitan, um evento que sei que ele está ansioso para não perder. — Alaric revirou os olhos quando Abraham saiu do carro. — E, depois dos eventos recentes, faria sentido que você fosse com ele, Meena, pois devo dizer que fico desconfortável com a ideia de você ficar sozinha depois do que aconteceu ontem...
Meena disse rapidamente:
— Acho que já provei que sou mais do que capaz de cuidar de mim mesma, Dr. Holtzman.
— É verdade — disse Abraham. -—Provou mesmo. Mas não vamos abusar da sorte. E houve um pedido... — Abraham parou de falar quando o celular tocou. Ele olhou para a tela e disse: — Ah. Parece que saíram um pouco tarde e ficaram presos no trânsito. Mas devem chegar aqui em alguns minutos.
— Acho que vou esperar aqui —- disse Meena, e começou a abrir a porta do carro. — Não acho uma boa ideia você...
Mas Alaric já estava atrás do volante e guiando o carro para longe do meio-fio.
— Quando estiver finalmente pronto para admitir que há uma conexão paranormal entre todos os turistas desaparecidos, me ligue — gritou ele para Abraham.
— Não vou ligar — disse Abraham, acenando. — Porque não há prova de que haja ligação.
— Certo — murmurou Alaric com sarcasmo, e enfiou o pé no acelerador. — Vamos ver.
— Espere — disse Meena. Mal tinha conseguido colocar o pé de volta dentro do carro e fechar a porta antes de Alaric sair com o carro. — Qual é o seu problema? Não podemos deixá-lo lá. Ele pode morrer. Que turistas desaparecidos? — Ela pulou do banco de trás para o da frente. — Alaric, o que está acontecendo? O que não está me contando?
— Muito menos do que você não está me contando — respondeu ele.
— Eu contei tudo. — Meena se virou no banco e viu Abraham cruzar o gramado impecável de David Delmonico e depois desaparecer atrás da casa. A sensação ruim que teve com relação a tudo aquilo, não só por ter sido atacada por David, mas também por ter atendido ao telefone e ouvido a voz da Sra. Delmonico e por ter saído do táxi e visto Alaric Wulf, estava piorando, não melhorando. — Quando uma coisa horrível acontecer a Abraham porque o abandonamos em uma porta do inferno, vou contar pra todo mundo que foi culpa sua.
— Minha culpa. — Ele riu, mas não havia humor algum na risada. — Gosto disso.
— Certamente não foi minha culpa — disse ela. — Tentei avisar...
— Ah, sim. Vamos falar sobre isso. Vamos falar sobre o quanto você tem sido aberta e comunicativa sobre isso tudo, que tal?
— Eu tenho sido — disse Meena, embora sentisse uma pontada de culpa. Mas só de leve. Não podia contar toda a verdade para Alaric, por motivos óbvios. Mas a parte de Lucien na história não importava. Fora sincera sobre todas as coisas importantes. — De que turistas vocês estavam falando?
— Ah, não — disse ele. — Se não vai me fazer a cortesia de contar o que realmente está acontecendo, depois de tudo que passamos juntos, por que eu deveria contar?
Meena ficou olhando pela janela com uma expressão espantada que não era totalmente fingida.
— Do que você está falando? Eu contei sim o que está acontecendo. Talvez Abraham estivesse certo e eu devesse ter ligado ontem à noite, mas...
— Você não estava sentada sozinha dentro daquele veículo quando a porta foi arrancada — disse Alaric. Ele colocou os braços dentro do carro e apertou o botão que fechava a janela. Isso mostrou a Meena o quanto estava falando sério. Ele odiava dirigir de janelas fechadas. — Você não podia estar, porque não há meio concebível de um vampiro ter saído do carro com a presa ainda dentro dele.
Meena ficou olhando para a frente, sem dizer nada, de teimosia.
Mas a sensação de medo que vinha crescendo dentro dela pareceu se
enroscar em seu coração como as raízes de uma planta venenosa que crescia muito rápido.
— Portanto, acho que havia uma terceira pessoa no local — prosseguiu Alaric. — Alguém cujo nome você deixou de fora de sua historinha, alguém que, como Abraham costuma dizer, retribuiu de forma terrível aos súditos que ousaram ferir você. Alguém que já atendeu por vários nomes durante seus quinhentos anos de atividade, mas que ultimamente tem sido chamado de Lucien Antones...
— Pare! —Meena se virou no banco para olhar para ele. —Pare com isso. Se você sabia o tempo todo que ele estava lá, por que não falou? E isso não é motivo para você ter deixado Abraham. Podemos voltar, por favor? Tenho mesmo uma sensação horrível sobre ele e aquele lugar...
— Pelo amor de Deus, Meena — exclamou Alaric. — Abraham sabe se cuidar. É com você que estou preocupado. E sabe tão bem quanto eu que não vou lhe deixar sair deste carro até me contar a verdade. Toda, dessa vez. Pode começar do começo. Tenho o dia inteiro.
Alguma coisa na voz dele, na seriedade do seu rosto, no fato de que sabia que ele estava falando sério... que realmente não a deixaria sair do carro até contar o que ele queria saber, fez com que ela desistisse. Não fazia sentido. Ele ia vencê-la pelo cansaço, sem dúvida alguma.
— Tudo bem — disse ela. — David estava tentando me matar. Lucien apareceu do nada... e tenho sorte por ter aparecido, porque ele salvou minha vida. Mas juro que ontem foi a primeira vez que o vi desde a primavera...
Alaric apertou tanto o volante que os nós dos dedos dele ficaram brancos.
— Que droga, Meena — falou, se recusando a olhar para ela.
— É verdade, Alaric — disse ela, desesperada para fazê-lo entender. — Eu juro. E Lucien não me mordeu e também não transformou David. E seja lá o que estiver acontecendo em Freewell, tenho certeza de que Lucien não sabe de nada...
— Como é possível? — perguntou Alaric. — Ele é o príncipe das trevas, Meena. Ele tem que saber. Ele sabe tudo que toda entidade demoníaca está fazendo. É o trabalho dele. É por isso que existe.
— Não é assim, Alaric. Sei que é assim que deveria ser, mas não é. não
sabia na última vez, quando o irmão dele...
— Foi isso que ele contou a você? — perguntou Alaric. — O que mais ele falou ontem? Que o amor que sente por você ainda arde como uma chama que nunca vai se apagar e que cada momento longe de você é como um ferimento aberto à faca? São frases que ele já falou para toneladas de mulheres como você. Só porque estão todas mortas e não sobrou ninguém para se lembrar delas e ele acha que seu amor o redimiu não significa que pode escapar impune por tê-las assassinado.
Meena olhou para ele com raiva.
— Na verdade, ele não disse nada disso. — Não com tantas palavras, pelo menos. — E você não precisa me dar “sermão”, Alaric. Não sou uma dessas adolescentes bobinhas nas quais você tem que executar intervenções para convencer de deixarem de ser fontes passivas de alimento para os amigos vampiros exploradores e que elas devem voltar para os pais. Eu trabalho para a organização que faz isso, lembra? Ajudei a escrever os últimos manuais.
— Então por que acredita tão rapidamente em tudo que ele diz? Está ciente de que não existe vampiro vegetariano, certo? Ele precisa beber sangue humano para permanecer vivo.
Lucien deixou de tomar sangue humano há muito tempo. Bem, dizer, ele bebe, mas não de humanos vivos. Só de bancos de sangue.
— Foi isso que ele falou? — perguntou Alaric de novo, desta vez com uma risada cínica na voz. — É uma história muito bonitinha. E onde você acha que ele está arranjando sangue agora, Meena? O departamento financeiro encontrou e congelou todas as contas dele. Lucien no tem um centavo no nome dele. O sangue humano no mercado negro não é barato. Use sua cabeça em vez do coração. Onde ele está conseguindo sangue?
Meena tinha passado a noite acordada, se preocupando exatamente com esse problema. Como Lucien estava comprando o sangue de que precisava para sobreviver, agora que estava sem um centavo porque a Palatina, com crueldade brutal, tinha tirado dele não só a mais recente identidade, mas sua substancial fortuna também? Como Lucien podia viver sem dinheiro e ainda permanecer fiel à promessa de nunca tirar uma vida humana?
Ela havia sentido o tecido do terno dele sob seus dedos na noite anterior.
Era macio como a barriga de Jack Bauer.
Lucien parecia estar vivendo bem.
Então ela se lembrou do calor vermelho que se acendeu em seus olhos depois que a beijou e de como ele pareceu estar fraco.
Talvez ele não estivesse vivendo tão bem assim, afinal.
Ela tentou afastar o pensamento da cabeça.
— Deve haver alguém o ajudando — sugeriu ela. Isso era mais uma esperança do que uma real convicção. — Ele deve ter amigos... — Pensou em seus ex-vizinhos, Mary Lou e Emil Antonesco. Eles tinham escapado na luta na catedral. A Palatina ainda não havia conseguido rastrear o paradeiro deles, nem suas contas bancárias. Eles não deixariam o príncipe sem nada...
—Duvidoso — disse Alaric. — Demônios não têm amigos. E você já teve oportunidade de conhecer o pessoal do financeiro? Eles não deixam pedra sobre pedra quando o assunto é descobrir fundos que podem estar servindo para os mortos-vivos. É mais provável que esteja roubando. Seria típico.
Ela respirou fundo.
— Por que o odeia tanto? Você sempre o chama de monstro desalmado Mas naquela noite em St. George, ele não matou você quando teve oportunidade. Na verdade, ele protegeu você. E o padre Bernard, e a irmã Gertrude, e eu, e até aqueles bombeiros que foram nos resgatar. Em vez disso, matou os seres da espécie dele. Aquilo foi o ato de um monstro desalmado? Quando você vai admitir que nem todo demônio é cem por cento mau, assim como nem todo humano é cem por cento bom? Quando, Alaric? Quando?
Ele tirou o olhar da rua e olhou para ela. O azul intenso dos olhos dele nunca deixava de impressioná-la. Algumas vezes, quando estavam em reuniões chatas de trabalho, seus olhares se encontravam. À5 vezes ele erguia uma daquelas sobrancelhas louras, principalmente se fosse Abraham falando, fazendo um dos ocasionais discursos pedantes, e Meena tinha que sufocar uma risada, porque ele parecia exatamente um estudante levado.
Naquelas ocasiões, era sempre difícil acreditar que ele havia mesmo cortado impiedosamente as cabeças de tantos parentes de Lucien.
Mas ela o tinha visto fazendo isso e sabia que essa expressão de garoto
podia ficar séria em uma fração de segundo.
Foi isso que aconteceu quando ela olhou para saíam de Freewell.
— Acho que sei como seu namorado vem se mantendo vivo desde a última vez em que o vimos.
— Ah, é? — perguntou ela. Estava quente dentro do carro, porque o ar-condicionado não estava ligado. Só havia uma lufada quente de ar entrando pela janela, que ele tinha aberto de novo, e fazia com que o cabelo dela e o lenço rosa voassem. — Esclareça pra mim.
— Pode deixar — disse ele. — Mas vou avisar agora que, quando eu terminar, você vai desejar que eu não tivesse contado. E vai ser porque, lá no fundo, você sabe que é verdade.
— Duvido muito. Mas vá em frente e me conte mesmo assim.
Só que no final ele estava certo. Quando terminou de falar, ela mente desejou que ele não tivesse contado nada.

12
nos quatro seculos depois que os europeus colocaram os pés na ilha que agora é conhecida como Manhattan, Lucien Antonesco os vira tentar controlar o riacho que descia pelo meio da Quinta Avenida.
O riacho — conhecido pelos habitantes originais, os índios Lenape, como Mannette, com erro de ortografia e de pronúncia pelos colonizadores holandeses, que o chamavam de Minetta — era considerado uma abominação para os planejadores da cidade... mas não porque, ao contrário dos holandeses, entendessem o que a palavra Mannette realmente significava:
Água do Demônio.
Embora o riacho fosse cheio de trutas, os Lenape se mantinham longe dele. Não demorou muito para os primeiros colonizadores descobrirem o motivo... e como o riacho ganhou seu nome curioso. Logo também o estavam evitando. Porque ainda que houvesse abundância de peixes, o custo de pegá-los era alto demais... como atestavam os muitos corpos das crianças que caíram na água aparentemente rasa e se afogaram.
Ao longo de vários séculos, Lucien observou os engenheiros da cidade tentarem canalizar o riacho Minetta, depois pavimentarem sobre ele e, por fim, construírem prédios no local.
O riacho, que nasce de uma fonte subterrânea localizada na East Twentieth Street, passava originalmente pelo centro do Washington Square Park, fluía pelo West Village e depois seguia a Spring Street e desaguava no rio Hudson, que separa Manhattan de Nova Jersey... uma distância de aproximadamente 27 quadras, ou 4 quilômetros.
Nenhum dos esforços para manter o riacho Minetta no subsolo funcionou. Só foi preciso uma tempestade intensa para que ele subisse de
novo. E então...
Caos. Porões alagaram. Trilhos de metrô submergiram. O riacho jorrou pelo meio das ruas da cidade como uma coisa libertada depois de anos de cativeiro.
Quando nem pedra nem asfalto conseguiram controlar o riacho, um jovem engenheiro insistiu que tinha encontrado um jeito de converter o fluxo de água em canos que o forçariam a jorrar por um chafariz que enfeitava o jardim de uma escola católica onde sua noiva havia estudado e com a qual os pais dela contribuíam financeiramente.
No entanto, no dia da cerimônia de inauguração do chafariz, houve uma tempestade inesperada.
E quando a noiva do engenheiro se inclinou para ligar o chafariz, em vez de o riacho sair suavemente dos pés da estátua de Nossa Senhora de Lourdes — simbolizando o milagre que Santa Bernadete vivenciou —, ele saiu explodindo e fez com que um pedaço da escultura de bronze se alojasse no crânio da moça, matando-a instantaneamente.
O engenheiro, horrorizado, fugiu da cidade, e os canos que iam até o riacho foram preenchidos com cimento para impedir que fossem ligados algum dia. A estátua da santa, então sem pés, continuou no jardim da escola, com o chafariz seco, como a prova da loucura de um homem de pensar que podia triunfar sobre a natureza.
No século seguinte, o chafariz — e a razão para a falta de pés da imagem — foi completamente esquecido...
Exceto por donos de imóveis da área, que se perguntavam por que, toda vez que chovia, seus porões alagavam. E por dedetizadores, que perceberam, mas acabaram não divulgando, um visível aumento na demanda por ratoeiras pelos restaurantes que ficavam na rota do riacho subterrâneo.
E por Lucien Antonesco.
Pois embora o riacho conhecido no passado como Água do Demônio só alcançasse sua glória plena quando chovia, ele ainda existia debaixo do chão, com seu fluxo constante e baixa maré formando cavernas subterrâneas grandes o bastante para um homem adulto andar por elas livremente.
Essas cavernas debaixo das ruas do Creenwich Village proporcionavam
uma moradia excelente para muitas criaturas... principalmente aquelas que preferiam a escuridão à luz.
Mas isso não era tudo que elas ofereciam.
O que quase ninguém, nem mesmo os dedetizadores, percebia era que não eram apenas ratos que se abrigavam naqueles túneis escuros. Todos os tipos de seres habitavam o local... incluindo alguns que não eram tecnicamente vivos.
Como muito poucos se lembravam da existência do riacho Minetta e das histórias sobre ele, nenhum humano se aventurava nas cavernas que as águas tinham entalhado. Essas grutas não eram ligadas ao labirinto vasto, subterrâneo e bem-documentado de túneis abandonados do metrô, de vapor, de água, de gás e de eletricidade que existiam debaixo de Manhattan. O único indício que davam de sua existência era durante épocas de tempo particularmente obscuro e violento...
Durante suas muitas visitas à cidade, desde os dias da tumultuada colônia holandesa na virada do século XX, logo antes do desastre envolvendo o chafariz de Santa Bernadete, Lucien Antonesco sempre sentiu uma estranha atração magnética pelo riacho Minetta...
... e não só porque, sendo uma criatura das trevas, tirava força de sua fonte demoníaca, mas porque admirava o jeito como o curso d’água tinha teimosamente se recusado a sucumbir aos planos que os homens fizeram para ele.
Nunca havia pensado que um dia ele mesmo, como aquele jovem engenheiro, talvez tivesse que pagar pela própria arrogância. Pois também não achara que podia controlar a natureza? Só que, no caso de Lucien, a natureza tinha sido uma mulher, não um riacho.
Mas a mulher que ele escolhera era uma força tão inconstante quanto qualquer riacho que surgia do subterrâneo.
E embora ela não tivesse irrompido do solo e matado ninguém (na verdade, o contrário, pois seu dom era prever quando a morte era iminente e tentar impedi-Ia), Meena havia se afastado dele no final.
E o efeito disso em Lucien foi devastador.
Por isso, estava vivendo nas cavernas entalhadas pelo riacho Minetta, na
esperança de que o riacho fosse fornecer a ele o que mais precisava... se não podia tê-la. Se estava mesmo destinado a ser o príncipe de todo o mal, ajudaria muito realmente ser mau.
Ele sempre parecia ter problemas nessa área.
Mas um riacho antigo chamado de Água do Demônio, que havia tirado vidas de crianças e da bela noiva de um homem, certamente e resolveria isso.
E como o riacho passava debaixo das ruas onde Meena morava e trabalhava, onde ele podia observá-la e protegê-la sem que ela o visse, era a solução perfeita para seu problema.
Apesar de ela ter deixado claro no encontro na primavera passada — naquela noite horrível no apartamento dela — que a proteção dele era a última coisa que queria, sempre tinha ficado claro que era uma coisa da qual ela precisava muito.
E assim, ele a observara. E esperara.
E, na noite anterior, quando ela finalmente precisou dele, ele apareceu para ajudá-la, exatamente como tinha prometido...
Mas as coisas não foram tão bem quanto ele esperava. Estava furioso consigo mesmo por ter mostrado tanta fraqueza diante dela, O riacho E não parecia estar funcionando.
Por outro lado, ela não o rejeitou como tinha certeza que faria.
No entanto, ela fez alguma coisa a ele. Não tinha muita certeza do que havia sido — falar sobre o sonho com a mãe dele certamente não ajudara —, mas era alguma coisa que só tinha piorado a situação.
E agora, quando devia estar cheio de esperança, pois a teve nos braços finalmente, sentiu seu coração batendo contra a parte do corpo onde seu próprio coração estivera meio milênio antes e viu a felicidade novamente, ele só sentia um medo apavorante.
Por que ela falou daquele sonho? E a coisa sobre os anjos? Por quê? Principalmente porque ele estava tão perto... sabia que estava. Tinha certeza. O riacho ia funcionar. Precisava funcionar.
Não o teriam batizado de Água do Demônio por nada.
Quando funcionasse, ele voltaria para ela. Estaria forte de novo. Explicaria a realidade da situação. Era o príncipe das trevas. As coisas eram
simplesmente assim, sempre tinham sido assim e sempre seriam.
E ela ia ter que lidar com isso. Não teria qualquer escolha.
Porque ele não lhe daria nenhuma.

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